Sotaque vem do nheengatu, a língua brasileira

Estadão – Valdir Sanches, Lagoinha (SP)

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Caipira é aquele que fala o dialeto caipira. É o idioma brasileiro, mas com palavras tupi e sotaque da língua brasileira. A língua brasileira é o nheengatu, que existiu no Brasil até ser proibida por Portugal, no século 18. Seu nome parece coisa de índio, e é. O nheengatu incorpora a fala dos índios tupi, que ocupavam o litoral brasileiro. Na verdade, até hoje, quem se refere ao Ibirapuera, fica jururu, come abacaxi ou se pendura num cipó está se expressando nessa língua.

Há algum tempo, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usou a expressão “chega de nhémnhémnhém”, estava falando puro nheengatu. No Brasil Colônia, era falada fluentemente em uma grande área do País, que ia de Santa Catarina ao Pará. A elite também se expressava por meio dela, embora não em todos os setores. Durante os processos, o juiz dispunha de um intérprete.

“Tivemos uma língua brasileira até o século 18”, diz o professor José de Souza Martins, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP. “Só os portugueses, que eram estrangeiros, falavam português.”

A língua foi criada no século 16 pelos jesuítas, destacando-se o Padre Anchieta. O fundador de São Paulo era lingüista. Para se entender com os nativos, classificou o tupi e criou uma gramática da língua geral. Ou seja, o nheengatu. “Uma língua de travessia, não é português, nem índio, eram ambas”, diz Martins. O português, nesse caso, era o que hoje chamamos arcaico. Convidava-se uma dona para uma função, em vez de uma senhora para um baile. E dizia-se coisas como agardece (agradece), alevantá e inorância.

Os índios tinham dificuldade em falar palavras portuguesas como os verbos no infinitivo. E também palavras com consoantes dobradas (rr) ou terminadas em consoante. Além disso, colocavam vogal entre consoantes. Mulher, colher e orelha viraram muié, cuié e oreia. De sua dificuldade com o “erre”, vem o “pooorta”, reflexivo, com a língua tocando o céu da boca. Martins esclarece que “o dialeto caipira não é um erro, é uma língua dialetal”. Mais do que isso: “É uma invenção lingüística musical e social.”

Os brasileiros viviam muito bem com ela, até que, no reinado de d. José I (1750 a 1771), Portugal a proibiu. O veto veio em um decreto do primeiro-ministro, o Marquês de Pombal. Bania o ensino do nheengatu das escolas. A decisão foi acatada nas salas de aula, mas o povo continuou falando no dialeto caipira. O tempo acabou por impor o português, mas o dialeto puro resiste.

Ainda é falado em alguns pontos da fronteira com o Paraguai. E, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a 860 quilômetros de Manaus, uma lei de 2002 tornou o nheengatu língua co-oficial do município. Na contramão do decreto do marquês, determina que seja incentivado seu ensino nas escolas, e o uso nos meios de comunicação (o tucano e o baniva também se tornaram línguas co-oficiais).

E ficou o “caipirês” da roça. Por essas bandas, ensina Martins, a língua se multiplica. “Quando o novo aparece, o caipira inventa, a partir da matriz da palavra, algo que tem sentido para ele.” Há certo tempo, Martins e um grupo de estudantes apresentaram questões a algumas pessoas. Perguntaram a um homem: “Você concorda ou não concorda?” O homem não entendeu. A pergunta foi sendo repetida, sem sucesso, até que um dos estudantes mudou a forma: “Você concorda ou disconcorda?” Deu certo.

Texto adaptado.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080421/not_imp160205,0.php

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3 Respostas

  1. Destacando um texto interessante:

    “A nasalização é mais forte em nossa pronúncia e muito mais fraca no português: cama, santo, irmão, manhã são pronunciadas pelos brasileiros câma, sâ -nto, ir-mã, mã-nhã; ao contrário o português especialmente aqueles do norte: cáma, sá-nto, ir-má, má-nhã. Esta forte nasalização deve ser atribuída a uma influência do tupi e do guarani.”

    “A nasalização do tupi e do guarani reforça a do português, de modo a assegurar a distinção entre o idioma português brasileiro e o de Portugal. O guarani golpeia o final das palavras: pirapó-pirapora, tinin-tininga, acan-acanga, etc.”

    cipedya.com/web/FileDownload.aspx?IDFile=158591

  2. Mais

    Pode-se considerar que o tupi-guarani é o substrato lingüístico do português do Brasil, visto haver interferido no aportuguesamento do idioma brasileiro, quanto à fonética e ao vocabulário. No âmbito do vocabulário acrescenta-se o africano que se tornaria mais significativo dentro do ciclo da mineração. Sua ação trans formadora mesclou-se na língua do conquistador em toda a sua demonstração, especialmente na fonética e no vocabulário. Câmara Jr. (2002) acredita que esta ação de caráter fonético é responsabilidade do brasileiro: um idioma musical, claro e, por isso, fácil de ser distinguido do falado da metrópole. […] apresentam-se duas acentuadas características: a diferenciação está na fala, onde no Brasil é compassada; pronunciam-se todas as vogais, dando às consoantes portuguesas p, t, b, d, n um valor mais fraco, mais doce. No português falado no Brasil não há os semitons que poderia obscurecê-la. Estas diferenças permitiram a Eça de Queirós afirmar que os brasileiros falam o português com açúcar. Por esta razão a pronúncia do brasileiro é mais fácil de ser assimilada.

    Todas estas diferenças não são devidas exclusivamente ao substrato indígena, mas sim ao português transplantado do início século XVI para o Brasil, que se comparado àquele arcaico e provençal do século XVI, evoluiu muito. Porém, aqui se conservou aquele vocabulário repleto de arcaísmos. Portanto, a mescla do português trazido a esta terra, somado ao tupi e ao guarani tornou-a diferente da metrópole e essa diferença é possível de ser verificada na literatura que, devido às mesclas recebidas inclusive das línguas nativas de outros povos como quichua, o caribe, enriqueceu o nosso falar, por isso, a nossa literatura é tão rica se comparada à literatura de Portugal. Os brasileiros, quando falam, orquestram uma linda sinfonia; já em Portugal não há esse efeito. Por conseguinte, apesar de ser a mesma língua, as influências são outras: o nosso falar é bem distinto e, principalmente nos dias atuais, a linguagem é praticamente outra. (BASSETO, 2000).

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