Sotaque vem do nheengatu, a língua brasileira

Estadão – Valdir Sanches, Lagoinha (SP)

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Caipira é aquele que fala o dialeto caipira. É o idioma brasileiro, mas com palavras tupi e sotaque da língua brasileira. A língua brasileira é o nheengatu, que existiu no Brasil até ser proibida por Portugal, no século 18. Seu nome parece coisa de índio, e é. O nheengatu incorpora a fala dos índios tupi, que ocupavam o litoral brasileiro. Na verdade, até hoje, quem se refere ao Ibirapuera, fica jururu, come abacaxi ou se pendura num cipó está se expressando nessa língua.

Há algum tempo, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usou a expressão “chega de nhémnhémnhém”, estava falando puro nheengatu. No Brasil Colônia, era falada fluentemente em uma grande área do País, que ia de Santa Catarina ao Pará. A elite também se expressava por meio dela, embora não em todos os setores. Durante os processos, o juiz dispunha de um intérprete.

“Tivemos uma língua brasileira até o século 18”, diz o professor José de Souza Martins, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP. “Só os portugueses, que eram estrangeiros, falavam português.”

A língua foi criada no século 16 pelos jesuítas, destacando-se o Padre Anchieta. O fundador de São Paulo era lingüista. Para se entender com os nativos, classificou o tupi e criou uma gramática da língua geral. Ou seja, o nheengatu. “Uma língua de travessia, não é português, nem índio, eram ambas”, diz Martins. O português, nesse caso, era o que hoje chamamos arcaico. Convidava-se uma dona para uma função, em vez de uma senhora para um baile. E dizia-se coisas como agardece (agradece), alevantá e inorância.

Os índios tinham dificuldade em falar palavras portuguesas como os verbos no infinitivo. E também palavras com consoantes dobradas (rr) ou terminadas em consoante. Além disso, colocavam vogal entre consoantes. Mulher, colher e orelha viraram muié, cuié e oreia. De sua dificuldade com o “erre”, vem o “pooorta”, reflexivo, com a língua tocando o céu da boca. Martins esclarece que “o dialeto caipira não é um erro, é uma língua dialetal”. Mais do que isso: “É uma invenção lingüística musical e social.”

Os brasileiros viviam muito bem com ela, até que, no reinado de d. José I (1750 a 1771), Portugal a proibiu. O veto veio em um decreto do primeiro-ministro, o Marquês de Pombal. Bania o ensino do nheengatu das escolas. A decisão foi acatada nas salas de aula, mas o povo continuou falando no dialeto caipira. O tempo acabou por impor o português, mas o dialeto puro resiste.

Ainda é falado em alguns pontos da fronteira com o Paraguai. E, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a 860 quilômetros de Manaus, uma lei de 2002 tornou o nheengatu língua co-oficial do município. Na contramão do decreto do marquês, determina que seja incentivado seu ensino nas escolas, e o uso nos meios de comunicação (o tucano e o baniva também se tornaram línguas co-oficiais).

E ficou o “caipirês” da roça. Por essas bandas, ensina Martins, a língua se multiplica. “Quando o novo aparece, o caipira inventa, a partir da matriz da palavra, algo que tem sentido para ele.” Há certo tempo, Martins e um grupo de estudantes apresentaram questões a algumas pessoas. Perguntaram a um homem: “Você concorda ou não concorda?” O homem não entendeu. A pergunta foi sendo repetida, sem sucesso, até que um dos estudantes mudou a forma: “Você concorda ou disconcorda?” Deu certo.

Texto adaptado.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080421/not_imp160205,0.php

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Hino Nacional Brasileiro em Tupi

Nheengarissáua Retamauára

Embeyba Ypiranga sui, pitúua,
Ocendu kirimbáua sacemossú
Cuaracy picirungára, cendyua,
Retama yuakaupé, berabussú.

Cepy quá iauessáua sui ramé,
Itayiuá irumo, iraporepy,
Mumutara sáua, ne pyá upé,
I manossáua oiko iané cepy.

Iassalssú ndê,
Oh moetéua
Auê, Auê !

Brasil ker pi upé, cuaracyáua,
Caissú í saarússáua sui ouié,
Marecê, ne yuakaupé, poranga.
Ocenipuca Curussa iepé !

Turussú reikô, ara rupí, teen,
Ndê poranga, i santáua, ticikyié
Ndê cury quá mbaé-ussú omeen.

Yby moetéua,
Ndê remundú,
Reikô Brasil,
Ndê, iyaissú !

Mira quá yuy sui sy catú,
Ndê, ixaissú, Brasil!

Ienotyua catú pupé reicô,
Memê, paráteapú, quá ara upé,
Ndê recendy, potyr America sui.
I Cuaracy omucendy iané !

Inti orecó purangáua pyré
Ndê nhu soryssára omeen potyra pyré,
ìCicué pyré orecó iané caaussúî.
Iané cicué, ìndê pyá upé, saissú pyréî.

Iassalsú ndê,
Oh moetéua
Auê, Auê !

Brasil, ndê pana iacy-tatá-uára
Toicô rangáua quá caissú retê,
I quá-pana iakyra-tauá tonhee
Cuire catuama, ieorobiára kuecê.

Supí tacape repuama remé
Ne mira apgáua omaramunhã,
Iamoetê ndê, inti iacekyé.

Yby moetéua,
Ndê remundú,
Reicô Brasil,
Ndê, iyaissú !

Mira quá yuy sui sy catú,
Ndê, ixaissú,
Brasil!

http://brazil1500.tripod.com/wodlingos/id31.html

Uma breve história da língua tupi, o idioma que unificou o Brasil

“Tupi or not Tupi:  that is the question”

Oswald de Andrade

Por Ozias Alves*

A palavra “Tupi” significa “o grande pai” ou “líder”. Ora, os “tupis” achavam-se os máximos tanto que chamavam a si mesmos de “tupis”. Já “Guarani” significa “guerreiro”. Os tupis, os primeiros contactados pelos portugueses quando iniciaram sua colonização no Brasil, dividiam-se em várias tribos cujos nomes registrados pela história são como elas mesmos chamavam-se ou como seus inimigos apelidaram-nas. Algumas delas.

Os Potiguares (Papa-Camarão) viviam no Rio Grande do Norte. Mais ao sul, os Caetés (gente da floresta) (aqueles que devoraram o primeiro bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha quando o azarado naufragou na costa do nordeste, em 16 de julho de 1556) vagavam por Alagoas. Os Tupinambás (Tupis Machos) eram os “caras” da Bahia que também davam o “ar de sua graça” em São Paulo. Já a partir da altura de Porto Seguro, sul da Bahia, e descendo para o sul, já se encontravam os Tupiniquins, inimigos mortais dos Tupinambás.

Descendo o mapa do litoral brasileiro, encontravam-se as seguintes tribos: goitacases (os corredores) (Campos, no Rio de Janeiro- estes não são tupis), tamoios (Os anciãos) (de Cabo Frio até Angra dos Reis, RJ), guaianases (Os irmãos) (São Vicente, SP), guaranis (guerreiros) (de Itanhaém até Cananéia, SP), carijós (Os brancos), que se espalhavam por Cananéia, Santa Catarina até a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul.

Fora esses índios (hoje 99% extintos) que falavam dialetos aparentados do Tupi-Guarani, havia outras dezenas tribos da mesma família mais para o interior do Brasil, muitas da quais ainda existentes. Quando os jesuítas chegaram ao Brasil, mais precisamente em São Paulo, iniciaram seu trabalho de catequização com os índios de fala Tupi-Guarani, principalmente os tupiniquins e outras tribos amigas aos primeiros.

José de Anchieta, que viveu 44 anos no Brasil, aprendeu o tupi-guarani com os índios guaianases, de São Paulo. Essa região, que os portugueses deram o nome do famoso missionário cristão, Paulo, depois convertido em santo (São Paulo), era chamada pelos tupi-guaranis de “Piratininga”, que significa “Peixe Seco” no idioma deles. Foi na região de Piratininga que os padres jesuítas fundaram em 1554 um colégio em redor do qual indígenas das redondezas passaram a morar e muitas crianças nativas freqüentavam as aulas dos padres. Era o nascimento da cidade de São Paulo, situado em “Pindorama”, nome que os índios chamavam o país que, mais tarde, por influência dos portugueses, passou a ser denominado “Brasil”.
(…)

Quando se fala “brasileiro” há quem utilize o termo “tupiniquim” para expressar algo “brasileiro legítimo”. Existe um livro famoso chamado “Crítica da Razão Tupiniquim” (Editora Mercado Aberto- Porto Alegre (RS), 1984), de Roberto Gomes. “Tupiniquim” era o nome de uma das tribos do Brasil, falante do tupi-guarani. Aliados dos portugueses, estes índios, amigos dos guaianases, eram arqui-rivais dos tupinambás. Estes últimos uniram-se aos franceses e tamoios na guerra contra os lusitanos.
(…)

Até o final do século XVII, a língua “oficial” do Brasil era o Tupi-guarani misturado com português. De cada três brasileiros, dois só falavam Tupi-Guarani. Mas em 1759, sobre influência do Marquês de Pombal, o governo português baixou um decreto proibindo o uso do idioma “híbrido” ao qual imbutia a acusação de que estava prejudicando as comunicações na colônia brasileira e impondo punições para quem não usasse o idioma português. Foi assim que, à força, o tupi-guarani foi tirado de circulação ao longo do tempo.
(…)

O tupi-guarani influenciou profundamente o português do Brasil. Não foi apenas na incorporação de vocabulário indígena, mas até mesmo influenciou na sintaxe no idioma lusitano no Brasil. Aliás, vale lembrar que os cablocos do estado de São Paulo, em sua grande maioria, só falava tupi até a primeira metade do século XIX. “A ligação do elemento colonizador com o aborígene deu-se tão íntima e intensa que, por muito tempo, o uso do idioma guarani foi corrente no seio da população civilizada de São Paulo, notando-se, ainda hoje, sua poderosa influência no falar paulista: a circunstância dos atuais caipiras dos arredores de Conceição dos Guarulhos preferirem dormir em esteiras, no chão, desprezando o uso de cama, é uma clara reminiscência das velhas usanças dos murumimis, os quais, como é sabido, não faziam uso de redes”, salientou Afonso Freitas.
(…)

Vamos ver alguns exemplos da influência do tupi-guarani no português brasileiro. Temos a expressão “Tá”. É uma contração do verbo “Estar” na 3ª pessoa do singular? Muita gente pensa que sim, mas não é. É uma expressão do tupi incorporada na fala brasileira. Vejamos o que explica Afonso Frietas.

“O tupi-guarani não sabia modular a voz em interrogativa: suprindo tal deficiência, sempre que perguntava incluía na frase as partículas tahá, tá, pá, projeções de uma mesma raiz, e será, todas supletivas da inflexão de voz imodulável pelo órgão vocal do aborígene.

Dessas partículas- será- fixou-se no vernáculo, por modismo, mas também substituindo a expressão portuguesa- será-, razão talvez da sua rápida incorporação, total em São Paulo e noutros estados do sul, ainda incompleta nos do Norte.

Em nheengatu a partícula- será- aparece, de ordinário, encerrando a frase, posição essa ainda mantida no português falado entre a gente do povo do Norte do Brasil: – chove será, isto é, será que chove?” (página 26).

Raros são os brasileiros que pronunciam o “r” de final de palavras. Por exemplo, “pagar” é falado como “pagá”, “amor” soa a “amô” e assim vai. Pois esse vício de linguagem vem do tupi-guarani. As pessoas menos escolarizadas têm o costume de trocar o “l” pelo “i”. Não pronunciam “mulher”, mas “muié”, “pólvora” soa a “pórvora”, “filho” é “fio”, etc. Também é influência do antigo tupi, como lembra Afonso Freitas que acrescenta: “Da pecularidade do tupi-guarani empregar na frase, de preferência o particípio verbal ao infinito e de, invariavelmente, antepor as partículas pronominais aos verbos e aos nomes e pospor aos verbos os pronomes retos, é que os paulistas dizem- está chovendo, me deixe, me faça o favor, etc., enquanto os portugueses locucionam- está a chover, construção tão malsoante aos nossos ouvidos, quanto aos ouvidos lusos devem ser os- me deixe, me faça o favor, do nhengatu aclimado ao vernáculo.

A inexistência da partícula pronominal- lhe- no nheengatu, decorrente da ausência da consoante- l-, no alfabeto daquele idioma, deu azo à formação do modismo tão desagradável- disse pr’á ele (que muitos refinam desastradamente em disse p’r’ele), dá nele, etc., por disse-lhe, dá-lhe, etc” (página 25).

Há tantas palavras tupi incorporadas ao português que nem percebemos, inclusive até na gíria de jovens. Por exemplo, há jovens que dizem: “O fulano chegou no serviço e BABAU. Perdeu o emprego”. O “Babau”, que muitos acham ser uma gíria de surfista, é uma expressão secular do tupi-guarani, que significa “acabou-se”.

Outra expressão tupi é “nhenhenhén”. “Aquele cidadão é muito cheio de nhenhenhén”, ou seja, que fala e reclama incensantemente. A fala vem de “nheen nheen”, que significa em tupi “fala fala”. Vejamos a seguinte frase: “Este cara é meu xará”. Esta palavra, também tida como gíria, significa “amigo” no antigo idioma indígena.

Os gaúchos usam e abusam do seu típico “tchê” no final de suas frases.

“Tchê” é outro sinônimo tupi-guarani que significa “amigo”. Também significa “eu” e “meu”. Mas esta palavra tão usada pelos gaúchos incorporou-se tanto no português do Rio Grande do Sul como no espanhol dos argentinos e uruguaios dos pampas fronteiriços ao Brasil por influência também do guarani do Paraguai. Aliás, o famoso guerrilheiro argentino que participou da revolução cubana, Ernesto Guevara, que morreu na Bolívia em 1967, era chamado de “Che” (como é escrito “Tchê” no espanhol). Portanto, Che Guevara significa “Amigo Guevara”, que a história imortalizou como símbolo da rebeldia e da luta revolucionária esquerdista.

Aliás, “gaúcho” era o nome dado aos índios guaranis que viviam nas missões.

Com a dispersão desses nativos pelos bandeirantes paulistas, os índios que escaparam da escravidão passaram a viver da pecuária. Nas missões, criava-se gado. Quando foram destruídas, parte da manada escapou e se multiplicou nos campos dos pampas, que cobrem a maior parte do Rio Grande do Sul. Outrora, os pampas eram imensidões de pasto nativo onde ninguém morava. Com o tempo, principalmente no século XVIII, a ocupação dos pampas intensificou-se principalmente com a formação de fazendas. O gado criado ao ar livre passou a ser aprisionado e cuidado por peões.

Em Minas Gerais, Foram descobertos ouro e pedras preciosas. Milhares de pessoas, principalmente do Rio de Janeiro, São Paulo e nordeste brasileiro foram para Minas Gerais em busca do enriquecimento. Como não plantavam já que passavam o dia inteiro escavando (ou fiscalizando as minas- daí o lugar ficar conhecido por “Minas Gerais”), esse contigente de mineiradores tinham que importar a comida que necessitava. Surgiu o mercado que os fazendeiros do Rio Grande do Sul passaram a atuar. A carne seca (charque) do RS era vendida em Minas Gerais. Daí a influência no desenvolvimento econômico dos pampas. E quem eram os peões que trabalhavam nas fazendas do RS? Eram descendentes dos índios guaranis, que tanta experiência tiveram na criação de gado quando trabalhavam nas missões. Os índios eram chamados pejorativamente de “gaúchos”. Não é a toa que os atuais “gaúchos” (agora nome de orgulho) gostam de se chamar de “Índios Velhos”.

A influência do tupi está no vocabulário da fauna. Nome de animais e plantas como jaguar, jacaré, macaco, sagui (pêlo), tapera (casa abandonada), cangueiro (de “Acanga”-cabeça, instrumento de tração para os bois), ipê, piracema, etc, etc, etc. Ao todo, como lembra Raquel F. A. Teixeira, em artigo no livro “A Temática Indígena na escola (MEC, Mari/ Unesco, Brasília, 1995), 70% do vocabulário do português brasileiro sobre animais plantas provém do tupi-guarani que tem vasta influência no nome de cidades e acidentes geográficos no país. Vejamos alguns exemplos.

O nome do estado de “Maranhão” vem de “Mar’Anhan”, que significa “O mar que corre”. Já “Paraná” significa “rio” no idioma indígena. “Pará” é “oceano”, “Niterói” “Baía do mar morto” e assim vai. O Brasil está repleto de cidades com nomes indígenas, todos, sem exceção, provenientes do tupi-guarani.

A contribuição do tupi-guarani deu-se também na incorporação de ditados populares no folclore brasileiro. Um deles, muito conhecido, é “Cada macaco no seu galho”. Esse ditado vem da expressão “Macaca tuiué inti hu mundéo i pú cuimbisca o pé” ( Macaco velho não mete mão em cumbuca).

Quando os tupi-guaranis citavam a expressão contavam a seguinte história.

Era uma vez um macaquinho guloso soube que havias frutas numa certa cumbuca feita de uma árvore chamada sapucaia. Introduziu a mão no recipiente. Ao tentar tirá-la, a mão ficou presa. Assustado, o bichinho disparou-se aos pulos pela floresta arrastando a sapucaia e gritando desesperadamente: Ai! Ai! Ai! Cuimbisca hu pscá se pú! Ai! Ai! Ai! Cuimbusca hu pscá se pú! (Ai! Ai! Ai! Cumbuca pegou minha mão).

Os macacos assustaram-se e foram ajudar o macaquinho em apuros. Seguraram o filhote e chamaram o macaco mais velho para aconselhar como retirar a mão do macaquinho da cumbuca. O velho examinou a cumbuca, pegou uma pedra e, em repetidos golpes, quebrou a cumbuca, libertando a mão do macaquinho travesso.

Recuperado do susto, o filhote perguntou ao macaco velho: “Macaca tamuia taá inti ana cuimbisca hu pscá ana i pú? (Vovô, cumbuca já pegou sua mão?) Respondeu o macacão: Macaca tuiué inti hu mundéo i pú cuimbisca o pé (Macaco velho não mete mão em cumbuca).

A idéia de ensinar Tupi-guarani como língua optativa nas escolas, como se cogitou para o Rio de Janeiro, é boa idéia pois trata-se de um resgate da cultura brasileira. Registro aqui uma sugestão aos intelectuais envolvidos nesse projeto: por que não elaboram um curso por correspondência do idioma índio e editam uma revista com textos em Tupi-guarani com traduções em português? Trata-se de um excelente incentivo que certamente contará com grande receptividade. [Artigo resumido e adaptado]
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*e-mail ozias@matrix.com.br

Leia o artigo na íntegra

A proibição da língua brasileira

José de Souza Martins

O nheengatu, também conhecido como”língua geral”, a língua que se quer proibir, é a verdadeira língua nacional brasileira. O nheengatu foi desenvolvido pelos jesuítas nos séculos 16 e17, com base no vocabulário e na pronuncia tupi, que era a língua das tribos da costa, tendo como referencia a gramática da língua portuguesa, enriquecida com palavras portuguesas e espanholas. A língua geral foi usada correntemente pelos brasileiros de origem ibérica, como língua de conversação cotidiana, até o século 18, quando foi proibida pelo rei de Portugal. Mesmo assim continuou sendo falada.

Da língua geral ficou como remanescente o dialeto caipira, tema de dicionário e objeto de estudos lingüísticos até recentes. Sobraram pronuncias da língua tupi, reduções e adaptações da língua portuguesa. Um jesuíta, no século 16, já observara que os índios da costa tinham grande dificuldade para pronunciar letras como o “L” e o “R”. Especialmente na finalização de palavras como “quintal” e “animal”; ou verbos como “falar”, “dizer” e “fugir”. Essas letras foram simplesmente suprimidas e as palavras transformadas em “quintá”, “animá”, “falá”, “dizê”, “fugi”.

Somos um povo bilíngüe, e o reconhecimento desse bilingüismo seria fundamental no trabalho dos educadores.

Dificuldades também havia para pronunciar as consoantes dobradas. Daí que, no dialeto caipira, “orelha” tenha se tornado “orêia” (uma consoante em vez de três; quatro vogais em vez de três), “coalho” seja “coaio”, “colher” tenha virado ”cuié”, “os olhos” sejam “o zóio”… E no Nordeste ainda se ouve a suave “fulô” no lugar da menos suave “flor”. Uma abundância de vogais em detrimento das consoantes, até mesmo com a introdução de vogais onde não existiam. Exatamente o contrario da evolução da sonoridade da língua e Portugal, em que predominam os ásperos sons das consoantes. No Brasil, a língua portuguesa ficou mais doce e mais lenta, mais descansada, justamente pela enorme influência das sonoridades da língua geral, o nheengatu.

Nossa língua cotidiana está algo distanciada da língua portuguesa, que é a oficial e, num certo sentido, é uma língua importada. Não raro viajamos entre toponímicos tupi. Na Cidade de São Paulo transito regularmente entre o Butantã e Carapicuíba e o Embu, aonde levo meus alunos, periodicamente, para uma aula de rua. Ou os levo ao Museu Paulista, no Ipiranga, para outra aula, ou à Moóca, para observações etnográficas sobre uma festa italiana. Faço tudo isso dentro da língua tupi. Como posso ir do rio Guaíba à Paraíba ou ao Pará ou ao Piauí sem achar que estou falando uma língua estrangeira, que ela não é.

Em escolas rurais de povoados do Moto Grosso, do Pará e o Maranhão, observei um fato curioso. Uma vez que as crianças escrevem como falam, não e raro que acrescentem de preferência um “r” às palavras oxítonas, a letra usada como acento agudo: “ater”, em vez de “até”; “Joser”, em vez de “José”. Algo que tem sua curiosa legitimidade no modo como se escrevia oficialmente o português até ,meados do século 19, letras fazendo as vezes de acentos e sinais. A própria língua falada, no confronto com a escrita, oferece às crianças inteligentes a chave de adaptação de uma à outra: se elas dizem “falá” e vêm que a palavra escrita é “falar”, logo entendem que o “r” é aí acento, e não letra para ser pronunciada.

É comovente a reação dos jovens quando descobrem que são falantes do que resta de uma língua que já foi a língua do povo brasileiro e que conhecem um grande número de sons e palavras tupi. O que lhes dizem ser erro e ignorância é, na verdade, história social, valorosa sobrevivência da nossa verdadeira língua brasileira. Se não fosse assim, seria impossível rir daquela história de dois mineiros que resolveram temperar a prosa com café. E foram para a cozinha. Água fervida, coador pronto, um pergunta para o outro: “Pó pô o pó?”. E o outro responde, firme:”Pó pô!”.

De fato, somos um povo bilíngüe, e o reconhecimento desse bilingüismo seria fundamental no trabalho dos educadores, em particular para enriquecer a compreensão da língua portuguesa, última flor do Lácio, inculta e bela, mais bela ainda porque invadida por esse outro lado da nossa identidade social, que teimamos em desconhecer.

José de Souza Martins, 64, é professor titular do Departamento de Sociologia da USP.

Leia aqui o artigo original:
http://www.terrabrasileira.net/folclore/manifesto/nheenga2.html

OTI – O EXTERMÍNIO DE UM POVO (A origem do R caipira)

Prof. Benedito Prezia

Oeste do Estado de São Paulo, no chamado sertão de Botucatu, onde em meados do século vivia um grupo coletor – os Oti, Não sabemos ao certo se o território original era mais na margem direita do Paraná, como um outro grupo coletor, os Ofaiè.

Por viverem nos campos, tanto os Oti, como os Ofaiê, foram chamados de Xavante, o que muitas vezes confunde quem não conhece muito a questão indígena. São poucos os relatos sobre os Oti, pois no início deste século já estavam praticamente extintos. Dois textos, pouco citados, merecem destaque: o de Curt Nimuendaju, que conta a história dos últimos remansescentes e um outro de Telêmaco Borba, indigenista que recolheu várias palavras Oti, por volta de 1878. (1908, BORBA, T. Actualidade Indígena. Curitiba: Impressora Paranaense).

O que chamou a atenção de Borba é que aquele povo, como alguns povos jê, possuía sons que os grupos de língua tupi não tinham, como o /r/ forte, Borba afirma que “é muito gutural”, e é o que se chama de /r/ retroflexo. Esta observação é de suma importância, pois vem mostrar uma das origens do famoso /r/ paulista, classificado também como /r/ caipira. Este mesmo som encontramos na língua kaingang e provavelmente deve haver o mesmo em outras línguas de grupos da família jê, mostrando uma influência de línguas do tronco macro-jê na fonética brasileira atual.

Os Oti, como vários grupos coletores, embora andarilhos, possuíam um território bastante delimitado – os Campos Novos – , no Oeste do Estado de São Paulo. Ao Norte, eram barrados pelas matas da bacia do Rio do Peixe, onde viviam seus inimigos tradicionais, os Kaingang, e ao Sul, pelo Rio Paranapanema, habitat dos Guarani Kaiowá. Como moradores dos campos, não usavam a canoa e pouca intimidade tinham com o rio.

Assemelhavam-se na simplicidade de vida aos Nambikwara, do Oeste de Mato Grosso. Não conheciam a cerâmica. Suas casas eram como os abrigos, feitas com ramos enterrados no chão e cobertas de folhas de palmeira, tão pequenas, que mal dava para se ficar sentado dentro delas. Construíam-nas alinhadas à beira de algum riacho, para facilitar a obtenção d’água.

Caçavam nos campos onde viviam, mas quando os animais se tornavam mais escassos, procuravam a mata, moradia de seus inimigos Kaingang. Como valentes guerreiros, os enfrentavam e geralmente levavam a melhor. Para a caça e a guerra, possuíam o arco, a flecha e uma comprida lança, feita com o tronco da palmeira.

Os aldeamentos eram pequenos, formados no máximo por 40 pessoas e a população total não devia passar de 500 pessoas.

A situação desse povo modificou-se drasticamente quando, por volta de 1830, os mineiros começaram a invadir a região. Com eles veio o gado. Para os Oti, aqueles estrangeiros pareciam trazer-lhes dádiva do céu, pois não precisavam se arriscar nas matas dos Kaingang, encontrando farto alimento nos tranqüilos animais que pastavam nos campos. Conta-se que, em 1870, chegou na região uma tropa de 80 éguas, que em pouco tornaram-se alimento daqueles indígenas.

Eles nem suspeitavam o mel que estavam provocando, passando a ser alvo da ira dos colonos. De caçadores passaram a ser caçados.Nimuendaju nos dá um impressionante relato de uma dessas “caçadas”, feita por um grupo de 57 homens, reunidos pelo proprietário dos animais desaparecidos, João da Silva, numa aldeia situada no córrego da Lagoa, afluente do rio Sapé: “Os Oti dormiam o sono dos incautos e além disso a cerração encobria o inimigo que se aproximava: uma parte deste pois, a pé, passando através de uma pequena faixa de mata que se estendia pelos fundos da aldeia, cortou-lhes a fugida, enquanto a outra parte, a cavalo, deu a investida pela frente pelo campo aberto e em poucas horas se via uma carnificina, igual a tantas outras que pode enumerar a história de nosso sertão.

Atordoados e sonolentos, os Oti levantaram-se, tentando escapar, tendo alguns deles mesmos tanta pressa nisto, que saíam com a choça à cabeça, arrancando-a do solo com o levantar; porém debalde; eles estavam circulando e foram mortos todos sem exceção de idade ou sexo, até verificarem apenas duas ou três crianças que foram lavadas como troféus vivos. Quantos Oti foram assassinados nesta ocasião no córrego da Lagoa não se pode assegurar hoje. José Paiva, um dos que fizeram parte do grupo dos assaltantes, disse-me que os mortos estavam em montes sobre o terreno, e outras pessoas me garantiram que o número deles alcançava a 200; no entanto parece exagerar.

Depois deste ataque, os Oti se mudaram da região, indo para a mata, em lugares mais escondidos e com sentinelas permanentes.Mesmo assim, continuavam caçando bois e sobretudo cavalos, sua caça preferida. Por volta de 1890, o grupo estava reduzido a 50 pessoas. O extermínio dos Oti fez com que os kaingang do Rio do Peixe se tornassem mais ousados, atacando os colonos. A situação tornou-se tão tensa, que os moradores de Jaguaretê, tiveram que abandonar tudo, mudando-se de região.Os massacres continuavam cada vez mais violentos. Quando localizados em algum samambaial seco, o fogo era ateado, queimando-os vivos.

“Em 1853, alguém condoeu-se e resolveu fazer alguma coisa. Tratava-se de Veríssimo de Góes, um condutor de carro-de-boi de um morador de São Mateus. Imaginou que levando-os até a capital do Estado, iria encontrar ajuda e talvez uma área onde pudesse instala-los. Com muita conversa, convenceu o grupo do cacique Achimaco a realizar a viagem. Desconfiados daquele estranho convite, alguns se recusaram a partir. Com 30 pessoas, Góes iniciou a viagem até São Paulo.

É de se imaginar o impacto que causou um grupo indígena, viajando de trem até a capital Ali chegando nem ajuda material e nem apoio conseguiram. Receberam alguns presentes e foram aconselhados a retornar à região. Sem recurso para a viagem de volta, Veríssimo não hesitou em vender alguns indígenas e por sua vez as mulheres foram vergonhosamente prostituídas para receber algum dinheiro. Dos 30, apenas um pequeno grupo conseguiu voltar à região de origem.

Para completar essa tragédia, uma doença contraída na viagem matou o líder Achimaco e quase todo o grupo, ficando apenas um único sobrevivente. Por sua vez os que se recusaram a ir para São Paulo, foram mortos pelos Kaingang”.

Segundo Nimuendajú, em 1903, restavam apenas nove pessoas: um homem, quatro mulheres e quatro crianças. Nesse mesmo ano, o homem foi assassinado por um tal Manoel Caetano. Narra esse pesquisador, que as mulheres então desamparadas tentaram procurar ajuda entre os colonos. Certo dia, um grupo de trabalhadores encontrou-se com elas, que agarrando-lhes pelas mãos, insinuavam unir-se a eles. Assustados, com aquela aparição repentina, um deles gritou-lhes que eram Coroados (Kaingang).

“Mal se declinara o nome desta tão temida tribo, conta Nimuendaju, perderam os trabalhadores a cabeça e possuídos de verdadeiro pânico, cada qual procurava sua arma, nem mais se lembrando da orelha furada dessas mulheres, que era o sinal da tribo Oti. Debalde clamava o velho Israel (que conhecia bem aquele povo), que não atirassem nelas, debalde: à distância de um braço estendido, um de seus parentes varou com uma bala a cabeça da índia que lhe estava mais próxima; esta caiu-lhe aos pés, fugindo as outras três ao mato e os trabalhadores para as suas casas. No dia seguinte, encontrou-se o cadáver da mulher ainda no mesmo lugar, estando ainda viva a criança que conduzia, a qual só veio a falecer muito tempo depois”.

Em 1910, foram localizados mais três indígenas: um homem e duas mulheres, adotados por famílias brasileiras. Nimuendaju ainda conheceu esse homem, José Chavantes, já muito doente de malária, que logo o levaria.

A história desse povo faz lembrar a frase de Tupxi, indígena Irantxe, na década de 60: “Se a gente amansa índio ele morre de gripe; se não amansa índio, ele morre de tiro”.

PALAVRAS OTI:

Tuasla, estrela

Teuéde, moço

Dielsede, rio, água

Quyade, lua

Athrabe, pai

Itarduêde, menino

Fiduá, mãe

Diguede, mato

Hipipá, mulher

Inhestecude, arco

Igobe, casa

Uictoma, moça

Torta, flecha

Chanin, chuva

Leia aqui o artigo original:
http://terre.indigene.free.fr/etnias/OTI.htm