Gerúndio!

O poeta Ferreira Gullar observou certa vez: “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. E o gerúndio muito menos. Herdado do latim, essa forma clássica da língua portuguesa é usada por todos os falantes do idioma de Camões. A começar pelo próprio. O sufixo “ando” está no início do poema mais famoso do nosso idioma, Os Lusíadas: “Cantando espalharei por toda parte”.

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Fonte: Rev. Veja, André Petry, ed. 2032.

Veja mais em:   https://brasiliano.wordpress.com/2008/06/30/gerundismo-nonada/

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O bom gerúndio

É preciso cuidado para que o combate ao gerundismo não torne marginais os usos legítimos de locuções com gerúndio
Luiz Costa Pereira Junior

O uso indiscriminado do gerúndio – a endorreia, o emprego viciado de formas como “vou estar passando o recado” – pode estar longe de ser erradicado, mas já tem uma vítima involuntária: o próprio gerúndio.

Uma década depois de o fenômeno se propagar feito gripe pelo país, especialistas começam a perceber que o combate ao uso repetitivo do gerúndio nas perífrases (dois ou três verbos numa locução verbal) criou em muita gente uma aversão a qualquer tipo de gerúndio, mesmo quando este é a forma mais adequada para apresentar uma ideia.

Para a professora de português da USP Elis Cardoso de Almeida, vive-se hoje o efeito colateral das campanhas de combate ao vício, com risco de confusão entre as construções sintáticas condenadas e as de uso corrente.

– Pode acontecer com o gerundismo o que ocorreu com construções como “a nível de”, que sofreu retração de uso ao ser discutida intensamente em público. Mas não se pode esquecer que há um uso adequado quando está em jogo a ideia de futuro durativo ou contínuo, como em “Não vou poder entregar o texto pois na ocasião vou estar viajando”.

Há quem evite o trenzinho verbal (“vou estar + gerúndio”) para não dar ao ouvinte a impressão de que houve má aplicação. O comum, no entanto, é reprimir as perífrases por hipercorreção – corrigir o que se considera erro até quando não há, numa falsa analogia que se imagina correta e requintada, por equivaler a outra.

Fora da escrita
O exagero do combate, no entanto, pode levar a distorções comunicativas. O gerundismo é considerado, por exemplo, pouco econômico. Afinal, é mais longa a construção “vou estar conversando” do que o futuro simples “conversarei” ou o composto “vou conversar”. Tornada atitude crônica, a concisão pode ser não raro imprecisa, lembra o linguista da Unicamp, John Robert Schmitz. Segundo ele, nem sempre as formas mais econômicas do que o trenzinho verbal evitam problemas. Imaginemos um recente folheto de orientação de trânsito do governo municipal de São Paulo:

“Cuidado: mesmo que os automóveis estejam parados, os ônibus, motos e táxis podem estar andando na faixa exclusiva”. O “podem estar andando” daria lugar a outro sentido se fosse substituído por “podem andar”. No primeiro caso, há alerta. No outro, uma liberação. O problema, dizem os especialistas, é quando se condena o uso do gerúndio em qualquer perífrase, com comandos como: “O gerúndio nunca vem depois de um verbo no infinitivo”.

– Não dá para condenar o uso da locução sem examinar seu contexto. Faz sentido dizer “vou estar providenciando” se de fato vou ficar muito tempo fazendo isso – declarou à Língua a professora Maria Helena de Moura Neves, da Unesp.

É preciso pôr os pontos nos ii, portanto. O gerúndio (amando), o infinitivo (amar) e o particípio (amado) são formas nominais do verbo porque, embora com valor verbal, desempenham a função de substantivos e adjetivos. O particípio “amado” apresenta ação concluída. O infinitivo “amar” é pontual: traz o processo verbal em potência; exprime a ideia da ação ou do evento.

O infinitivo pode ter função de substantivo (amar é sofrer = o amor é sofrimento). O particípio pode funcionar como adjetivo (mulher amada). Já o gerúndio pode ter função adverbial ou adjetiva (chovendo, não jogarei = se chover, não jogarei; água fervendo = água fervente). Ele flagra o processo verbal em andamento.

É diferente dizer “caiu do cavalo e esfaqueou o oponente” e “caindo do cavalo e espetando o oponente”. A segunda oração dá ideia de movimento que a outra não tem. “Caindo” e “espetando” descrevem ação contínua, mas que não acabou ou evolui sem hora para ser concluída.

Endorreia
A estrutura com três verbos (“ir” + “estar” + gerúndio), por sua vez, traz os auxiliares “ir” no presente do indicativo (vou, vai, vamos), que remete a ação para o futuro, e “estar”, que emite a sensação de continuidade da ação.

Um primeiro problema é quando se usa esse trem verbal para indicar uma duração que a ação não pede.

“Não ligue amanhã pois vou estar viajando” significa que a viagem não se resume a um dado número de horas, mas a pessoa terá todo o dia afetado por ela. Quando a informação não supõe essa duração, há curto–circuito comunicativo.

Assim, ao ouvir “vou fazer”, o interlocutor entende que assumimos um compromisso com ele, mas “vou estar fazendo” pode lançá-lo à expectativa – se esta não é a intenção de quem fala, o gerundismo se instala. Se usado para comunicar uma ação que durará no tempo ou se repetirá no espaço, o trem do gerúndio se ajusta à função desejada (ver quadro da página anterior). Caso contrário, é como usar uma chave de fenda para bater pregos.

Pouco interessa a origem do vício. O gerundismo bem pode ter nascido de contextos de formalidade, em que um intermediário é encarregado de mediar o contato de seus superiores com estranhos. Onde há expectativa de uma pessoa em torno da ação de outra, o gerundismo pode proliferar.

Brasilidade
Há quem desconfie que o gerúndio seja uma preferência nacional. Idiomas como alemão, holandês e francês não desenvolveram formas verbais com ele. Outros não os têm com a abundância do sistema verbal brasileiro. Embora povos de língua inglesa e espanhola tenham gerúndio, nós o usamos com uma frequência e variedade que impressiona. A ponto de não ser incomum a tentação determinista de ver no gerúndio um traço cultural do país inteiro. A escritora Nélida Piñon, por exemplo, declarou à Língua que considera o gerúndio “um tempo verbal deslumbrante”.

– O europeu é atado ao espartilho do infinitivo (“estar a fazer”). Nós, não. Nós temos a noção de que estamos agora aqui, mas daqui a pouco estaremos ali; há uma velocidade interna no nosso sentimento da língua, um nervosismo de estar em outro lugar que não aquele em que estivéramos até então. Temos necessidade de abranger um país amplo, de abarcar tantas experiências humanas, e o gerúndio corresponde a essa velocidade interior – defendeu Nélida.

Sob tal ponto de vista, o gerundismo marcaria uma oposição bem brasileira entre promessa e esperança, forma categórica e relativização. Tal ideia pode ser só um mito, mas a proliferação do trem verbal é considerada pelos pesquisadores de linguagem um exemplo, não o único, da produtividade do brasileiro em encontrar aplicações ao gerúndio.

Usos e abusos
Para o linguista José da Silva Simões, professor de alemão da USP, é alta a versatilidade brasileira no uso do gerúndio. Simões, que em 2007 defendeu tese de doutorado sobre o assunto, acredita que há contextos sintáticos em que o gerúndio pode ser usado para encobrir o sujeito que enuncia ou para evidenciá-lo.

Em sua forma não composta, em construções adverbiais, pode encobrir a autoria de uma ação. O sujeito apaga a sua pessoa e não se compromete, por exemplo, ao começar uma frase com condicionais, como “Pensando sob esse ponto de vista…”. Aqui, o enunciador não quer deixar evidente sua condição de autoria, manifesta no equivalente “Penso que”.

É o que pensa, também, o professor de letras da Uerj José Carlos Azeredo, para quem, na perspectiva enunciativa, o gerúndio pode servir a uma estratégia de dissimulação de autoria.

– O Brasil criou expressões em que o gerúndio se gramaticalizou como preposição ou advérbio. Em “Considerando que você é meu amigo, faça isso para mim”, não é o falante quem considera. Há uma atribuição de autoria a um ser indeterminado. Uma vez que não traz marca do sujeito, e não tem flexão, recorre-se ao gerúndio para esconder a autoria da declaração.

Defesa
Como o trem verbal com gerúndio, esse tipo de construção é uma “defesa da face” do enunciador.
– O enunciador constrói o enunciado de tal maneira que o preserva de ser responsabilizado pelo insucesso de algo – diz Azeredo.

Para Simões, o gerúndio é historicamente uma opção ao uso da conjunção causal (porque, pois, uma vez que), concessiva (embora, conquanto, ainda que, mesmo que, posto que, apesar de que) ou condicional (caso, quando, salvo se, sem que, dado que, desde que, a menos que), mais impositivas.

– Dizer “Não prestando atenção, o problema ocorreu” é uma maneira de atenuar o sentido dado pela conjunção causal em “Porque você não prestou atenção, o problema ocorreu” – esclarece Simões.

Trata-se de estratégia pragmática, que se fia na suposição retórica de que a recepção de uma formulação como “Se eu não achar a caixa preta do avião…” é diferente da de “Não se achando a caixa preta do avião…”.

– Em construções adverbiais, como “Pensando nos órfãos”, “Partindo do pressuposto da linguística” ou “Voltando ao assunto…”, a pessoa delimita o campo de discussão ou redireciona o assunto que vem em seguida e evita formulações que o comprometam.

Segundo Simões, o gerúndio adverbial, por natureza uma construção formal, também serve para simular consistência. “Geograficamente falando” (em lugar de “Se você observar o aspecto geográfico da questão”) estabelece um domínio de conhecimento, o suporte técnico em que se escuda a declaração.

Identificação
O gerúndio brasileiro é rico o suficiente para ter casos em que intensifica a identidade, em vez de atenuá-la. Sem o sujeito, a oração adverbial pode delimitar domínio de conhecimento, direcionar o foco da conversa. Com sujeito, ela presentifica a ação e serve como digressão, num processo que, para Simões, lembra a nominalização.

É o traço comum de sentenças como “O que é isso, todos falando junto?”, “Essa gente toda dependendo do pai” ou “As crianças, tudo precisando da família”. O verbo aqui promove a presentificação de um evento, independentemente de ele ser passível de ser conjugado no presente, no passado ou no futuro. Traz consigo a ideia de continuidade, de atividade que se repete, mas essa repetição está cristalizada naquele momento. Assim é com “Todo mundo querendo dormir e você fazendo barulho”, em que “querer dormir” é algo habitual, e o barulho interrompe o hábito. Ou: “Nós sempre aguentando os problemas com cara alegre” (sempre aguentamos).

O gerúndio veio do contexto formal. Era usado em textos litúrgicos e jurídicos. Do latim para línguas românicas, chegou à fala. No português de Camões eram comuns estruturas como “Estou cantando”. Mas o português europeu se modernizou. O Brasil manteve a estrutura e a desenvolveu como Portugal não o fez.

– Nosso gerúndio saiu da formalidade e se reorganizou. Por isso temos tantos – diz Simões.

Verbo “estar”

A intensidade de uso das construções com gerúndio e particípio parece, de quebra, ter mudado a caracterização de verbos auxiliares que ladeiam o gerúndio no trem verbal.

Para Ataliba de Castilho, da USP, o auxiliar “estar”, ligado a gerúndio ou particípio, mudou seu caráter morfológico e semântico.
– Ele tem virado morfema prefixal que assinala ação acabada em “tá falado” – diz o professor.

Ali, com o particípio passado, diz Ataliba, “estar” assinala ação contínua que se aproxima do aspecto perfectivo (no sentido de “foi combinado”, “concluído”), similar à do presente do indicativo.

– Talvez esteja sendo criada uma forma composta do presente do indicativo, sem diferença, por exemplo, entre “eu falo” e “estou falando”. O presente é o único tempo que não tem forma composta, e o verbo “estar” parece garantir cada vez mais a existência de uma espécie de presente do indicativo composto.

Evolução
Nesse sentido, as construções com gerúndio precedido de “ir” + “estar” são reflexos de um desenvolvimento natural no idioma.

– A repetição é que incomoda. Uma frase seguida da outra, sempre iniciada com gerúndio, torna qualquer texto pesado – diz Simões.

Para Elis Cardoso de Almeida, o problema mais grave com o gerundismo nem é a construção em si, mas sua frenética repetição.

– É o problema do uso indiscriminado, sem caráter de duração.
O lexicógrafo Francisco Borba diz que, com o movimento contrário à aceitação da endorreia, ela talvez não penetre na língua escrita.

– No jornalismo, esse tipo de construção chama atenção mais como gozação do que por deslize.
Mesmo em vestibulares e concursos, no entanto, há construções reduzidas de gerúndio. Como quem escreve redações intui que deve adotar um registro culto, tende a adotar estratégia sintática que supõe culta. Não é incomum ver, por exemplo, um “Observando as ações do governo” sem a conjunção (Se nós observarmos).

É cedo para garantir que não haverá neutralização da distinção semântica que define o gerundismo como inadequado. Mas há domínios em que até ele é legítimo. O desafio, então, é familiarizar as pessoas com o registro adequado ao grau de formalidade exigido em cada situação. Pois, no fundo, o gerúndio talvez seja mesmo um retrato, não do brasileiro, mas de sua versatilidade comunicativa.

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O gerundismo do bem
A adoção do gerúndio em perífrases (como “vou estar lendo”) é válida quando:

– Se quer mostrar um futuro em relação a outro futuro: “Amanhã não posso viajar porque vou estar carimbando documentos” significa que vou passar o dia a carimbar.

Em “Hoje à noite, vou estar vendo a novela enquanto você vê o futebol”, a frase mostra situações diferentes feitas simultaneamente e admitem locução com gerúndio. Em “quando você chegar, eu vou estar dormindo”, a ação de “dormir” é contínua e simultânea. O uso está inserido no sistema da língua. É legítimo.

– O verbo implicar duração ou admitir repetição: “Vou estar fechando o balanço da empresa” está no vernáculo, mas “vou estar enviando seu documento” é estranho. É um documento só e a ação é relativamente rápida ou instantânea. Mas em “amanhã, vou estar apertando parafusos o dia todo”, a sentença descreve ação contínua.

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Usos do gerúndio
Em sua forma simples, o gerúndio expressa uma ação em curso, que pode ser simultânea à do verbo da oração principal ou anterior/posterior a ela.

“Estou desistindo” diz que está em curso um processo de desistência. Anuncia um evento que durará algum tempo para ser concretizado.

Em formas compostas, com dois verbos, o gerúndio pontua uma ação duradoura quando acompanhado do infinitivo de verbos auxiliares (estar, andar, ir e vir) e indica ação concluída antes da expressa pelo verbo da oração principal.

“Tendo concluído a prova, ele a entregou ao professor”. A ação concluída antecipa a entrega da prova.

“Ele está falando alto demais”. A forma dada ao verbo “falar” indica a ação como presente e com tendência continuativa.

“Ele anda acordando sem ânimo”. A ênfase da ação duradoura é na intensidade ou na insistência de um acontecimento.

“A cada dia, mais fiéis vão rezando pela saúde do papa”. O verbo “ir” assinala uma ação progressiva em direção a um aqui e agora.

Revista Língua

Leia também:
Gerundismo? Nonada!

Por que / Por quê / Porque ou Porquê?

Esclarecendo o emprego dos porquês.

Por que

O por que tem dois empregos diferenciados:

Quando é a junção da preposição por + pronome interrogativo ou indefinido que tem o significado de “por qual razão” ou “por qual motivo”:

Exemplo: Por que você não vai ao cinema?
Não sei por que não quero ir.

Quando é a junção da preposição por + pronome relativo que tem o significado de “pelo qual” e poderá ter as flexões: pela qual, pelos quais, pelas quais.

Exemplo: Sei bem por que motivo permaneci neste lugar.

Por quê

Quando vier antes de um ponto, seja final, interrogativo, exclamação, o porquê deverá vir acentuado e continuará com o significado de “por qual motivo”, “por qual razão”.

Exemplos: Vocês não comeram tudo? Por quê?
Andar cinco quilômetros, por quê? Vamos de carro.

Porque

É conjunção causal ou explicativa, com valor aproximado de “pois”, “uma vez que”, “para que”.

Exemplos: Não fui ao cinema porque tenho que estudar para a prova.
Não vá fazer intrigas porque prejudicará você mesmo.

Porquê

É substantivo e tem significado de “o motivo”, “a razão”. Vem acompanhado de artigo, pronome, adjetivo ou numeral.

Exemplo: O porquê de não estar conversando é porque quero estar concentrada.
Diga-me um porquê para não fazer o que devo.

Por Sabrina Vilarinho
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

http://www.brasilescola.com/gramatica/por-que.htm

VOCÊ, UM PRONOME BEM BRASILEIRO

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Eduardo Lopes* – Revista Escola

Em muitas regiões do Brasil o você praticamente substituiu o tu. Apesar disso, quem procurar não vai encontrá-lo entre os pronomes pessoais. A explicação está em nossa história. Você é um pronome de tratamento derivado de vossa mercê. Era essa a maneira que o escravo deveria usar para dirigir-se respeitosamente e com certa distância ao senhor.

O uso cotidiano dessa expressão provocou sua simplificação: vossemecê > vosmecê/vassuncê > você, num processo que continua até hoje e que produziu o ocê e o cê, típicos da conversação oral. Provocou ainda, depois da abolição, a perda da noção de formalidade e de distância social entre falante e ouvinte.

Nos locais em que a escravidão foi mais marcante o você sufocou o tu, que ficou restrito ao uso literário. Onde foi menos comum, como no Sul, o tu subsiste. É uma amostra de como as variantes lingüísticas podem documentar particularidades histórico-geográficas das regiões.

*Eduardo Lopes é professor do curso Anglo Vestibulares e pós-graduando em Lingüística na Universidade de São Paulo

http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0143/aberto/mt_247018.shtml

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“VOCÊ” É SEGUNDA PESSOA

Prof. Pasquale

“você” é a pessoa a quem se fala e, portanto, da segunda pessoa.

Para que não fique nenhuma dúvida: na estrutura do discurso, “você” é da segunda pessoa, é o interlocutor; por outro lado, “você”, como os demais pronomes de tratamento (senhor, vossa senhoria etc.), pede o verbo conjugado na terceira pessoa, e não na segunda pessoa.

É bom lembrar a origem da palavra “você”:

Vossa Mercê > Vossemecê > Vosmecê > você

De início o pronome de respeito “Vossa Mercê” era um pronome de formalidade, mas acabou se tornando, no Brasil, pronome de intimidade, que se usa entre iguais.

http://www.tvcultura.com.br/aloescola/linguaportuguesa/problemasgerais/voce.htm

PRATOS QUE SE LAVAM SOZINHOS? SÓ NA GRAMÁTICA NORMATIVA!

“E como por toda África se soa […] os grandes feitos que fizeram”
(Camões, Lusíadas, canto II, 103).

Marcos Bagno

Dia desses, na feira da Torre de TV em Brasília, vi uma placa de madeira com estes dizeres: “Aqui se come, aqui se bebe, mas aqui também se lava os pratos”. Algum patrulheiro gramatical de plantão vai logo comentar que a placa está errada, pois o terceiro verbo (“lava”) devia estar no plural, já que, segundo a tradição normativa, o sujeito de “lava” é “pratos”, portanto: “aqui também se lavam os pratos”. Isso recebe na nomenclatura gramatical o nome de “voz passiva sintética” (ou “voz passiva pronominal”). Já em 1908 o filólogo Manuel Said Ali, em seu livro Dificuldades da língua portuguesa, mostrava o quanto essa análise é destrambelhada. De fato, a intuição lingüística do falante comum rejeita essa maluquice e analisa, muito corretamente, o pronome se como o verdadeiro sujeito dessas construções. Afinal, caro leitor, analise comigo: não é óbvio, claro, nítido, transparente e cristalino que o sujeito que come e que bebe é o mesmíssimo sujeito que lava os pratos? A gramática normativa diz que o verbo no plural se explica pela “equivalência” entre “se lavam os pratos” e “os pratos são lavados”. Mas quem é que, em sã consciência, vai dizer: “Aqui se come, aqui se bebe e aqui também os pratos são lavados?” A língua não é matemática: a ordem e a forma dos fatores alteram, e muito, o produto.

Se alguma equivalência existe, é entre o pronome se e outras formas que usamos para indicar a indeterminação do sujeito: “Aqui se [alguém; você; a gente] come, se [alguém; você; a gente] bebe, mas aqui também se [alguém; você; a gente] lava os pratos”. A regra tradicional simplesmente despreza, na sua falta de lógica, os fatores mais importantes na construção dos enunciados lingüísticos: a coesão e a coerência textuais. Analisar, como faz a gramática normativa, o se de “se come” e “se bebe” como índice de indeterminação do sujeito e o se de “se lavam os pratos” como partícula apassivadora rompe com a coesão-coerência do enunciado, desconsiderando o sentido que o falante quer transmitir ao construir essas frases: o sentido de que a mesma pessoa que come e bebe também lava os pratos. A frase com o verbo no plural “aqui se lavam os pratos” cria uma reflexividade estapafúrdia: pratos não se lavam sozinhos, assim como casas não se alugam a si mesmas, nem galinhas se matam por vontade própria nas granjas – alguém lava os pratos, alguém aluga casas, alguém mata as galinhas na granja. Atribuir o papel de sujeito a coisas inanimadas ou a seres vivos que não têm, no mundo empírico, capacidade de desempenhar as ações expressas pelos verbos é uma batatada filosófica.

A regra da “passiva sintética” surgiu, talvez, por uma extrapolação do uso dos pronomes reflexivos, aquilo que se chama, em lingüística, de hipercorreção. A presença de um nome no plural após o verbo pode ter levado as pessoas, em dado momento da história da língua, a querer fazer um concordância exagerada, pondo o verbo no plural. (Parecido com o que ocorre quando as pessoas dizem “houveram problemas” ou “tratam-se de boas iniciativas”.) O problema é que, na formalização das normas gramaticais, essa construção bizarra acabou sendo sacramentada, para prejuízo de todos. Não admira que tanta gente deteste as aulas de português e considere nossa língua “muito difícil”: afinal, com regras descabeladas feito essa, que agridem frontalmente o saber lingüístico intuitivo de qualquer um, a língua se torna uma entidade esotérica que só os muito iluminados conseguem dominar plenamente. E Camões, pelo visto, não era um deles