LÍNGUA BRASILEIRA

Cristovão Tezza

Que o português do Brasil é diferente do português de Portugal, sabemos todos.  Se por escrito não são tantas diferenças assim, basta ouvir um português falando que já nos sentimos estrangeiros: Ora pois, diremos, é outra língua! Mas, no mundo dos padrões, são diferenças já oficializadas via gramática e dicionários. O que merece atenção especial, entretanto, é a própria diversidade brasileira, que parece ter ganho fôlego de alguns anos para cá. É mais ou menos como se o brasileiro passasse de repente a invadir a sua própria terra com a sua própria voz – e o resultado, é claro, desagrada. Esse é um terreno pantanoso, difícil de se focar com racionalidade.

Como de gramático e louco todo mundo tem um pouco – e como as pessoas que escrevem bem já têm por natureza um habeas corpus para dizer o que querem sobre a língua, a lingüística, isto é, a ciência que estuda as línguas (basicamente tentando responder à questão: “Como  funcionam?”) parece não existir. Se há uma área em que o chamado “senso comum” ganha foros de ciência, essa área é a da linguagem. Se alguém dissesse hoje sobre medicina ou astronomia o equivalente ao que se diz por aí sobre a língua, já estaríamos todos mortos pelas ventosas medievais e o Sol giraria poderoso e indiscutível em volta da Terra. “Brasileiro não sabe falar”, “a língua portuguesa está acabando”, etc. – em geral são afirmações apocalípticas, imbuídas de um certo ímpeto lingüístico-punitivo, que ao mesmo tempo que confere autoridade ao falante (aquele chato que sabe duas regras de crase e sai por aí, furibundo, catando milho nos jornais), esmaga os outros pelo que eles têm de fundamental: a linguagem. E quando aparece alguém dizendo que é preciso pensar a questão da língua brasileira de outro modo, imediatamente sacam do bolso a acusação mortal: “Ah, então vale tudo agora? Vamos todos escrever errado, cada um faz o que quer, a língua é essa esculhambação?” Não, não é uma resposta de bar, ao calor da cerveja – já ouvi grandes escritores, de cujas obras aliás sou leitor devoto, dizendo exatamente a mesma coisa.

Antes de mais nada, é bom rever aquele feijão-com-arroz inicial de quem quer pensar a língua. Um bom roteiro seria, primeiro, separar língua de escrita, que são realidades sociais profundamente diferentes (embora, para o leigo, pareçam a mesma coisa) e que na vida real cumprem papéis bastante distintos. O segundo ponto é perceber que toda língua é de fato um conjunto imenso de variedades gramaticais; do ponto de vista histórico, o assombroso é o esforço de unidade, e não a diáspora dessas variedades, que tem sido a regra universal desde Babel. E a terceira escala desta viagem é o conceito de língua padrão – justamente aquela variedade especial, de prestígio, que o senso comum tende a confundir com a própria idéia de “língua”, substituindo ou ignorando ou suprimindo a belíssima massa verbal viva, cotidiana, das milhares de gramáticas do nosso dia-a-dia, que lhe dão consistência, alimento e vitalidade. A língua padrão (em seu sentido principal) é uma construção de artifício, vinculada à representação gráfica da linguagem, historicamente determinada e realimentada sempre pelas instâncias de poder político, religioso, social e cultural. Não há nada de mau ou errado nisso – por exemplo, a língua padrão é, em todas as sociedades complexas, praticamente o único meio pelo qual entramos na perspectiva da História, no mundo das leis e dos regulamentos e na riqueza do patrimônio cultural. A questão central a guardar aqui é que esse padrão não é “sagrado”; por ser uma construção da cultura e da vontade política, ele se transforma e se renova ao longo do tempo. Ele não é “a língua” – é a sua cristalização formal momentânea.

Por que hoje no Brasil se fala tanto que “o português corre perigo”? Há muitas explicações para esse mito, desde a idéia de que a língua de Carlos Drummond de Andrade está ameaçada pela placa de hot-dog da esquina (o que gerou até um inacreditável projeto de lei para proibir estrangeirismos), até a constatação de que houve uma “decadência do ensino”. O medo do hot-dog é, perdão, ridículo – o choque dos empréstimos lingüísticos é traço inerente a toda língua e sinal de sua riqueza, não de sua decadência; um breve olhar pela história do português já nos informa que atravessamos os séculos devorando estrangeirismos (tupi or not tupi!). Quanto ao ensino, aí sim, chegamos a outro ponto, mas em outra perspectiva. O ensino era “maravilhoso” quando se destinava a uma parcela pequena da sociedade brasileira, seus 30% urbanizados e letrados da classe-média que cresceu até os fins dos anos 1960. Mas nos últimos 40 anos processou-se uma ampliação significativa do alcance escolar ao mesmo tempo em que se consolidou a mudança do espaço urbano brasileiro, cuja população suplantou a rural – e nesse processo, a “língua brasileira” mostrou a cara, quase que subitamente. O padrão elitizado que se mantinha apenas numa faixa da população não encontrou vontade política para se universalizar junto com a escola que se expandia. Ao mesmo tempo, a ampla mobilidade social e geográfica do povo brasileiro, aliada ao crescimento das comunicações de massa trouxe à tona, agressiva, esta língua subterrânea que, até então, só entrava nos salões devidamente paramentada por Guimarães Rosa ou confinada no exótico da chamada “cultura popular” ou “caipira”.

Em outras palavras, a língua brasileira, hoje, está à solta. E é claro que essa presença viva – como ocorreu e ocorre em todas as línguas do mundo, em todas as épocas de forte mudança social e interpenetração de linguagens – provoca modificações nas formas do padrão normativo. Algumas dessas modificações são iluminadas fortemente, e portanto encontram mais resistência – o controle sobre o verbo haver, por exemplo (até hoje o “tinha uma pedra no meio do caminho” é “inaceitável”, por incrível que pareça) – e outras passam debaixo da porta, porque os letrados não não as reconhecem como “erro” (o mundo rico e vago das regências, por exemplo, como “implicar em”, ou o corte das preposições nas orações relativas – “tenho medo que ele faça isso”). A riqueza do imperativo duplo brasileiro (diga isso / diz isso, vem / venha), que se criou no longo processo de reorganização do nosso sistema verbal pelo advento do “você” assumindo o lugar do “tu”, é considerado “erro” por uma visão tacanha (e, esta sim, ignorante) da língua; e muitos manuais insistem, por exemplo, na distinção “este/esse”, praticamente desaparecida da vida real da linguagem, falada ou escrita. Mas há esperança: o melhor documento sobre o padrão real brasileiro hoje está justamente no seu maior dicionário, o Houaiss, que, em seus exemplos, tem o ouvido muito mais atento às marcas da mudança da língua brasileira que as gramáticas escolares que andam por aí.

O caminho da assimilação de formas novas, no padrão escrito, é sempre lento. Não precisamos ter medo delas: o padrão brasileiro é de uma incrível vitalidade. Língua nenhuma tem “proprietários”, mas uma certa faixa escolar de letrados imagina-se, indignada, brandindo uma imaginária escritura passada em cartório, dona da língua. Numa coisa eles estão certos: o padrão escrito é, de fato, uma construção política, e portanto depende de controle; o que é preciso saber, agora, é que ele muda e que ele deve ser, em última instância, a expressão de seus usuários. Já está mais do que na hora de pensar em uma gramática normativa brasileira que, sem perder de vista o seu eixo histórico, abrisse algumas portas mais generosas à realidade lingüística que se escancara em torno. Seria muito bom se o padrão das gramáticas normativas se aproximasse mais do padrão real dos nossos bons escritores e jornalistas, que, mesmo quando não sabem disso, estão transformando a língua todos os dias. Não, não é que agora “vale tudo” – na criação da língua padrão, como na velha sabedoria, só “vale o escrito”.

Publicado em “Leituras Compartilhadas”, revista de (in)formação para agentes de leitura (ano 6, fascículo 19; p. 13-15), publicação de Leia Brasil – Organização Não Governamental de Promoção da Leitura – http://www.leiabrasil.org.br

Reprodução integral do texto de Cristovão Tezza. Fonte: http://www.cristovaotezza.com.br/textos/palestras/p_linguabrasileira.htm

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“Menas”, por favor!

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Em confronto com as regras da norma culta, duas gramáticas e uma exposição defendem o modo brasileiro de falar

Mariana Shirai

Marcelo Min

FALE EM BRASILEIRO
O linguista Ataliba Teixeira de Castilho com uma prova de sua gramática do português falado no Brasil

A gente vamos falar errado menas vezes. Por mais estranheza que provoque hoje, essa frase poderá ser considerada uma maneira culta de usar a língua… no ano de 2210. Nem estaremos nos comunicando em português, mas sim em língua brasileira. Essas são algumas projeções feitas pelo linguista Ataliba Teixeira de Castilho, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e estudioso da área há mais de cinco décadas. “Acho que em 200 anos teremos uma língua brasileira, totalmente diferente do português europeu e do africano”, diz ele. “Só não posso garantir, porque a linguística não é uma ciência do futuro, mas do presente e do passado.”

Castilho é autor de uma das duas gramáticas do português do Brasil que acabam de chegar às livrarias. Os livros, somados a uma exposição em São Paulo sobre as diferentes maneiras de falar do brasileiro, são uma tentativa de valorizar os desvios da norma culta praticados no país. Eles questionam a ideia de que haja uma maneira certa e outra errada de falar.

O futuro imaginado por Castilho pode parecer nada “haver”, mas se baseia em teorias fundamentadas. O professor esteve entre os acadêmicos que iniciaram o estudo da linguística (ciência que trata da linguagem verbal humana) no Brasil, na década de 70. De lá para cá, participou da criação de relevantes trabalhos da área, como a Gramática do português falado, primeiro estudo do gênero entre as línguas romanas, Para a história do português brasileiro e A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. Ele se apoiou no conhecimento acumulado para escrever a recém-lançada Nova gramática do português brasileiro (Contexto, 768 páginas, R$ 69,90).

  Divulgação
  Divulgação

A obra não é o tipo de gramática com a qual estamos acostumados. “Não estou preocupado com o certo ou o errado”, afirma Castilho (leia a entrevista). “Fiz um retrato da língua como ela é falada no Brasil, com suas variedades.” Isso quer dizer que o livro não deve ser usado como uma referência de como falar ou escrever dentro da norma culta – o conjunto de regras usadas pelos falantes cultos, descritas em gramáticas tradicionais. Ele mapeia os diferentes jeitos de usar a língua, incluindo aí formas que seriam consideradas erros pelos mais conservadores. Castilho analisa expressões como “ni mim”, “tafalano no telefone” e “quem que chegou?” a partir da constatação de que são fenômenos da língua, deixando as regras de lado.Também na trilha de identificar uma língua brasileira, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Mario Alberto Perini acaba de lançar Gramática do português brasileiro (Parábola Editorial, 368 páginas, R$ 50). Mais concisa, a obra é a adaptação de outra gramática dele, a Modern portuguese: a reference grammar, escrita com o intuito de ensinar estrangeiros a falar o português brasileiro. “O português do Brasil (e não o europeu) é usado por 190 milhões de pessoas, é a oitava língua mais falada no mundo”, diz. “O fato de ele nunca ter sido organizado em forma de gramática é uma situação anômala, que mexe com nossos brios.”

Castilho concorda. “O futuro da língua portuguesa repousa no Brasil.” O lançamento das duas gramáticas é também relevante para o momento atual do país. “Tudo na linguagem é uma questão política. O país está numa fase interessantíssima.” Tentativas de unificar a língua, como o recente Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, podem ser vistas como um movimento oposto ao natural distanciamento e dominância do português falado no Brasil em relação às variantes europeias e africanas.

As iniciativas que valorizam o falar brasileiro não estão apenas nos livros. Em São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa apresenta, até 27 de junho, a exposição Menas: o certo do errado, o errado do certo, com curadoria de Castilho e do professor de cursinho Eduardo Calbucci. É a primeira exposição do museu – um dos mais visitados do país – que trata da língua portuguesa. As outras mostras abordaram a obra de escritores, como Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

Marcelo Min

SEM ERRO
A exposição Menas exibe desvios da norma culta, abordados nas obras de Castilho e Perini

Os 420 metros quadrados do 1o andar da instituição foram cobertos por instalações multimídias, jogos interativos e vídeos que tratam exatamente dos desvios da norma padrão praticados pelo brasileiro na fala, na escrita cotidiana, na literatura e na música. “Queremos mostrar que o bom falante é aquele que sabe escolher a variedade linguística de acordo com a situação”, afirma Calbucci.

A exposição aborda com sucesso a ideia de que não há maneira errada de usar a língua. Logo no início, o visitante depara com frases como “Se alguém usou uma palavra, ela existe” e “A língua varia no tempo e no espaço”. Visitada principalmente por grupos de crianças em fase escolar, a exposição pode ser um problema, caso não haja orientação correta. Mesmo que sem intenção, ela valoriza os desvios em detrimento da norma culta. “Não é uma boa iniciativa”, diz o professor Evanildo Bechara, o mais importante gramático do Brasil. “É como dizer: ‘Se todo mundo está usando o crack, por que eu não vou usar?’. Se o aluno aprende a língua que ele já sabe, ou a escola está errada, ou o aluno não precisa da escola.”

O mérito da exposição e das gramáticas de Ataliba e de Perini está em divulgar uma ideia simples e ainda pouco compreendida: a língua está em constante mutação. Por isso, não deve ser avaliada apenas a partir da norma culta. O que hoje é visto como erro pode ser abraçado pelo padrão amanhã.

http://revistaepoca.globo.com/

Reflexões sobre a ‘Língua Brasileira’

MANUEL ALVES FILHO  para  o Jornal da UNICAMP

A língua falada e escrita atualmente no Brasil distanciou-se de tal modo do português, em consequência das mudanças que sofreu através dos tempos, que hoje já é possível falar em uma língua brasileira, que tem forma e características próprias. A hipótese é defendida no livro Língua Brasileira e Outras Histórias – Discurso sobre a língua e ensino no Brasil, de autoria de Eni Orlandi , professora do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. A obra, que resulta das pesquisas realizadas pela docente ao longo dos últimos 20 anos, trata, entre outros aspectos, de como esta língua brasileira e o conhecimento sobre ela foram constituídos historicamente. De acordo com a linguista, o português europeu começou a sofrer mudanças desde que os primeiros colonizadores aportaram por aqui. A partir de então, passou a incorporar elementos das línguas indígenas, africanas, de imigrantes e de fronteira, e a se transformar também em sua materialidade, no embate com a materialidade do novo mundo e de sua história, processo que culminou com a composição de uma língua rica e com suas singularidades.

“O que eu trabalho, no campo teórico, é que temos diferenças suficientes tanto na materialidade da língua quanto no âmbito discursivo que já nos permitem falar em uma língua brasileira. Nós produzimos discursos diferentes, com sentidos igualmente distintos. Nossos processos de significação também são diferentes. Ou seja, nossa língua está muito distante daquela que era ou ainda é falada em Portugal. E veja: não se trata de patriotismo. É apenas uma questão de reconhecer as mudanças. Penso que é chegado o momento de produzirmos teorias próprias, atuais, que levem em conta e permitam compreender o processo de colonização e as consequências em relação às línguas, e não mais usar as teorias de países colonizadores que, na maior parte das vezes, estacionam em um sentido de “mudança” próprio para falar da mudança do latim para o português, o francês etc, mas têm pouco a dizer sobre a mudança do português para o brasileiro”, afirma. Na entrevista que segue, Eni Orlandi fornece mais detalhes sobre as reflexões presentes no livro.


Jornal da UNICAMP – O título do seu livro registra “língua brasileira”. Nós já não falamos mais a língua portuguesa?
Eni Orlandi – A língua falada atualmente no Brasil é muito diferente da falada em Portugal. O que eu trabalho, no campo teórico, é que temos diferenças suficientes tanto na materialidade da língua quanto no âmbito discursivo que já nos permitem falar em uma língua brasileira. Nós produzimos discursos diferentes, com sentidos igualmente distintos. Nossos processos de significação também são diferentes. Ou seja, nossa língua está muito distante daquela que era ou ainda é falada em Portugal. E veja: não se trata de patriotismo. É apenas uma questão de reconhecer as mudanças. De situar-se diante do quadro de relações internacionais de estados e línguas, ou seja, de saber avaliar as questões postas pelo multilinguismo. Penso que é chegado o momento de produzirmos teorias próprias, e não mais usar as teorias de países colonizadores sem refletir sobre o lugar dessas teorias na história das ciências e na história social.

JU – As diferenças são tão profundas assim?
Eni Orlandi – São, sim. Mas essas diferenças não têm merecido a devida atenção. Alguns autores até falam dessas distinções, mas as classificam como “variedades”. Penso que não estamos mais no momento de falar em variedades, pois isso não mostra que falamos uma língua própria. Temos que falar em mudanças. Por que admitimos mudanças entre o latim e o português que se constituiu na Europa, mas não fazemos isso em relação ao português e a língua falada no Brasil?

JU – A recente reforma ortográfica teria sido uma forma de resistência a essa discussão sobre língua brasileira?
Eni Orlandi – De certa forma. Penso que precisamos rediscutir o que é lusofonia. Temos que pensar a lusofonia como um campo heterogêneo de línguas. É preciso tratar das diferenças entre a língua brasileira e o português, assim como das diferenças do português para o latim. Ambas são filiadas ao latim, mas são distintas deste. Mas veja: não se trata de negar a filiação da nossa língua, mas sim de destacar as singularidades dela. Ou seja, lusofonia é um campo heterogêneo de línguas que resultaram do processo de colonização, mas que se “independentizaram” ao longo do tempo. A língua brasileira é filiada ao português, que por sua vez é filiado ao latim. Ocorre, porém, que nossa língua também traz elementos das línguas indígenas, africanas, de imigração e de fronteira. Temos uma língua que se individualizou à sua maneira no processo de sua historicização.

JU – Pela sua hipótese, o português começou a sofrer transformações desde que os primeiros colonizadores aportaram em terras brasileiras. É isso?
Eni Orlandi – Quando os portugueses aportaram por aqui, eles depararam não apenas com seres diferentes, mas também com uma variedade de línguas faladas pelos índios e com um mundo muito diferente do seu. Esses portugueses precisaram nomear coisas que não conheciam, que não estavam na memória linguística deles. Precisamos lembrar que, naquele momento, nomear era também administrar. Ou seja, o que não era nomeado poderia fugir ao controle. Assim, os primeiros colonizadores perceberam que não poderiam manter a língua portuguesa como ela era, pois precisavam se fazer entender. Havia, enfim, um mundo novo a ser descoberto, a ser conquistado, a ser nomeado. Aí já ocorrem as primeiras transformações da língua. A materialidade do mundo começa a interferir na materialidade da língua e vice-versa.

JU – Ou seja, a língua tem uma dimensão política e ideológica importante.
Eni Orlandi – Exatamente. É nesse embate político, ideológico e social que a língua vai sendo constituída. Para poder administrar, os portugueses foram obrigados a alterar a própria língua e a dominar a língua dos indígenas. Entretanto, no início da colonização as autoridades portuguesas começaram a perder o controle sobre os próprios patrícios, que passaram a dominar as línguas indígenas localmente e a formar pequenos feudos, nos quais davam as cartas. Para superar essa dificuldade, a corte portuguesa enviou os jesuítas ao Brasil, com a missão de colocar “ordem” e dar visibilidade deste país para a coroa. O que os religiosos fizeram? Eles pegaram uma das línguas indígenas, o tupi, e a adaptaram, mesclando com um pouco do português e do latim. Foi criado, assim, o tupi-jesuítico, língua geral que foi falada no Brasil todo. No entanto esse processo se voltou contra a própria corte, pois os jesuítas passaram a ter um enorme controle sobre a população brasileira e sua língua. Daí sua expulsão dos religiosos e a proibição de se escrever nessa língua. Mas nenhuma língua desaparece sem deixar traço. Como se vê, as mudanças vêm de muito tempo.

JU – Essas transformações não foram apontadas anteriormente? Por que só agora está surgindo uma discussão mais ampla sobre a existência de uma língua brasileira?
Eni Orlandi – Com a independência do Brasil, eclodiu um movimento, promovido por gramáticos, de organização de um conhecimento sobre a nossa língua que já mostrava essas modificações. Mas o mais importante naquele momento não era tanto destacar descritivamente essas diferenças, e sim reivindicar o reconhecimento à nossa escrita, à nossa literatura, ao conhecimento produzido por brasileiros, nossos gramáticos, sobre a língua no Brasil, à nossa língua nacional, sinal de nossa soberania. Assim, foram produzidas gramáticas e dicionários com o objetivo principal de legitimar uma língua nacional, que obviamente pudesse nos representar no plano internacional. Ocorre que essa língua chamava-se língua portuguesa. Assim, as obras receberam títulos como “Gramática Portuguesa”, “Gramática da Língua Portuguesa” e “Gramática Brasileira da Língua Portuguesa”. Mas no final do século 19 e principalmente no início do século 20 é que gramáticos como João Ribeiro e Said Ali registraram com maior destaque essas transformações da língua. Said Ali, por exemplo, escreveu um livro chamado “As dificuldades da língua portuguesa”. Essas dificuldades nada mais eram do que as diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal. É a partir da análise do discurso desses especialistas que eu mostro como temos diferenças, que já vêm sendo registradas por gramáticos, sobretudo desde o século 19, que nos permitem falar em língua brasileira, embora isso quase nunca seja dito.

JU – Se a questão quase não tem sido discutida no plano intelectual ou acadêmico, imagino que em sala de aula ela sequer é considerada. É isso mesmo?
Eni Orlandi – Um dos objetivos do livro é atingir o ensino. Os linguistas são muito fechados nesse sentido. Eles resistem em chamar a nossa língua de língua brasileira. Ainda em razão da ideologia da colonização, há professor que considera como “língua correta” o português de Portugal. Acham que, no Brasil, a língua é mal falada. Nada disso. Nós temos nosso padrão. Como disse anteriormente, o nosso falar sofreu influências das línguas indígenas, africanas, de imigração e de fronteira. Isso não é defeito, muito pelo contrário. Não só por essas influências, mas porque é próprio de uma língua que ela mude, que nossa língua, como qualquer outra, também mudou. É assim que as línguas se constituem. As línguas estabelecem relações entre si. É isso que confere riqueza e singularidade a cada uma. Ademais, a língua conta a sua própria história. Não podemos ficar parados na época da colonização. Penso que o livro contribui para essas discussões. Nesse sentido, ele é provocativo: propõe, de certo modo, que nos livremos dessa camisa-de-força que já está posta na maneira como nomeamos nossa língua.

Entrevista resumida.
Campinas, 17 a 23 de agosto de 2009
http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/agosto2009/ju437_pag03.php#

Traduzindo português

Cristovão Tezza
contato@cristovaotezza.com.br

galoportugues

Volto a falar desta língua dupla que nos une (do ponto de vista ortográfico), ou desta língua única que nos divide (na vida real da fala), para lembrar o que me disse o editor de uma importante editora portuguesa sobre o trânsito literário Brasil-Portugal. Afinal, por nossa história e raízes teríamos tudo para um mercado comum das letras, digamos assim, mas de fato há uma estranheza inexplicável a atrapalhar. Tirando os nomes clássicos, que passam por Eça de Queiroz e vão até Fernando Pessoa, autores portugueses não emplacam por aqui, sendo Saramago a exceção que confirma a regra – e o mesmo acontece com os brasileiros contemporâneos lá. Sim, lidos e publicados somos aqui e em Portugal, mas numa escala modesta e periférica. E o editor usou uma expressão curiosa: “Há uma resistência da língua, que é a mesma mas não é”.

Entendi perfeitamente essa resistência ao comprar no aeroporto de Lisboa o romance A vida em surdina, do inglês David Lodge, traduzido maravilhosamente para o português – de Portugal. Seria uma boa arma para enfrentar a interminável viagem de volta, para quem jamais dorme em avião, como eu. E então, página a página, preso na ótima narrativa, comecei a perceber mais objetivamente o que nos incomoda tanto, a nós e a eles. Não há a rigor uma só frase que não nos cause estranheza – tudo é familiar, mas pelo caminho espalham-se pedrinhas de sentido a desviar o rumo. Quanto à linguagem, em nenhum momento o leitor se sente em casa, e isso é mortal na prosa literária, que tem na vida cotidiana da língua a sua matéria-prima de origem. Não é só vocabulário, o que seria um problema simples – é sintaxe mesmo, os pronomes todos e seus modos de usar, campos semânticos sutilmente distintos, regências particulares que vão como que armando um novo modo de ver o mundo, tudo que metaforicamente define uma língua. Vejam um exemplo discreto: “Apercebi-me de que me esquecera do guarda-chuva, mas não voltei lá acima para o ir buscar”. Ou: “Os dois miúdos também virão cá ter, por isso vai ser uma festa em grande.” Mais uma: “O carro tem vidros fumados para despistar potenciais raptores, e um autocolante na janela de trás a dizer “bebé a bordo”, apelando à consciência dos condutores que possam fazer tenções de lhes bater na traseira.”

Como esses textos falam por si, vai a minha proposta herética: que nossa prosa contemporânea seja traduzida em edições no outro país. Não apenas no vocabulário acidental, mas na estrutura sintática mesmo, como se nós escrevêssemos em croata, e eles, em turco. Se meu livro, escrito em brasileiro, pode ser traduzido para o catalão, porque não para o português? Sei que esse é um vespeiro terrível, e temo estar a provocar serial killers linguísticos esbravejando contra meu crime de lesa-pátria. Ora pois, minha língua é minha pátria, e gosto de saber que meu leitor está em casa, seja ele russo, árabe ou português.

Cristovão Tezza é escritor.
Artigo publicado em 09/06/2009 na Gazeta do Povo
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/colunistas/conteudo.phtml?id=894689

Leia também: Língua Brasileira (Cristovão Tezza)
https://brasiliano.wordpress.com/2008/09/11/lingua-brasileira-2/

Para Rubem Alves, o povo faz a língua

Folha de S. Paulo (04/01/2009)

Para o escritor Rubem Alves, 75, quem deveria ter feito a reforma eram os escritores, que são os “amantes da língua”, e não os gramáticos.

O colunista da Folha diz que não irá se adaptar às mudanças nos seus livros, mas diz que, na sua coluna semanal, aceitará a reforma. A exceção será para os casos em que houver prejuízo à compreensão do texto. “Há situações em que vou desobedecer.”
Leia trechos da entrevista. ( LUISA ALCANTARA E SILVA)

FOLHA – O senhor é favorável ao Acordo?
RUBEM ALVES –
Não seguirei. O povo faz a língua, não os gramáticos. Há coisas horríveis na língua, como “pra mim fazer”, mas, como falam, mais cedo ou mais tarde isso fará parte da gramática.

FOLHA – Como fará com os seus livros? Não vai querer que mudem?
ALVES –
Não. Já numa outra reforma, antigamente havia estória e história. Os gramáticos tiraram “estória”, deixando apenas história, mas são tão diferentes quanto abacaxi e ovo de avestruz. Escrevi um livro baseado na diferença entre história e estória. A história é aquilo que ocorreu no passado e nunca mais acontece, a estória é aquilo que acontece toda vez que ela é contada. Você sabe que o maldito revisor, sem me consultar, botou tudo igual, tudo com “h” e arrasou o livro.

FOLHA – E agora, como o livro é publicado?
ALVES –
Voltou ao certo, quando tem estória é estória e quando é história é história [a primeira edição da obra foi publicada como “O Poeta, o Guerreiro, o Profeta”; a versão atual é “Lições de Feitiçaria – Meditações Sobre a Poesia”].

FOLHA – Então o senhor não vai querer que os seus livros sejam adaptados?
ALVES –
Ah, não quero que seja adaptado, não. Sabe, estou meio como o [escritor português José] Saramago. Ele não admite que ninguém corrija o português dele. Não tem ponto, não tem vírgula. Acho que seria melhor se os escritores tivessem se reunido para fazer a reforma, e não os gramáticos.

FOLHA – Por quê?
ALVES –
Porque os gramáticos são os anatomistas da língua, e os escritores são os amantes. Então, eles têm regras diferentes

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0401200915.htm