LUSOFONIA OU ILUSOFONIA?

Marcos Bagno – Setembro de 2009

Na conferência de encerramento de um importante congresso de linguística realizado em Salvador em julho último, o linguista Carlos Alberto Faraco perguntava: “Lusofonia, utopia ou quimera?” Fazendo uma preciosa análise das diferentes “fonias” existentes (a francofonia, a anglofonia e a hispanofonia), Faraco concluiu que a tal “lusofonia” está anos-luz de distância de ser algo parecido com essas outras poderosas políticas linguísticas. Nós, brasileiros, pouco nos lixamos para ela, que é um tema muito mais debatido em Portugal do que nos demais países de língua oficial portuguesa. Ao contrário das demais “fonias”, a lusa não tem instituições fortes e atuantes, que de fato causem impacto nos lugares onde atuam. Tudo se resume a entidades inócuas e a um discurso de samba-exaltação sem consequências concretas. Ao contrário das outras também, que são sustentadas por nações importantes e ricas – França, Grã-Bretanha (a chamada Commonwealth não inclui os Estados Unidos, somente as ex-colônias britânicas tornadas independentes durante o século XX) e Espanha (quinta maior economia da Europa) -, a lusofonia tem como principal arauto um país em tudo periférico da União Europeia, desimportante na geopolítica mundial e nem de longe uma potência econômica. Não bastasse isso, os demais países “lusófonos”, excetuando-se o Brasil, encabeçam a lista das nações mais pobres e subdesenvolvidas do mundo: Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Timor. As três primeiras dependem exclusivamente da ajuda internacional para sobreviver. Com isso, dá para dizer que se trata, de fato, de uma “ilusofonia”, uma quimera que Portugal não tem a menor possibilidade de sustentar. Ainda assim, Portugal age com prepotência colonial: não reconhece os certificados de proficiência em português emitidos pelo Brasil e impede (por lei!) que professores brasileiros ocupem as cadeiras de ensino da língua em universidades estrangeiras. Na União Europeia, proíbe-se que os tradutores simultâneos para o português sejam brasileiros… Portugal parece se alimentar do mito bíblico de Davi contra Golias, mas a realidade sociopolítica e econômica do mundo atual é coisa muito mais séria do que qualquer mito sebastianista de Quinto Império. No entanto, isso não nos autoriza a jogar no lixo o projeto de uma comunidade de povos falantes do português. O fundamental é que ela seja conduzida, em conjunto, pelos dois únicos países em que o português é língua hegemônica em todo o território: Brasil e Portugal. E que o Brasil abandone sua secular posição de subserviência e mostre a Portugal que quem manda mesmo, hoje, na língua, somos nós e que cabe a Portugal, isso sim, seguir os passos das políticas linguísticas que nós propusermos. O caso recente do acordo ortográfico foi exemplar. Como me disse Gilvan Müller de Oliveira, especialista em política linguística, “Portugal saiu para pescar e quando voltou o Acordo Ortográfico já estava implantado e ele não podia fazer mais nada”. A chiadeira portuguesa contra a nova ortografia não pode alterar o fato consumado. O Acordo, que o Brasil já implementou com tremendo sucesso (apesar das críticas bobocas e desinformadas de muita gente), representa um passo gigantesco na promoção de uma verdadeira política lusófona, na qual ou Portugal se conforma com a posição que lhe cabe ou vai ficar numa obscuridade periférica ainda mais profunda do que aquela em que já está mergulhado, com saudades do que não foi.

Revista Caros Amigos

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5 Respostas

  1. EU ESTIVE CONFERINDO O SEU BLOG E ACHEI BEM INTERESSANTE. FICO FELIZ EM SABER QUE TEM OUTRAS PESSOAS QUE CONCORDAM COMIGO AO NÃO ACEITAREM QUE BRASIL E PORTUGAL FALAM UMA MESMA LÍNGUA. É PENA QUE AS DIFERENÇAS GRITANTES ENTRE ESSAS DUAS LÍNGUAS CONTINUEM SENDO VARRIDAS PRA DEBAIXO DO TAPETE EM NOME DE UMA FARSA CHAMADA LUSOFONIA.

  2. Embora tenha assinado o acordo, duvido que Portugal o aplique para valer… A sociedade portuguesa e o próprio governo luso estão ignorando-o solenemente, por uma simples razão: Portugal não precisa do Brasil para nada… Tomara mesmo que este acordo fracasse. Sou brasileiro, mas faço como os portugueses: continuo escrevendo do jeito que aprendi, e não dou a mínima para esse acordeco…

  3. Marcos Bagno demonstra toda a sua raiva anti-colonial e explicita as veias dominadoras que formaram nosso país, me parece que o autor não vê a hora de tomar as rédeas de Metrópole para poder vomitar sua pretensa visibilidade geo-política como argumento para uma subordinação do povo português, que nada tem a ver com medidas políticas de acordos ortográficos.

  4. Uma Resposta, ainda que tarde, aos meus amigos portugueses. Caro, Lorival, não adianta tentar se passar por brasileiro, o seu modo de escrever denuncia sua origem portuguesa.

    “Portugal não precisa do Brasil para nada”? É mesmo? Se é assim, então porque faz questão que o Brasil participe dessa baboseira de clubinho saudosista chamado Lusofonia?

    Não será porque precisa do nosso mercado? O que as empresas portuguesas vem fazer aqui então? Aliás, é isso o que significa a tal CPLP: uma forma de Portugal manter aberto os mercados das suas ex-colônias africanas. Neguem se forem capazes!

    Sabe, seria bom mesmo que Portugal não aceitasse esse acordo, isso seria muito bom pra nós brasileiros, logo a gente poderia codificar uma gramática normativa que corresponda realmente às regras do nosso idioma brasiliano, em sua realidade. E como o idioma brasiliano já esta sendo cada vez mais procurado no exterior, é provavel que o Brasil consiga sozinho promover sua própria língua.

    A língua portuguesa vai ficar restrita a Portugal, essa é a verdade. Nas ex-colõnias da África vão surgir outros idiomas e o inglês provavelmente será segunda língua mais falada.

    Quanto a você Pedro Martins, acredito que os argumentos de Marcos Bagno não são baseados, em, como você diz, “raiva anti-colonial”. O Brasil e Portugal já se desligaram a mais de um século e não há motivo pra uma lusofobia motivada pelo Brasil ter sido colônia de Portugal. Se houvesse, ai dos portugueses que vivem aqui… O que Marcos Afirma é que nessa farsa da Lusofonia, o Brasil como país mais populoso, com maior poder econômico e político deve ser mais respeitado e deve ter o destaque que merece pelo poder que possui. Bagno tem razão em afirmar que “Portugal parece se alimentar do mito bíblico de Davi contra Golias”, realmente comparar o prestigío do Brasil com on de Portugal é um absurdo. Vocês portugueses parecem não ter noção da realidade, esquecem que o prestigio de uma língua deriva do poder ecônomico e político que o país que a fala possui, foi assim com o latim, com o espanhol, com o francês e o inglês. Então, já deveriam imaginar porque o Brasil reclama essas ascenção sobre os demais países ditos “lusofonos”… Num futuro muio próximo é possivel que o brasiliano venha a se tornar uma das línguas mais faladas do mundo.

  5. Dois portugueses querendo se passar por brasileiros. Deprimente.

    ” A sociedade portuguesa e o próprio governo luso estão ignorando-o solenemente”

    Foi o governo português que quis desesperadamente que o acordo fosse implantado para garantir uma ligação geopolítica ao Brasil. Ou seja, querem a todo custo colar na nossa aba.

    “Portugal não precisa do Brasil para nada”

    Sim, claro que não precisam como se vê aqui:

    http://200.188.178.144/ver_noticia/57942/

    “argumento para uma subordinação do povo português, que nada tem a ver com medidas políticas de acordos ortográficos.”

    Ninguém atacou o povo português em lugar algum do artigo. Não sei onde encontrou isso no texto.

    Enfim…..os velhos complexos lusitanos.

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