O QUE NÃO SABEMOS DA NOSSA LÍNGUA?

Marcos Bagno

Dia desses, uma das minhas assinantes no Facebook me perguntou o que nós, brasileiros em geral, não sabemos sobre a nossa língua. Respondi, brevemente, mas acho que valeria a pena discorrer um pouco mais a respeito do tema. É que, de fato, a ignorância geral quando o assunto é língua deixa qualquer especialista na área de cabelo em pé. Já avançamos tanto em outros campos da vida social, política, cultural. Já abandonamos tantos mitos e superstições que prejudicavam o bom convívio em sociedade, mas quando se trata das línguas em geral e da nossa em particular ainda vivemos em plena Idade Média.

Treze anos atrás, publiquei um livrinho chamado Preconceito linguístico: o que é, como se faz, que hoje está em sua 53a edição. Ele se tornou uma espécie de “leitura obrigatória” nos cursos de Letras, Pedagogia e mesmo em Jornalismo. Ali eu descrevo o que chamo de “mitologia do preconceito linguístico”. Depois de todos esses anos, se tivesse de escrever o livro de novo, teria de fazer exatamente como fiz em 1999. Talvez acrescentasse agora essa ideia do que não sabemos da nossa língua.

Não sabemos, por exemplo, que o português brasileiro é uma língua plena, em todos os sentidos da palavra, diferente do português europeu. Diferente. Nem melhor nem pior, porque não existe hierarquia entre as línguas. Todas se equivalem, todas são perfeitas para a manutenção da coesão social dos povos que as falam. Depois de meio milênio de implantação do português quinhentista em terras brasileiras, é claro que a língua passou por mudanças inevitáveis e adquiriu caráter próprio. Temos uma gramática só nossa. Uma gramática que, aliás, surpreende os estudiosos do mundo todo por causa das característica únicas que o português brasileiro apresenta no conjunto das línguas românicas, isto é, das línguas derivadas do latim.

Um exemplo simples: o português brasileiro é a única língua da família que eliminou completamente (na fala) os pronomes oblíquos “o”, “a”, “os”, “as”. Quando alguém nos pergunta: “Você comprou o livro que indiquei?”, nós respondemos, simplesmente: “Comprei”. Em qualquer outra língua da família (italiano, francês, espanhol, galego, sardo, catalão etc.), se a pessoa vai responder usando o verbo, usará obrigatoriamente o oblíquo, respondendo algo como: “Sim, eu o comprei”. Nós, porém, dispensamos o pronome. A única língua que fazia isso era… o latim! Em latim não existiam pronomes de 3a pessoa, nem retos nem oblíquos. Os falantes do latim “clássico” respondiam somente com o verbo. Como e por que demos essa volta completa e fechamos o ciclo das mudanças retornando precisamente a um uso da língua-mãe? Esse é o tipo de curiosidade que deveríamos ter sobre nossa língua, em vez de ficar perdendo tempo com asneiras como se é certo ou errado dizer “presidenta”. Isso é o que a escola deveria ensinar, e não perder tempo com coisas que não existem, como a suposta diferença entre “adjunto adnominal” e “complemento nominal”, que eu mesmo até hoje não entendi (talvez porque não exista).

Outra coisa fundamental seria divulgar e ensinar que o português brasileiro é a 3a língua mais falada no Ocidente (atenção: no Ocidente, não no mundo), depois do espanhol e do inglês. E com a projeção internacional do Brasil hoje no cenário mundial, é uma língua que atrai cada vez mais atenção e interesse. Só a nossa “grande” mídia escrota continua a achar que brasileiro fala tudo errado e que só em Portugal se fala certo. Idade Média total!

Reprodução integral do texto de Marcos Bagno. Fonte: http://marcosbagno.org/2013/08/13/o-que-nao-sabemos-da-nossa-lingua/ – Grifo nosso.

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LÍNGUA BRASILEIRA

Cristovão Tezza

Que o português do Brasil é diferente do português de Portugal, sabemos todos.  Se por escrito não são tantas diferenças assim, basta ouvir um português falando que já nos sentimos estrangeiros: Ora pois, diremos, é outra língua! Mas, no mundo dos padrões, são diferenças já oficializadas via gramática e dicionários. O que merece atenção especial, entretanto, é a própria diversidade brasileira, que parece ter ganho fôlego de alguns anos para cá. É mais ou menos como se o brasileiro passasse de repente a invadir a sua própria terra com a sua própria voz – e o resultado, é claro, desagrada. Esse é um terreno pantanoso, difícil de se focar com racionalidade.

Como de gramático e louco todo mundo tem um pouco – e como as pessoas que escrevem bem já têm por natureza um habeas corpus para dizer o que querem sobre a língua, a lingüística, isto é, a ciência que estuda as línguas (basicamente tentando responder à questão: “Como  funcionam?”) parece não existir. Se há uma área em que o chamado “senso comum” ganha foros de ciência, essa área é a da linguagem. Se alguém dissesse hoje sobre medicina ou astronomia o equivalente ao que se diz por aí sobre a língua, já estaríamos todos mortos pelas ventosas medievais e o Sol giraria poderoso e indiscutível em volta da Terra. “Brasileiro não sabe falar”, “a língua portuguesa está acabando”, etc. – em geral são afirmações apocalípticas, imbuídas de um certo ímpeto lingüístico-punitivo, que ao mesmo tempo que confere autoridade ao falante (aquele chato que sabe duas regras de crase e sai por aí, furibundo, catando milho nos jornais), esmaga os outros pelo que eles têm de fundamental: a linguagem. E quando aparece alguém dizendo que é preciso pensar a questão da língua brasileira de outro modo, imediatamente sacam do bolso a acusação mortal: “Ah, então vale tudo agora? Vamos todos escrever errado, cada um faz o que quer, a língua é essa esculhambação?” Não, não é uma resposta de bar, ao calor da cerveja – já ouvi grandes escritores, de cujas obras aliás sou leitor devoto, dizendo exatamente a mesma coisa.

Antes de mais nada, é bom rever aquele feijão-com-arroz inicial de quem quer pensar a língua. Um bom roteiro seria, primeiro, separar língua de escrita, que são realidades sociais profundamente diferentes (embora, para o leigo, pareçam a mesma coisa) e que na vida real cumprem papéis bastante distintos. O segundo ponto é perceber que toda língua é de fato um conjunto imenso de variedades gramaticais; do ponto de vista histórico, o assombroso é o esforço de unidade, e não a diáspora dessas variedades, que tem sido a regra universal desde Babel. E a terceira escala desta viagem é o conceito de língua padrão – justamente aquela variedade especial, de prestígio, que o senso comum tende a confundir com a própria idéia de “língua”, substituindo ou ignorando ou suprimindo a belíssima massa verbal viva, cotidiana, das milhares de gramáticas do nosso dia-a-dia, que lhe dão consistência, alimento e vitalidade. A língua padrão (em seu sentido principal) é uma construção de artifício, vinculada à representação gráfica da linguagem, historicamente determinada e realimentada sempre pelas instâncias de poder político, religioso, social e cultural. Não há nada de mau ou errado nisso – por exemplo, a língua padrão é, em todas as sociedades complexas, praticamente o único meio pelo qual entramos na perspectiva da História, no mundo das leis e dos regulamentos e na riqueza do patrimônio cultural. A questão central a guardar aqui é que esse padrão não é “sagrado”; por ser uma construção da cultura e da vontade política, ele se transforma e se renova ao longo do tempo. Ele não é “a língua” – é a sua cristalização formal momentânea.

Por que hoje no Brasil se fala tanto que “o português corre perigo”? Há muitas explicações para esse mito, desde a idéia de que a língua de Carlos Drummond de Andrade está ameaçada pela placa de hot-dog da esquina (o que gerou até um inacreditável projeto de lei para proibir estrangeirismos), até a constatação de que houve uma “decadência do ensino”. O medo do hot-dog é, perdão, ridículo – o choque dos empréstimos lingüísticos é traço inerente a toda língua e sinal de sua riqueza, não de sua decadência; um breve olhar pela história do português já nos informa que atravessamos os séculos devorando estrangeirismos (tupi or not tupi!). Quanto ao ensino, aí sim, chegamos a outro ponto, mas em outra perspectiva. O ensino era “maravilhoso” quando se destinava a uma parcela pequena da sociedade brasileira, seus 30% urbanizados e letrados da classe-média que cresceu até os fins dos anos 1960. Mas nos últimos 40 anos processou-se uma ampliação significativa do alcance escolar ao mesmo tempo em que se consolidou a mudança do espaço urbano brasileiro, cuja população suplantou a rural – e nesse processo, a “língua brasileira” mostrou a cara, quase que subitamente. O padrão elitizado que se mantinha apenas numa faixa da população não encontrou vontade política para se universalizar junto com a escola que se expandia. Ao mesmo tempo, a ampla mobilidade social e geográfica do povo brasileiro, aliada ao crescimento das comunicações de massa trouxe à tona, agressiva, esta língua subterrânea que, até então, só entrava nos salões devidamente paramentada por Guimarães Rosa ou confinada no exótico da chamada “cultura popular” ou “caipira”.

Em outras palavras, a língua brasileira, hoje, está à solta. E é claro que essa presença viva – como ocorreu e ocorre em todas as línguas do mundo, em todas as épocas de forte mudança social e interpenetração de linguagens – provoca modificações nas formas do padrão normativo. Algumas dessas modificações são iluminadas fortemente, e portanto encontram mais resistência – o controle sobre o verbo haver, por exemplo (até hoje o “tinha uma pedra no meio do caminho” é “inaceitável”, por incrível que pareça) – e outras passam debaixo da porta, porque os letrados não não as reconhecem como “erro” (o mundo rico e vago das regências, por exemplo, como “implicar em”, ou o corte das preposições nas orações relativas – “tenho medo que ele faça isso”). A riqueza do imperativo duplo brasileiro (diga isso / diz isso, vem / venha), que se criou no longo processo de reorganização do nosso sistema verbal pelo advento do “você” assumindo o lugar do “tu”, é considerado “erro” por uma visão tacanha (e, esta sim, ignorante) da língua; e muitos manuais insistem, por exemplo, na distinção “este/esse”, praticamente desaparecida da vida real da linguagem, falada ou escrita. Mas há esperança: o melhor documento sobre o padrão real brasileiro hoje está justamente no seu maior dicionário, o Houaiss, que, em seus exemplos, tem o ouvido muito mais atento às marcas da mudança da língua brasileira que as gramáticas escolares que andam por aí.

O caminho da assimilação de formas novas, no padrão escrito, é sempre lento. Não precisamos ter medo delas: o padrão brasileiro é de uma incrível vitalidade. Língua nenhuma tem “proprietários”, mas uma certa faixa escolar de letrados imagina-se, indignada, brandindo uma imaginária escritura passada em cartório, dona da língua. Numa coisa eles estão certos: o padrão escrito é, de fato, uma construção política, e portanto depende de controle; o que é preciso saber, agora, é que ele muda e que ele deve ser, em última instância, a expressão de seus usuários. Já está mais do que na hora de pensar em uma gramática normativa brasileira que, sem perder de vista o seu eixo histórico, abrisse algumas portas mais generosas à realidade lingüística que se escancara em torno. Seria muito bom se o padrão das gramáticas normativas se aproximasse mais do padrão real dos nossos bons escritores e jornalistas, que, mesmo quando não sabem disso, estão transformando a língua todos os dias. Não, não é que agora “vale tudo” – na criação da língua padrão, como na velha sabedoria, só “vale o escrito”.

Publicado em “Leituras Compartilhadas”, revista de (in)formação para agentes de leitura (ano 6, fascículo 19; p. 13-15), publicação de Leia Brasil – Organização Não Governamental de Promoção da Leitura – http://www.leiabrasil.org.br

Reprodução integral do texto de Cristovão Tezza. Fonte: http://www.cristovaotezza.com.br/textos/palestras/p_linguabrasileira.htm

PORTUGUÊS OU BRASILEIRO? NÃO EIS A QUESTÃO

Por Marcos Bagno

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O ato social, cultural e político de nomear uma língua é um processo muito mais complexo e conflituoso do que a maioria das pessoas imagina. Antes de tudo, justamente por ser um ato político, ele escapa alegremente do domínio restrito dos especialistas em linguística e exige uma abordagem sócio-histórica bem embasada. E quando aplicamos essa abordagem às diferentes situações sociolinguísticas do mundo, encontramos, no mínimo, duas tipologias bem distintas: (1) línguas iguais com nomes diferentes e (2) línguas diferentes com nomes iguais.

Para ilustrar o tipo (1), vamos examinar o caso do híndi e do urdu. O urdu é a língua oficial do Paquistão. Como língua falada, o urdu é praticamente indistinguível do híndi, língua oficial mais importante da Índia. A diferença entre as duas línguas está no fato de que o urdu é utilizado como língua escrita por falantes muçulmanos e se escreve numa forma ligeiramente adaptada do alfabeto persa que, por sua vez, é uma variante do alfabeto árabe. O híndi, por sua vez, se escreve no alfabeto devanágari, originalmente empregado para o sânscrito, e é utilizado pelos falantes de religião hindu. A rivalidade histórica entre Paquistão e Índia, que gerou guerras sanguinárias entre os dois países, junto com a divisão religiosa, é o que explica a atribuição de nomes diferentes a um único sistema linguístico.

A situação das línguas da Índia e do Paquistão se reproduz em certa medida na antiga Iugoslávia. Depois da sangrenta divisão da antiga confederação socialista em diferentes pequenos Estados independentes, a língua que sempre se chamou servo-croata recebeu três nomes distintos: sérvio, croata e bósnio. As diferenças entre o sérvio e o croata sempre se restingiram à escrita: os croatas, católicos romanos, empregam o alfabeto latino; os sérvios, católicos ortodoxos, empregam o alfabeto cirílico; os bósnios, muçulmanos, empregam tanto o alfabeto latino quanto o cirílico. Com a criação dos Estados independentes da Croácia e da Bósnia, a língua, que para os linguistas é um sistema único com variedades locais que não impedem a intercompreensão dos falantes, passou a ser designada com nomes distintos, nomes de países, de nações.

A situação se inverte no tipo (2) e fica clara quando analisamos o caso da chamada “língua árabe”. Por razões de natureza religiosa, o que os falantes de “árabe” chamam de “árabe” é a língua na forma como ela se encontrava quando o profeta Maomé redigiu o livro sagrado do Islã, o Corão, no século VII. Essa língua, também chamada de “árabe clássico”, é uma língua morta, não é falada por ninguém como idioma materno, está restrita à literatura religiosa. Nos diferentes países chamados “árabes”, existem formas de falar tão diferentes entre si quanto, por exemplo, o português e o italiano, sem possibilidades de intercompreensão entre seus falantes, e não poderia ser de outra maneira. É uma ilusão ideológica achar que num território imenso, que vai do extremo ocidental da África até a fronteira do Iraque com o Irã, passando por todo o Oriente Médio, se fala uma só e única “língua árabe”.

No entanto, essa ilusão ideológica é sustentada pela própria cultura “árabe” tradicional, já que na maioria dos 22 países “árabes” o sistema educacional se dedica exclusivamente ao ensino do “árabe clássico” e de sua forma mais modernizada, o “árabe-padrão”, enquanto que os chamados “dialetos” particulares falados nos diferentes países não recebem apoio institucional nem são valorizados, embora sejam as verdadeiras línguas maternas nacionais. É inconcebível que 300 milhões de pessoas, distribuídas por um território tão dilatado, falem uma mesma e única língua “árabe”.

O caso do português também entra nessa segunda situação, ou seja, línguas diferentes do ponto de vista estrutural e dos usos (fonológico, morfossintático, semântico, pragmático etc.), mas que recebem o mesmo nome. Já sabemos que o nome das línguas não depende das opiniões dos especialistas. No caso do Brasil, ocorreu, na década de 1930, uma tentativa de designar a nossa língua majoritária como “brasileiro”, mas o projeto de lei que previa essa designação se afogou no meio do turbilhão político que acabou por instituir o Estado Novo e a ditadura de Getúlio Vargas.

Uma análise racional pode partir da seguinte pergunta: por que, 500 anos depois do desmoronamento do Império Romano, a bibliografia especializada já reconhece a existência de “línguas” como o francês, o castelhano e o português, mas não reconhece, 500 anos depois da expansão marítima portuguesa, a existência de diversas “línguas” derivadas do português quinhentista? Por que a mesma porção de tempo vale para uma classificação (línguas românicas: francês, espanhol, português etc.) mas não vale para outra (“variedades” do português)?

As pesquisas linguísticas empreendidas no Brasil têm demonstrado amplamente que o português europeu e o português brasileiro já são duas línguas diferentes, tanto do ponto de vista estrutural (fonológico, morfossintático, semântico), quanto do ponto de vista pragmático, discursivo etc. Seja qual for o nome que se dê a cada uma dessas línguas, o importante é reconhecer sua diferença e, principalmente, reconhecer que o português brasileiro é uma língua plena, autônoma, um sistema linguístico perfeitamente regrado e que nada tem de inferior a língua nenhuma do mundo, muito menos ao português europeu. Pelo contrário, o português brasileiro apresenta características únicas, que atraem a atenção dos linguistas estrangeiros, intrigados com esses fenômenos estruturais que isolam a nossa língua dentro do conjunto geral das línguas românicas.

A designação da nossa língua como português ou brasileiro depende única e exclusivamente de continuarmos ou não amedrontados por um fantasma colonial que teima em assustar ideologicamente aqueles que ainda consideram o povo brasileiro uma “mistura de raças” e, por isso, um povo incapaz de ter sua língua própria.

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Reprodução integral do texto de Marcos Bagno (10/06/2013). Fonte: http://e-proinfo.mec.gov.br/eproinfo/blog/preconceito/portugues-ou-brasileiro-nao-eis-a-questao.html

“Menas”, por favor!

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Em confronto com as regras da norma culta, duas gramáticas e uma exposição defendem o modo brasileiro de falar

Mariana Shirai

Marcelo Min

FALE EM BRASILEIRO
O linguista Ataliba Teixeira de Castilho com uma prova de sua gramática do português falado no Brasil

A gente vamos falar errado menas vezes. Por mais estranheza que provoque hoje, essa frase poderá ser considerada uma maneira culta de usar a língua… no ano de 2210. Nem estaremos nos comunicando em português, mas sim em língua brasileira. Essas são algumas projeções feitas pelo linguista Ataliba Teixeira de Castilho, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e estudioso da área há mais de cinco décadas. “Acho que em 200 anos teremos uma língua brasileira, totalmente diferente do português europeu e do africano”, diz ele. “Só não posso garantir, porque a linguística não é uma ciência do futuro, mas do presente e do passado.”

Castilho é autor de uma das duas gramáticas do português do Brasil que acabam de chegar às livrarias. Os livros, somados a uma exposição em São Paulo sobre as diferentes maneiras de falar do brasileiro, são uma tentativa de valorizar os desvios da norma culta praticados no país. Eles questionam a ideia de que haja uma maneira certa e outra errada de falar.

O futuro imaginado por Castilho pode parecer nada “haver”, mas se baseia em teorias fundamentadas. O professor esteve entre os acadêmicos que iniciaram o estudo da linguística (ciência que trata da linguagem verbal humana) no Brasil, na década de 70. De lá para cá, participou da criação de relevantes trabalhos da área, como a Gramática do português falado, primeiro estudo do gênero entre as línguas romanas, Para a história do português brasileiro e A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. Ele se apoiou no conhecimento acumulado para escrever a recém-lançada Nova gramática do português brasileiro (Contexto, 768 páginas, R$ 69,90).

  Divulgação
  Divulgação

A obra não é o tipo de gramática com a qual estamos acostumados. “Não estou preocupado com o certo ou o errado”, afirma Castilho (leia a entrevista). “Fiz um retrato da língua como ela é falada no Brasil, com suas variedades.” Isso quer dizer que o livro não deve ser usado como uma referência de como falar ou escrever dentro da norma culta – o conjunto de regras usadas pelos falantes cultos, descritas em gramáticas tradicionais. Ele mapeia os diferentes jeitos de usar a língua, incluindo aí formas que seriam consideradas erros pelos mais conservadores. Castilho analisa expressões como “ni mim”, “tafalano no telefone” e “quem que chegou?” a partir da constatação de que são fenômenos da língua, deixando as regras de lado.Também na trilha de identificar uma língua brasileira, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Mario Alberto Perini acaba de lançar Gramática do português brasileiro (Parábola Editorial, 368 páginas, R$ 50). Mais concisa, a obra é a adaptação de outra gramática dele, a Modern portuguese: a reference grammar, escrita com o intuito de ensinar estrangeiros a falar o português brasileiro. “O português do Brasil (e não o europeu) é usado por 190 milhões de pessoas, é a oitava língua mais falada no mundo”, diz. “O fato de ele nunca ter sido organizado em forma de gramática é uma situação anômala, que mexe com nossos brios.”

Castilho concorda. “O futuro da língua portuguesa repousa no Brasil.” O lançamento das duas gramáticas é também relevante para o momento atual do país. “Tudo na linguagem é uma questão política. O país está numa fase interessantíssima.” Tentativas de unificar a língua, como o recente Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, podem ser vistas como um movimento oposto ao natural distanciamento e dominância do português falado no Brasil em relação às variantes europeias e africanas.

As iniciativas que valorizam o falar brasileiro não estão apenas nos livros. Em São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa apresenta, até 27 de junho, a exposição Menas: o certo do errado, o errado do certo, com curadoria de Castilho e do professor de cursinho Eduardo Calbucci. É a primeira exposição do museu – um dos mais visitados do país – que trata da língua portuguesa. As outras mostras abordaram a obra de escritores, como Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

Marcelo Min

SEM ERRO
A exposição Menas exibe desvios da norma culta, abordados nas obras de Castilho e Perini

Os 420 metros quadrados do 1o andar da instituição foram cobertos por instalações multimídias, jogos interativos e vídeos que tratam exatamente dos desvios da norma padrão praticados pelo brasileiro na fala, na escrita cotidiana, na literatura e na música. “Queremos mostrar que o bom falante é aquele que sabe escolher a variedade linguística de acordo com a situação”, afirma Calbucci.

A exposição aborda com sucesso a ideia de que não há maneira errada de usar a língua. Logo no início, o visitante depara com frases como “Se alguém usou uma palavra, ela existe” e “A língua varia no tempo e no espaço”. Visitada principalmente por grupos de crianças em fase escolar, a exposição pode ser um problema, caso não haja orientação correta. Mesmo que sem intenção, ela valoriza os desvios em detrimento da norma culta. “Não é uma boa iniciativa”, diz o professor Evanildo Bechara, o mais importante gramático do Brasil. “É como dizer: ‘Se todo mundo está usando o crack, por que eu não vou usar?’. Se o aluno aprende a língua que ele já sabe, ou a escola está errada, ou o aluno não precisa da escola.”

O mérito da exposição e das gramáticas de Ataliba e de Perini está em divulgar uma ideia simples e ainda pouco compreendida: a língua está em constante mutação. Por isso, não deve ser avaliada apenas a partir da norma culta. O que hoje é visto como erro pode ser abraçado pelo padrão amanhã.

http://revistaepoca.globo.com/

Por uma nova língua

Pesquisadora defende a descolonização do português falado no Brasil. Em livro recém-publicado, ela reúne artigos a favor da chamada língua brasileira, produto da mistura dos idiomas dos colonizadores, dos índios e dos escravos.

Por: Raquel Oliveira

Publicado em 09/12/2009


Prédio da Estação da Luz, em São Paulo, que abriga o Museu da Língua
Portuguesa (foto: Wikimedia Commons).

Falamos português? A linguista Eni Orlandi acredita que não. Ela faz parte do grupo de estudiosos que defende a chamada língua brasileira, produto da mistura dos idiomas dos colonizadores, dos índios e dos escravos. No livro Língua brasileira e outras histórias – discurso sobre a língua e ensino no Brasil, lançado este ano, Orlandi reuniu 14 artigos de autoria própria que falam sobre o tema.

A linguista acredita na historicidade da língua. Para ela, os processos históricos pelos quais passaram Brasil e Portugal contribuíram para que o idioma falado nesses dois países se diferenciasse. Assim, segundo a pesquisadora, não é mais possível dizer que ambos falam português. Hoje esse idioma cabe apenas a Portugal. No Brasil, fala-se uma nova língua: o “brasileiro”.

Processos históricos contribuíram para que o idioma falado no Brasil e em Portugal se diferenciasse

A autora critica o fato de estarmos presos ao nosso português como língua esquematizada e ressalta que há uma infinidade de formas de se falar o idioma brasileiro. Ela destaca que os linguistas tendem a esconder a influência dos idiomas indígenas sobre o português em outros campos que não o vocabulário.

Língua imaginária x língua falada

Antes de entrar na discussão sobre as diferenças entre o português e o “brasileiro”, Orlandi, que é coordenadora do Laboratório de Estudos Urbanos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), comenta o conflito entre a língua imaginária, aquela descrita nos livros de gramática, e a língua fluida, usada pelos falantes no dia a dia.

Língua brasileira e outras histórias

Para a estudiosa, temos uma falsa impressão de que a língua é estável. O português, ou melhor, o “brasileiro”, é corrente e está em constante mutação. Orlandi acredita que essa tensão entre língua imaginária e língua fluida prova a necessidade de se complementar os estudos teóricos, baseados em polpudos bancos de dados, com o idioma usado no cotidiano.

A pesquisadora critica também a imposição do português de Portugal como norma. Em sua opinião, a supostas falhas da língua brasileira constituem, antes de qualquer coisa, um ponto forte, uma qualidade.

Plano de ação

Por fim, a linguista propõe um plano de ação para promover a língua brasileira. Entre as estratégias sugeridas por Orlandi, está o aumento da capacidade da população dos países sul-americanos de se comunicar em “brasileiro” e, possivelmente, estender essa ação para outros continentes. A ideia é que as pessoas percebam que a língua brasileira está ligada à vida cultural do país. Ela sugere ainda o estímulo à redação de artigos científicos em português.

Orlandi sugere o estímulo à redação de artigos científicos em português

A autora menciona também uma declaração assinada em 2007 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates. Nela, os líderes comprometiam-se, entre outras coisas, a criar, no Brasil, o Instituto Machado de Assis.

A função da entidade seria promover, em parceria com o Instituto Camões (Portugal), as línguas portuguesa e brasileira no exterior, à moda dos institutos Cervantes (Espanha) e Goethe (Alemanha), por exemplo. No entanto, segundo Orlandi, as discussões sobre o projeto foram deixadas de lado em prol do novo acordo ortográfico, em vigor desde janeiro de 2009.

Quanto à linguagem usada em Língua brasileira e outras histórias, o leitor pode encontrar dificuldade para compreender o texto, caso não esteja familiarizado com artigos acadêmicos. Mas, se esse mesmo leitor estiver interessado na questão da língua portuguesa no Brasil, o esforço vale a pena.

Raquel Oliveira
Ciência Hoje On-line