Brasil desenvolve sua 1ª linhagem de célula-tronco embrionária

Linhagem garante ao país autonomia nas pesquisas e domínio tecnológico

Roberta Jansen – O Globo

Menos de seis meses depois da liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias humanas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), um consórcio formado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) anunciou ontem a obtenção da primeira linhagem 100% nacional dessas células.

Na verdade, trata-se da primeira linhagem obtida na América Latina, segundo os cientistas, que farão a apresentação oficial do trabalho amanhã, no III Simpósio Internacional de Terapia Celular, em Curitiba. O feito é importante para a autonomia do país nas pesquisas da área e para o domínio de todo o processo tecnológico que leva à obtenção das cobiçadas células.

Liberação no STF acelerou pesquisa

As células-tronco são as primeiras a se formar no organismo, ainda nos primeiros estágios embrionários. Elas dão origem a todas as demais células e, posteriormente, tecidos do corpo. Por terem tamanha capacidade de diferenciação são chamadas totipotentes e, acredita-se, têm um grande potencial regenerador. A obtenção de linhagens dessas células é o primeiro passo para o desenvolvimento futuro de terapias inéditas para doenças como os males de Parkinson e Alzheimer, alguns cânceres, problemas cardíacos, entre outros.

Os grupos de Lygia da Veiga Pereira, do Instituto de Biociências da USP, e de Stevens Rehen, do Programa de Oncobiologia da UFRJ, começaram a trabalhar com linhagens importadas de células-tronco embrionárias humanas em 2005, quando foi aprovada no país a Lei de Biossegurança, que autorizava esse tipo de pesquisa. A despeito da contestação da validade da lei que tramitava no STF, os grupos mantiveram suas linhas de estudo.

– Trouxemos gente dos EUA em 2006 para nos ajudar, pesquisadores que tinham experiência em retirar células do embrião e também dominavam os estágios iniciais de cultura, que são muito complicados – contou Lygia.

Com a liberação definitiva das pesquisas no STF, o trabalho ganhou impulso. Finalmente, há cerca de três meses, o grupo conseguiu a primeira linhagem 100% nacional de células, obtida a partir de embriões congelados há mais de três anos e descartados por clínicas de fertilização in vitro, conforme determina a lei.

– Muito do que a gente está fazendo com as linhagens importadas é pesquisa básica. Mas quando isso começar a virar agente de terapia, vamos esbarrar em limitações de uso, problemas de patente – afirmou Lygia. – Tendo uma linhagem brasileira, ela estará disponível para todos os grupos brasileiros, sem restrição. É outra história termos autonomia, conseguirmos seguir o processo do início ao fim. É importante colaborar com estrangeiros, mas não depender deles.

Produção em larga escala para estudo

O próximo passo é conseguir cultivar as células em grandes quantidades. O grupo de Rehen desenvolveu (em parceria com a Coppe) uma técnica inédita que garante um aumento de até 68 vezes no número de células-tronco embrionárias humanas produzidas em laboratório e a um custo três vezes menor que o tradicional.

– Aplicação imediata é a pesquisa – disse Rehen. – Vamos continuar trabalhando para gerar maior quantidade de células e poder disponibilizá-las para quem quiser trabalhar com elas no Brasil.

O grupo de Lygia, por exemplo, está focado na pesquisa mais básica, envolvendo as alterações que ocorrem no genoma quando a célula-tronco começa a se especializar – uma linha de estudo fundamental para o futuro desenvolvimento de terapias específicas:

– Queremos agora continuar a estabelecer outras linhagens, mas usando métodos cada vez mais sofisticados, que gerem células mais próximas de um futuro uso clínico.

Já o grupo de Rehen no Programa de Oncobiologia está voltado para o estudo pioneiro das células embrionárias humanas na geração de neurônios para uso em terapias para lesão medular e mal de Parkinson. A equipe conseguiu bons resultados em estudos com animais. Outros grupos pretendem trabalhar com as células para problemas cardíacos.

Pesquisador tentará agora criar linhagem usando tecido adulto

Rafael Garcia – Folha de São Paulo

Mesmo tendo conseguido obter agora uma linhagem própria de células-tronco embrionárias humanas, pesquisadores brasileiros já se movimentam para conseguir produzir as chamadas células-tronco iPS -criações de laboratório que possuem grande versatilidade, mas não requerem o uso de embriões para serem obtidas.

Segundo Stevens Rehen, da UFRJ, porém, o Brasil ainda está à mercê da lentidão das importações para conseguir reproduzir esta técnica. “Acabei de comprar um reagente [material de pesquisa] crucial para fazer a reprogramação das células [as iPS]”, afirma o cientista “Recebi agora um e-mail da Merck dizendo que vai demorar 60 dias para me entregar.”

Segundo Rehen, esse tipo de demora deverá ser coisa do passado em breve, no que se refere à obtenção de células-tronco embrionárias humanas. Seu grupo na UFRJ desenvolveu uma técnica para multiplicação de células-tronco embrionárias em biorreatores que permite obtê-las em grande escala.
Segundo Rehen, a partir de uma amostra o método é capaz de produzir um montante de 900 milhões de células. “Colocando um milhão de células em cada tubinho já está bom.”

“Já temos um artigo submetido [a uma publicação científica] sobre isso”, diz. “Provavelmente vai ser o primeiro trabalho publicado sobre uma pesquisa com célula-tronco embrionária humana no Brasil.”
Rehen afirma que o clima de medo e incerteza que pairava sobre os cientistas nos anos em que as pesquisas com células-tronco vinham sendo questionadas na Justiça já é passado.

“Estamos maravilhosamente bem”, diz. “Houve um investimento grande do governo e o pessoal está bem motivado.”

Além de acelerar a pesquisa com os biorreatores, Rehen e Lygia Pereira afirmam que sua nova linhagem de células já é desenvolvida evitando o uso de material biológico não-humano. Assim elas já são mais adequadas para uso em testes clínicos no futuro, uma vantagem em relação às células-tronco de 1998 obtidas pelos cientistas americanos pioneiros.

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