Jornal português decide não adotar novo acordo ortográfico

Redação CORREIO – 02.01.2010

O Jornal Público, de Portugal, decidiu que não irá adotar o acordo ortográfico que propõe unificar a língua portuguesa em todo mundo. No editorial do dia 30 de dezembro, o jornal disse que  ‘vamos continuar a escrever a nossa língua como a escrevemos hoje’.

Para o jornal, não há vantagens ou necessidade premente do acordo. ‘Excluindo a polémica sobre a “tradição” do português e o papel das consoantes mudas e as suas variações nos oito países da CPLP, há ainda uma última e fatal fragilidade neste acordo – as regras definidas são facultativas. Para que serve então um acordo global se, afinal, é indiferente escrevermos António ou Antônio?’, diz o texto.

O acordo está em vigor desde janeiro de 2009, mas a regra atual vale para vestibulares e concursos públicos até dezembro de 2012. A novidade chegará aos livros didáticos em 2010, quando os próximos exemplares deverão ser editados de acordo com a nova ortografia.

Fonte: Correio

LUSOFONIA OU ILUSOFONIA?

Marcos Bagno – Setembro de 2009

Na conferência de encerramento de um importante congresso de linguística realizado em Salvador em julho último, o linguista Carlos Alberto Faraco perguntava: “Lusofonia, utopia ou quimera?” Fazendo uma preciosa análise das diferentes “fonias” existentes (a francofonia, a anglofonia e a hispanofonia), Faraco concluiu que a tal “lusofonia” está anos-luz de distância de ser algo parecido com essas outras poderosas políticas linguísticas. Nós, brasileiros, pouco nos lixamos para ela, que é um tema muito mais debatido em Portugal do que nos demais países de língua oficial portuguesa. Ao contrário das demais “fonias”, a lusa não tem instituições fortes e atuantes, que de fato causem impacto nos lugares onde atuam. Tudo se resume a entidades inócuas e a um discurso de samba-exaltação sem consequências concretas. Ao contrário das outras também, que são sustentadas por nações importantes e ricas – França, Grã-Bretanha (a chamada Commonwealth não inclui os Estados Unidos, somente as ex-colônias britânicas tornadas independentes durante o século XX) e Espanha (quinta maior economia da Europa) -, a lusofonia tem como principal arauto um país em tudo periférico da União Europeia, desimportante na geopolítica mundial e nem de longe uma potência econômica. Não bastasse isso, os demais países “lusófonos”, excetuando-se o Brasil, encabeçam a lista das nações mais pobres e subdesenvolvidas do mundo: Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Timor. As três primeiras dependem exclusivamente da ajuda internacional para sobreviver. Com isso, dá para dizer que se trata, de fato, de uma “ilusofonia”, uma quimera que Portugal não tem a menor possibilidade de sustentar. Ainda assim, Portugal age com prepotência colonial: não reconhece os certificados de proficiência em português emitidos pelo Brasil e impede (por lei!) que professores brasileiros ocupem as cadeiras de ensino da língua em universidades estrangeiras. Na União Europeia, proíbe-se que os tradutores simultâneos para o português sejam brasileiros… Portugal parece se alimentar do mito bíblico de Davi contra Golias, mas a realidade sociopolítica e econômica do mundo atual é coisa muito mais séria do que qualquer mito sebastianista de Quinto Império. No entanto, isso não nos autoriza a jogar no lixo o projeto de uma comunidade de povos falantes do português. O fundamental é que ela seja conduzida, em conjunto, pelos dois únicos países em que o português é língua hegemônica em todo o território: Brasil e Portugal. E que o Brasil abandone sua secular posição de subserviência e mostre a Portugal que quem manda mesmo, hoje, na língua, somos nós e que cabe a Portugal, isso sim, seguir os passos das políticas linguísticas que nós propusermos. O caso recente do acordo ortográfico foi exemplar. Como me disse Gilvan Müller de Oliveira, especialista em política linguística, “Portugal saiu para pescar e quando voltou o Acordo Ortográfico já estava implantado e ele não podia fazer mais nada”. A chiadeira portuguesa contra a nova ortografia não pode alterar o fato consumado. O Acordo, que o Brasil já implementou com tremendo sucesso (apesar das críticas bobocas e desinformadas de muita gente), representa um passo gigantesco na promoção de uma verdadeira política lusófona, na qual ou Portugal se conforma com a posição que lhe cabe ou vai ficar numa obscuridade periférica ainda mais profunda do que aquela em que já está mergulhado, com saudades do que não foi.

Revista Caros Amigos

Congresso poderá autorizar revisão de acordo ortográfico

Da Agência Senado
Em Brasília – 04/11/2009

O Congresso Nacional poderá autorizar o governo brasileiro a rever o acordo ortográfico firmado com os demais países de língua portuguesa. A sugestão foi apresentada pela senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), após ouvir diversas críticas feitas ao acordo, durante audiência pública sobre o tema, realizada nesta quarta-feira (4) pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE).

A aprovação de uma lei que autorize o governo a sugerir modificações no texto da reforma ortográfica é uma das alternativas a serem analisadas pela comissão, segundo a senadora, que defendeu o aprofundamento do debate sobre a reforma com a sociedade. O Brasil foi o único país que adotou oficialmente o acordo, assinado em 1990. Segundo o texto, implantação das mudanças na língua deverá estar concluída até 2013.

O presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia, Leodegário Amarante de Azevedo Filho, observou que existe grande resistência à adoção da reforma ortográfica estabelecida pelo acordo, principalmente entre escritores portugueses. Em sua opinião, o acordo foi feito para as próximas gerações, que já aprenderão a língua segundo a nova ortografia. Mesmo assim, ele apontou a existência de problemas como a extinção do trema, que tem uma função ao indicar a pronúncia das palavras, e a manutenção de consoantes mudas, como o c na palavra ‘actor’.

“Os portugueses não abrem mão das consoantes mudas, que não têm função, enquanto o trema, que tem função, foi eliminado”, comparou.

A reação dos portugueses à mudança também foi ressaltada pelo representante da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, Walter Esteves Garcia. Na opinião de escritores de Portugal, relatou, o Brasil está querendo impor uma revisão da língua ao país onde a língua foi criada.

O acordo foi duramente criticado pelo professor Ernani Pimentel, que lançou o movimento Acordar Melhor, destinado a aperfeiçoar a reforma ortográfica. Em primeiro lugar, ele lembrou que as mudanças começaram a ser debatidas em 1975, quando ainda nem existia a internet. Além de anacrônica, observou, a reforma também teria fugido a seus objetivos, quando, por exemplo, eliminou o trema. Em sua opinião, a reforma ortográfica deveria eliminar exceções a regras e duplas grafias, além de padronizar os radicais.

“Não houve uma discussão democrática e aberta”, afirmou Pimentel.

Após ouvir os expositores, o senador Flávio Arns (PSDB-PR) disse ter ficado “abismado com o nível de dificuldade que o acordo está trazendo para a vida nacional”. Se existem tantas objeções à reforma aprovada, ele perguntou quem estaria a favor do acordo. Por sua vez, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) defendeu a revisão do acordo, após perceber a existência das falhas mencionadas pelos expositores.

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/11/04/ult5772u5947.jhtm

Portugal: parlamento volta a debater reforma ortográfica

Jornal do Brasil

DA REDAÇÃO – Apesar de o tema ter sido amplamente discutido entre países que têm a língua portuguesa como oficial, o Acordo Ortográfico – em vigor no Brasil desde janeiro – teve novo revés. Quarta-feira, o Parlamento português discutiu uma proposta de renegociação da reforma, mesmo tendo sido aprovada por governo e Assembléia da República. Ao final da discussão, o Partido Socialista se viu isolado a favor do novo acordo.

Segundo a BBC Brasil, na proposta, que chegou ao Parlamento graças à uma petição assinada por 113.206 portugueses (são necessárias 5 mil assinaturas), pede-se que o governo reveja os pontos da reforma ortográfica, considerados pelos organizadores do abaixo-assinado contraditórios.

– Pede-se que o governo abra negociações com o objetivo da revisão dos termos do acordo. Na nossa opinião, o acordo teria de ser revogado porque é um acúmulo de disparates – explica o deputado Vasco Graça Moura, um dos organizadores do abaixo-assinado.

De acordo com Moura, a “petição foi discutida na Comissão de Ética e Sociedade da assembléia e o relatório do deputado Barreiras Duarte, que dá razão à petição, foi aprovado por unanimidade”.

Dos países lusófonos, apenas o Brasil deu início oficialmente ao período de transição da aplicação do acordo. Portugal, Brasil, São Tomé e Cabo Verde são os países de língua portuguesa que já aprovaram o acordo. A data para o início do período de transição ainda não foi determinada em Portugal. Em entrevista à Lusa, uma fonte dos peticionários disse que o debate no Parlamento poderá alterar algumas “situações caóticas” que o acordo prevê.

– Se os fundamentos científicos e lingüísticos que sustentam a petição forem tidos em conta, poderá impedir-se o caos ortográfico que acontecerá, de um e outro lado do Atlântico, se o acordo for integralmente avante – observou.

Segundo o documento final, a reforma “enferma de vícios suscetíveis de gerarem a sua patente inconstitucionalidade”. Para os assinantes da petição, as justificativas para acordo são falsas: discordam de que ele vai ajudar a combater o analfabetismo com a simplificação e ajudar a língua portuguesa a se impor como língua internacional. Também dizem que a justificativa para a adoção não tem base científica.

Entre as principais queixas dos críticos ao acordo está a de que a eliminação de “p” e “c” não pronunciados em palavras como “óptimo”, “Egipto”, “acto” ou “facção” abandona a etimologia das palavras

21:50 – 20/05/2009

Para Rubem Alves, o povo faz a língua

Folha de S. Paulo (04/01/2009)

Para o escritor Rubem Alves, 75, quem deveria ter feito a reforma eram os escritores, que são os “amantes da língua”, e não os gramáticos.

O colunista da Folha diz que não irá se adaptar às mudanças nos seus livros, mas diz que, na sua coluna semanal, aceitará a reforma. A exceção será para os casos em que houver prejuízo à compreensão do texto. “Há situações em que vou desobedecer.”
Leia trechos da entrevista. ( LUISA ALCANTARA E SILVA)

FOLHA – O senhor é favorável ao Acordo?
RUBEM ALVES –
Não seguirei. O povo faz a língua, não os gramáticos. Há coisas horríveis na língua, como “pra mim fazer”, mas, como falam, mais cedo ou mais tarde isso fará parte da gramática.

FOLHA – Como fará com os seus livros? Não vai querer que mudem?
ALVES –
Não. Já numa outra reforma, antigamente havia estória e história. Os gramáticos tiraram “estória”, deixando apenas história, mas são tão diferentes quanto abacaxi e ovo de avestruz. Escrevi um livro baseado na diferença entre história e estória. A história é aquilo que ocorreu no passado e nunca mais acontece, a estória é aquilo que acontece toda vez que ela é contada. Você sabe que o maldito revisor, sem me consultar, botou tudo igual, tudo com “h” e arrasou o livro.

FOLHA – E agora, como o livro é publicado?
ALVES –
Voltou ao certo, quando tem estória é estória e quando é história é história [a primeira edição da obra foi publicada como “O Poeta, o Guerreiro, o Profeta”; a versão atual é “Lições de Feitiçaria – Meditações Sobre a Poesia”].

FOLHA – Então o senhor não vai querer que os seus livros sejam adaptados?
ALVES –
Ah, não quero que seja adaptado, não. Sabe, estou meio como o [escritor português José] Saramago. Ele não admite que ninguém corrija o português dele. Não tem ponto, não tem vírgula. Acho que seria melhor se os escritores tivessem se reunido para fazer a reforma, e não os gramáticos.

FOLHA – Por quê?
ALVES –
Porque os gramáticos são os anatomistas da língua, e os escritores são os amantes. Então, eles têm regras diferentes

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0401200915.htm