Gerúndio!

O poeta Ferreira Gullar observou certa vez: “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. E o gerúndio muito menos. Herdado do latim, essa forma clássica da língua portuguesa é usada por todos os falantes do idioma de Camões. A começar pelo próprio. O sufixo “ando” está no início do poema mais famoso do nosso idioma, Os Lusíadas: “Cantando espalharei por toda parte”.

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Fonte: Rev. Veja, André Petry, ed. 2032.

Veja mais em:   https://brasiliano.wordpress.com/2008/06/30/gerundismo-nonada/

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O bom gerúndio

É preciso cuidado para que o combate ao gerundismo não torne marginais os usos legítimos de locuções com gerúndio
Luiz Costa Pereira Junior

O uso indiscriminado do gerúndio – a endorreia, o emprego viciado de formas como “vou estar passando o recado” – pode estar longe de ser erradicado, mas já tem uma vítima involuntária: o próprio gerúndio.

Uma década depois de o fenômeno se propagar feito gripe pelo país, especialistas começam a perceber que o combate ao uso repetitivo do gerúndio nas perífrases (dois ou três verbos numa locução verbal) criou em muita gente uma aversão a qualquer tipo de gerúndio, mesmo quando este é a forma mais adequada para apresentar uma ideia.

Para a professora de português da USP Elis Cardoso de Almeida, vive-se hoje o efeito colateral das campanhas de combate ao vício, com risco de confusão entre as construções sintáticas condenadas e as de uso corrente.

– Pode acontecer com o gerundismo o que ocorreu com construções como “a nível de”, que sofreu retração de uso ao ser discutida intensamente em público. Mas não se pode esquecer que há um uso adequado quando está em jogo a ideia de futuro durativo ou contínuo, como em “Não vou poder entregar o texto pois na ocasião vou estar viajando”.

Há quem evite o trenzinho verbal (“vou estar + gerúndio”) para não dar ao ouvinte a impressão de que houve má aplicação. O comum, no entanto, é reprimir as perífrases por hipercorreção – corrigir o que se considera erro até quando não há, numa falsa analogia que se imagina correta e requintada, por equivaler a outra.

Fora da escrita
O exagero do combate, no entanto, pode levar a distorções comunicativas. O gerundismo é considerado, por exemplo, pouco econômico. Afinal, é mais longa a construção “vou estar conversando” do que o futuro simples “conversarei” ou o composto “vou conversar”. Tornada atitude crônica, a concisão pode ser não raro imprecisa, lembra o linguista da Unicamp, John Robert Schmitz. Segundo ele, nem sempre as formas mais econômicas do que o trenzinho verbal evitam problemas. Imaginemos um recente folheto de orientação de trânsito do governo municipal de São Paulo:

“Cuidado: mesmo que os automóveis estejam parados, os ônibus, motos e táxis podem estar andando na faixa exclusiva”. O “podem estar andando” daria lugar a outro sentido se fosse substituído por “podem andar”. No primeiro caso, há alerta. No outro, uma liberação. O problema, dizem os especialistas, é quando se condena o uso do gerúndio em qualquer perífrase, com comandos como: “O gerúndio nunca vem depois de um verbo no infinitivo”.

– Não dá para condenar o uso da locução sem examinar seu contexto. Faz sentido dizer “vou estar providenciando” se de fato vou ficar muito tempo fazendo isso – declarou à Língua a professora Maria Helena de Moura Neves, da Unesp.

É preciso pôr os pontos nos ii, portanto. O gerúndio (amando), o infinitivo (amar) e o particípio (amado) são formas nominais do verbo porque, embora com valor verbal, desempenham a função de substantivos e adjetivos. O particípio “amado” apresenta ação concluída. O infinitivo “amar” é pontual: traz o processo verbal em potência; exprime a ideia da ação ou do evento.

O infinitivo pode ter função de substantivo (amar é sofrer = o amor é sofrimento). O particípio pode funcionar como adjetivo (mulher amada). Já o gerúndio pode ter função adverbial ou adjetiva (chovendo, não jogarei = se chover, não jogarei; água fervendo = água fervente). Ele flagra o processo verbal em andamento.

É diferente dizer “caiu do cavalo e esfaqueou o oponente” e “caindo do cavalo e espetando o oponente”. A segunda oração dá ideia de movimento que a outra não tem. “Caindo” e “espetando” descrevem ação contínua, mas que não acabou ou evolui sem hora para ser concluída.

Endorreia
A estrutura com três verbos (“ir” + “estar” + gerúndio), por sua vez, traz os auxiliares “ir” no presente do indicativo (vou, vai, vamos), que remete a ação para o futuro, e “estar”, que emite a sensação de continuidade da ação.

Um primeiro problema é quando se usa esse trem verbal para indicar uma duração que a ação não pede.

“Não ligue amanhã pois vou estar viajando” significa que a viagem não se resume a um dado número de horas, mas a pessoa terá todo o dia afetado por ela. Quando a informação não supõe essa duração, há curto–circuito comunicativo.

Assim, ao ouvir “vou fazer”, o interlocutor entende que assumimos um compromisso com ele, mas “vou estar fazendo” pode lançá-lo à expectativa – se esta não é a intenção de quem fala, o gerundismo se instala. Se usado para comunicar uma ação que durará no tempo ou se repetirá no espaço, o trem do gerúndio se ajusta à função desejada (ver quadro da página anterior). Caso contrário, é como usar uma chave de fenda para bater pregos.

Pouco interessa a origem do vício. O gerundismo bem pode ter nascido de contextos de formalidade, em que um intermediário é encarregado de mediar o contato de seus superiores com estranhos. Onde há expectativa de uma pessoa em torno da ação de outra, o gerundismo pode proliferar.

Brasilidade
Há quem desconfie que o gerúndio seja uma preferência nacional. Idiomas como alemão, holandês e francês não desenvolveram formas verbais com ele. Outros não os têm com a abundância do sistema verbal brasileiro. Embora povos de língua inglesa e espanhola tenham gerúndio, nós o usamos com uma frequência e variedade que impressiona. A ponto de não ser incomum a tentação determinista de ver no gerúndio um traço cultural do país inteiro. A escritora Nélida Piñon, por exemplo, declarou à Língua que considera o gerúndio “um tempo verbal deslumbrante”.

– O europeu é atado ao espartilho do infinitivo (“estar a fazer”). Nós, não. Nós temos a noção de que estamos agora aqui, mas daqui a pouco estaremos ali; há uma velocidade interna no nosso sentimento da língua, um nervosismo de estar em outro lugar que não aquele em que estivéramos até então. Temos necessidade de abranger um país amplo, de abarcar tantas experiências humanas, e o gerúndio corresponde a essa velocidade interior – defendeu Nélida.

Sob tal ponto de vista, o gerundismo marcaria uma oposição bem brasileira entre promessa e esperança, forma categórica e relativização. Tal ideia pode ser só um mito, mas a proliferação do trem verbal é considerada pelos pesquisadores de linguagem um exemplo, não o único, da produtividade do brasileiro em encontrar aplicações ao gerúndio.

Usos e abusos
Para o linguista José da Silva Simões, professor de alemão da USP, é alta a versatilidade brasileira no uso do gerúndio. Simões, que em 2007 defendeu tese de doutorado sobre o assunto, acredita que há contextos sintáticos em que o gerúndio pode ser usado para encobrir o sujeito que enuncia ou para evidenciá-lo.

Em sua forma não composta, em construções adverbiais, pode encobrir a autoria de uma ação. O sujeito apaga a sua pessoa e não se compromete, por exemplo, ao começar uma frase com condicionais, como “Pensando sob esse ponto de vista…”. Aqui, o enunciador não quer deixar evidente sua condição de autoria, manifesta no equivalente “Penso que”.

É o que pensa, também, o professor de letras da Uerj José Carlos Azeredo, para quem, na perspectiva enunciativa, o gerúndio pode servir a uma estratégia de dissimulação de autoria.

– O Brasil criou expressões em que o gerúndio se gramaticalizou como preposição ou advérbio. Em “Considerando que você é meu amigo, faça isso para mim”, não é o falante quem considera. Há uma atribuição de autoria a um ser indeterminado. Uma vez que não traz marca do sujeito, e não tem flexão, recorre-se ao gerúndio para esconder a autoria da declaração.

Defesa
Como o trem verbal com gerúndio, esse tipo de construção é uma “defesa da face” do enunciador.
– O enunciador constrói o enunciado de tal maneira que o preserva de ser responsabilizado pelo insucesso de algo – diz Azeredo.

Para Simões, o gerúndio é historicamente uma opção ao uso da conjunção causal (porque, pois, uma vez que), concessiva (embora, conquanto, ainda que, mesmo que, posto que, apesar de que) ou condicional (caso, quando, salvo se, sem que, dado que, desde que, a menos que), mais impositivas.

– Dizer “Não prestando atenção, o problema ocorreu” é uma maneira de atenuar o sentido dado pela conjunção causal em “Porque você não prestou atenção, o problema ocorreu” – esclarece Simões.

Trata-se de estratégia pragmática, que se fia na suposição retórica de que a recepção de uma formulação como “Se eu não achar a caixa preta do avião…” é diferente da de “Não se achando a caixa preta do avião…”.

– Em construções adverbiais, como “Pensando nos órfãos”, “Partindo do pressuposto da linguística” ou “Voltando ao assunto…”, a pessoa delimita o campo de discussão ou redireciona o assunto que vem em seguida e evita formulações que o comprometam.

Segundo Simões, o gerúndio adverbial, por natureza uma construção formal, também serve para simular consistência. “Geograficamente falando” (em lugar de “Se você observar o aspecto geográfico da questão”) estabelece um domínio de conhecimento, o suporte técnico em que se escuda a declaração.

Identificação
O gerúndio brasileiro é rico o suficiente para ter casos em que intensifica a identidade, em vez de atenuá-la. Sem o sujeito, a oração adverbial pode delimitar domínio de conhecimento, direcionar o foco da conversa. Com sujeito, ela presentifica a ação e serve como digressão, num processo que, para Simões, lembra a nominalização.

É o traço comum de sentenças como “O que é isso, todos falando junto?”, “Essa gente toda dependendo do pai” ou “As crianças, tudo precisando da família”. O verbo aqui promove a presentificação de um evento, independentemente de ele ser passível de ser conjugado no presente, no passado ou no futuro. Traz consigo a ideia de continuidade, de atividade que se repete, mas essa repetição está cristalizada naquele momento. Assim é com “Todo mundo querendo dormir e você fazendo barulho”, em que “querer dormir” é algo habitual, e o barulho interrompe o hábito. Ou: “Nós sempre aguentando os problemas com cara alegre” (sempre aguentamos).

O gerúndio veio do contexto formal. Era usado em textos litúrgicos e jurídicos. Do latim para línguas românicas, chegou à fala. No português de Camões eram comuns estruturas como “Estou cantando”. Mas o português europeu se modernizou. O Brasil manteve a estrutura e a desenvolveu como Portugal não o fez.

– Nosso gerúndio saiu da formalidade e se reorganizou. Por isso temos tantos – diz Simões.

Verbo “estar”

A intensidade de uso das construções com gerúndio e particípio parece, de quebra, ter mudado a caracterização de verbos auxiliares que ladeiam o gerúndio no trem verbal.

Para Ataliba de Castilho, da USP, o auxiliar “estar”, ligado a gerúndio ou particípio, mudou seu caráter morfológico e semântico.
– Ele tem virado morfema prefixal que assinala ação acabada em “tá falado” – diz o professor.

Ali, com o particípio passado, diz Ataliba, “estar” assinala ação contínua que se aproxima do aspecto perfectivo (no sentido de “foi combinado”, “concluído”), similar à do presente do indicativo.

– Talvez esteja sendo criada uma forma composta do presente do indicativo, sem diferença, por exemplo, entre “eu falo” e “estou falando”. O presente é o único tempo que não tem forma composta, e o verbo “estar” parece garantir cada vez mais a existência de uma espécie de presente do indicativo composto.

Evolução
Nesse sentido, as construções com gerúndio precedido de “ir” + “estar” são reflexos de um desenvolvimento natural no idioma.

– A repetição é que incomoda. Uma frase seguida da outra, sempre iniciada com gerúndio, torna qualquer texto pesado – diz Simões.

Para Elis Cardoso de Almeida, o problema mais grave com o gerundismo nem é a construção em si, mas sua frenética repetição.

– É o problema do uso indiscriminado, sem caráter de duração.
O lexicógrafo Francisco Borba diz que, com o movimento contrário à aceitação da endorreia, ela talvez não penetre na língua escrita.

– No jornalismo, esse tipo de construção chama atenção mais como gozação do que por deslize.
Mesmo em vestibulares e concursos, no entanto, há construções reduzidas de gerúndio. Como quem escreve redações intui que deve adotar um registro culto, tende a adotar estratégia sintática que supõe culta. Não é incomum ver, por exemplo, um “Observando as ações do governo” sem a conjunção (Se nós observarmos).

É cedo para garantir que não haverá neutralização da distinção semântica que define o gerundismo como inadequado. Mas há domínios em que até ele é legítimo. O desafio, então, é familiarizar as pessoas com o registro adequado ao grau de formalidade exigido em cada situação. Pois, no fundo, o gerúndio talvez seja mesmo um retrato, não do brasileiro, mas de sua versatilidade comunicativa.

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O gerundismo do bem
A adoção do gerúndio em perífrases (como “vou estar lendo”) é válida quando:

– Se quer mostrar um futuro em relação a outro futuro: “Amanhã não posso viajar porque vou estar carimbando documentos” significa que vou passar o dia a carimbar.

Em “Hoje à noite, vou estar vendo a novela enquanto você vê o futebol”, a frase mostra situações diferentes feitas simultaneamente e admitem locução com gerúndio. Em “quando você chegar, eu vou estar dormindo”, a ação de “dormir” é contínua e simultânea. O uso está inserido no sistema da língua. É legítimo.

– O verbo implicar duração ou admitir repetição: “Vou estar fechando o balanço da empresa” está no vernáculo, mas “vou estar enviando seu documento” é estranho. É um documento só e a ação é relativamente rápida ou instantânea. Mas em “amanhã, vou estar apertando parafusos o dia todo”, a sentença descreve ação contínua.

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Usos do gerúndio
Em sua forma simples, o gerúndio expressa uma ação em curso, que pode ser simultânea à do verbo da oração principal ou anterior/posterior a ela.

“Estou desistindo” diz que está em curso um processo de desistência. Anuncia um evento que durará algum tempo para ser concretizado.

Em formas compostas, com dois verbos, o gerúndio pontua uma ação duradoura quando acompanhado do infinitivo de verbos auxiliares (estar, andar, ir e vir) e indica ação concluída antes da expressa pelo verbo da oração principal.

“Tendo concluído a prova, ele a entregou ao professor”. A ação concluída antecipa a entrega da prova.

“Ele está falando alto demais”. A forma dada ao verbo “falar” indica a ação como presente e com tendência continuativa.

“Ele anda acordando sem ânimo”. A ênfase da ação duradoura é na intensidade ou na insistência de um acontecimento.

“A cada dia, mais fiéis vão rezando pela saúde do papa”. O verbo “ir” assinala uma ação progressiva em direção a um aqui e agora.

Revista Língua

Leia também:
Gerundismo? Nonada!

Gerundismo e o Preconceito Lingüístico

Luciana Soares Fernandes

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A mídia geralmente publica artigos carregados de normatividade, o que pode não só confundir a maneira como as pessoas falam como também o julgamento do outro que fala diferente. Com isso contribui para a discriminação da parte significativa dos falantes e, conseqüentemente, contribui para sua exclusão da participação nos círculos relevantes do ponto de vista social, político e cultural. E mais, muitas matérias publicadas na mídia se aproximam ou atingem, em certos casos, o preconceito.

Por que isso acontece? Um primeiro fator: sem fazer um estudo mais aprofundado da Lingüística, não percebem a variação e a mudança que ocorrem na língua. O gerundismo representa um exemplo do que foi antes afirmado.

REFLEXÕES TEÓRICAS

Para desmistificar a tradição normativa geralmente divulgada na mídia, é necessário compreender, do ponto de vista das pesquisas lingüísticas, alguns conceitos sobre linguagem, língua, os tipos de gramáticas, além do conceito de erro e preconceito lingüístico.

Primeiramente é necessário reconhecer a diferença da concepção de linguagem e de língua. Linguagem é o uso que cada falante faz de uma língua e é utilizado para a interação entre os indivíduos , enquanto constitui a subjetividade. A língua é viva, dinâmica e heterogênea. E sofre mudanças ao longo do tempo.

Toda língua pressupõe uma gramática. Mas, por sua vez, o termo gramática apresenta dois sentidos que aqui devem ser explicitados:

(1) a gramática normativa tem como definição, segundo POSSENTI (2002, p. 64), “conjunto de regras que devem ser seguidas, para tanto apresentam um conjunto de regras, relativamente explícitas e relativamente coerentes, que, se dominadas, poderão produzir como efeito o emprego da variedade padrão”.

(2) a gramática descritiva, ainda para POSSENTI (2002, p. 65), “é um conjunto de regras que são seguidas, é a que orienta o trabalho dos lingüistas, cuja preocupação é descrever e/ou explicar as línguas tais como elas são faladas”.

E de gramática advém o conceito de erro, que é diferente para as duas gramáticas. Sempre segundo POSSENTI (2002, p. 78), para a gramática normativa “erro é tudo aquilo que foge à variedade que foi eleita como exemplo de boa linguagem”. Essa boa linguagem é quase sempre idealizada e sempre buscada num passado mais ou menos distante, sendo, portanto, em boa parte arcaizante. Por outro lado, de acordo com POSSENTI (2002, p. 79), “na perspectiva da gramática descritiva, só seria erro a ocorrência de formas ou construções que não fazem parte, de maneira sistemática, de nenhuma das variantes de uma língua”.

Com essa concepção surge o preconceito lingüístico, que, para SCHERRE (2005) está diretamente relacionado com a classe social do falante: quanto maior o poder e as condições sociais do falante, mais prestigio tem a variante que falam.

APRESENTAÇÃO DO CORPUS

O artigo foi elaborado através da análise e discussão do corpus construído a partir da coluna “Xongas”, publicada na revista Época e no jornal O Estado de S. Paulo, da autoria de Ricardo Freire. São as seguintes matérias: “Gerundismo”, publicado em 16 de fevereiro de 2001, essa crônica foi amplamente divulgado na mídia principalmente na Internet tornando-se um marco contra o gerundismo, pois ela é escrita usando o gerundismo e tem uma carga muito grande de preconceito lingüístico. “Em 2004, gerundismo zero!” Publicada em 29 de dezembro de 2003, “Verbas que curam” de 18 de outubro de 2004, e “Curriculum vitae” de 06 de junho de 2005.

Resultados

Por gerundismo vem se entendendo a combinação do verbo “ir” com o verbo “estar”, acrescidos do verbo principal na forma de gerúndio. Supostamente tal construção surgiu de uma (má) tradução do inglês para o português, em manuais de telemarketing. Importa marcar que nessa palavra, o sufixo ismo tem significado pejorativo, como em esquerdismo, denuncismo, assembeísmo e outros.

Na primeira crônica a ser analisada “Gerundismo”, o autor coloca “Aqui vai a última flor de Lácio”. A ironia já começa quando o autor dirige-se à Língua Portuguesa como “flor do Lácio”, com essa expressão geralmente utilizada poeticamente para engrandecer a Língua Portuguesa, ele, no entanto critica uma construção de uso, aparentemente, novo na Língua Portuguesa, estabelecendo a ironia. Freire faz essa matéria e pede para ser divulgada para que as pessoas entendam como esse “vício maldito” conseguiu entrar no dia-a-dia, explicando que ela não passa de uma tradução mal feita dos manuais de telemarketing escritos inicialmente em inglês.

Quando coloca “vício maldito” o autor já mostra que segue a tradição das gramáticas normativas que considera erro ou vício de linguagem tudo o que difere de suas regras de “bom uso”. Os lingüistas, por sua vez, discordam dessa posição e defendem que as novidades quase sempre são bem aceitas, exceto por aqueles que cuidam da língua nos domínios da gramática normativa. Em outra passagem, Freire garante que a primeira pessoa que inventou o gerundismo:

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Sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas.
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Com essa afirmação demonstra mais uma vez a intransigência para com as novas construções que surgem na língua. Se o gerundismo está presente na língua e está sendo usado por inúmeras pessoas, essa construção não pode ser considerada “uma infelicidade lingüística”. Ela está servindo aos propósitos de muitos falantes em muitas situações, mas isso é desconsiderado por amor à regra.

Uma pergunta do autor merece comentário:

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O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?
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Eu posso apoiada pela Lingüística posso responder a essa preconceituosa pergunta, esse “negócio” só vai enriquecer o cérebro das futuras gerações que terão uma visão diferente da língua e deixarão essa noção incisiva das gramáticas normativas de que existe erro em língua. As futuras gerações irão saber que o que existe realmente são usos diferentes da língua e que, quando analisados com critério, revelam-se perfeitamente sua regularidade e coerência.

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Na continuidade, Freire também advoga que:

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“A única solução para acabar com o problema é submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos como ‘a nível de’, o ‘enquanto’, o ‘pra se ter uma idéia’e outros menos votados”.
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O que o autor propõe é de extremo preconceito, pois como você pode expor construções usadas por inúmeras pessoas à desmoralização? O que será desmoralizado, as construções lingüísticas ou as pessoas que as usam? É preciso pensar seriamente nessas propostas aparentemente engraçadinhas, mas que podem levar a exclusão social de muitas pessoas.

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Na outra matéria escolhida para a análise “Em 2004, gerundismo zero!” Freire continua a tratar do gerundismo de maneira preconceituosa:

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Uma terrível praga que se propaga pelo ar, pelas ondas de TV e pelas redes telefônicas…
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Mas esse tipo de construção passou a integrar as possibilidades expressivas da língua, ou não seria usado. Se essa forma não for compatível com os usos do Português, irá desaparecer com o tempo, como tantos modismos. Se for compatível e aceito pela comunidade dos falantes, vai ser incorporado à língua portuguesa, como aconteceu antes com outras construções.
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Mas Freire não pensa assim e insiste em que a única maneira de acabar com o gerundismo é corrigindo as pessoas ,

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O que só aumenta a nossa responsabilidade como vigilantes e educadores.
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Responsabilidade como educadores? Que tipo de educador o autor está se referindo? Ao educador que segue fielmente as gramáticas normativas sem antes ao menos ler uma análise da Lingüística e perceber os equívocos dessas gramáticas? O educador que não está atento para a variação e para a mudança lingüísticas? A missão de um educador deve ser ensinar a norma padrão, mas o padrão atual, e sem excluir as outras variantes lingüísticas.

No entanto Freire, nesse artigo de extremo radicalismo contra o gerundismo, acaba contradizendo, sua própria teoria quando aconselha o combate às formas por ele mesmo consideradas corretas:

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… precisamos evitar até mesmo os casos em que o vou estar fazendo esteja certo. Por exemplo, em vez de dizer ‘ Não ligue agora para o seu tio, porque ele deve estar jantando’ – o que é perfeitamente correto – diga: Não ligue agora para seu tio, porque é hora do jantar.
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E também afirma que:

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Gerundismo poderia dar pontos na carteira de motorista. Poderia aumentar a alíquota do Imposto de Renda do infrator. As universidades públicas poderiam inovar o sistema de cotas. Que tal: 100% das vagas para não-gerundistas?!!
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Outra afirmação engraçadinha e absurda que só leva ao preconceito lingüístico. As outras duas matérias escolhidas também tratam do gerundismo de maneira preconceituosa, “Curriculum vitae” trata de uma pessoa que quer ser artista, que é mulher e loira e em suas falas ela usa o gerundismo:

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Tendo em vista o fato de no momento eu não estar fazendo ‘xongas’, achei que o senhor seria a pessoa certa para estar me ajudando.
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nesse texto percebe-se o estereotipo que o autor faz da mulher e o dirige-se a um tipo social estigmatizado pela sociedade como fútil e pouco inteligente, nessa crônica, como nas outras, Freire julga e condena os falantes pela sua maneira de falar. Em “Verbas que curam”, mesmo não tratando do tema, o autor faz uma crítica ao gerundismo:

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De minha parte, vou aproveitar a bonança de verbas publicas para montar uma igreja, uma clínica ou uma associação que recupere pessoas viciadas em gerundismo (por exemplo: “um dia você vai poder estar aprendendo a estar parando de falar assim”).
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Como se as pessoas, por estarem doentes, viciadas, precisassem de recuperação para questões relacionadas ao uso da língua e tivessem que parar de usar o gerundismo, que é completamente aceito dentro de uma variedade lingüística. Com isso o autor assume sua visão conservadora construída pelas concepções que norteiam gramática normativa.

Para explicar que o gerundismo é perfeitamente aceitável do ponto de vista da Lingüística, recorro a POSSENTI (2001) que coloca que não é estranha essa forma de construção tão criticada. Seu único problema é não ser abonada pelas gramáticas.

O primeiro ponto abordado pelo autor é sintaxe da locução: a ordem dos verbos auxiliares é perfeitamente canônica. Sabe-se que os verbos auxiliares vêm sempre antes do principal (como em “vou sair”). Se houver mais de um auxiliar, haverá ordens permitidas e outras proibidas (“tenho estado viajando”, mas não “estive tendo viajado”; “vou estar saindo”, mas não “estarei indo sair”). Concluindo, a nova locução está em perfeito acordo com a sintaxe do português: sua ordem é ir + estar + ndo. É, pois, absolutamente gramatical do ponto de vista da Lingüística. A estrutura do gerundismo também é sempre a mesma, (ir+estar+ndo), não há construções do tipo (estar vou enviando, estarei indo sair) o que seria um desvio das estruturas gramaticais da Língua Portuguesa.

O gerundismo, ainda segundo POSSENTI (2001), também é utilizado para veicular aspecto durativo (ou seja, anuncia um evento que durará algum tempo para se realizar). O autor observa que não é a mesma coisa dizer “vou mandar” e “vou estar mandando”, exatamente por causa da diferença entre “ir” (que marca só futuro) e “ir + estar” (que marca futuro, por causa de “ir”, e duração, por causa de “estar”). “Vou estar providenciando” significa, entre outras coisas, que a providência não se dará instantaneamente. Além disso, o compromisso expresso em “vou providenciar” é mais incisivo do que o expresso em “vou estar providenciando”.

Segundo POSSENTI (2001), também há outro aspecto importante do gerundismo: essa expressão conota gentileza, formalidade e deferência.

Considerações Finais

Ao fazer a análise do corpus, baseada nas concepções da Lingüística, trabalhando especialmente com Possenti, pude verificar que, na mídia, é comum e dá prestígio, ou ibope, sustentar-se na tradição normativa para a elaboração de matérias, como as colunas de Freire.

Ignorando as pesquisas e concepções da Lingüística, em muitas de suas matérias, a mídia acaba provocando o preconceito lingüístico e conseqüentemente o preconceito contra as próprias pessoas que fazem o uso de certas construções ou variedades língua.

Termino meu artigo citando SCHERRE que expõe claramente o que a mídia e a sociedade fazem em nome da norma culta:

Em nome da boa língua pratica-se a injustiça social, muitas vezes humilhando o ser humano por meio da não-aceitação de um de seus bens culturais mais divinos: o domínio inconsciente e pleno de um sistema de comunicação próprio da comunidade ao seu redor. E mais do que isto: a escola e a sociedade – da qual a escola é o reflexo ativo – fazem associações perversas, sem respaldo lingüístico estrutural, entre o domínio de determinadas formas lingüísticas e beleza ou feiúra; entre domínio de determinadas formas lingüísticas e elegância ou deselegância; entre domínio de determinadas formas lingüísticas e competência ou incompetência; entre o domínio de determinadas formas lingüísticas e inteligência ou burrice. (2005, p. 43).

Leia o artigo original [em PDF]

http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/4mostra/pdfs/225.pdf

Gerundismo? Nonada!

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A Língua Portuguesa do Brasil conserva formas mais antigas que a de Portugal
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Revista Veja O poeta Ferreira Gullar observou certa vez: “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. E o gerúndio muito menos. Herdado do latim, essa forma clássica da língua portuguesa é usada por todos os falantes do idioma de Camões. A começar pelo próprio. O sufixo “ando” está no início do poema mais famoso do nosso idioma, Os Lusíadas: “Cantando espalharei por toda parte”. Por outro lado, o gerúndio tampouco foi feito para ser humilhado, demitido por decreto, como se fosse o responsável pela tendência da burocracia brasileira de “estar adiando” a solução de problemas.

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Acusando, culpando e errando
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O gerúndio tem sido discriminado e denunciado pelo hábito nacional de enrolar. O que há de verdade nisso?

André Petry

A TRADIÇÃO NOS TRÓPICOS: Luís de Camões, o grande poeta português, e uma operadora de telemarketing: por que será que em Os Lusíadas o poeta disse “cantando espalharei por toda parte”, e não “a cantar espalharei por toda parte”?
Os operadores de telemarketing sabem a razão: o gerúndio do Brasil é a forma clássica da língua; modernismo é o jeito de falar dos portugueses.

Há dez meses no poder, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, não conseguiu publicar um edital para a construção de uma vila olímpica, uma de suas promessas eleitorais. “Vamos estar publicando”, eis o que lhe respondem quando indaga sobre o assunto. O projeto da vila foi concluído e enviado à Procuradoria-Geral, que pediu alterações. O projeto foi então endereçado para uma estatal, a Novacap, que fez as devidas alterações e mandou a papelada ao Tribunal de Contas. E aí? “Vamos estar publicando”, informavam ao governador. O Tribunal de Contas pediu novas adaptações, o projeto foi devolvido à corregedoria do Distrito Federal, de onde voltou ao tribunal. “Vamos estar publicando.” No Tribunal de Contas, o conselheiro responsável pelo assunto saíra de férias, decorreram os trinta dias regulamentares de seu descanso, o conselheiro voltou e descobriu-se que o terreno da vila olímpica não estava registrado em nome do governo. A papelada foi remetida a outra estatal, a Terracap, que fez o registro e mandou tudo de volta ao Tribunal de Contas. E o edital saiu? “Vamos estar publicando”, respondiam ao governador. Irritado com as intermináveis delongas, no dia 28 de setembro passado o governador baixou um decreto demitindo o gerúndio. Motivo: ineficiência. Era o gerúndio oficialmente acusado de leniente e enrolador.

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A demissão do gerúndio saiu em decreto publicado no Diário Oficial e completa um mês de vida neste domingo – e, até agora, o edital da vila olímpica não foi publicado. A conclusão é inarredável: o culpado, veja só, não era o gerúndio. Há uns dez anos, uma parcela expressiva de brasileiros passou a implicar com o gerúndio ou, mais propriamente, com o gerundismo, nome dado à praga infecciosa que leva falantes do português a fazer uso abusivo do gerúndio. A versão mais popular informa que a praga surgiu entre operadores de telemarketing, que dizem “Vou estar transferindo sua ligação”, em vez de simplesmente dizer “Vou transferir sua ligação”. E a praga decorre da tradução rudimentar de manuais de telemarketing escritos em inglês. O idioma de Shakespeare, de fato, usa o gerúndio com entusiasmo e, na tradução às pressas, a frase “I will be sending…” virou “Eu vou estar mandando…”. A novidade, para alguns, é que nada disso faz sentido. É verdade que operadores de telemarketing usam o gerúndio com franca voracidade, mas eles não criaram essa forma de expressão – nem ela vem do inglês mal traduzido.

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Aos leigos, a influência de um idioma sobre outro pode parecer algo tão misterioso quanto o sorriso de Mona Lisa, mas a sociolingüística há muito já mostrou que uma língua influi no vocabulário de outra, mas não na estrutura, a menos que haja um ambiente de bilingüismo. Como não se pode dizer que operadores de telemarketing formam uma comunidade especialmente bilíngüe, a tese da influência do inglês é só um palpite de amador. “São explicações de quem não entende nada de português”, diz a professora Odete Menon, da Universidade Federal do Paraná, que estuda mudanças no português há três décadas e, há dez anos, dedica-se ao velho e bom gerúndio.
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Velho e bom? Sim, herdado do latim, o gerúndio é a forma mais clássica da língua portuguesa. Está em Luís de Camões, o estupendo poeta morto em 1580. Num dos primeiros versos de Os Lusíadas, texto cuja importância para a língua portuguesa é igual à da Bíblia para os religiosos, lê-se o seguinte: “Cantando espalharei por toda parte / Se a tanto me ajudar o engenho e arte”. Camões não escreveu como os portugueses de hoje: “A cantar espalharei por toda parte…”. Por quê? Porque, no seu tempo, nem os portugueses usavam essa forma de falar, denominada infinitivo gerundivo. “Até a prosódia do tempo de Camões era mais parecida com a nossa do que com a dos portugueses de hoje”, informa Pasquale Cipro Neto, o mais conhecido professor de português do país.
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Em História de Portugal, uma obra do século XVI, escrita por ninguém menos que Fernão de Oliveira, autor da primeira gramática da língua portuguesa, aparece 61 vezes o gerúndio dos brasileiros – e nenhuma vez o infinitivo gerundivo dos lusitanos. Estudos comparativos mostram que os portugueses começaram a usar o infinitivo gerundivo no fim do século XIX e sua aplicação se consolidou na primeira metade do século passado. É coisa recente, portanto. Um trabalho da estudiosa Núbia Mothé, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra que os portugueses empregam a nova forma mais na língua falada do que na escrita e seu uso é mais disseminado entre jovens. Comparando diálogos das décadas de 70 e 90, Mothé descobriu que o infinitivo gerundivo aparece na boca de 89% dos portugueses de 25 a 35 anos. Entre os de 36 a 55 anos, o porcentual cai para 65%. E fica em 55% entre os que têm mais de 56 anos. Isso também significa que em Portugal, como no Brasil, se usam as duas formas. A diferença é que preferimos a antiga – e eles, a nova..

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“O português brasileiro é que usa a forma dita clássica no idioma. O que está em jogo é a antiga crença de que a língua portuguesa pertence a Portugal e que, portanto, eles a usam melhor do que nós”, diz Mothé. Como todo idioma vivo, o português, em terras brasileiras, portuguesas ou africanas, está em permanente mudança – algumas coloridas e singelas, outras espinhosas e obtusas. A influência do escravo africano no português do Brasil é notória. Em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre, numa das passagens mais belas do seu clássico, diz que a negra que habitava a casa-grande como cozinheira ou babá fez “com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo”. Freyre também informa que os escravos africanos tiveram uma influência semelhante no francês das Antilhas (“adocicaram o francês, tirando-lhe o fanhoso antipático, os rr zangados”) e no inglês do sul dos Estados Unidos (“deram ao ranger das sílabas ásperas do inglês uma brandura oleosa”).

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Miguel de Unamuno, escritor espanhol da virada do século XIX para o XX, dizia que o português é como “o espanhol sem ossos”. A imagem traduz a superioridade sonora do português sobre o espanhol quando se trata de suavidade melódica. Pode-se supor que faltou a Unamuno originalidade na sua definição, já que a mesma imagem de uma “língua sem ossos” foi usada pelo alemão Thomas Mann para falar do russo – algo que talvez também não fosse muito original tendo em vista que o próprio Leon Tolstoi, o gigante romancista, admitira, ainda antes de escrever Anna Karenina, que o russo literário “não tinha ossos”. Fazia-o em tom crítico, porém. Ainda que a idéia de uma língua desossada seja copiada de um escritor pelo outro, é uma definição exemplar para o português, sobretudo o falado no Brasil. Depois que as negras amaciaram nosso idioma com seus dengos e cafunés, com seus quitutes e quindins – todas essas palavras de origem africana –, Eça de Queiroz percebeu a diferença em relação ao seu português e disse que o idioma do Brasil era um “português com açúcar”. Portanto, sem ossos e com açúcar.

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Quem há de desgostar de uma língua que se fala sem a rigidez dos ossos e com a doçura do açúcar? Quem há de rejeitar uma língua cujas palavras se dissolvem na boca? São variações que a vida nos trouxe, e, como num darwinismo lingüístico, as que ajudam uma língua a sobreviver e enriquecem suas formas de expressão acabam sendo incorporadas. “Quando uma forma lingüística atende a uma necessidade de comunicação, ela se difunde”, explica José Luiz Fiorin, professor de lingüística da Universidade de São Paulo. Eis o caso do gerundismo. Os operadores de telemarketing descobriram que era útil. Porque soa como uma forma polida de falar, tal como o futuro do pretérito é usado por quem quer ser gentil, e dá uma idéia de descompromisso e desobrigação: “vou estar enviando” não é tão afirmativo quanto “vou enviar”.

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“Quando ouvimos isso, interpretamos que não existe nenhum comprometimento, por parte do falante, de que a ação vai ser levada a cabo”, diz a professora Ana Paula Scher, da Universidade de São Paulo, autora de um trabalho sobre o tema junto com a professora Evani Viotti. Ana Paula completa: “É uma estratégia adotada por quem não tem poder de decisão”. Isso explica por que o gerundismo é tão irritante. Quando o ouvimos, já intuímos que estamos sendo embromados. Explica, também, por que ele é tão usado por gente que não tem a palavra final, como os operadores de telemarketing. E, por fim, explica por que o edital do governador do Distrito Federal não foi publicado até hoje. O problema não está no gerúndio. Está nos funcionários que cedem à burocracia e nunca se empenham para concluir o que começaram. Se deixarmos o gerúndio em paz, mas criarmos um ambiente em que todos firmem compromissos sólidos (dos operadores de telemarketing aos funcionários públicos de Brasília), a língua voltará a soar doce e mole – e as coisas, no Brasil, a começar pelo ensino de português nas escolas, vão funcionar.
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Fonte: Rev. Veja, André Petry, ed. 2032, 31/10/2007.

http://veja.abril.com.br/311007/p_104.shtml