O Colocador de Pronomes

(O conto foi escrito em 1916, quando Lobato satirizou os gramáticos. Quase um século depois, o texto continua atualíssimo.)

Monteiro Lobato

Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática.

Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gramática.

E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática.

Mártir da gramática, fique este documento da sua vida como pedra angular para uma futura e bem merecida canonização.

Havia em Itaoca um pobre moço que definhava de tédio no fundo de um cartório. Escrevente. Vinte e três anos. Magro. Ar um tanto palerma. Ledor de versos lacrimogêneos e pai duns acrósticos dados à luz no “Itaoquense”, com bastante sucesso.

Vivia em paz com as suas certidões quando o flechou venenosa seta de Cupido. Objetivo amado: a filha mais moça do coronel Triburtino, o qual tinha duas, essa Laurinha, do escrevente, então nos dezessete, e a do Carmo, encalhe da família, vesga, madurota, histérica, manca da perna esquerda e um tanto aluada.

Triburtino não era homem de brincadeira. Esgoleara um vereador oposicionista em plena sessão da Câmara e desde aí se transformou no tutu da terra. Toda a gente lhe tinha um vago medo; mas o amor, que é mais forte que a morte, não receia sobrecenhos enfarruscados, nem tufos de cabelos no nariz.

Ousou o escrevente namorar-lhe a filha, apesar da distância hierárquica que os separava. Namoro à moda velha, já se vê, que nesse tempo não existia a gostosura dos cinemas. Encontros na igreja, à missa, troca de olhares, diálogos de flores — o que havia de inocente e puro. Depois, roupa nova, ponta de lenço de seda a entremostrar-se no bolsinho de cima e medição de passos na Rua D’Elba, nos dias de folga. Depois, a serenata fatal à esquina com o

Acorda, donzela…

sapecado a medo num velho pinho de empréstimo. Depois, bilhetinho perfumado.

Aqui se estrepou…

Escrevera nesse bilhetinho, entretanto, apenas quatro palavras, afora pontos de exclamações e reticências:

Anjo adorado!
Amo-lhe!…

Para abrir o jogo, bastava esse movimento de peão.

Ora, aconteceu que o pai do anjo apanhou o bilhetinho celestial e, depois de três dias de sobrecenho carregado, mandou chamá-lo à sua presença, com disfarce de pretexto — para umas certidõezinhas, explicou.

Apesar disso o moço veio um tanto ressabiado, com a pulga atrás da orelha.

Não lhe erravam os pressentimentos. Mal o pilhou portas aquém, o coronel trancou o escritório, fechou a carranca e disse:

— A família Triburtino de Mendonça é a mais honrada desta terra, e eu, seu chefe natural, não permitirei nunca — nunca, ouviu? que contra ela se cometa o menor deslize. Parou. Abriu uma gaveta. Tirou de dentro o bilhetinho cor-de-rosa, desdobrou-o.

— É sua esta peça de flagrante delito?

O escrevente, a tremer, balbuciou medrosa confirmação.

— Muito bem! continuou o coronel em tom mais sereno. Ama, então, minha filha e tem a audácia de o declarar… Pois agora…

O escrevente, por instinto, ergueu o braço para defender a cabeça e relanceou os olhos para a rua, sondando uma retirada estratégica.

— … é casar! concluiu de improviso o vingativo pai.

O escrevente ressuscitou. Abriu os olhos e a boca, num pasmo. Depois, tornando a si, comoveu-se e, com lágrimas nos olhos, disse, gaguejante:

— Beijo-lhe as mãos, coronel! Nunca imaginei tanta generosidade em peito humano! A gora vejo com que injustiça o julgam aí fora!…

Velhacamente o velho cortou-lhe o fio das expansões.

— Nada de frases, moço, vamos ao que serve: declaro-o solenemente noivo de minha filha!

E voltando-se para dentro gritou:

— Do Carmo! Venha abraçar o seu noivo!

O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro.

— Laurinha quer o coronel dizer…

— Sei onde trago o nariz, moço. Vassuncê mandou esse bilhete à Laurinha dizendo que ama-“lhe”. Se amasse a ela deveria dizer amo-“te”. Dizendo “amo-lhe” declara que ama a uma terceira pessoa, a qual não pode ser senão a Maria do Carmo. Salvo se declara amor à minha mulher!…

— Oh, coronel…

— … ou à preta Luzia, cozinheira. Escolha!

O escrevente, vencido, derrubou a cabeça, com uma lágrima a escorrer rumo à asa do nariz. Silenciaram ambos, em pausa de tragédia. Por fim o coronel, batendo-lhe no ombro paternalmente, repetiu a boa lição da sua gramática matrimonial.

— Os pronomes, como sabe são três: da primeira pessoa — quem fala, neste caso vassuncê; da Segunda pessoa — a quem se fala, e neste caso Laurinha; da terceira pessoa — de quem fala, neste caso Maria do Carmo, minha mulher ou a preta. Escolha!

Não havia fuga possível.

O escrevente ergueu os olhos e viu do Carmo que entrava, muito lampeira da vida, torcendo acanhada a ponta do avental novo ao alcance do maquiavélico pai. Submeteu-se e abraçou a urucaca, enquanto o velho, estendendo as mãos, dizia teatralmente:

— Deus vos abençoe, meus filhos!

No mês seguinte, solenemente, o moço casava-se com o encalhe, e onze meses depois vagia nas mãos da parteira o futuro professor Aldrovando, o conspícuo sabedor da língua que, durante cinqüenta anos a fio, coçaria na gramática a sua incurável sarna filológica.

Até dez anos não revelou Aldrovando pinta nenhuma. Menino vulgar, tossiu a coqueluche em tempo próprio, teve o sarampo da praxe, mais a cachumba e a catapora. Mais tarde, no colégio, enquanto os outros enchiam as horas de estudo com invenções de matar o tempo — empalamento de moscas e moidelas das respectivas cabecinhas entre duas folhas de papel, coisa de se ver o desenho que sai — Aldrovando apalpava com erótica emoção a gramática de Augusto Freire da Silva. Era o latejar do furúnculo filológico, que o determinaria na vida, para matá-lo, afinal…

Deixemo-lo, porém, evoluir e tomemo-lo quando nos serve, aos 40 anos, já a descer o morro arcado ao pêso da ciência e combalido de rins. Lá está ele em seu gabinete de trabalho , fossando, à luz dum lampião, os pronomes de Filinto Elísio. Corcovado, magro seco, óculos de latão no nariz, careca, celibatário impenitente, dez horas de aulas por dia, duzentos mil réis por mês e o rim, volta e meia, a fazer-se lembrado.

Já leu tudo. Sua vida foi sempre o mesmo poento idílio com as veneráveis costaneiras onde cabeceiam os clássicos lusitanos. Versou-os um por um com mão diurna e noturna. Sabe-os de cor, conhece-os pela morrinha, distingue pelo faro um sêca de Lucena duma esfalfa de Rodrigues Lôbo. Digeriu tôdas as patranhas de Fernão Mendes Pinto. Obstruiu-se da broa encruada de Fr. Pantaleão do Aveiro. Na idade em que os rapazes correm atrás das raparigas, Aldrovando escabichava belchiores na pista dos mais esquecidos mestres da boa arte de maçar. Nunca dormiu entre braços de mulheres. A mulher e o amor — mundo, diabo, carne, eram para ele os alfarrábios feiráticos do quinhentismo, em cuja soporosa verborréia espapaçava os instintos lerdos, como porco em lameiro.

Em certa época viveu três anos, acampado em Vieira. Depois vagabundeou, como um Robinson, pelas florestas de Bernardes.

Aldrovando nada sabia do mundo atual. Desprezava a natureza, negava o presente. Passarinho, conhecia um só: o rouxinol de Bernardim Ribeiro. E se acaso o sabiá de Gonçalves Dias vinha picar “pomos de Hespérides” na laranjeira do seu quintal, Aldrovando esfogueteava-se com apóstrofes:

— Salta fora, regionalismo de má sonância!

A língua lusa era-lhe um tabu sagrado que atingira à perfeição com Fr. Luís de Sousa, e daí para cá, salvo alucinações esporádicas, vinha chafurdando no ingranzéu barbaresco.

— A inglesia de hoje, declamava ele, está para a Língua, como cadáver em putrefação está para o corpo vivo.

E suspirava, condoído dos nossos destinos:

— Povo sem língua!… Não me sorri o futuro de Vera-Cruz…

E não lhe objetassem que a língua é organismo vivo e que a temos a evoluir na boca do povo.

— Língua? Chama você língua à garabulha bordalenga que estampam periódicos? Cá está um desses galicígrafos. Deletreemo-lo ao acaso.

— Teve lugar ontem!… É língua esta espurcícia negral? Ó meu seráfico Frei Luís, como te conspurcam o divino idioma, estes carrafaçais da moxinifada!

—… no Trianon… Por que, Trianon? Por que este perene barbarizar com alienígenos arrevezos! Tão bem ficava — a Benfica, ou, se querem neologismo de bom cunho — o Logratório… Tarelos é que são, tarelos!

E suspirava, deveras compungido.

— Inútil prosseguir. A folha inteira cocografa-se por este teor. Ai! Onde param as boas letras de antanho? Fêz-se peru o níveo cisne. Ninguém atende a lei suma: — Horácio! Impera o desprimor, e o mau vige como suprema regra. A gálica intrujice é maré sem vazante. Quando penetro num livreiro o coração se me confrange ante o pélago de óperas barbarescas que nos vertem cá mercadores de má mote. E é de notar, outrossim, que a elas se vão as preferências do vulgacho. Muito não faz que vi com êstes olhos um gentil mancebo preferir uma sordícia de Oitavo Mirbelo — Canhenho duma dama de servir (1), creio, à… adivinhe ao quê, amigo? À Carta de Guia do meu divino Francisco Manoel!…

— Mas a evolução…

— Basta. Conheço às sobejas a escolástica da época, a “evolução” darwínica, os vocábulos macacos — pitecofonemas que “evolveram” o pêlo e se vestem hoje à moda da França, com vilro no ôlho. Por amor a Frei Luís, que ali daquela costaneira escandalizado nos ouve, não remanche o amigo na esquipática sesquipedalice.

Um biógrafo ao molde clássico separaria a vida de Aldrovando em duas fases distintas: a estática, em que apenas acumulou ciência, e a dinâmica, em que, transferido em apóstolo, veio a campo com todas as armas para contrabater o monstro da corrupção.

Abriu campanha com um memorável ofício ao congresso, pedindo leis repressivas contra os ácaros do idioma.

— “Leis, senhores, leis de Drácão, que diques sejam, e fossados, e alcáçares de granito prepostos à defensão do idioma. Mister sendo, a forca se restaure, que mais o baraço merece quem conspurca o sacro patrimônio da sã vernaculidade, que quem ao semelhante a vida tira. Vede, senhores, os pronomes, em que lazeira jazem…”

Os pronomes, ai! eram tortura permanente do professor Aldrovando. Doía-lhe como punhalada, vê-los por aí pré ou pospostos contra regras elementares do dizer castiço. E sua representação, alargou-se nesse pormenor, flagelante, concitando os pais da pátria à criação dum Santo Ofício gramatical.

Os ignaros congressistas, porém, riram-se da memória, e grandemente piaram sobre Aldrovando as mais cruéis chalaças.

— Quer que instituamos patíbulo para os maus colocadores de pronomes! Isto seria autocondenar-nos à morte! Tinha graça!

Também lhe foi à pele a imprensa, com pilhérias soezes. E depois, o público. Ninguém alcançara a nobreza do seu gesto e Aldrovando, com a mortificação na alma, teve que mudar de rumo. Planeou recorrer púlpito dos jornais. Para isso mister foi, antes de nada, vencer o seu velho engulho pelos “galicígrafos de papel e graxa”. Transigiu e, breve, dêsses “pulmões da pública opinião”, apostrofou o país com o verbo tonante de Ezequiel. Encheu colunas e colunas de objurgatórias ultraviolentas, escritas no mais estreme vernáculo.

Mas não foi entendido. Raro leitor metia os dentes naqueles intermináveis períodos engrenados à moda de Lucena; e, ao cabo da aspérrima campanha, viu que pregara em pleno deserto. Leram-no apenas a meia dúzia de Aldrovandos que vegetam sempre em toda a parte, como notas rezinguentas da sinfonia universal.

A massa dos leitores, entretanto, essa permaneceu alheia aos flamívomos pelouros da sua colubrina sem raia. E por fim os “periódicos” fecharam-lhe a porta no nariz, alegando falta de espaço e coisas.

— Espaço não há para as sãs idéias, objurgou o enxotado, mas sobeja, e pressuroso, para quanto recomende à podriqueira!… Gomorra! Sodoma! Fogos do céu virão um dia limpar-vos a gafa!… exclamou, profético, sacudindo à soleira da redação o pó das cambaias botinas de elástico.

Tentou em seguida ação mais direta, abrindo consultório gramatical.

— Têm-nos os físicos (queria dizer médicos), os doutores em leis, os charlatães de toda espécie. Abra-se um para a medicação da grande enferma, a língua, gratuito, já se vê, que me não move amor de bens terrenos.

Falhou a nova tentativa. Apenas as moscas vagabundas vinham esvoejar em torno da ciência que se oferecia na salinha modesta do apóstolo. Criatura humana uma só, sequer, ali não veio remendar-se filologicamente.

Ele, todavia, não esmoreceu.

— Experimentemos processo outro, mais suasório.

E anunciou a montagem da “Agência de Colocação de Pronomes e Reparos Estilísticos”.

Quem tivesse um autógrafo a rever, um memorial a expungir de cincas, um calhamaço a compor-se com os “afeites” do lídimo vernáculo, fosse lá, que, sem remuneração nenhuma, nêle se faria obra limpa e escorreita.

Era boa, a idéia, e logo vieram os primeiros originais necessitados de ortopedia, sonetos a consertar pés de versos, ofícios ao governo pedindo concessões, cartas de amor.

Tais porém, eram as reformas que nos doentes operava Aldrovando, que os autores não mais reconheciam suas próprias obras. Um dos clientes chegou a reclamar:

— Professor, V. Sa. enganou-se. Pedi limpa de enxada nos pronomes, mas não que me traduzisse a memória em latim…

Aldrovando ergueu os óculos para a testa:

— E traduzi em latim o tal ingranzéu?

— Em latim ou grego, pois que o não consigo entender…

Aldrovando impertigou-se.

— Pois, amigo, errou de porta. Seu caso é ali com o alveitar da esquina.

Pouco durou a Agência, morta à míngua de clientes. Teimava o povo em permanecer empapado no chafurdeiro da corrupção…

O rosário de insucessos, entretanto, em vez de desalentar, exasperou o apóstolo.

— Hei de influir na minha época. Aos tarelos hei de vencer. Fogem-me à férula, os maraus de pau e corda? Ir-lhe-ei empós, filá-los-ei pela gorja… Salta rumor!

E foi-lhes “empós”. Andou pelas ruas examinando dísticos e tabuletas com vícios de língua. Descoberta a “asnidade” ia ter com o proprietário, contra êle desfechando os melhores argumentos catequistas.

Foi assim com o ferreiro da esquina, em cujo portão de tenda uma tabuleta — “Ferra-se cavalos” — escoicinhava a santa gramática.

— Amigo, disse-lhe pachorrentamente Aldrovando, natural a mim me parece que erres, alarve que és. Se erram paredros, nesta época de ouro da corrupção…

O ferreiro pôs de lado o malho e entreabriu a boca.

— Mas da boa sombra do teu focinho espero, continuou o apóstolo, que ouvidos me darás. Naquela tábua um dislate existe que seriamente à língua lusa ofende. Venho pedir-te em nome do asseio gramatical, que o expunjas.

— ? ? ?

— Que reformes a tabuleta, digo.

— Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com a licença paga? Estará acaso rachada?

— Fisicamente, não. A racha é na sintaxe. Fogem, ali os dizeres à sã gramaticalidade.

O honesto ferreiro não entendia nada de nada.

— Macacos me lambam se estou entendendo o que V. Sa. diz…

Digo que está a forma verbal com eiva grave. O “ferra-se” tem que cair no plural, pois que forma é passiva e o sujeito é “cavalo”.

O ferreiro abriu o resto da boca.

— O sujeito sendo “cavalos”, continuou o mestre, a forma verbal é “ferram-se” — “ferram-se cavalos!”

— Ah! respondeu o ferreiro, começo agora a compreender. Diz V. Sa. que…

— …que “ferra-se cavalos” é um solecismo horrendo e o certo é “ferram-se cavalos”.

— V. Sa. me perdoe mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu não sou plural. Aquele “se” da tabuleta refere-se cá a este seu criado. É como quem diz: Serafim ferra cavalos — Ferra Serafim cavalos. Para economizar tinta e tábua abreviaram o meu nome, e ficou como está: Ferra Se(rafim) cavalos. Isto explicou o pintor, e entendi-o muito bem.

Aldrovando ergueu os olhos para o céu e suspirou.

— Ferras cavalos e bem merecias que te fizessem êles o mesmo!… Mas não discutamos. Ofereço-te dez mil reis pela admissão dum “m” ali…

— Se V. Sa. paga…

Bem empregado dinheiro! A tabuleta surgiu no dia seguinte dessolecismada, perfeitamente de acordo com as boas regras da gramática. Era a primeira vitória obtida e todas as tardes Aldrovando passava por lá para gozar-se dela.

Por mal, porém, não durou muito o regalo. Coincidindo a entronização do “m” com maus negócios na oficina, o supersticioso ferreiro atribuiu a macaca à alteração dos dizeres, e lá raspou o “m” do professor.

A cara que Aldrovando fez quando, no passeio desse dia, deu com a sua vitória borrada! Entrou furioso pela oficina a dentro, e mascava uma apóstrofe de fulminar quando o ferreiro, às brutas, lhe barrou o passo:

— Chega de caraminholas, ó barata tonta! Quem manda aqui, no serviço e na língua, sou eu. E é ir andando, antes que eu o ferre com um bom par de ferros ingleses!

O mártir da língua meteu a gramática entre as pernas e moscou-se.

— “Sancta simplicitas!” ouviram-no murmurar na rua, de rumo à casa, em busca das consolações seráficas de Fr. Heitor Pinto. Chegado que foi ao gabinete de trabalho, caiu de bôrco sôbre as costaneiras venerandas e não mais conteve as lágrimas, chorou…

O mundo estava perdido e os homens, sobre maus, eram impenitentes. Não havia desviá-los do ruim caminho, e ele já velho, com o rim a rezingar, não se sentia com fôrças para a continuação da guerra.

— Não hei de acabar, porém, antes de dar a prelo um grande livro, onde compendie a muita ciência que hei acumulado.

E Aldrovando empreendeu a realização de um vastíssimo programa de estudos filológicos. Encabeçaria a série um tratado sobre a colocação dos pronomes, ponto onde mais claudicava a gente de Gomorra.

Fê-lo, e foi feliz nesse período de vida em que, alheio ao mundo, todo se entregou, dia e noite, à obra magnífica. Saiu trabuco volumoso, que daria três tomos de 500 páginas cada um, corpo miúdo. Que proventos não adviriam dali para a lusitanidade! Todos os casos resolvidos para sempre, todos os homens de boa vontade salvos de gafaria! O ponto fraco do brasileiro falar resolvido de vez! Maravilhosa coisa…

Pronto o primeiro tomo — Do pronome Se — anunciou a obra pelos jornais, ficando à espera da chusma de editores que viriam disputá-la à sua porta. E por uns dias o apóstolo sonhou as delícias da estrondosa vitória literária acrescida de gordos proventos pecuniários.

Calculava em oitenta contos o valor dos direitos autorais que, generoso que era, cederia por cinqüenta contos para um velho celibatário como ele, sem família nem vícios, tinha a significação duma grande fortuna. Empatados em empréstimos hipotecários, sempre eram seus quinhentos mil réis por mês de renda, a pingarem pelo resto da vida, na gavetinha onde, até então, nunca entrara pelega maior de duzentos. Servia, servia!… E Aldrovando, contente, esfregava as mãos de ouvido alerta, preparando frases para receber o editor que vinha vindo…

Que vinha vindo mas não veio, ai!… As semanas se passaram sem que nenhum representante dessa miserável fauna de judeus surgisse a chatinar o maravilhoso livro.

— Não me vêm a mim? disse êle. Salta rumor! Pois me vou a êles!

E saiu em via sacra, a correr todos os editores da cidade. Má gente! Nenhum lhe quis o livro sob condições nenhumas. Torciam o nariz, dizendo: “Não é vendável”; ou “Por que não faz antes uma cartilha infantil aprovada pelo governo?”

Aldrovando, com a morte nalma e o rim dia a dia mais derrancado, retesou-se nas últimas resistências.

— Fá-la-ei imprimir à minha custa! Ah, amigos! Aceito o cartel. Sei pelejar com tôdas as armas e irei até ao fim. Bofe!…

Para lutar era mister dinheiro e bem pouco do vilíssimo metal possuía na arca o alquebrado Aldrovando. Não importa! Faria dinheiro, venderia móveis, imitaria Bernardo de Pallissy, e não morreria sem ter o gosto de acaçapar Gomorra sob o peso de sua ciência impressa. Editaria, êle mesmo, um por um, todos os volumes da obra salvadora.

Passou esse período de vida alternando revisão de provas com padecimentos renais. Venceu. O livro compôs-se, magnificamente revisto, primoroso na linguagem como não existia igual.

Dedicou a Fr. Luís de Sousa:

À memória daquele que me sabe as dores — O autor. Mas não quis o destino que o já trêmulo Aldrovando colhesse os frutos de sua obra. Filho dum pronome impróprio a má colocação de outro pronome lhe cortaria o fio da vida.

Muito corretamente havia escrito na dedicatória: …daquele que me sabe… e nem poderia escrever de outro modo um tão conspícuo colocador de pronomes. Maus fados intervieram, porém — até os fados conspiram contra a língua! — e, por artimanha do diabo que os rege, empastelou-se na oficina esta frase. Vai o tipógrafo e recompõe-na na a seu modo …daquele que sabe-me as dores… E assim saiu milheiros de cópias da avultada edição.

Mas não antecipemos.

Pronta a obra e paga, ia Aldrovando recebê-la, enfim. Que glória! Construíra, finalmente, o pedestal da sua própria imortalidade, ao lado direito dos sumos cultores da língua.

A grande idéia do livro, exposta no capítulo VI — Do método automático de bem colocar os pronomes — engenhosa aplicação duma regra mirífica, por meio da qual até os burros de carroça poderiam zurrar com gramática, operaria com o “914” da sintaxe, limpando-a da avariose produzida pelo espiroqueta dos pronomococus.

A excelência dessa regra estava em possuir equivalentes químicos de uso da farmacopéia alopata, de modo que a um bom laboratório fácil lhe seria reduzi-la a ampolas para injeções hipodérmicas, ou a pílulas, pós ou poções para uso interno.

E quem se injetasse ou engolisse uma pílula do futuro PRONOMINOL CANTAGALO curar-se-ia para sempre do vício, colocando os pronomes instintivamente bem, tanto no falar como no escrever. Para algum caso de pronomorréia aguda, evidentemente incurável, haveria o recurso do PRONOMINOL N. 2, onde entrava a estriquinina em dose suficiente para liberar o mundo do infame sujeito.

Que glória! Aldrovando prelibava essas delícias todas quando lhe entrou pela escada a dentro a primeira carroçada de livros. Dois brutamontes de mangas arregaçadas empilharam-nos pelos cantos, em rumas que lá se iam; e concluso o serviço, um deles pediu:

— Me dá um mata-bicho, patrão!…

Aldrovando severizou o semblante ao ouvir aquele “Me” tão fora dos mancais, e tomando um exemplar da obra ofertou-o ao “doente”.

— Toma lá. O mau bicho que tens no sangue morrerá asinha às mãos dêste vermífugo. Recomendo-te a leitura do capítulo sexto.

O carroceiro não se fez rogar; saiu com o livro, dizendo ao companheiro:

— Isto no “sebo” sempre renderá cinco tostões. Já serve!…

Mal se sumiram, Aldrovando abancou-se à velha mesinha de trabalho e deu comêço à tarefa de lançar dedicatórias num certo número de exemplares destinados à crítica. Abriu o primeiro, e estava já a escrever o nome de Rui Barbosa, quando seus olhos deram com a horrenda cinca:

“ daquele QUE SABE-ME as dores”.

— Deus do céu! Será possível?

Era possível. Era fato. Naquele, como em todos os exemplares da edição, lá estava, no hediondo relevo da dedicatória a Fr. Luís de Sousa, o horripilantíssimo — QUE SABE-ME…

Aldrovando não murmurou palavra. De olhos muito abertos, no rosto estranha marca de dor — dor gramatical inda não descrita nos livros de patologia — permaneceu imóvel uns momentos.

Depois, empalideceu. Levou as mãos abdômen e estorceu-se nas garras de repentina e violentíssima ânsia.

Ergue os olhos para Frei de Sousa e murmurou:

— Luís! Luís! Lamma Sabachtani!

E morreu.

De quê, não sabemos — nem importa ao caso. O que importa é proclamarmos aos quatro ventos que com Aldrovando morreu o primeiro santo da gramática, o mártir número um da Colocação dos Pronomes.

Paz à sua alma.

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Pronomes oblíquos de terceira pessoa
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A influência africana na língua do Brasil

Entrevista com Margarida Petter, professora de Linguística da Universidade de São Paulo, especialista em Linguística Africana e uma das organizadoras do livro, AFRICA NO BRASIL: A FORMAÇAO DA LINGUA PORTUGUESA.

Estudar o encontro do português com línguas, povos e culturas africanas e indígenas é fundamental para a compreensão do chamado português brasileiro. ‘África no Brasil’ tem por objetivo identificar os traços lingüísticos atribuídos ao contato do português com as línguas africanas que aqui aportaram no período da colonização. As palavras de origem africana que se perpetuaram no território brasileiro constituem uma maneira de conceituar e categorizar a realidade. É isso que este livro demonstra através da abordagem de questões que ajudam a entender melhor a formação do português brasileiro, como a apropriação do léxico de origem africana, a contribuição semântica no vocabulário, o exame da sintaxe e outros processos lingüísticos. Mais que um livro de lingüística, esta obra revela um sentimento de profundo respeito pelos povos africanos e pelas suas línguas, cristalizações de sua maneira de ver o mundo.

Ouça a entrevista:

PRONOMINAIS (Oswald de Andrade)

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

Mônica e seus amigos agora são adolescentes e vão encarar os conflitos típicos da idade

Fernando Oliveira, Diário de S. Paulo
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Magali, Mônica, Cebolinha e Cascão: humor e pitadas de romance.
Arte de Thalita Medeiros sobre reprodução

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SÃO PAULO – A turminha de amigos mais famosa do país cresceu. A partir do próximo mês, Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão se aventurarão num terreno novo: o da adolescência. Esta é uma das mais ousadas apostas de Maurício de Souza em seus personagens.

– Faz tempo que eu tinha vontade de criar esse projeto, mas foi preciso estudar e pesquisar muito – afirma o cartunista. – É preciso estar atento aos adolescentes à nossa volta. Tenho um vasto material de inspiração, afinal são muitos filhos e agora netos.

“Turma da Mônica Jovem” (Panini, 128 págs., R$ 5,90) chegará às bancas em formato de mangá (gibi japonês, com capa colorida e páginas em preto-e-branco) e mostrará a galerinha de um jeito bem diferente. O sujinho Cascão, por exemplo, agora toma banho de vez em quando. Cebolinha só troca os erres pelos eles quando fica nervoso e, em vez de querer ser o dono da rua, quer conquistar o mundo com seus muitos projetos. Já Mônica deixou de ser gordinha e baixinha, mas continua dentuça.

– Os leitores vão se surpreender com os novos visuais – diz.

Por já estarem crescidos, os amigos vão lidar com assuntos delicados como namoros, sexo e até drogas.

– A idéia é usar a turma para falar sobre esses assuntos de uma maneira estudada – conta o desenhista, que manterá os pais dos personagens nos gibis. – Eles aparecerão com destaque na primeira aventura.

Maurício adianta que outros personagens também aparecerão em forma adulta.

– O Franjinha está na história, a Marina também. E aguardem para ver o Anjinho – brinca. – Ainda estamos elaborando os roteiros, mas toda a turminha aparecerá adolescente. As histórias serão cheias de ação, magia, aventura, humor e até mesmo com pitadas de romance.

Agora é esperar para ver.

Brasileiros vencem o Oscar dos quadrinhos

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Vitória de brasileiros no Eisner Awards é feito inédito
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‘Fazer HQ no Brasil é para quem persevera’, disse Fabio Moon após cerimônia. Junto com o irmão Gabriel Bá e Rafael Grampá, eles levaram ao todo três prêmios.

Diego Assis – Do G1, em San Diego

Revista de Gabriel Bá, Fábio Moon e Rafael Grampá venceu Eisner Awards na categoria melhor antologia

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Doze anos depois de colocarem os pés na San Diego Comic-Con, maior convenção de profissionais e fãs de histórias em quadrinhos do mundo, os paulistanos Gabriel Bá e Fabio Moon finalmente tiveram seu trabalho reconhecido na noite desta sexta (25) durante a cerimônia de entrega dos Eisner Awards, considerado o ‘Oscar’ dos quadrinhos do mercado norte-americano.

Confira a lista dos vencedores do Eisner Awards 2008

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A dupla de artistas – aliás, irmãos gêmeos – venceu ao todo em três categorias: melhor série limitada (“The Umbrella Academy”, parceria de Bá com Gerard Way, vocalista da banda My Chemical Romance), melhor história em quadrinhos digital (“Sugar shock”, de Moon com Joss Whedon) e melhor antologia, por “5”, da qual, além da dupla, participam o também brasileiro Rafael Grampá e os americanos Becky Cloonan e Vasilis Lolos.

A consagração com os Eisners para Bá, Moon e mesmo do estreante Rafael Grampá, que veio a San Diego para divulgar o lançamento de sua primeira graphic novel, “Mesmo delivery”, é um feito inédito na história brasileira das HQs.

“Vencer esse prêmio significa que não faz diferença de onde você vem. Não faz sentido achar que não dá certo porque a gente vive no Brasil e porque lá o mercado é pequeno. Só depende do artista, só depende de fazer”, afirmou Fabio Moon ao G1 na sexta, logo após o encerramento da cerimônia. “Fazer quadrinhos no Brasil é só para quem persevera. É uma lição que só depende de você. Ganhar um prêmio desses é o reconhecimento dessa dedicação de quem faz quadrinhos no Brasil precisa”, concluiu.

‘Os meninos do Brasil’

Desbancando artistas do quilate de Chris Ware e arrancando aplausos entusiasmados dos profissionais presentes à entrega dos Eisners, os brasileiros acabaram se tornando o assunto da noite, citados no palco por nomes como Jerry Robinson, escritor veterano de “Batman”, que se disse “feliz de ver os meninos do Brasil aqui”, e o escritor da DC Comics Brad Meltzer, que dedicou seu prêmio “não aos heróis, mas àqueles que tentam; a todos os nerds, geeks e loosers, e a caras como os autores do Brasil, que continuaram tentando”.

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Os gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá (em primeiro plano) em auto-retrato. .
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Gerard Way, cantor do My Chemical Romance e agora também escritor de quadrinhos premiado, creditou a vitória de “The Umbrella Academy” como melhor série limitada a Bá. “Agradeço ao Gabriel, esse cara que realmente fez o trabalho duro da HQ”, declarou o roqueiro. Publicada pela editora Dark Horse, “The Umbrella Academy” levou ainda os prêmios de melhor capista (James Jean) e colorista (Dave Stewart).

Nós na Vertigo

Mais conhecidos no Brasil como autores do fanzine “10 pãezinhos” e das graphic novels “Meu coração não sei por que” e “O girassol e a lua”, Bá e Moon começaram a publicar seus trabalhos de forma independente nos Estados Unidos ainda no final dos anos 1990. Nos últimos anos, seu reconhecimento vem crescendo (a dupla já havia sido indicada ao Eisner Awards antes pela antologia “Autobiographix”) e o número de trabalhos, aumentando.

Os próximos passos de Gabriel Bá e Fabio Moon incluem a participação em uma minissérie de Mike Mignola, situada no universo do personagem Hellboy, e o lançamento de “Day tripper”, nova série do selo adulto da DC Comics, o Vertigo, que foi anunciada entre as novidades da editora nesta Comic-Con. Sobre o enredo, Bá ainda faz mistério: “Só posso dizer que a história gira em torno de um sujeito que escreve obituários em um jornal, e também que ela se passa no Brasil.”

Rafael Grampá, Gabriel Bá, Fabio Moon, Becky Cloonan e Vasilis Lolos posam com as estatuetas do Eisner Awards 2008 (Foto: Diego Assis/G1)