Para Rubem Alves, o povo faz a língua

Folha de S. Paulo (04/01/2009)

Para o escritor Rubem Alves, 75, quem deveria ter feito a reforma eram os escritores, que são os “amantes da língua”, e não os gramáticos.

O colunista da Folha diz que não irá se adaptar às mudanças nos seus livros, mas diz que, na sua coluna semanal, aceitará a reforma. A exceção será para os casos em que houver prejuízo à compreensão do texto. “Há situações em que vou desobedecer.”
Leia trechos da entrevista. ( LUISA ALCANTARA E SILVA)

FOLHA – O senhor é favorável ao Acordo?
RUBEM ALVES –
Não seguirei. O povo faz a língua, não os gramáticos. Há coisas horríveis na língua, como “pra mim fazer”, mas, como falam, mais cedo ou mais tarde isso fará parte da gramática.

FOLHA – Como fará com os seus livros? Não vai querer que mudem?
ALVES –
Não. Já numa outra reforma, antigamente havia estória e história. Os gramáticos tiraram “estória”, deixando apenas história, mas são tão diferentes quanto abacaxi e ovo de avestruz. Escrevi um livro baseado na diferença entre história e estória. A história é aquilo que ocorreu no passado e nunca mais acontece, a estória é aquilo que acontece toda vez que ela é contada. Você sabe que o maldito revisor, sem me consultar, botou tudo igual, tudo com “h” e arrasou o livro.

FOLHA – E agora, como o livro é publicado?
ALVES –
Voltou ao certo, quando tem estória é estória e quando é história é história [a primeira edição da obra foi publicada como “O Poeta, o Guerreiro, o Profeta”; a versão atual é “Lições de Feitiçaria – Meditações Sobre a Poesia”].

FOLHA – Então o senhor não vai querer que os seus livros sejam adaptados?
ALVES –
Ah, não quero que seja adaptado, não. Sabe, estou meio como o [escritor português José] Saramago. Ele não admite que ninguém corrija o português dele. Não tem ponto, não tem vírgula. Acho que seria melhor se os escritores tivessem se reunido para fazer a reforma, e não os gramáticos.

FOLHA – Por quê?
ALVES –
Porque os gramáticos são os anatomistas da língua, e os escritores são os amantes. Então, eles têm regras diferentes

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0401200915.htm

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2 Respostas

  1. You obviously have an abundance of writing talent … thanks for sharing your heart.

  2. Impossível unificar o português e o brasileiro; já se trata de duas línguas distintas. Qualquer acordo, a essas alturas, restará inútil…

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