O QUE NÃO SABEMOS DA NOSSA LÍNGUA?

Marcos Bagno

Dia desses, uma das minhas assinantes no Facebook me perguntou o que nós, brasileiros em geral, não sabemos sobre a nossa língua. Respondi, brevemente, mas acho que valeria a pena discorrer um pouco mais a respeito do tema. É que, de fato, a ignorância geral quando o assunto é língua deixa qualquer especialista na área de cabelo em pé. Já avançamos tanto em outros campos da vida social, política, cultural. Já abandonamos tantos mitos e superstições que prejudicavam o bom convívio em sociedade, mas quando se trata das línguas em geral e da nossa em particular ainda vivemos em plena Idade Média.

Treze anos atrás, publiquei um livrinho chamado Preconceito linguístico: o que é, como se faz, que hoje está em sua 53a edição. Ele se tornou uma espécie de “leitura obrigatória” nos cursos de Letras, Pedagogia e mesmo em Jornalismo. Ali eu descrevo o que chamo de “mitologia do preconceito linguístico”. Depois de todos esses anos, se tivesse de escrever o livro de novo, teria de fazer exatamente como fiz em 1999. Talvez acrescentasse agora essa ideia do que não sabemos da nossa língua.

Não sabemos, por exemplo, que o português brasileiro é uma língua plena, em todos os sentidos da palavra, diferente do português europeu. Diferente. Nem melhor nem pior, porque não existe hierarquia entre as línguas. Todas se equivalem, todas são perfeitas para a manutenção da coesão social dos povos que as falam. Depois de meio milênio de implantação do português quinhentista em terras brasileiras, é claro que a língua passou por mudanças inevitáveis e adquiriu caráter próprio. Temos uma gramática só nossa. Uma gramática que, aliás, surpreende os estudiosos do mundo todo por causa das característica únicas que o português brasileiro apresenta no conjunto das línguas românicas, isto é, das línguas derivadas do latim.

Um exemplo simples: o português brasileiro é a única língua da família que eliminou completamente (na fala) os pronomes oblíquos “o”, “a”, “os”, “as”. Quando alguém nos pergunta: “Você comprou o livro que indiquei?”, nós respondemos, simplesmente: “Comprei”. Em qualquer outra língua da família (italiano, francês, espanhol, galego, sardo, catalão etc.), se a pessoa vai responder usando o verbo, usará obrigatoriamente o oblíquo, respondendo algo como: “Sim, eu o comprei”. Nós, porém, dispensamos o pronome. A única língua que fazia isso era… o latim! Em latim não existiam pronomes de 3a pessoa, nem retos nem oblíquos. Os falantes do latim “clássico” respondiam somente com o verbo. Como e por que demos essa volta completa e fechamos o ciclo das mudanças retornando precisamente a um uso da língua-mãe? Esse é o tipo de curiosidade que deveríamos ter sobre nossa língua, em vez de ficar perdendo tempo com asneiras como se é certo ou errado dizer “presidenta”. Isso é o que a escola deveria ensinar, e não perder tempo com coisas que não existem, como a suposta diferença entre “adjunto adnominal” e “complemento nominal”, que eu mesmo até hoje não entendi (talvez porque não exista).

Outra coisa fundamental seria divulgar e ensinar que o português brasileiro é a 3a língua mais falada no Ocidente (atenção: no Ocidente, não no mundo), depois do espanhol e do inglês. E com a projeção internacional do Brasil hoje no cenário mundial, é uma língua que atrai cada vez mais atenção e interesse. Só a nossa “grande” mídia escrota continua a achar que brasileiro fala tudo errado e que só em Portugal se fala certo. Idade Média total!

Reprodução integral do texto de Marcos Bagno. Fonte: http://marcosbagno.org/2013/08/13/o-que-nao-sabemos-da-nossa-lingua/ – Grifo nosso.

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3 Respostas

  1. Eu sou Angolano e acho que a lingua Brasileira nao tem nenhum erro.A lingua tambem depende de fatores culturas. CONSOANTE O MEIO vai se introduzir novas palavras e pronuncias.
    Nenhum português é errado porque cada um tem o seu MEIO até porque se nós analizarmos acustica e articulatoria veremos diferença.Cada um tem que respeitar a lingua do outro. E criar sua própria variante baseada no seu Meio.

  2. Há um erro essencial no texto do prof. Bagno – e que permeia boa parte de sua argumentação, neste e em outros artigos.

    Está aqui:

    ” Só a nossa “grande” mídia escrota continua a achar que brasileiro fala tudo errado e que só em Portugal se fala certo.”

    Onde, em nome de Deus, se vê isto na grande mídia brasileira?

    Em toda a minha vida nunca vi um jornalista, formador de opinião ou acadêmico que afirme que os portugueses falam melhor do que os brasileiros.

    Aliás, sempre vi o contrário: o sotaque lusitano sempre foi, em nosso meio, ridicularizado, achincalhado, tido como feio e ridículo. Nunca, em toda a minha vida, vi o contrário. É motivo de piada e gozação.

    Os brasileiros têm quase nenhum contato com o português lusitano. A grande maioria nem os entende e não faz questão alguma de entendê-los. Não têm interesse por Portugal, pela cultura portuguesa e pelos portugueses. Logo, não há nos brasileiros em geral esse sentido de “hierarquia”. O senhor Bagno está dando uma importância desmedida para este fator no seu intento de promover o idioma falado no Brasil, talvez para criar um inimigo imaginário. É um expediente, francamente, indigno de um acadêmico de seu porte.

    E são essas afirmativas altamente discutíveis do prof. Bagno que maculam de maneira muito séria o resto de seu discurso, que, de resto, aponta para a direção correta.

    Em tempo: sou plenamente favorável ao nosso país afastar-se de Portugal o máximo que puder, e isso inclui o idioma. Aquilo lá é uma verdadeira estrumeira cultural e ideológica, prisioneira dos mais estúpidos mitos, das mais bizarras mesquinharias e dos mais imbecilizantes preconceitos e complexos. Não há nada na cultura portuguesa digno de nota, nada de importante ou relevante, nada que mereça atenção, e aproximar-se demasiadamente dela é afundar-se num pântano horrendo de ressentimentos, ódios antigos e recalques, pântano em que eles vivem e consideram tão natural a ponto de nem perceberem mais. Quem conhece, sabe. Agora, não é com esse tipo de argumentação que chegaremos lá. Pelo contrário, corre-se o risco de repetir a atitude deles.

    Abraço a todos

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