LÍNGUAS DE IMIGRANTES

Carmen Zink Bolognini
Maria Onice Payer

Na história brasileira, a representação dos imigrantes, ao lado dos indígenas, dos africanos e do colonizador português, teve um lugar significativo como parte da constituição do povo brasileiro. Nas Ciências Humanas, o tema da imigração foi desde cedo abordado por trabalhos de sociólogos e historiadores, por exemplo. Mas a análise da questão a partir da lingüística, focalizando a diversidade das línguas introduzidas no Brasil pelos imigrantes, não foi considerada até recentemente com a força histórica que teve, capaz de produzir em certos momentos estremecimentos na imagem de unidade da língua nacional brasileira. […]

Falamos em estremecimento na imagem de unidade da língua nacional, na medida em que há um imaginário de unidade, sócio-historicamente construído, que sobrepõe as imagens de língua oficial, língua nacional e língua materna. Desde a constituição de 1988, o português é enunciado como “a língua oficial do Brasil”, como nota Guimarães (1996). Para o autor, esta formulação reconhece a existência de outras línguas, faladas por outros grupos, como os indígenas, por exemplo. O que não quer dizer que não houvesse em funcionamento a presença de uma língua nacional. E, sendo assim, há de se considerar a possibilidade da não-confluência entre língua oficial e língua materna no Brasil. No caso específico da imigração, a distância entre elas é ainda mais flagrante. E essa distância é constitutiva do Brasil e do brasileiro, como veremos a seguir.

SOBRE LÍNGUA MATERNA E LÍNGUA ESTRANGEIRA

O português, a língua oficial do Brasil, como vemos no verbete de Guimarães (2004), intitulado “História do português do Brasil”, tem uma relação histórica diferenciada com o Brasil, se tomarmos a sua história em Portugal como referência. Essa diferenciação se dá, conforme o autor, principalmente porque o português entrou no país por meio do processo de colonização, e ocupou e dividiu espaços com outras línguas praticadas neste território. Sendo assim, o português nem sempre foi a língua mais falada no Brasil. Houve um período no qual a língua mais falada no Brasil era a língua geral, e foi apenas a partir dos séculos XVII e XVIII que essa língua perdeu espaço para o português, devido à obrigatoriedade do seu uso e do seu ensino. Hoje, praticamente falado por toda a população, o português é a língua materna dos brasileiros.

Os imigrantes entraram no país e trouxeram as suas línguas maternas: outras histórias, outras ideologias. E o modo pelo qual eles foram constituídos por suas línguas maternas foi determinante da forma pela qual eles se relacionaram com o português e com o Brasil. Para os imigrantes, o português era a língua do estrangeiro, do diferente. A maneira pela qual se deu a entrada e a adaptação do imigrante no novo ambiente (dos falantes de português) estava articulada com a forma pela qual eles se relacionaram com o aprendizado do português.

HISTÓRICO DA IMIGRAÇÃO

A introdução de línguas estrangeiras no Brasil por imigrantes ocorreu cronologicamente durante séculos, nos diferentes períodos históricos. Durante o Império, ocorreram imigrações esparsas de grupos, mais especificamente de falantes de italiano e de alemão, tratadas diretamente por D. Pedro I e D. Pedro II, havendo, aqui, influência decisiva da imperatriz D. Leopoldina, de origem austríaca (Bolognini, 1996).

Contudo, o período que corresponde ao grande movimento imigratório no Brasil estendeu-se de 1887, ou seja, pouco antes do estabelecimento da República, até 1930. A imigração nesse período foi um fenômeno em massa de grandes proporções, decorrente de condições sócio-históricas propícias nos dois lados do Atlântico, intermediadas pelas Companhias de Navegação e de Imigração.

Do lado dos países de origem dos imigrantes, na Europa e na Ásia, a imigração era favorecida pelo início da industrialização, que causou empobrecimento da população e escassez de terras para agricultura. Do lado brasileiro, o governo republicano e os fazendeiros de café viram na imigração uma solução para diversos problemas, no momento em que o trabalho escravo era eliminado; elementos populacionais eram necessários ao povoamento de áreas de fronteiras territoriais e habitadas por indígenas, e o chamado caldeamento da raça projetou-se entre as questões nacionais de identificação do povo brasileiro.

A partir da década de 1920, a imigração em massa foi sendo progressivamente coibida. Depois desse período de grande fluxo, a partir de 1930, a imigração se deu em menor escala, em decorrência de problemas econômicos e políticos, tal como a Segunda Guerra Mundial.

A ampla extensão e a complexidade da história da imigração, com fatos como a imigração clandestina, o sigilo em situações políticas difíceis, bem como o registro dos filhos dos imigrantes como brasileiros e falantes de português, dificultam o estabelecimento de dados estatísticos precisos quanto ao número de falantes das línguas estrangeiras atualmente, de modo que se dispõem apenas de estimativas e dados esparsos, como os que apresentamos adiante.

AS LÍNGUAS DOS IMIGRANTES

No Brasil, dada a variedade de imigrantes que para cá vieram, principalmente da Europa e da Ásia, são faladas várias dessas línguas.
É possível citar o alemão, o árabe, o chinês, o coreano, o espanhol, o holandês, o inglês, o italiano, o japonês, o leto e o pomerano.

Os imigrantes, falantes dessas línguas, vieram para o Brasil em épocas diferentes e se instalaram em diversas regiões. Os árabes, por exemplo, fixaram-se no Brasil ainda no Império, com o apoio de D. Pedro II, a partir de sua visita ao Líbano em 1876. Já em 1880, novo grupo de libaneses imigrou para o Rio de Janeiro. Entre 1910 e 1940, eles instalaram-se em Vitória, Cachoeiro do Itapemirim e Alegre, no Espírito Santo, além de algumas cidades no estado de São Paulo.

Os espanhóis têm uma relação antiga com o Brasil. Desde a união política de Portugal e Espanha, entre 1580 e 1640, o espanhol se fez presente “oficialmente” no que hoje se conhece como o território brasileiro. Durante o período do grande fluxo, os imigrantes espanhóis instalaram-se no Brasil atraídos pelo café e, mais tarde, entre 1950 e 1964, também pela indústria e siderurgia. O contingente de espanhóis no Brasil constitui o terceiro maior grupo de imigrantes, depois dos italianos e dos portugueses.

Um aspecto interessante tem a presença dos holandeses no Brasil.

Em se tratando da introdução dessa língua no país, há dois períodos que merecem destaque. O primeiro deles remonta ao século XVII, quando houve a tentativa de colonização do país por parte dos holandeses. A importância desse período deve-se ao incentivo cultural propiciado pelo governo holandês estabelecido no Brasil. Como resultado, temos a criação de uma biblioteca, da imprensa e o testemunho da época retratado em quadros e escrito em livros de holandeses. O segundo momento ocorre a partir de meados do século XX, quando houve imigração oficial, com a compra de um grande lote de terras, onde hoje está situada a cidade de Holambra, no interior paulista. O destaque fica marcado, nesse período, pela grande produtividade e contribuição sócio-econômica da comunidade para o Brasil. É nessa região que o holandês ainda é falado no país. Estima-se que entre dez e trinta mil imigrantes falantes de holandês tenham vindo ao Brasil.

A seguir vamos tratar de modo mais específico de três línguas de imigração e seus modos de presença no Brasil: o alemão, o italiano e o japonês.

O ALEMÃO

Língua de imigrantes de origem alemã, suíça, russa (região do Volga), polonesa e austríaca, é falada, atualmente, no Paraná (Rio Negro, Ponta Grossa, Rolândia, Entre Rios), Santa Catarina (Blumenau, Joinville, São Francisco do Sul, Brusque, Itajaí, São Bento) Espírito Santo (Santa Leopoldina) e Rio Grande do Sul (São Leopoldo, Santa Augusta, São Lourenço, Lageado, Montenegro). Embora o Brasil ocupasse o segundo lugar como país de destino dos falantes de alemão que vieram para o continente americano (o primeiro país de destino foram os Estados Unidos), eles não se destacaram do conjunto de imigrantes que vieram para o Brasil. Mesmo sendo o primeiro grupo vindo ao país, representam apenas 9% do total de imigrantes.

Entre 1824 e 1830, entraram no Brasil cerca de 5 mil falantes de alemão, em decorrência dos grandes problemas econômicos nos países de origem, e motivados pela propaganda das companhias de imigração. Entre 1847 e 1854 entraram cerca de 2,7 mil falantes de alemão no país. No Espírito Santo os falantes dessa língua se fixaram, principalmente, nos vales superiores dos rios Jucu e Santa Maria da Vitória. Dentre eles, havia falantes originários da Alemanha e Pomerânia (região alvo de disputas entre a Polônia e a Prússia, estado da atual Alemanha), que chegaram entre 1860 e 1879 e encontram-se, hoje, em comunidades relativamente coesas, em Pancas, Santa Maria do Jetibá e Santa Teresa, com prática do pomerano. O fluxo de imigrantes falantes de alemão foi interrompido durante 14 anos, devido à revolução dos Farrapos e à proibição de imigração na Alemanha em 1859. Essa proibição foi revogada em 1896, sendo permitida a propaganda apenas para os três estados do Sul do Brasil. Por esse motivo, dos 5 milhões de imigrantes que deixaram a Alemanha entre 1824 e 1939, apenas 7% vieram para o Brasil, de modo que até o início da Segunda Guerra Mundial, há o registro da entrada de cerca de 300 mil falantes de alemão no país. Somando-se seus descendentes, considera-se que até 1935 havia um total aproximado de 1,2 milhão desses falantes no país.

Os falantes de alemão organizavam-se em pequenos grupos, onde mantinham seus dialetos locais. Eles trouxeram, além da doutrina religiosa, o alemão padrão (hochdeutsch), pois os pastores tinham formação acadêmica. Esses pastores encontraram, inicialmente, resistência nas comunidades já existentes, mas conseguiram, em grande parte, implantar seu discurso, que pregava a filiação ao novo Estado alemão. Foi nessa época, também, que diversas publicações em idioma alemão foram feitas no Brasil: jornais, cartilhas, manuais de orientação religiosa e familiar, manuais técnicos, boletins informativos e livros de história e literatura inspirados na vida dos imigrantes. Em 1917, o Brasil entra na Primeira Guerra Mundial contra a Alemanha e a circulação de periódicos em alemão e as instituições (escolas, igrejas) alemãs foram proibidas de funcionar. No entanto, interessantemente, entre 1910 e 1928, aumenta o número de periódicos em língua alemã, e também os já existentes têm sua tiragem ampliada. Logo após o término da guerra, as relações diplomáticas entre os dois países foram reatadas e o alemão, bem como o funcionamento de escolas e igrejas, deixou de ser proibido. Nova proibição ocorreu com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, quando novamente escolas e igrejas foram fechadas e jornais foram proibidos de circular. Apesar dessas proibições, há um número considerável de brasileiros que se consideram falantes de alemão, por serem descendentes de imigrantes.

O ITALIANO

Falantes de italiano migraram da Europa para a América principalmente durante o grande fluxo, em número aproximado de 57 milhões de indivíduos (De Decca, 1993). Os registros de imigração disponíveis, a maior parte deles encontrando-se apenas no estado de São Paulo, indicam que entraram no Brasil 1.401.335 imigrantes italianos (Bergman, 1977).

Os falantes de italiano e de variedades desta língua instalaram-se nas regiões Sul e Sudeste, além do sul da Bahia. Contudo, em vista das migrações interestaduais motivadas pela busca de terras em outras regiões após 1970, hoje há descendentes de italianos concentrados também em estados do Centro-Oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Goiás) e do Norte (Acre e Pará).

Algumas variedades de italiano continuam sendo faladas nas regiões Sul e Sudeste até hoje. A convivência de grupos de imigrantes em comunidades relativamente coesas, bem como o isolamento das colônias agrícolas em relação a centros populacionais, em certas regiões, contribuiu para a manutenção de sua língua.

Por outro lado, o italiano, assim como outras línguas estrangeiras, como o alemão, foram pontualmente interditadas durante as guerras mundiais e durante o Estado Novo (1937-1945), no contexto nacionalista próprio à década de 1930. Deum certo modo, a Segunda Guerra funcionou, também, como argumento no inevitável processo de nacionalização que já havia sido iniciado, de fato, desde o início do grande fluxo imigratório. De forma incisiva, através de legislação específica e da minuciosa Campanha de Nacionalização do Ensino, iniciada em 1938, o Estado brasileiro implantou o português como língua nacional nas áreas de colonização estrangeira, (re)forçando a nacionalização. Esse fato inibiu significativamente a prática das línguas maternas dos imigrantes, marcadamente no domínio público e institucional, sobretudo na imprensa escrita e na escola, mas também no espaço privado.

Contudo, a Campanha de Nacionalização do Ensino não conseguiu apagar totalmente as línguas estrangeiras junto a uma prática de linguagem eminentemente oral. Além disso, no Brasil as variedades do italiano misturaram-se ao português, de modo que em regiões de densa imigração a população fala o português com traços de italiano — presentes na fonologia, no léxico, na morfossintaxe e na prática mesclada das línguas, com fragmentos de discursos, provérbios e expressões em italiano e em português.

A partir dos anos 1980, em um contexto sócio-histórico bem diferente dos anos 1930, com o aparecimento dos discursos sobre a globalização econômica, as especificidades “culturais” e “regionais”, como as que dizem respeito aos imigrantes, passam a adquirir lugar na mídia, de modo que se assiste, atualmente, a um certo revigoramento dos elementos relativos à memória dos imigrantes. Nesse contexto, algumas cidades colonizadas por italianos passaram a inserir o ensino do italiano como língua estrangeira nas escolas. A presença desse discurso na mídia fez crescer, por exemplo, em 25% o índice de procura de cursos de italiano na cidade de São Paulo, em 1999, onde o número de descendentes de italianos chega a cinco milhões.

O JAPONÊS

A língua japonesa falada no Brasil pode ser definida como resultante da fusão de dialetos das diferentes regiões do Japão, com predominância de um ou mais dialetos conforme a concentração de falantes procedentes dessas regiões (Dói,2004). Além dessa mistura de dialetos, o japonês falado atualmente no Brasil apresenta um outro traço: a presença do português.

Essa língua, usada na comunicação cotidiana no contexto nipo-brasileiro, é chamada de koronia-go (“língua da colônia”), e é comumente caracterizada pelos japoneses como “o japonês antigo misturado de língua brasileira (o português)”. O uso da língua japonesa não se limita apenas ao meio de comunicação oral na comunidade nipo-brasileira. A língua escrita tem tido lugar nas publicações de jornais, interrompidas, juntamente com a prática pública da língua, no período da Segunda Guerra. Além disso, desde o início da imigração, diferentes manifestações literárias têm sido desenvolvidas no seio da comunidade sob a forma de contos, romances, e poemas.

Sua introdução no Brasil (Dói, idem) iniciou-se em 1908, quando cerca de 800 indivíduos de diferentes regiões do Japão chegaram ao estado de São Paulo para trabalhar nas fazendas de café. Estima-se que até a Segunda Guerra, cerca de 190 mil imigrantes japoneses chegaram ao Brasil e, a partir de 1953, em torno de 50 mil japoneses dirigiram-se aos núcleos coloniais das regiões da Amazônia, Nordeste e Sul do país.

Segundo pesquisa realizada pelo Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, em 1987, estima-se que a população japonesa (japoneses e seus descendentes) residente no Brasil atinge o número de um 1,3 milhão de habitantes, dos quais os isseis (japoneses de primeira geração nascidos no Japão) representam 12,51%, os nisseis (filhos de japoneses) 30,85%, os sanseis (netos de japoneses) 41,33% — dentre os quais 42% são mestiços —, os yonseis (bisnetos de japoneses) constituem 12,95%, dos quais 61% são mestiços. Ainda segundo essa pesquisa, apenas 0,23% da população japonesa no Brasil fala atualmente o japonês. A língua japonesa marca também sua presença no português brasileiro, na introdução de itens lexicais que representam os vários segmentos da cultura japonesa e que estão inseridos na sociedade brasileira, tais como na alimentação (sushi, sashimi, tempura, shoyu, shiitake), nos esportes e lazer (judô, jiujitsu, karaoke), nos costumes (tatami, furô, quimono), etc.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entre a língua materna e a língua nacional Se trabalharmos a questão do sujeito constituído pela linguagem a partir de Pêcheux (1969) pensando o falante de determinada língua a partir do lugar de interlocução que lhe cabe na cadeia discursiva, será necessário refletirmos sobre a maneira pela qual os discursos se articulam para definir esse lugar que o imigrante ocupa em relação ao brasileiro (Bolognini, 1996). Dito de outra forma: o imigrante ocupa um determinado lugar de interlocução na sua língua materna. E a sua língua materna também reserva um lugar de interlocução para os falantes do português do Brasil.

Como se daria essa relação?

Ela não é sempre igual. Consideremos duas pesquisas conduzidas com diferentes descendentes de imigrantes: uma com descendentes de italiano, outra com descendentes de alemão. Ou seja, com sujeitos constituídos por outros, que por sua vez foram constituídos por outros que tinham o italiano, por um lado, e o alemão, por outro, como língua materna. As diferenças encontradas podem ser sintetizadas em um dado fundamental: as entrevistas com os descendentes de italiano foram conduzidas em português, e as entrevistas com os descendentes de alemão foram conduzidas em alemão. A questão que fica é a seguinte: os sujeitos constituídos pelo alemão ocupam um lugar de interlocução em sua relação com o português que faz com que a situação de “ser estrangeiro” no Brasil não lhes seja desconfortável. Há algo no idioma alemão que lhes assegura um lugar de interlocução difícil de ser perdido para o lugar de interlocução que o português lhes asseguraria (Bolognini, 1996). Os descendentes de italiano, por outro lado, são pegos de outra forma na cadeia discursiva. Seu lugar de interlocução como descendentes de italianos não pressupõe o domínio, ou algum domínio do idioma, mesmo que este possa ser falado. Eles são afetados de outra maneira pela política de línguas existente no país.

Quando se fala em política de línguas no Brasil com relação aos imigrantes, há uma remissão quase imediata à proibição de alguns idiomas (alemão, italiano, japonês) durante os períodos das grandes guerras mundiais. Entretanto, discussões a respeito da nacionalização dos imigrantes já estavam em discussão desde o início do processo imigratório, nos estados. Nessas discussões, propunha-se para as zonas de densa imigração uma educação tendente à nacionalização, com a contratação de professores bilíngües, de modo que o aprendizado do português fosse o aspecto primordial a ser levado em consideração (Ribeiro, 1889 e Bilac, 1916).

A interdição das línguas dos imigrantes tem sido abordada, entre outras direções, como um fato discursivo da ordem do “silenciamento” (Orlandi, 1992), da memória e do esquecimento da língua e, conseqüentemente, da chamada identidade cultural, em sua relação com o processo de nacionalização (Payer, 1999). Nesta perspectiva, aspectos constitutivos da relação entre sujeito e a língua materna – silenciada – e a língua nacional, em que este se inscreve juridicamente como cidadão, vêm sendo estudados quanto a suas implicações na prática de linguagem e nos processos históricos de constituição do sujeito de linguagem.

Nessa perspectiva tem-se observado que tanto o modus operandi do silenciamento (interdição) quanto o fato discursivo do silêncio sobre a presença das línguas estrangeiras praticadas pelos descendentes de imigrantes no Brasil não deixaram de imprimir marcas no sujeito que se escolariza, bem como na memória social. Por exemplo, especificamente quanto aos elementos do italiano presentes no português, eles vêm sendo interpretados como traços de um retorno involuntário, na memória, da língua apagada (Payer, 1999 e 2003). Essa abordagem, considerando o sujeito e a história presentes na língua, difere substancialmente daquela que os compreende como “regionalismos” ou “dialetos regionais”, noções estas concebidas a partir de origens positivistas da lingüística.

Tem-se observado, portanto, que na prática de linguagem dos falantes descendentes de imigrantes apresenta-se uma tensão entre a língua nacional e a língua materna, que se produz na história e atinge tanto a estrutura da língua quanto o sujeito. O estudo dessa tensão na prática de linguagem leva a se desvendarem questões sobre o ensino de língua (português), tal como a importância de se explicitar – e não silenciar – as relações históricas tensas entre a língua nacional e as línguas maternas da população, e de se considerar as situações internas ao país em que a língua nacional ensinada na escola não coincide com a língua materna dos alunos. É importante, nesse sentido, lembrar também que há situações em que a língua materna se compõe de materialidades lingüísticas que se constituem de elementos de mais de uma língua (Payer, 1999).

A relação histórica densa entre as línguas interfere, portanto, na constituição do sujeito de linguagem. A sua relação com os traços da língua “apagada” é marcada pela memória de uma língua silenciada. Ao mesmo tempo em que esses traços constituem o sujeito no real da língua, eles constam como traços a serem apagados, na medida em que é o português que o interpela juridicamente, como a língua apropriada a seu estatuto de cidadão brasileiro (idem).

Assim, um dos interesses em estudar a questão das línguas dos imigrantes atualmente está, ao nosso ver, em compreender que a língua materna silenciada na história deixa no sujeito sua memória. Ela deixa inscrito um lugar de língua, que não poderia, entretanto, ser preenchido por uma suposta restituição da língua apagada, através do ensino da língua estrangeira correspondente (alemão, japonês, italiano…), como às vezes se imagina. Se as línguas dos imigrantes, em sua maior parte silenciadas, têm um papel na memória social brasileira, isso se dá em seu estatuto de língua apagada mesmo, cuja presença remota pode ser às vezes apenas notada, por exemplo, através do riso (equívoco) que acompanha o seu aparecimento; da prática sinestésica do canto da língua silenciada, em antigas canções em dialetos; na denegação de sua presença ocorrendo na ultracorreção do português (Payer, 2003).

Muito embora o ensino das línguas estrangeiras correspondentes dos imigrantes possa interessar tanto à formação cultural quanto a situações pragmáticas das relações internacionais, um trabalho significativo com as línguas de imigrantes historicamente presentes no Brasil ultrapassa a questão do restabelecimento ilusório das línguas perdidas. O trabalho minucioso com os sentidos presentes na memória histórico-discursiva é o que parece poder levar à formulação – na contraface do silenciamento – dos sentidos silenciados junto com as línguas, de modo a produzir, nas representações sociais, lugar para a multiplicidade das línguas e das memórias culturais que constituem o brasileiro. [Texto resumido e adaptado]

* Este artigo é uma refusão de parte de capítulos do livro Cafundó – a África no Brasil, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

-Carmen Zink Bolognini é professora do Departamento de Lingüística Aplicada e coordenadora associada da Comissão de Graduação do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.
-Maria Onice Payer é professora do curso de letras da UFSCar e professora do curso de pós-graduação da Univás

Leia o artigo original:

Um Brasil além-mar com “feijoadá” e “jeitinho sociológico”

Por Maria da Paz Trefaut, de São Paulo

Que tipo de cultura produziram os ex-escravos que retornaram do Brasil para a África no século 19, assim que conquistaram a liberdade? Ao contrário daqui, onde viviam na senzala, essas populações se tornaram influentes e prósperas do outro lado do Atlântico. Radicadas em vários países, mas especialmente na Costa Ocidental, os descendentes dos antigos escravos mantiveram o apego a tradições brasileiras que cultivam até hoje: ainda cantam samba, comem “feijoadá” (pronuncia-se com o acento agudo), fazem desfiles de carnaval e torcem pelo Brasil na Copa do Mundo.
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O pesquisador Milton Guran: ” único exemplo de uma identidade calcada
na cultura brasileira longe de nossas fronteiras”

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O tema, que não chega a ser muito falado por aqui, desperta curiosidade crescente. Prova disso é o seminário “Back to África: Afro-Brazilian Returnee and their Communities” (De volta para a África: os afro-brasileiros retornados e suas comunidades), que aconteceu esta semana em Johanesburgo, na África do Sul. No encontro, promovido pelo Centre of Advanced Studies in African Society, estiveram reunidos antropólogos e historiadores de vários países e foram apresentados filmes e documentários produzidos no Brasil. Um dos conferencistas foi o antropólogo Milton Guran, pesquisador associado do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense, estudioso dessas populações desde a década de 1990. Guran, que viaja para o Benim quase todos os anos, escolheu o assunto como tema da tese de doutorado que defendeu na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris.

Na África, os ex-escravos que voltaram passaram a ser chamados de “agudás”, palavra do vocabulário iorubá. Autor do livro “Agudás, os brasileiros do Benim” – editora Nova Fronteira -, o antropólogo descobriu em suas pesquisas que atualmente há cerca de 400 sobrenomes luso-brasileiros no país. São as famílias Silva, Souza, Freitas ou Domingos, que ao retornarem ao seu continente foram responsáveis pelas primeiras construções de alvenaria e levaram na bagagem o catolicismo. Provenientes de diversas etnias, eles tinham em comum o passado vivido no Brasil, uma maneira de ser distinta e uma qualificação profissional. Reincorporados à sociedade como hábeis artesãos ou comerciantes instruídos, consideravam “selvagens” os nativos.

Em suas viagens, Guran também encontrou um livro de receitas deixado pelo agudá Cesário de Medeiros, e está traduzindo o texto para editá-lo aqui. Medeiros nasceu no Benim em 1933, e foi viver em Paris na juventude. Lá, casou-se com uma francesa da Bretanha, mas o casamento inter-racial nunca foi aceito pela família dela. Com o sentimento de ter sido um desenraizado durante toda a vida, sempre em busca de uma identidade social, Medeiros e a mulher promoviam encontros entre “a grande família dos agudás radicada na França” e o divertimento deles era preparar pratos tradicionais da cozinha afro-brasileira.
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Álbum de família: Cesário de Medeiros: casamento
inter-racial e pratos afro-brasileiros

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A “feijoadá”, o “cousidou” e outros aspectos da culinária foram pontos da conferência de Guran em Johanesburgo. Antes de embarcar, ele falou de seu interesse pela cultura brasileira que sobrevive no Benim e da curiosidade que ela desperta no mundo.

Valor: O que motivou seu interesse por essas comunidades?

Milton Guran: Quando cheguei para fazer meu doutorado na École des Hautes Études em Sciences Sociales, em 1992, em Paris, me vi em um laboratório africanista. Os estudos africanos, pelo menos na minha área, eram muito mais incipientes no Brasil do que são hoje. Para mim isso representava uma oportunidade de conhecer a África real e de fazer uma pesquisa que há muito deveria ter sido feita. Na verdade, fui o primeiro antropólogo brasileiro a fazer uma pesquisa de fôlego no Benim (com a ressalva de que Pierre Verger era francês, apesar de ser brasileiro de coração). Aliás, até hoje esse quadro continua inalterado, a despeito da importância cultural e política da região. A República do Benim, vale lembrar, é o antigo reino do Daomé, que se notabilizou como um dos maiores exportadores de escravos da África, e foi conquistado militarmente pelos franceses no final do século 19.

Valor: Que importância esse núcleo de pessoas tem lá? Em quantos países se concentram?

Guran: Os agudás representam – ao lado dos Tabon de Gana que, entretanto, não têm a mesma expressão social – o único exemplo de uma identidade social calcada na cultura brasileira longe das nossas fronteiras. Não se trata de uma “colônia” de brasileiros no exterior, mas de um grupo social que usa o pertencimento à cultura brasileira para se articular com o conjunto da sociedade em que está inserido. No Benim são talvez 10 % da população. Estão também solidamente inseridos na Nigéria (vide o livro “Negros Estrangeiros”, da Manuela Carneiro da Cunha) e no Togo, onde o primeiro presidente foi um agudá, Sylvanus Olympio, neto de um traficante de escravos.

Valor: Qual a definição exata de agudás?

Guran: São chamados de “brasileiros” ou “agudás” na região do golfo do Benim todos os descendentes dos escravos libertos que retornaram do Brasil para lá. Também são agudás os descendentes dos traficantes que lá se estabeleceram nos séculos 18 e 19, e seus respectivos escravos. Em suma, todos aqueles que se utilizam da matriz cultural brasileira para se constituírem como um grupo social diferenciado. Na Nigéria, o termo tem acepção mais ampla, chegando a abranger outros grupos, como os libaneses.

Valor: Eles ainda hoje se consideram de alguma forma brasileiros?

Guran: Consideram-se sim, alguns até reivindicam passaporte brasileiro, sem razão de ser. A identidade é uma construção simbólica e eles se consideram “brasileiros” (entre aspas) e assim são considerados pelo restante da população.

Valor: Que hábitos preservaram essencialmente?

Guran: A principal marca dos agudás é o que no Benim se chama “maneiras de branco”, ou seja, uma maneira de ser à Ocidental, que tem a matriz da cultura européia e que só chegou naquela região no final do século 19, depois do estabelecimento dos agudás. É o que chamo de cultura invisível no meu livro. Um conjunto de tradições, que apresenta todos os indicadores de identidade, como os festejos do Nosso Senhor do Bonfim, o folguedo da Burrinha (uma forma arcaica do bumba-meu-boi) e passa até por expressões em português.

Valor: Quais expressões ou palavras em português eles utilizam?

Guran: Atualmente, a principal é “Bom dia, como passou?” e a resposta “Bem, brigado”.

Valor: Essas “maneiras de branco” podem ser entendidas como uma crítica do resto da sociedade para com um grupo que também é negro?

Guran: As “maneiras de branco” são simplesmente as maneiras ocidentais (européias) que se impuseram no Brasil antes de se imporem na África. No século 19, os europeus implantaram sua proposta de colonização, o que tornou essas maneiras de branco um parâmetro para toda a sociedade. Os agudás levaram do Brasil para lá essa experiência cultural. Ao assinalar isso na conduta dos agudás, o resto da sociedade estava justamente corroborando a diferença entre eles e esse grupo de africanos ou de filhos de africanos que se reivindicava diferente, ou seja, agudá e não fon, iorubá, mahi, etc.

Valor: Quais são os pratos brasileiros mais importantes entre essas famílias? Com que freqüência são preparados?

Guran: Os principais são a “feijoadá”, o “cousidou” e a “tapiocá”, todos pronunciados com sotaque francês. Os dois primeiros são os pratos oficiais das reuniões agudás. A “tapiocá”, uma espécie de beiju mole, servido com leite condensado é até mesmo vendida na rua e tem grande aceitação. Há ainda a “concada” (assim, com um “n” no meio), que designa dois tipos de doce: a nossa cocada, feita com coco verde, e o pé-de-moleque que, por sinal, é o mais comum, conhecido como um doce agudá.

Valor: Além da comida vendida nas ruas há restaurantes com essa culinária?

Guran: Que eu saiba não. Esses pratos são tradicionais entre os agudás, não entre a população em geral. O que tem maior consumo e aceitação, reconhecido como uma contribuição agudá é a “concada” na sua versão pé-de-moleque. A “tapioca” também é muito consumida na rua, tendo extrapolado o meio agudá.

Valor: Qual a diferença entre a feijoada, o cozido e a tapioca daqui e de lá? São receitas adaptadas em função dos ingredientes locais?

Guran: O princípio é o mesmo, mas há sempre adaptações. Precisamos levar em conta, também, que a matriz cultural deles lá é proveniente do século 19, no mínimo. Ou seja, talvez a feijoada que eles têm em mente não seja essa que conhecemos hoje. A feijoada deles é com feijão mulatinho e em forma de purê. Há várias carnes, mas nem sempre tem porco, já que há muitos muçulmanos lá. Em contrapartida, o cozido é bem semelhante, e a tapioca é uma espécie de beiju, bem parecida com a que comemos no Nordeste.

Valor: As novas gerações se interessam por essa cultura?

Guran: É difícil generalizar, sobretudo nesta região da África. Há as novas gerações da cidade e do campo, por exemplo, e várias nuances entre a classe média, a elite e o grosso da população. O africano normalmente é muito ligado na cultura ancestral, mesmo quando se mostra mais ocidentalizado. Entre os agudás, os velhos reclamam dos novos, mas ainda assim vejo muita vitalidade nas festas, com forte presença de jovens, sobretudo nas camadas mais populares.

Valor: Como você vê a síntese dessas duas culturas?

Guran: A escravidão é um estigma indelével nas sociedades que produziram os escravos. Essa identidade agudá – construída a partir da memória do tempo vivido no Brasil, ou seja, da própria escravidão – permitiu que antigos escravos e traficantes negreiros se unissem em um único grupo social e assim deu condição a esses libertos de operarem na sociedade que os acolheu de volta como cidadãos de plenos direitos. Essa “engenharia social” – uma espécie de “jeitinho sociológico” – é um caso único, exemplar. Não há outro país além do Brasil que possa contar com um trunfo como esse nas relações bilaterais com os países africanos. A isso se soma o fato de que o Brasil é a segunda população negra do mundo, logo depois da Nigéria. Resumindo, tem tudo a ver conosco.

(Valor Econômico – Caderno: Eu&Fim de semana – 18/07/2008 )

O idioma Banto falado no Brasil

Pomerano como segunda língua oficial

Um dialeto considerado morto pela lingüística renasce no interior do Espírito Santo como segunda língua inserida no currículo das escolas públicas dos municípios colonizados por pomeranos.

Michele Reis, coordenadora de projetos Pedagógicos da Educação de Pancas, afirma que a língua pomerana é ministrada desde 2005 nas escolas de sua cidade. “No interior do município, ainda existem famílias e crianças que só se expressam em pomerano. A aulas difundem a cultura e ajudam na socialização dos jovens”, reforça Michele.

# Pancas é o município em que vive uma das maiores colônias pomeranas do Brasil. Atualmente, a Pomerânia não existe mais. Após a 2ª Guerra Mundial, o território foi anexado pela Alemanha e pela Polônia.

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A Pátria renascida

Povo camponês de origem européia, os pomeranos se dispersaram pelo mundo ao perder seu território para nações mais poderosas. Agora, após séculos de provações, eles reafirmam sua identidade, recuperam o orgulho, as tradições e a própria língua, ensinada abertamente em casa e na escola

Além do português, no Brasil são faladas mais de 200 línguas. A maioria nativa, umas 190. As outras chegaram com imigrantes de vários continentes. Entre todos os idiomas vindos de longe, o pomerano tem uma história das mais interessantes. Primeiro, porque a antiga Pomerânia já não existe. Pertencia à Alemanha até 1945. Com a derrota alemã na Segunda Guerra Mundial, parte de seu território foi incorporado à Polônia. O restante passou a integrar o atual estado alemão de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

Porém, 1945 também marcou o início de diáspora terminal para o idioma na Europa: os pomeranos se dispersaram pela Alemanha, sozinhos ou em grupos familiares. Hoje, praticamente só os idosos falam a língua materna, que ali parece não ter chances de sobreviver. Assim, o pomerano virou patrimônio cultural de outros países, guardado por um número desconhecido de falantes.

Estima-se que sejam 300 mil no Brasil. Boa parte, cerca de 120 mil, vive no Espírito Santo. Os demais estão em Minas Gerais, Rondônia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. São descendentes dos imigrantes, talvez 30 mil, aportados entre o fim da década de 1850 e os primeiros anos da de 1870. Naquela época, a maioria dos migrantes pomeranos se transferiu para os Estados Unidos e para a Austrália, mas não há informações seguras sobre o estágio em que se encontra o idioma naqueles países. Aqui a cultura deste antigo povo báltico sobreviveu durante mais de um século sob a pressão da ignorância, dos preconceitos e, não raro, da brutalidade de outros brasileiros. Em Santa Maria de Jetibá – a cidade mais pomerana do Brasil -, o etnolingüista Ismael Tresmann diz que várias pessoas já lhe mostraram marcas de porretadas no corpo. Golpes desferidos por professores que puniam as crianças pomeranas por não saberem português. A violência e a humilhação foram terríveis. A ponto de levar muita gente a não ensinar o pomerano aos filhos, ou a ser contrária ao ensino da língua na escola.

Isso é coisa do passado. Hoje, pelo menos um caminhão circula pelas ruas de Santa Maria de Jetibá com a inscrição: 100% pomerano. O proprietário, com razão, é alguém que se orgulha de pertencer a um povo camponês, muito trabalhador. E destemido. Imagine-se na pele deles, num país estranho, isolado nas montanhas, construindo estradas, casas, tudo, enfim, sem qualquer apoio oficial. Contudo, se a velha Pomerânia sumiu do mapa, para os pomeranos, onde quer que estejam, sua pátria é a língua ancestral. Se ela morresse, condenaria ao esquecimento um acervo cultural formado em grande parte muito antes da descoberta do Brasil. Dele constam as festas comunais, com seus rituais, danças e músicas, além dos costumes, dos atos mágicos que acompanham os ritos de passagem, como o casamento e a morte, e a narrativa fantástica de tradição oral camponesa, enumera Ismael Tresmann. Ele observa que toda língua falada por menos de cinco mil pessoas está sob risco de extinção. Não no caso do pomerano. Além disso, cinco municípios capixabas (Domingos Martins, Santa Maria de Jetibá, Pancas, Vila Pavão e Laranja da Terra) se uniram no Proepo – Projeto de Educação Escolar Pomerano. O objetivo do projeto, que começou em 2005 com a formação de professores da rede pública para o ensino do idioma, é valorizar e fortalecer a cultura pomerana a partir das escolas. A maior parte dos 150 professores inscritos fala o pomerano. Dos demais, o aprendizado requer dedicação. ‘A exemplo de outras línguas sintéticas, o pomerano tem declinações. E três gêneros – masculino, feminino e neutro. Portanto, foge muito do padrão do português, e exige muito esforço de quem estuda’, reconhece Tresmann. Além disso, um bom mestre tem de compreender a cultura. Os pomeranos são camponeses. Raciocinam com uma lógica diferente daquela da cidade. Vivem dos produtos da terra e por isso são muito ligados a ela. Uma das dificuldades que tinham para se identificar abertamente como pomeranos é porque são da roça. No Brasil não é comum a pessoa ser aceita e aceitar-se como camponesa, caipira. Basta lembrar que o ‘erre retroflexo’ (a letra ‘r’ dobrada, característica de falares do interior de São Paulo, partes de Minas Gerais e Paraná) é muito estigmatizado.

Localização espacial de Santa Maria de Jetibá, a capital dos pomeranos no Brasil, situada a 87 quilômetros de Vitória

Com o Proepo se pretende elevar a auto-estima das crianças e jovens. Como diz Tresmann para seus alunos: ‘Nós, de ascendência pomerana, juntamente com os brasileiros descendentes de outros povos, somos camponeses. Alimentamos o Brasil’. Depois, alfabetizar-se no próprio idioma é um direito universal, proclamado há anos pela ONU – Organização das Nações Unidas. E o Brasil fará bem em enxergar sua condição de país multilíngue, multicultural. Tresmann está no centro do movimento, como consultor e professor. Doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é a maior autoridade no assunto. Autor de um dicionário pomerano-português, com 16 mil palavras, pretende organizar o dicionário português-pomerano, além de uma gramática para o ensino da língua. A feitura do dicionário, lançado pelo governo capixaba em outubro de 2006, lhe consumiu dez anos de trabalho. Foi uma tarefa muito solitária. ‘Várias pessoas ajudaram, mas como não puderam se dedicar em tempo integral, não tive uma equipe de fato. Só posso dizer que 16 mil palavras é um número elevado para uma língua que era apenas falada, que não tinha uma escrita.’ Ele sabe, é óbvio, que a obra estará sempre em construção. O pomerano, como qualquer outra língua, tem empréstimos, que são essenciais para as áreas técnicas, principalmente. É o caso do vocabulário de informática, que precisa ser incluído. Tresmann tem outro objetivo: elaborar uma gramática pedagógica do pomerano.

‘Por enquanto, escrevi aspectos da gramática, no mestrado. Um estudo mais para a lingüística mesmo. E também estabeleci uma ortografia para o pomerano, a partir de estudos científicos’. Esse sistema ortográfico foi utilizado no livro Upm Land – Up Pomerisch Sprook (Na Roça – Em Língua Pomerana), de 120 páginas, ilustrado. Trata-se de uma coletânea de textos escritos por capixabas e rondonianos, organizada por Tresmann, tratando de aspectos variados da vida rural pomerano-brasileira. Iniciativa pioneira, o livro abre caminho para o nascimento de uma literatura pomerana escrita.

‘Mas ainda falta registrar muita coisa da tradição oral. Temos um conjunto imenso de narrativas, de lendas. Encontro cada vez mais contadores de histórias, e isso me deixa contente. Escrevo parte delas, mesmo correndo o risco de fixar uma versão – como o registro da história de Adão e Eva na Bíblia, que com certeza tinha outras versões. Mas preciso escrevê-las, caso contrário poderemos perdê-las. As que mais se perdem são as que relatam a vinda dos imigrantes para o Brasil, e os primeiros tempos aqui, que só os mais velhos sabem contar.’

De toda forma, os avanços são ponderáveis. Tanto assim que o Proepo já tem desdobramentos em Santa Maria de Jetibá. ‘O mais importante é um movimento pela co-oficialização do pomerano, que permitirá a implantação do ensino bilingüe na rede municipal’, explica Sintia Bausen Kuster, coordenadora do Programa na cidade. O processo conta com a assessoria do professor Gilvan Müller de Oliveira, do Ipol – Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Lingüística, entidade com sede em Florianópolis. O Ipol já conseguiu co-oficializar três línguas indígenas. Pelo que se viu, o pomerano marcha para o futuro em rota de colisão. E os capixabas que deixaram de falar a língua com seus filhos agora reconsideram essa postura. ‘O próprio Estado, que um dia nos perseguiu, agora reconhece a importância da língua e da cultura pomeranas, abrindo portas e janelas para que sejam temas de redação, de gincanas e de brincadeiras nas escolas. Há incentivo para que os alunos falem pomerano entre si e com o professor’, diz Tresmann. Nas escolas, as professoras relatam avanços encorajadores da integração entre as crianças. Tresmann comenta: ‘As que não falam pomerano estão se interessando pela língua. Juntam-se para as brincadeiras e para aprender a cantar. Se os pomeranos aprendem português, porque o contrário não pode suceder? Não é uma coisa forçada, é o convívio. Há em vários municípios muitos brasileiros que falam o pomerano muito bem’. O lavrador Adnivaldo José dos Santos é um bom exemplo. Além de saber a língua, já ganhou vários prêmios como concertinista (a concertina, originária da Europa Central, é um instrumento parecido com o acordeão, sempre presente nas festas pomeranas). A experiência de pessoas como Adnivaldo mostra que as acusações feitas aos pomeranos de buscarem o isolamento são infundadas. O processo de integração foi demorado, mas sempre existiu. Nenhuma comunidade vive ou viveu isolada. Claro que os pomeranos permaneceram unidos por causa da língua, da religião, da cultura. Afinal vieram para um país católico, e são luteranos. Mas outros povos conviveram mais entre si.

No caso dos grupamentos judeus, muçulmanos e outros, em qualquer lugar. Empréstimos tomados ao português pelo pomerano são uma evidência de que a necessidade levou os imigrantes a buscar contato com o resto da população, desde a sua chegada ao Brasil. Temos em português louro e loiro. No passado havia foi-se e ‘fou-se’. Não se fala mais fou-se, que permanece apenas no pomerano como ‘fouss’, informa Tresmann. E há muitos outros casos como esse. Os pomeranos desciam as montanhas e iam até Santa Leopoldina, tentavam conversar. Com o tempo, passaram a ter um ou outro intérprete. E também foram aprendendo português. Algum comércio sempre existiu. Precisavam de roupas, querosene, e outras utilidades. E quem fornecia essas mercadorias essenciais? ‘Die vende’ (a venda!).

Santa Maria de Jetibá tem bons motivos para se auto-proclamar a cidade mais pomerana o Brasil. De acordo com Wanderley Stuhr, secretário municipal de Agropecuária, mais de 70% dos 32 mil santa-marienses são descendentes de pomeranos. E a maioria deles vive no campo, em cerca de cinco mil propriedades familiares. Nesse território, recortado em pequeninas unidades de produção, os agricultores se dedicam às culturas do café, gengibre, verduras, legumes e morangos. O próprio Stuhr cultiva e exporta gengibre. Contudo, o município, tendo algumas granjas de grande porte, ocupa o segundo lugar no ranking dos maiores produtores de ovos do país, com média diária de seis milhões de unidades. A presença da agricultura orgânica é marcante. Santa Maria de Jetibá tem o maior número de propriedades certificadas no Espírito Santo. Iosmar Luiz Mansk, um dos produtores, especializou-se também no comércio, por meio da empresa Bom Fruto, da qual é sócio. A Bom Fruto trabalha em parceria com vários agricultores, a quem presta assistência técnica e auxilia no planejamento das propriedades.

O pomerano começou a nascer em meados do século XII (1101 a 1200), quando se iniciou a colonização da antiga Pomerânia por alguns povos germânicos provenientes do norte da atual Alemanha. Eles falavam línguas que também deram origem ao pomerano, ao holandês e ao flamengo. Por isso esses três idiomas pertencem à mesma família linguística, o chamado baixo-saxão. Por volta de 1400, quando a Europa entrava na Renascença, o pomerano já estava formado e era escrito. Assim, durante algum tempo, foi a língua utilizada nas relações comerciais em toda a orla do Báltico. O apogeu de sua influência durou pouco por causa da Reforma empreendida por Marinho Lutero, que traduziu a Bíblia para o alemão. Graças a Lutero, o alemão terminou por se firmar como linguagem dominante, e o pomerano entrou em declínio a partir de 1530, sobrevivendo apenas de forma oral. Foi a língua que os manteve unido e lhes deu força para conquistar às matas as terras férteis.

Os pomeranos tem tanto apego à terra quanto às suas tradições, entre as quais se destaca a festa de casamento. Animadíssima, a comemoração dura de dois a três dias, com mesas recheadas de pratos típicos para os almoços e jantares, e bailes ao som das concertinas. Foi assim por ocasião do enlace de Fernanda Boldt com Leandro Raasch, em um distrito de Santa Maria de Jetibá. Os preparativos se iniciaram numa quinta-feira. Na sexta, durante o baile, houve quebra de pratos, como manda o costume. Após a cerimônia religiosa, realizada na tarde do sábado, a festa recomeçou, estendendo-se noite adentro, até que o último convidado se retirasse.

MAPA ESQUEMÁTICO da antiga Pomerânia, cujo território, à beira do mar Báltico, abrangia partes da Alemanha e da Polônia atuais

Fonte: Revista Globo Rural
Leia a matéria original:
http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC1671261-1641,00.html

Línguas (quase) mortas

Renata Mariz

A diversidade lingüística do Brasil vai muito além dos regionalismos. Variações locais como macaxeira, mandioca e aipim, por exemplo, nada são perto da riqueza de idiomas que existe no país. Estão notificadas, incluindo o português, cerca de 215 línguas faladas em território nacional. No mundo, esse número chega a 7 mil. A cada 14 dias, no entanto, um idioma desaparece. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas, que definiu 2008 como o Ano Internacional dos Idiomas. No Brasil, as línguas mais ameaçadas de extinção são as indígenas.

As perdas vêm ocorrendo há séculos. Quando os portugueses desembarcaram no Brasil, havia cerca de 1.270 línguas faladas por índios. Hoje, o número é 85% menor — restam, aproximadamente, 180 idiomas. Jurema Machado, coordenadora do setor de cultura da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, alerta sobre os prejuízos da extinção lingüística. ‘‘Não se trata apenas de perder um sistema de códigos. A língua revela uma visão de mundo, traz conhecimentos próprios daquela sociedade’’, diz Jurema.

Enquanto o Brasil perdia muitos idiomas nas aldeias, ganhava alguns com a imigração. A chegada de japoneses e europeus a partir do século XIX resultou em línguas novas, como o talian, trazido do norte da Itália. Hoje, a língua, que sofreu adaptações no Brasil, é falada por quase dois milhões de pessoas no Rio Grande do Sul. Existe até uma entidade, a Associação dos Radialistas em Talian, que produz programas no idioma. A hunsrückischi, formada a partir da vinda de alemães, é outra língua de imigração com número expressivo de falantes no oeste de Santa Catarina, Paraná e parte do Mato Grosso.

Da senzala
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Há, ainda, duas línguas crioulas no país, nascidas com o processo de escravidão e atualmente faladas no Amapá. ‘‘Pessoas de diferentes idiomas, que eram colocadas numa mesma senzala para não se comunicarem, acabaram inventando um sistema. Quando nasceu a primeira geração de filhos, eles gramaticalizaram isso’’, explica o lingüista Gilvan Müller, coordenador do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Lingüística (Ipol) e professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Ele ressalta que a diversidade não termina por aí. ‘‘O surgimento de línguas é um processo dinâmico. Nos últimos cinco anos, observamos a chegada de idiomas indígenas bolivianos, como o quechua e o aymara, com a vinda desses povos para cá, especialmente em São Paulo’’, afirma Müller. Ana Vilacy, coordenadora do Museu Paraense Emilio Goeldi, trabalha com a documentação de cinco línguas indígenas já consideradas extintas. O salamãy, praticado em Rondônia, por exemplo, tem um falante atualmente. ‘‘Os últimos falantes geralmente são pessoas idosas, que nem se lembram bem da língua’’, lamenta Ana.

O professor Aryon Dall³Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília e um dos maiores especialistas em língua indígena do país, relata os motivos da extinção rápida dos idiomas. ‘‘Tudo se resume à pressão externa negativa. Primeiro a terra deles é ocupada, e isso leva ao conflito e ao extermínio. Depois tem a postura dos missionários, que não querem aprender a falar como os índios. Então, o português fica sendo a língua de prestígio’’, destaca Rodrigues. Das 2.480 escolas indígenas em funcionamento no país, cerca de 1.870 oferecem ensino bilíngüe. Susana Grilo, coordenadora geral de Educação Escolar Indígena do Ministério da Educação, explica que muitos povos perderam a utilização da própria língua, o que dificulta o uso em sala de aula. ‘‘Muitas comunidades acabaram adotando o português’’, diz. Outra dificuldade, segundo ela, está na escassez de material didático específico. ‘‘Muita coisa já foi feita com o apoio do ministério, como livros escritos pelos próprios indígenas, mas ainda há carência nesse aspecto’’, ressalta Susana.
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