Evolução do português…. de Portugal!

(Texto para quem acredita na lenda que Portugal preserva o português castiço!)

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Na segunda metade do século 18, no período em que Portugal era governado pelo marquês de Pombal e seus cofres enriquecidos por grandes quantidades de ouro embarcadas no Brasil, ocorreu uma sensível mudança na prosódia, ou seja, na maneira como as palavras são pronunciadas, no português falado na Europa. Ainda não se sabe como e por que isso aconteceu. Mas o fato de se seguirem no tempo sugere uma relação de causa e efeito entre as mudanças prosódicas do século 18 e as sintáticas do século 19.

“Trabalhamos com a hipótese de que o português brasileiro seja muito próximo do português clássico em termos rítmicos”, explica a professora Galves, referindo-se como português clássico ao falado nos séculos 16 a 18. “Assim, os padrões prosódicos dos dois serão contrastados, como se fosse uma comparação entre o português clássico e o português europeu moderno”, acrescenta.

Comendo sílabas

Sabemos que ocorreu a grande mudança prosódica do fim do século 18 principalmente por meio dos comentários sobre apresentações teatrais e representações de sotaques que saíam nos jornais da época. Gonçalves Viana, um foneticista português do século 19, por exemplo, queixava-se de que os atores da época pronunciavam apenas sete ou oito sílabas das dez dos decassílabos de Camões. Eles simplesmente “comiam” as sílabas que vinham antes da tônica, as pré-tônicas.

Isso ocorre até hoje. Em Portugal, muitas vezes, as vogais pré-tônicas desaparecem por completo na fala. No Brasil, porém, elas são mantidas. “Esse é o aspecto mais saliente da mudança fonológica”, diz a professora Galves. “Nós o interpretamos como uma mudança rítmica, ou seja, uma mudança na maneira como as sílabas átonas se reagrupam com as sílabas tônicas”, prossegue.

Qual é a relação entre a pronúncia das vogais pré-tônicas e a sintaxe dos pronomes clíticos e por que a redução das primeiras afeta a colocação dos segundos? Isso é uma das grandes questões do projeto. Do ponto de vista do lingüista norte-americano Noam Chomsky, a gramática muda na aquisição quando, por por algum motivo, uma geração de crianças fixa um ou mais parâmetros de maneira diferente dos pais. Galves explica que muitos lingüistas hoje defendem que, na aquisição de sua língua materna, as crianças usam “pistas” prosódicas indicativas das estruturas subjacentes aos enunciados. Se a prosódia dos adultos muda, as “pistas” também mudarão, levando, eventualmente, as crianças a uma gramática diferente.

Entretanto, é difícil saber por que a prosódia mudou e, em decorrência, a gramática. Nos Sermões , por exemplo, o padre Antônio Vieira usa basicamente a ênclise na colocação dos pronomes. Outros autores da época e mesmo Vieira, em suas cartas, davam preferência à próclise. A lingüista portuguesa Ana Maria Martins, da Universidade de Lisboa, participante do projeto, considera Vieira, por isso, um pioneiro do português moderno. Para a professora Galves, não é bem assim. Vieira, em vez de olhar para o futuro, estaria voltando ao passado.

Ele seria, assim, um purista, talvez como maneira de se contrapor ao uso do castelhano, que ganhou terreno enquanto Portugal esteve sob o domínio da Espanha, de 1580 a 1640. [Na origem da fase documentada da língua portuguesa, no século 12, o normal eraPedro viu-me . No século 15, houve uma mudança ePedro me viu tornou-se a preferida. No decorrer do século 19, porém, houve na Europa outra troca e a ênclise tornou-se a única opção.]

“Na segunda metade do século 18, uma razão do mesmo tipo pode ter levado à adoção de uma maneira de falar que reforçou a tendência, já existente na língua portuguesa, a reduzir as vogais átonas”, diz a pesquisadora da Unicamp. “Mas essa discussão é extralingüística e não há nenhuma evidência que possa indicar o porquê da mudança prosódica”, acrescenta.

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp – http://revistapesquisa.fapesp.br/

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Jornal português decide não adotar novo acordo ortográfico

Redação CORREIO – 02.01.2010

O Jornal Público, de Portugal, decidiu que não irá adotar o acordo ortográfico que propõe unificar a língua portuguesa em todo mundo. No editorial do dia 30 de dezembro, o jornal disse que  ‘vamos continuar a escrever a nossa língua como a escrevemos hoje’.

Para o jornal, não há vantagens ou necessidade premente do acordo. ‘Excluindo a polémica sobre a “tradição” do português e o papel das consoantes mudas e as suas variações nos oito países da CPLP, há ainda uma última e fatal fragilidade neste acordo – as regras definidas são facultativas. Para que serve então um acordo global se, afinal, é indiferente escrevermos António ou Antônio?’, diz o texto.

O acordo está em vigor desde janeiro de 2009, mas a regra atual vale para vestibulares e concursos públicos até dezembro de 2012. A novidade chegará aos livros didáticos em 2010, quando os próximos exemplares deverão ser editados de acordo com a nova ortografia.

Fonte: Correio

Traduzindo português

Cristovão Tezza
contato@cristovaotezza.com.br

galoportugues

Volto a falar desta língua dupla que nos une (do ponto de vista ortográfico), ou desta língua única que nos divide (na vida real da fala), para lembrar o que me disse o editor de uma importante editora portuguesa sobre o trânsito literário Brasil-Portugal. Afinal, por nossa história e raízes teríamos tudo para um mercado comum das letras, digamos assim, mas de fato há uma estranheza inexplicável a atrapalhar. Tirando os nomes clássicos, que passam por Eça de Queiroz e vão até Fernando Pessoa, autores portugueses não emplacam por aqui, sendo Saramago a exceção que confirma a regra – e o mesmo acontece com os brasileiros contemporâneos lá. Sim, lidos e publicados somos aqui e em Portugal, mas numa escala modesta e periférica. E o editor usou uma expressão curiosa: “Há uma resistência da língua, que é a mesma mas não é”.

Entendi perfeitamente essa resistência ao comprar no aeroporto de Lisboa o romance A vida em surdina, do inglês David Lodge, traduzido maravilhosamente para o português – de Portugal. Seria uma boa arma para enfrentar a interminável viagem de volta, para quem jamais dorme em avião, como eu. E então, página a página, preso na ótima narrativa, comecei a perceber mais objetivamente o que nos incomoda tanto, a nós e a eles. Não há a rigor uma só frase que não nos cause estranheza – tudo é familiar, mas pelo caminho espalham-se pedrinhas de sentido a desviar o rumo. Quanto à linguagem, em nenhum momento o leitor se sente em casa, e isso é mortal na prosa literária, que tem na vida cotidiana da língua a sua matéria-prima de origem. Não é só vocabulário, o que seria um problema simples – é sintaxe mesmo, os pronomes todos e seus modos de usar, campos semânticos sutilmente distintos, regências particulares que vão como que armando um novo modo de ver o mundo, tudo que metaforicamente define uma língua. Vejam um exemplo discreto: “Apercebi-me de que me esquecera do guarda-chuva, mas não voltei lá acima para o ir buscar”. Ou: “Os dois miúdos também virão cá ter, por isso vai ser uma festa em grande.” Mais uma: “O carro tem vidros fumados para despistar potenciais raptores, e um autocolante na janela de trás a dizer “bebé a bordo”, apelando à consciência dos condutores que possam fazer tenções de lhes bater na traseira.”

Como esses textos falam por si, vai a minha proposta herética: que nossa prosa contemporânea seja traduzida em edições no outro país. Não apenas no vocabulário acidental, mas na estrutura sintática mesmo, como se nós escrevêssemos em croata, e eles, em turco. Se meu livro, escrito em brasileiro, pode ser traduzido para o catalão, porque não para o português? Sei que esse é um vespeiro terrível, e temo estar a provocar serial killers linguísticos esbravejando contra meu crime de lesa-pátria. Ora pois, minha língua é minha pátria, e gosto de saber que meu leitor está em casa, seja ele russo, árabe ou português.

Cristovão Tezza é escritor.
Artigo publicado em 09/06/2009 na Gazeta do Povo
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/colunistas/conteudo.phtml?id=894689

Leia também: Língua Brasileira (Cristovão Tezza)
https://brasiliano.wordpress.com/2008/09/11/lingua-brasileira-2/

Portugal: parlamento volta a debater reforma ortográfica

Jornal do Brasil

DA REDAÇÃO – Apesar de o tema ter sido amplamente discutido entre países que têm a língua portuguesa como oficial, o Acordo Ortográfico – em vigor no Brasil desde janeiro – teve novo revés. Quarta-feira, o Parlamento português discutiu uma proposta de renegociação da reforma, mesmo tendo sido aprovada por governo e Assembléia da República. Ao final da discussão, o Partido Socialista se viu isolado a favor do novo acordo.

Segundo a BBC Brasil, na proposta, que chegou ao Parlamento graças à uma petição assinada por 113.206 portugueses (são necessárias 5 mil assinaturas), pede-se que o governo reveja os pontos da reforma ortográfica, considerados pelos organizadores do abaixo-assinado contraditórios.

– Pede-se que o governo abra negociações com o objetivo da revisão dos termos do acordo. Na nossa opinião, o acordo teria de ser revogado porque é um acúmulo de disparates – explica o deputado Vasco Graça Moura, um dos organizadores do abaixo-assinado.

De acordo com Moura, a “petição foi discutida na Comissão de Ética e Sociedade da assembléia e o relatório do deputado Barreiras Duarte, que dá razão à petição, foi aprovado por unanimidade”.

Dos países lusófonos, apenas o Brasil deu início oficialmente ao período de transição da aplicação do acordo. Portugal, Brasil, São Tomé e Cabo Verde são os países de língua portuguesa que já aprovaram o acordo. A data para o início do período de transição ainda não foi determinada em Portugal. Em entrevista à Lusa, uma fonte dos peticionários disse que o debate no Parlamento poderá alterar algumas “situações caóticas” que o acordo prevê.

– Se os fundamentos científicos e lingüísticos que sustentam a petição forem tidos em conta, poderá impedir-se o caos ortográfico que acontecerá, de um e outro lado do Atlântico, se o acordo for integralmente avante – observou.

Segundo o documento final, a reforma “enferma de vícios suscetíveis de gerarem a sua patente inconstitucionalidade”. Para os assinantes da petição, as justificativas para acordo são falsas: discordam de que ele vai ajudar a combater o analfabetismo com a simplificação e ajudar a língua portuguesa a se impor como língua internacional. Também dizem que a justificativa para a adoção não tem base científica.

Entre as principais queixas dos críticos ao acordo está a de que a eliminação de “p” e “c” não pronunciados em palavras como “óptimo”, “Egipto”, “acto” ou “facção” abandona a etimologia das palavras

21:50 – 20/05/2009

Quais as causas da diferenciação do Idioma Brasileiro do português de Portugal?

Prof. Paulo Hernandes
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Quando um português fala, percebemos rapidamente que há diferença entre seu modo de falar e o nosso, aqui no Brasil, não é? Mas por que surgiram essas diferenças? Em primeiro lugar, enquanto em Portugal os vários dialetos eram (e ainda são) falados em regiões delimitadas e o da região de Lisboa firmou-se como o “português-padrão”, por ter mais prestígio (falado na sede do poder político), no Brasil, falantes desses dialetos se juntaram, o que já produziu certa mistura por aqui. A propósito, dialeto é a variante de uma língua que apresenta diferenças marcantes com relação a ela e possui literatura própria. Em segundo lugar, contribuiu para acentuar a diferença o isolamento da colônia em relação à metrópole. Assim, as novidades e modismos lingüísticos que surgiam em Lisboa ficavam desconhecidos aqui. Por isso, a língua se transformava mais rapidamente lá e tornava-se mais conservadora na periferia. Até hoje, usamos formas, como o gerúndio (estou trabalhando), consideradas arcaicas em Portugal. Outra causa, importantíssima, foi a influência indígena e, em menor intensidade, a africana. A língua portuguesa, ao chegar na nova terra, entrou em contato, logo de início, com línguas do tronco tupi, especialmente o tupinambá, tupiniquim e o guarani (não existe uma “língua tupi”, que é um tronco, conjunto de línguas aparentadas). Essas línguas acabaram dominadas pelo português, mas exerceram grande influência sobre ele na sonoridade e no vocabulário. Por outro lado, as línguas africanas que chegaram, faladas pelo enorme contingente de escravos ao longo de três séculos, também exerceram sua influência, particularmente no vocabulário. Tudo isso não aconteceu em Portugal. Finalmente, o fator político: a partir de sua independência, os brasileiros passaram a fazer questão de falar diferente dos portugueses, o que acelerou a diferenciação. [texto resumido e adaptado]
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Texto na íntegra:
http://www.paulohernandes.pro.br/vocesabia/001/vcsabia009.html