Reflexões sobre a ‘Língua Brasileira’

MANUEL ALVES FILHO  para  o Jornal da UNICAMP

A língua falada e escrita atualmente no Brasil distanciou-se de tal modo do português, em consequência das mudanças que sofreu através dos tempos, que hoje já é possível falar em uma língua brasileira, que tem forma e características próprias. A hipótese é defendida no livro Língua Brasileira e Outras Histórias – Discurso sobre a língua e ensino no Brasil, de autoria de Eni Orlandi , professora do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. A obra, que resulta das pesquisas realizadas pela docente ao longo dos últimos 20 anos, trata, entre outros aspectos, de como esta língua brasileira e o conhecimento sobre ela foram constituídos historicamente. De acordo com a linguista, o português europeu começou a sofrer mudanças desde que os primeiros colonizadores aportaram por aqui. A partir de então, passou a incorporar elementos das línguas indígenas, africanas, de imigrantes e de fronteira, e a se transformar também em sua materialidade, no embate com a materialidade do novo mundo e de sua história, processo que culminou com a composição de uma língua rica e com suas singularidades.

“O que eu trabalho, no campo teórico, é que temos diferenças suficientes tanto na materialidade da língua quanto no âmbito discursivo que já nos permitem falar em uma língua brasileira. Nós produzimos discursos diferentes, com sentidos igualmente distintos. Nossos processos de significação também são diferentes. Ou seja, nossa língua está muito distante daquela que era ou ainda é falada em Portugal. E veja: não se trata de patriotismo. É apenas uma questão de reconhecer as mudanças. Penso que é chegado o momento de produzirmos teorias próprias, atuais, que levem em conta e permitam compreender o processo de colonização e as consequências em relação às línguas, e não mais usar as teorias de países colonizadores que, na maior parte das vezes, estacionam em um sentido de “mudança” próprio para falar da mudança do latim para o português, o francês etc, mas têm pouco a dizer sobre a mudança do português para o brasileiro”, afirma. Na entrevista que segue, Eni Orlandi fornece mais detalhes sobre as reflexões presentes no livro.


Jornal da UNICAMP – O título do seu livro registra “língua brasileira”. Nós já não falamos mais a língua portuguesa?
Eni Orlandi – A língua falada atualmente no Brasil é muito diferente da falada em Portugal. O que eu trabalho, no campo teórico, é que temos diferenças suficientes tanto na materialidade da língua quanto no âmbito discursivo que já nos permitem falar em uma língua brasileira. Nós produzimos discursos diferentes, com sentidos igualmente distintos. Nossos processos de significação também são diferentes. Ou seja, nossa língua está muito distante daquela que era ou ainda é falada em Portugal. E veja: não se trata de patriotismo. É apenas uma questão de reconhecer as mudanças. De situar-se diante do quadro de relações internacionais de estados e línguas, ou seja, de saber avaliar as questões postas pelo multilinguismo. Penso que é chegado o momento de produzirmos teorias próprias, e não mais usar as teorias de países colonizadores sem refletir sobre o lugar dessas teorias na história das ciências e na história social.

JU – As diferenças são tão profundas assim?
Eni Orlandi – São, sim. Mas essas diferenças não têm merecido a devida atenção. Alguns autores até falam dessas distinções, mas as classificam como “variedades”. Penso que não estamos mais no momento de falar em variedades, pois isso não mostra que falamos uma língua própria. Temos que falar em mudanças. Por que admitimos mudanças entre o latim e o português que se constituiu na Europa, mas não fazemos isso em relação ao português e a língua falada no Brasil?

JU – A recente reforma ortográfica teria sido uma forma de resistência a essa discussão sobre língua brasileira?
Eni Orlandi – De certa forma. Penso que precisamos rediscutir o que é lusofonia. Temos que pensar a lusofonia como um campo heterogêneo de línguas. É preciso tratar das diferenças entre a língua brasileira e o português, assim como das diferenças do português para o latim. Ambas são filiadas ao latim, mas são distintas deste. Mas veja: não se trata de negar a filiação da nossa língua, mas sim de destacar as singularidades dela. Ou seja, lusofonia é um campo heterogêneo de línguas que resultaram do processo de colonização, mas que se “independentizaram” ao longo do tempo. A língua brasileira é filiada ao português, que por sua vez é filiado ao latim. Ocorre, porém, que nossa língua também traz elementos das línguas indígenas, africanas, de imigração e de fronteira. Temos uma língua que se individualizou à sua maneira no processo de sua historicização.

JU – Pela sua hipótese, o português começou a sofrer transformações desde que os primeiros colonizadores aportaram em terras brasileiras. É isso?
Eni Orlandi – Quando os portugueses aportaram por aqui, eles depararam não apenas com seres diferentes, mas também com uma variedade de línguas faladas pelos índios e com um mundo muito diferente do seu. Esses portugueses precisaram nomear coisas que não conheciam, que não estavam na memória linguística deles. Precisamos lembrar que, naquele momento, nomear era também administrar. Ou seja, o que não era nomeado poderia fugir ao controle. Assim, os primeiros colonizadores perceberam que não poderiam manter a língua portuguesa como ela era, pois precisavam se fazer entender. Havia, enfim, um mundo novo a ser descoberto, a ser conquistado, a ser nomeado. Aí já ocorrem as primeiras transformações da língua. A materialidade do mundo começa a interferir na materialidade da língua e vice-versa.

JU – Ou seja, a língua tem uma dimensão política e ideológica importante.
Eni Orlandi – Exatamente. É nesse embate político, ideológico e social que a língua vai sendo constituída. Para poder administrar, os portugueses foram obrigados a alterar a própria língua e a dominar a língua dos indígenas. Entretanto, no início da colonização as autoridades portuguesas começaram a perder o controle sobre os próprios patrícios, que passaram a dominar as línguas indígenas localmente e a formar pequenos feudos, nos quais davam as cartas. Para superar essa dificuldade, a corte portuguesa enviou os jesuítas ao Brasil, com a missão de colocar “ordem” e dar visibilidade deste país para a coroa. O que os religiosos fizeram? Eles pegaram uma das línguas indígenas, o tupi, e a adaptaram, mesclando com um pouco do português e do latim. Foi criado, assim, o tupi-jesuítico, língua geral que foi falada no Brasil todo. No entanto esse processo se voltou contra a própria corte, pois os jesuítas passaram a ter um enorme controle sobre a população brasileira e sua língua. Daí sua expulsão dos religiosos e a proibição de se escrever nessa língua. Mas nenhuma língua desaparece sem deixar traço. Como se vê, as mudanças vêm de muito tempo.

JU – Essas transformações não foram apontadas anteriormente? Por que só agora está surgindo uma discussão mais ampla sobre a existência de uma língua brasileira?
Eni Orlandi – Com a independência do Brasil, eclodiu um movimento, promovido por gramáticos, de organização de um conhecimento sobre a nossa língua que já mostrava essas modificações. Mas o mais importante naquele momento não era tanto destacar descritivamente essas diferenças, e sim reivindicar o reconhecimento à nossa escrita, à nossa literatura, ao conhecimento produzido por brasileiros, nossos gramáticos, sobre a língua no Brasil, à nossa língua nacional, sinal de nossa soberania. Assim, foram produzidas gramáticas e dicionários com o objetivo principal de legitimar uma língua nacional, que obviamente pudesse nos representar no plano internacional. Ocorre que essa língua chamava-se língua portuguesa. Assim, as obras receberam títulos como “Gramática Portuguesa”, “Gramática da Língua Portuguesa” e “Gramática Brasileira da Língua Portuguesa”. Mas no final do século 19 e principalmente no início do século 20 é que gramáticos como João Ribeiro e Said Ali registraram com maior destaque essas transformações da língua. Said Ali, por exemplo, escreveu um livro chamado “As dificuldades da língua portuguesa”. Essas dificuldades nada mais eram do que as diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal. É a partir da análise do discurso desses especialistas que eu mostro como temos diferenças, que já vêm sendo registradas por gramáticos, sobretudo desde o século 19, que nos permitem falar em língua brasileira, embora isso quase nunca seja dito.

JU – Se a questão quase não tem sido discutida no plano intelectual ou acadêmico, imagino que em sala de aula ela sequer é considerada. É isso mesmo?
Eni Orlandi – Um dos objetivos do livro é atingir o ensino. Os linguistas são muito fechados nesse sentido. Eles resistem em chamar a nossa língua de língua brasileira. Ainda em razão da ideologia da colonização, há professor que considera como “língua correta” o português de Portugal. Acham que, no Brasil, a língua é mal falada. Nada disso. Nós temos nosso padrão. Como disse anteriormente, o nosso falar sofreu influências das línguas indígenas, africanas, de imigração e de fronteira. Isso não é defeito, muito pelo contrário. Não só por essas influências, mas porque é próprio de uma língua que ela mude, que nossa língua, como qualquer outra, também mudou. É assim que as línguas se constituem. As línguas estabelecem relações entre si. É isso que confere riqueza e singularidade a cada uma. Ademais, a língua conta a sua própria história. Não podemos ficar parados na época da colonização. Penso que o livro contribui para essas discussões. Nesse sentido, ele é provocativo: propõe, de certo modo, que nos livremos dessa camisa-de-força que já está posta na maneira como nomeamos nossa língua.

Entrevista resumida.
Campinas, 17 a 23 de agosto de 2009
http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/agosto2009/ju437_pag03.php#
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4 Respostas

  1. Vou destacar estas passagens porque elas reforçam e sintetizam muitas coisas que acredito.

    “Temos que falar em mudanças. Por que admitimos mudanças entre o latim e o português que se constituiu na Europa, mas não fazemos isso em relação ao português e a língua falada no Brasil?”

    “E veja: não se trata de patriotismo. É apenas uma questão de reconhecer as mudanças.”

    “É preciso tratar das diferenças entre a língua brasileira e o português, assim como das diferenças do português para o latim. Ambas são filiadas ao latim, mas são distintas deste. Mas veja: não se trata de negar a filiação da nossa língua, mas sim de destacar as singularidades dela. […] A língua brasileira é filiada ao português, que por sua vez é filiado ao latim. Ocorre, porém, que nossa língua também traz elementos das línguas indígenas, africanas, de imigração e de fronteira.”

    “Ainda em razão da ideologia da colonização, há professor que considera como “língua correta” o português de Portugal. Acham que, no Brasil, a língua é mal falada. Nada disso. Nós temos nosso padrão. Como disse anteriormente, o nosso falar sofreu influências das línguas indígenas, africanas, de imigração e de fronteira. Isso não é defeito, muito pelo contrário. Não só por essas influências, mas porque é próprio de uma língua que ela mude, que nossa língua, como qualquer outra, também mudou.”

  2. Mais

    “Nós produzimos discursos diferentes, com sentidos igualmente distintos. Nossos processos de significação também são diferentes. Ou seja, nossa língua está muito distante daquela que era ou ainda é falada em Portugal.”

    Destaquei este trecho para frizar a parte “nossa língua está muito distante daquela que era ou ainda é falada em Portugal”

    Ou seja, que ERA ou AINDA é falada em Portugal, porque seria ingênuo e ridículo pensar que a língua falada atualmente em Portugal é a mesma de Camões ou que seria idêntica a que foi trazida para o Brasil na época da colonização. Estudos comprovam o caráter conservador do português do Brasil em comparação ao de Portugal atual, que sofreu um processo de tranformação bem maior que o ocorrido no Brasil.

    Isso já foi amplamente discutido e debatido aqui:
    https://brasiliano.wordpress.com/2008/08/22/brevissimo-enfoque-do-portugues-do-brasil/

    https://brasiliano.wordpress.com/2008/09/01/ensinar-portugues-ou-estudar-o-brasileiro/

  3. ^^
    Juliana, acompanho o fórum faz um tempo e lendo os debates nos links que colocou acima e analisando o que escreveu, acho que entendo o que quer dizer. Vejo que os portugueses se acham os donos da língua por acreditarem no mito de que a língua de Portugal não se alterou. Segundo eles, quem deturpa ou deturpou (palavra que vi muito na aba de denúncias) a língua foram os brasileiros. Imagina meu choque ao saber que na verdade a língua brasileira está mais próxima de Cabral ou Camões do que o português de Portugal atual.

    Outro mito muito difundido, que eu nunca vi estudos que o comprove, é que em Portugal se respeita mais a língua porque eles não usam estrangeirismos como fazem os brasileiros. Um exemplo muito citado é o da “aids” que em portugal se diz “sida”. Mas o que me espanta é que sempre se esquecem dos contra-exemplos, tipo: que no Brasil usa-se OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e em Portugal usa-se NATO (North Atlantic Treaty Organization) – sigla em inglês. E como esse, existem maiss inúmeros exemplos.

    Eu fico pensando em que cabeça nascem essas idéias sem o menor fundamento. É certo que o vocabulário do Brasil se expandiu sobremaneira por causa das línguas indígenas, africanas e da infinidade de imigrantes que aportaram aqui. Nosso vocabulário é um dos mais ricos do mundo. Não vejo essa característica como algo negativo. Só mostra como somos receptivos.

  4. Bem-vinda, Eduarda. Lembrando que este mito, como vc diz, de os portugueses acreditarem piamente serem os detentores da pura língua portuguesa é devido em muito à gramática normativa, que se padronizou seguindo o português moderno de Portugal, e não na língua corrente falada no Brasil.

    Comentei sobre isso aqui: (É bom dar uma lida se quiser ter uma noção mais aprofundada do que quero dizer)
    https://brasiliano.wordpress.com/2008/08/22/brevissimo-enfoque-do-portugues-do-brasil/#comment-276

    Também recomendo:
    https://brasiliano.wordpress.com/2008/08/01/variedades-do-portugues-no-mundo-e-no-brasil/

    Sobre os estrangeirismos, dei uma resposta a outra comentarista do blog, e disse assim:

    “parece que virou mania de pseudos-intelectuais ser contra a evolução da língua e contra os empréstimos estrangeiros. Os idiomas não são uma coisa fixa. O que seríamos sem as múltiplas palavras que recebemos do grego, árabe, francês etc? Se a língua dependesse dessas posições puristas sectárias, hoje falaríamos latim.”

    Fiz esse comentário em razão deste:
    https://brasiliano.wordpress.com/2008/09/01/ensinar-portugues-ou-estudar-o-brasileiro/#comment-376

    Estou te encaminhando para respostas já dadas, não por preguiça de dar novas respostas, mas para não ser repetitiva e porque acho os textos dos links que passo muito interessantes e merecem ser relidos. 😉 E diz aí, como chegou no blog?

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