O QUE É FACTÓIDE?

Millôr Fernandes

Continuo lendo e utilizando o Houaiss (já imprescindível, como o Aurélio é desde o século passado). E pescando. Algumas vezes o peixe não está lá. Por exemplo, Factóide . O Houaiss não traz esse substantivo, já incorporado pelo Aurélio :

Factóide – Substantivo. Brasileirismo. Gíria .

“Fato, verdadeiro ou não, divulgado com sensacionalismo, no propósito deliberado de gerar impacto diante da opinião pública e influenciá-la.”

Peraí, com a omissão da palavra num dicionário e outro dizendo que a palavra é brasileira e gíria, a moçada vai continuar acreditando que factóide é uma invenção de César Maia, como ele próprio acredita e apregoa.

A palavra factóide vem do inglês, incorporada ao léxico americano pelo t.r.h.d.o.t.i.l. desde 1983. Segundo o t.r.h.d.o.t.i.l, factóide é ” algo fictício ou não provado, mas apresentado como fato, para efeito de propaganda, e incorporado por insistente repetição “.

EXPRESSÕES FAMOSAS TÊM ORIGEM NA COLÔNIA E NO IMPÉRIO

Costuma-se dizer que um dos problemas do Brasil é que tem político “à beça” que é “santo do pau oco” e faz leis “para inglês ver”. E, na hora em que a “vaca vai pro brejo”, ele é partidário do lema “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esse tipo de político não se preocupa com os cidadãos “sem eira nem beira”. Mas, a cada quatro anos, chega a “hora de a onça beber água” e muitos não são reeleitos.

As expressões entre aspas têm sido usadas ao longo dos séculos pelos brasileiros e, segundo os historiadores Carlos Eduardo Barata, Francisco Alencar e José Flávio Barroso, demonstram a força da nossa cultura. “Hoje em dia, a maioria pode não saber a origem do termo, mas sabe seu significado. Isso se chama memória coletiva”, explica José Flávio. Para Carlos Barat, a preservação dos termos passa de geração a geração dentro do próprio ambiente familiar. “A gente redescobre o Brasil através dessas expressões, que ajudam a preservar nossa identidade”, acrescenta Francisco Alencar. Eles explicaram o significado desses termos:

“à beça” – No Rio imperial, havia um comerciante rico chamado Abessa, que adorava ostentar roupas de luxo. Quando alguém aparecia fazendo o mesmo, dizia-se que ele estava se vestindo à Abessa, ou seja, como o comerciante. Virou sinônimo de abundância, exagero.

[Outra versão: a origem dessa expressão, que significa “em grande quantidade”, é atribuída à grande profusão de argumentos utilizados pelo jurista sergipano Gumersindo Bessa (1849-1923) ao enfrentar Rui Barbosa em famosa disputa pela independência do território do Acre, que seria incorporado ao Amazonas. Quem primeiro utilizou a expressão foi Rodrigues Alves (1848-1919), presidente do Brasil de 1902 a 1906, admirado da eloqüência de um cidadão ao expor suas idéias: “O senhor tem argumentos à bessa.” Com o tempo, o sobrenome famoso perdeu a inicial maiúscula e os dois esses foram substituídos pela letra c com cedilha (ç).]

“santo do pau oco” – A Coroa Portuguesa costumava cobrar imposto altíssimo sobre as pedras preciosas e o ouro. Quem não queria pagar colocava as peças dentro de imagens de santos e assim passava pelas vistorias que havia nas estradas.

“para inglês ver” – Em 1830, pressionado pela Inglaterra, o Brasil começou a aprovar leis contra o tráfico de escravos. Mas todos sabiam que elas não seriam cumpridas. Falava-se, então, que as leis eram apenas para inglês ver.

“a vaca foi para o brejo” – Quando a seca é mais violenta, os animais começam a procurar os brejos, regiões que permanecem alagadas por mais tempo. É sinal de que a situação piorou.

“farinha pouca, meu pirão primeiro” – A farinha de mandioca era um dos alimentos que os bandeirantes costumavam levar durante suas viagens pelo interior do Brasil. Quando o estoque de comida estava acabando, o prato principal era peixe com pirão. Nesse momento, o chefe da expedição usava a força do cargo.

“sem eira nem beira” – As casas portuguesas de classe média tinham uma pequena marquise para proteção contra a chuva (eira). As mais ricas, além de eira, tinham beira (desenhos arquitetônicos sobre as eiras). Não ter nenhuma das duas era sinal de pobreza.

“hora de a onça beber água” – o animal costuma fazer isso ao anoitecer, e, segundo a tradição indígena, esse é o melhor momento para abatê-lo.

OUTRA EXPRESSÃO CURIOSA:

“É A OVELHA NEGRA DA FAMÍLIA” – a história dessa frase nasceu do milenar trabalho de pastoreio. Em todo o rebanho há um animal de trato difícil, que não acompanha os outros. Cuidando das ovelhas, protegendo-as dos lobos, providenciando-lhes os melhores pastos, o pastor não evita, porém, que uma delas se desgarre. É a “ovelha negra”. Por metáfora, a frase passou a ser aplicada nas famílias e em outras comunidades, a filhos ou a afiliados que não têm bom comportamento. Na “Ilíada”, de Homero (século IX a. C.) relata o sacrifício de uma ovelha negra como garantia do pacto celebrado entre Páris e Menelau, que resultou na guerra de Tróia. Mas ela não foi punida por mau comportamento. Como muitas ovelhas negras, era inocente.

O inventor da pizza

A expressão “tudo acabou em pizza” parece já ter nascido nos primeiros dicionários. Não é bem assim. O autor se chama Milton Peruzzi e a frase tem tudo a ver com o Palmeiras

O valerioduto delubiano ligou fortemente Belo Horizonte à Brasília, liberou geral todo o sistema de esgotos das duas capitais, mas agora está exalando forte cheiro de orégano. Pizzas de todos os tamanhos são montadas, tentadas, sonhadas, preparadas e lobizadas. Mesmo com Roberto Jefferson defenestrado e dezoito cassações pedidas, será que todo esse imbróglio vai de novo terminar em pizza? Terminar em pizza? Mas por que essa expressão, já tão enraizada na boca do povo, na literatura brasileira e em todas as editorias do jornalismo de nosso país? Por que quando uma punição tão esperada tem resultado frustrante logo dizem que “assaram uma pizza” ou que “tudo terminou em pizza”?

Quem inventou isso e por quê? Eu explico, informo, faço justiça e peço que também trombeteiem em suas tribunas. Foi Milton Peruzzi, o saudoso Milton Primo Pierini Pieruzzi, morto no Guarujá (SP), no dia 21 de fevereiro de 2001, o inventor involuntário desse bordão que passou a ser de domínio público a partir de 1960. Peruzzi, à época, era setorista da também saudosa A Gazeta Esportiva lá no seu querido Palmeiras, quando estourou violenta crise política envolvendo os cartolas alviverdes Delfino Facchina, Ferruccio Sandoli, Nicola Raccioppi, Arnaldo Tirone, Pascoal Walter Byron Giuliano, Nelson Duque, Brício Pompeu de Toledo, Francisco Hipólito, dentre outros.

O pau quebrou dentro e fora do Parque Antártica enquanto os cardeais se engalfinhavam nas dependências do COF, o Conselho de Orientação e Fiscalização do clube. Cartolas graduados, baixo clero, aspones e sapos verdes, todos irados, falavam até em “Terceira Guerra Mundial” a partir da rua Turiassu. Depois de 14 horas de brigas e bravatas, com a fome apertando, alguém sugeriu que a reunião fosse transferida para a cantina Genovese, então na avenida Pompéia. Ali, bastaram duas rodadas de chopp Brahma, quinze garrafas de vinho Valpolicella, dez brotinhos e dezoito pizzas gigantes para que a paz fosse selada na então nitroglicerinica política do Palmeiras. Enquanto o batalhão de repórteres e fotógrafos se acotovelava à porta da pizzaria, Peruzzi ligou para a redação e ditou a manchete que seria capa do jornal no outro dia: “Crise do Palmeiras terminou em pizza”.

Daí em diante, deu no que deu. E num domingo pela manhã, dia 2 de maio de 1999, no Plantão de Domingo da Rádio Jovem Pan, Milton Peruzzi deu-me uma emocionante entrevista por telefone e pediu: “Milton Neves, estou com um câncer violento, vou morrer primeiro do que o governador Mário Covas, que tem o mesmo tipo de câncer, mas tratamento de primeiro mundo. Eu te faço apenas um pedido. Faça com que sempre lembrem de mim toda vez que escreverem que tal situação terminou em pizza. Não foi muito, mas fui eu quem inventou isso”, frisou. Tá bom, Peruzzi, você falou tá falado, não precisa agradecer, porque não há de quê. Eu estarei sempre lembrando, viu?

Milton Neves – Revista Placar (01/10/2005 EDIÇÃO: 1287 PÁG.: 28)

Leia o artigo original:
http://desenvolvimento.miltonneves.com.br/placar/Conteudo.aspx?ID=66790