Gerundismo e o Preconceito Lingüístico

Luciana Soares Fernandes

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A mídia geralmente publica artigos carregados de normatividade, o que pode não só confundir a maneira como as pessoas falam como também o julgamento do outro que fala diferente. Com isso contribui para a discriminação da parte significativa dos falantes e, conseqüentemente, contribui para sua exclusão da participação nos círculos relevantes do ponto de vista social, político e cultural. E mais, muitas matérias publicadas na mídia se aproximam ou atingem, em certos casos, o preconceito.

Por que isso acontece? Um primeiro fator: sem fazer um estudo mais aprofundado da Lingüística, não percebem a variação e a mudança que ocorrem na língua. O gerundismo representa um exemplo do que foi antes afirmado.

REFLEXÕES TEÓRICAS

Para desmistificar a tradição normativa geralmente divulgada na mídia, é necessário compreender, do ponto de vista das pesquisas lingüísticas, alguns conceitos sobre linguagem, língua, os tipos de gramáticas, além do conceito de erro e preconceito lingüístico.

Primeiramente é necessário reconhecer a diferença da concepção de linguagem e de língua. Linguagem é o uso que cada falante faz de uma língua e é utilizado para a interação entre os indivíduos , enquanto constitui a subjetividade. A língua é viva, dinâmica e heterogênea. E sofre mudanças ao longo do tempo.

Toda língua pressupõe uma gramática. Mas, por sua vez, o termo gramática apresenta dois sentidos que aqui devem ser explicitados:

(1) a gramática normativa tem como definição, segundo POSSENTI (2002, p. 64), “conjunto de regras que devem ser seguidas, para tanto apresentam um conjunto de regras, relativamente explícitas e relativamente coerentes, que, se dominadas, poderão produzir como efeito o emprego da variedade padrão”.

(2) a gramática descritiva, ainda para POSSENTI (2002, p. 65), “é um conjunto de regras que são seguidas, é a que orienta o trabalho dos lingüistas, cuja preocupação é descrever e/ou explicar as línguas tais como elas são faladas”.

E de gramática advém o conceito de erro, que é diferente para as duas gramáticas. Sempre segundo POSSENTI (2002, p. 78), para a gramática normativa “erro é tudo aquilo que foge à variedade que foi eleita como exemplo de boa linguagem”. Essa boa linguagem é quase sempre idealizada e sempre buscada num passado mais ou menos distante, sendo, portanto, em boa parte arcaizante. Por outro lado, de acordo com POSSENTI (2002, p. 79), “na perspectiva da gramática descritiva, só seria erro a ocorrência de formas ou construções que não fazem parte, de maneira sistemática, de nenhuma das variantes de uma língua”.

Com essa concepção surge o preconceito lingüístico, que, para SCHERRE (2005) está diretamente relacionado com a classe social do falante: quanto maior o poder e as condições sociais do falante, mais prestigio tem a variante que falam.

APRESENTAÇÃO DO CORPUS

O artigo foi elaborado através da análise e discussão do corpus construído a partir da coluna “Xongas”, publicada na revista Época e no jornal O Estado de S. Paulo, da autoria de Ricardo Freire. São as seguintes matérias: “Gerundismo”, publicado em 16 de fevereiro de 2001, essa crônica foi amplamente divulgado na mídia principalmente na Internet tornando-se um marco contra o gerundismo, pois ela é escrita usando o gerundismo e tem uma carga muito grande de preconceito lingüístico. “Em 2004, gerundismo zero!” Publicada em 29 de dezembro de 2003, “Verbas que curam” de 18 de outubro de 2004, e “Curriculum vitae” de 06 de junho de 2005.

Resultados

Por gerundismo vem se entendendo a combinação do verbo “ir” com o verbo “estar”, acrescidos do verbo principal na forma de gerúndio. Supostamente tal construção surgiu de uma (má) tradução do inglês para o português, em manuais de telemarketing. Importa marcar que nessa palavra, o sufixo ismo tem significado pejorativo, como em esquerdismo, denuncismo, assembeísmo e outros.

Na primeira crônica a ser analisada “Gerundismo”, o autor coloca “Aqui vai a última flor de Lácio”. A ironia já começa quando o autor dirige-se à Língua Portuguesa como “flor do Lácio”, com essa expressão geralmente utilizada poeticamente para engrandecer a Língua Portuguesa, ele, no entanto critica uma construção de uso, aparentemente, novo na Língua Portuguesa, estabelecendo a ironia. Freire faz essa matéria e pede para ser divulgada para que as pessoas entendam como esse “vício maldito” conseguiu entrar no dia-a-dia, explicando que ela não passa de uma tradução mal feita dos manuais de telemarketing escritos inicialmente em inglês.

Quando coloca “vício maldito” o autor já mostra que segue a tradição das gramáticas normativas que considera erro ou vício de linguagem tudo o que difere de suas regras de “bom uso”. Os lingüistas, por sua vez, discordam dessa posição e defendem que as novidades quase sempre são bem aceitas, exceto por aqueles que cuidam da língua nos domínios da gramática normativa. Em outra passagem, Freire garante que a primeira pessoa que inventou o gerundismo:

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Sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas.
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Com essa afirmação demonstra mais uma vez a intransigência para com as novas construções que surgem na língua. Se o gerundismo está presente na língua e está sendo usado por inúmeras pessoas, essa construção não pode ser considerada “uma infelicidade lingüística”. Ela está servindo aos propósitos de muitos falantes em muitas situações, mas isso é desconsiderado por amor à regra.

Uma pergunta do autor merece comentário:

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O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?
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Eu posso apoiada pela Lingüística posso responder a essa preconceituosa pergunta, esse “negócio” só vai enriquecer o cérebro das futuras gerações que terão uma visão diferente da língua e deixarão essa noção incisiva das gramáticas normativas de que existe erro em língua. As futuras gerações irão saber que o que existe realmente são usos diferentes da língua e que, quando analisados com critério, revelam-se perfeitamente sua regularidade e coerência.

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Na continuidade, Freire também advoga que:

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“A única solução para acabar com o problema é submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos como ‘a nível de’, o ‘enquanto’, o ‘pra se ter uma idéia’e outros menos votados”.
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O que o autor propõe é de extremo preconceito, pois como você pode expor construções usadas por inúmeras pessoas à desmoralização? O que será desmoralizado, as construções lingüísticas ou as pessoas que as usam? É preciso pensar seriamente nessas propostas aparentemente engraçadinhas, mas que podem levar a exclusão social de muitas pessoas.

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Na outra matéria escolhida para a análise “Em 2004, gerundismo zero!” Freire continua a tratar do gerundismo de maneira preconceituosa:

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Uma terrível praga que se propaga pelo ar, pelas ondas de TV e pelas redes telefônicas…
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Mas esse tipo de construção passou a integrar as possibilidades expressivas da língua, ou não seria usado. Se essa forma não for compatível com os usos do Português, irá desaparecer com o tempo, como tantos modismos. Se for compatível e aceito pela comunidade dos falantes, vai ser incorporado à língua portuguesa, como aconteceu antes com outras construções.
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Mas Freire não pensa assim e insiste em que a única maneira de acabar com o gerundismo é corrigindo as pessoas ,

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O que só aumenta a nossa responsabilidade como vigilantes e educadores.
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Responsabilidade como educadores? Que tipo de educador o autor está se referindo? Ao educador que segue fielmente as gramáticas normativas sem antes ao menos ler uma análise da Lingüística e perceber os equívocos dessas gramáticas? O educador que não está atento para a variação e para a mudança lingüísticas? A missão de um educador deve ser ensinar a norma padrão, mas o padrão atual, e sem excluir as outras variantes lingüísticas.

No entanto Freire, nesse artigo de extremo radicalismo contra o gerundismo, acaba contradizendo, sua própria teoria quando aconselha o combate às formas por ele mesmo consideradas corretas:

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… precisamos evitar até mesmo os casos em que o vou estar fazendo esteja certo. Por exemplo, em vez de dizer ‘ Não ligue agora para o seu tio, porque ele deve estar jantando’ – o que é perfeitamente correto – diga: Não ligue agora para seu tio, porque é hora do jantar.
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E também afirma que:

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Gerundismo poderia dar pontos na carteira de motorista. Poderia aumentar a alíquota do Imposto de Renda do infrator. As universidades públicas poderiam inovar o sistema de cotas. Que tal: 100% das vagas para não-gerundistas?!!
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Outra afirmação engraçadinha e absurda que só leva ao preconceito lingüístico. As outras duas matérias escolhidas também tratam do gerundismo de maneira preconceituosa, “Curriculum vitae” trata de uma pessoa que quer ser artista, que é mulher e loira e em suas falas ela usa o gerundismo:

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Tendo em vista o fato de no momento eu não estar fazendo ‘xongas’, achei que o senhor seria a pessoa certa para estar me ajudando.
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nesse texto percebe-se o estereotipo que o autor faz da mulher e o dirige-se a um tipo social estigmatizado pela sociedade como fútil e pouco inteligente, nessa crônica, como nas outras, Freire julga e condena os falantes pela sua maneira de falar. Em “Verbas que curam”, mesmo não tratando do tema, o autor faz uma crítica ao gerundismo:

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De minha parte, vou aproveitar a bonança de verbas publicas para montar uma igreja, uma clínica ou uma associação que recupere pessoas viciadas em gerundismo (por exemplo: “um dia você vai poder estar aprendendo a estar parando de falar assim”).
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Como se as pessoas, por estarem doentes, viciadas, precisassem de recuperação para questões relacionadas ao uso da língua e tivessem que parar de usar o gerundismo, que é completamente aceito dentro de uma variedade lingüística. Com isso o autor assume sua visão conservadora construída pelas concepções que norteiam gramática normativa.

Para explicar que o gerundismo é perfeitamente aceitável do ponto de vista da Lingüística, recorro a POSSENTI (2001) que coloca que não é estranha essa forma de construção tão criticada. Seu único problema é não ser abonada pelas gramáticas.

O primeiro ponto abordado pelo autor é sintaxe da locução: a ordem dos verbos auxiliares é perfeitamente canônica. Sabe-se que os verbos auxiliares vêm sempre antes do principal (como em “vou sair”). Se houver mais de um auxiliar, haverá ordens permitidas e outras proibidas (“tenho estado viajando”, mas não “estive tendo viajado”; “vou estar saindo”, mas não “estarei indo sair”). Concluindo, a nova locução está em perfeito acordo com a sintaxe do português: sua ordem é ir + estar + ndo. É, pois, absolutamente gramatical do ponto de vista da Lingüística. A estrutura do gerundismo também é sempre a mesma, (ir+estar+ndo), não há construções do tipo (estar vou enviando, estarei indo sair) o que seria um desvio das estruturas gramaticais da Língua Portuguesa.

O gerundismo, ainda segundo POSSENTI (2001), também é utilizado para veicular aspecto durativo (ou seja, anuncia um evento que durará algum tempo para se realizar). O autor observa que não é a mesma coisa dizer “vou mandar” e “vou estar mandando”, exatamente por causa da diferença entre “ir” (que marca só futuro) e “ir + estar” (que marca futuro, por causa de “ir”, e duração, por causa de “estar”). “Vou estar providenciando” significa, entre outras coisas, que a providência não se dará instantaneamente. Além disso, o compromisso expresso em “vou providenciar” é mais incisivo do que o expresso em “vou estar providenciando”.

Segundo POSSENTI (2001), também há outro aspecto importante do gerundismo: essa expressão conota gentileza, formalidade e deferência.

Considerações Finais

Ao fazer a análise do corpus, baseada nas concepções da Lingüística, trabalhando especialmente com Possenti, pude verificar que, na mídia, é comum e dá prestígio, ou ibope, sustentar-se na tradição normativa para a elaboração de matérias, como as colunas de Freire.

Ignorando as pesquisas e concepções da Lingüística, em muitas de suas matérias, a mídia acaba provocando o preconceito lingüístico e conseqüentemente o preconceito contra as próprias pessoas que fazem o uso de certas construções ou variedades língua.

Termino meu artigo citando SCHERRE que expõe claramente o que a mídia e a sociedade fazem em nome da norma culta:

Em nome da boa língua pratica-se a injustiça social, muitas vezes humilhando o ser humano por meio da não-aceitação de um de seus bens culturais mais divinos: o domínio inconsciente e pleno de um sistema de comunicação próprio da comunidade ao seu redor. E mais do que isto: a escola e a sociedade – da qual a escola é o reflexo ativo – fazem associações perversas, sem respaldo lingüístico estrutural, entre o domínio de determinadas formas lingüísticas e beleza ou feiúra; entre domínio de determinadas formas lingüísticas e elegância ou deselegância; entre domínio de determinadas formas lingüísticas e competência ou incompetência; entre o domínio de determinadas formas lingüísticas e inteligência ou burrice. (2005, p. 43).

Leia o artigo original [em PDF]

http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/4mostra/pdfs/225.pdf

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Uma resposta

  1. O mais engraçado do gerundismo é que muitas pessoas que o criticam nem sabem sobre o que estão falando e sobra até p/ o pobre do gerúndio, já ouvi barbaridades de que a contrução, por exemplo, Estou falando, está errada.

    Grifo essa parte:

    “Concluindo, a nova locução está em perfeito acordo com a sintaxe do português: sua ordem é ir + estar + ndo. É, pois, absolutamente gramatical do ponto de vista da Lingüística.”

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