A gramática na ponta da língua (e na lingüística de ponta)

ÁLVARO KASSAB

A Editora da Unicamp lançou a coleção Gramática do Português Culto Falado no Brasil. Mais que consolidar pesquisas iniciadas ainda na década de 70 por 32 pesquisadores de 12 universidades brasileiras, a coleção traz a chancela do pioneirismo. Trata-se do primeiro trabalho do gênero a ser publicado nas Américas e no mundo romântico, de acordo com o professor e lingüista Ataliba Teixeira de Castilho, coordenador da coleção.

Na opinião do professor, as novidades trazidas pela coleção vão “ricochetear na escola, lá na frente”. A mesma escola que, de resto, sempre foi um tema caro ao lingüista, conforme pode ser conferido nesta entrevista. [Entrevista de Junho de 2006]

Jornal da Unicamp – Como e quando foram iniciados os trabalhos acerca do livro que acabou de ser publicado?
Ataliba Teixeira de Castilho ­ – A publicação do primeiro volume da Gramática do Português Culto Falado no Brasil representa a culminação de um esforço muito grande que teve início ainda na década de 70, através do Projeto da Norma Linguística Urbana Culta (Projeto NURC). O objetivo era fazer uma boa documentação e análise do português culto falado em cinco capitais brasileiras: Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Originário do México, esse projeto teve uma dimensão hispano-americana, tendo sido introduzido no Brasil em 1969, dois anos depois de ter se iniciado na América Espanhola. Na verdade, ele viria a desenvolver-se melhor aqui do que em seu lugar de origem.

Foi então constituído um grupo com pesquisadores da Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Havia um roteiro de entrevistas e nós procurávamos pessoas de formação universitária, de três faixas etárias, nascidas nas capitais sob estudo, e que tivessem cursado a universidade no local de origem. Só em São Paulo foram feitas 350 horas de gravações. Todo esse material, e ainda amostras das outras capitais, está guardado no Cedae (Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio”) do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. Está disponível para qualquer pessoa que queira consultá-lo.

JU – As gravações duraram quanto tempo?
Castilho As entrevistas foram gravadas de 1970 a 1978. De 1978 a 1985 começamos a transcrever as fitas. Trata-se de um processo muito penoso – cada hora de gravação consome em média 7 horas de trabalho. No nosso caso, havia a exigência de não omitir absolutamente nada do que tinha sido falado. Queríamos saber de fato como esse pessoal falava.
Depois disso veio a publicação de amostras dessas transcrições – de 1986 a 1990 saíram três volumes com as transcrições das entrevistas feitas em São Paulo, seguindo-se as demais capitais. A publicação dessas amostras fez com que explodisse por todo o país uma quantidade enorme de estudos sobre a oralidade, fenômeno que, por incrível que pareça, só virou objeto científico na Lingüística por causa de um acidente tecnológico que foi a invenção do gravador portátil.

JU – Como funcionava até então?
Castilho –
Os estudos de língua falada eram feitos anteriormente com base naquilo que o lingüista se lembrava de ter ouvido, e não com base em documentos de transcrição. Na hora que se transcreve a língua falada, sem copidescagem, aparecem muitos fenômenos que não eram anteriormente analisados, por deficiências na documentação.


JU – Qual a diferença entre o português popular falado e português culto falado?
Castilho
– Não existe muita diferença. A sociedade brasileira é muito dinâmica, suas classes não ficam fixas num lugar só, não são estanques. Vamos dizer que, do ponto de vista da formação escolar do indivíduo, podemos reconhecer o português brasileiro popular – que é o dos analfabetos ou daqueles que cursaram só o primeiro ciclo do ensino – e o culto – o dos brasileiros que freqüentaram a universidade.

O português popular é muito mais dinâmico, porque não tem as peias da escola, não é controlado pelo português culto ou padrão, ensinado nas escolas. Do ponto de vista científico, inclusive, é até mais interessante de estudar, pois ele aponta para o futuro, para o que virá a ser a língua portuguesa.

JU – E o português culto?
Castilho –
Ele é menos variado, já que as pessoas que falam essa modalidade passaram pela universidade, tornando-se herdeiras de uma tradição. Mas insisto em que não são muitas as diferenças. Elas afetam mais a concordância nominal e verbal. No português popular, as regras de concordância não são redundantes como no português culto. Por exemplo: numa estrutura formada por artigo, substantivo e adjetivo, a marca de plural na variedade culta aparece em todos os elementos, como em “as casas pequenas”. No português popular a marca de plural aparece só no primeiro item, como em “as casa pequena”. Do ponto de vista da economia lingüística, isso é mais satisfatório, pois a marcação não precisa ser repetida em todas as palavras da estrutura. O francês, mesmo em sua modalidade culta, já vem fazendo assim faz tempo. Nessa língua, as marcas de plural só aparecem na forma escrita, mas você não as pronuncia.

Outra diferença é a concordância do verbo com o sujeito. No português culto, normalmente o verbo concorda com o sujeito. Já no popular, depende da morfologia do verbo, pois as regras são mais sofisticadas. Se a forma de plural do verbo é muito diferente da forma do singular, como em “ele é” em comparação com “eles são”, há concordância, como em “o menino é”, “os menino são”. Se a diferença entre o singular não é muito grande, não há concordância, como em “ele fala”, “eles falam”.

Agora, mesmo o português culto vem perdendo a concordância do verbo com o sujeito, quando esta função vem depois do verbo, dele se distanciando, como em “fala demais da conta essas pessoas”.

JU – Existe uma razão científica para isso?
Castilho –
Há sim. Como a expressão que normalmente vem depois do verbo é em geral o complemento, com o qual o verbo português não concorda, elimina-se a concordância mesmo quando essa expressão é o sujeito. Este é um dos muitos casos em que a língua culta se comporta como a popular.

JU – O senhor disse que a linguagem popular é mais sofisticada. Por quê?
Castilho
– Paradoxalmente, sim. A língua culta é muito pesadona, redundante, e tem um dinamismo menor. A língua popular é mais livre, mais criativa, e acaba por ter uma gramática mais sofisticada, como no caso da concordância verbal mencionada.

Isso ocorre mais na questão da organização gramatical da sentença e na construção das palavras. A gramática da língua culta reflete o passado. A gramática da língua popular aponta para o futuro da língua, e toma soluções novas com mais freqüência. Mas é claro que na exposição das idéias, na argumentação, a língua culta leva vantagem. A falta de cultura letrada parece dificultar a elaboração do argumento, frequentemente abandonado no meio do caminho.

JU – O que significa a norma culta num país tão heterogêneo como o Brasil?
Castilho
­– Essa é uma grande discussão. Quando uma nação tem suas classes sociais muito cristalizadas, é grande a diferença entre o padrão culto e o padrão popular. O falar diferenciado identifica o cidadão. Entretanto, quando a sociedade é bastante dinâmica, como a nossa, em que as classes ditas de baixo estão subindo, dada a intensa urbanização do país, a tendência é a norma culta não ficar muito distanciada do padrão popular. Isso já foi apontado para outros países hispano-americanos, que compartilham traços culturais com o Brasil.

JU – Qual o papel da escola nesse contexto?
Castilho
– Essa proximidade não quer dizer que a escola deva abrir mão da sua obrigação de passar o padrão culto. Por quê? O trabalho da escola é promover o cidadão. E como é que o cidadão vai ser promovido se ele não tiver à sua disposição o modo de falar de pessoas de uma outra classe, de um outro nível? Ignorar essa realidade básica seria, no fundo, atrapalhar a vida desse sujeito. Nos lugares em que há diferença entre um padrão e outro é bom que ele saiba que “dialeto” escolher. A escola deve fazer do cidadão um “bilíngue” em sua própria língua, por assim dizer. Assim ele poderá graduar sua fala.

Se ele está no ambiente familiar, ele deve usar a linguagem da sua família, ele não vai mudar aquilo. Agora, fora desse ambiente familiar, no seu local de trabalho, na busca de um emprego, ou quando ele se dirige a pessoas com as quais não tem intimidade, ele precisa se categorizar e não se desvalorizar, o que ocorrerá se ele chegar falando uma modalidade que, naquele ambiente, não é a adequada. O preconceito lingüístico é inerente às sociedades humanas. Temos de lidar com isso.

Para cada situação, há portanto uma modalidade lingüística adequada. Todo o lance será, por meio do ensino escolar, levar o aluno a conhecer a variedade que ele não domina familiarmente, que é justamente a variedade dominada em outro meio. Voltamos à questão da concordância do verbo e do sujeito, ou à concordância nominal. É melhor usar as regras de concordância fora de seu meio familiar. Embora isso seja uma coisa estúpida do ponto de vista científico, não o é do ponto de vista social. A sociedade não valoriza a pessoa que esteja falando “as menina pequenina” ou coisas desse tipo…

Mas gostaria que a escola não pusesse todo o seu esforço exclusivamente no ensino do padrão culto. Em primeiro lugar, a escola deve levar o aluno a refletir sobre a língua. E, depois é que vêm terminologia, classificações, coisas desse tipo. A criança precisa saber como funciona a sua língua, precisa sistematizar essa reflexão, já que pensar sobre a língua é algo corriqueiro na vida diária. Por exemplo, quando você reformula o que disse, evidentemente por que não ficou satisfeito com determinada execução, vai logo usando expressões do tipo “dizendo isso de outro jeito”, “digamos assim”, “ou melhor”, etc. Qualquer indivíduo está sempre refletindo sobre sua língua, à medida que conversa, para garantir a eficácia de sua fala. O que estou propondo aqui é a sistematização, na escola, desse impulso natural de qualquer falante, culto ou inculto.

É somente depois da reflexão que se deve ir adiante, rotulando as características da língua, propondo uma terminologia, etc. Habitualmente a escola começa por aqui. A escola começa pelas classificações das expressões, quando, na verdade, isso não é ponto de começo, é ponto de chegada. Sistematizada a reflexão linguística, o aprendizado do padrão culto ficará simplificado. O indivíduo vai se convencer, vai analisar e comparar. Não vai simplesmente obedecer a regras, estratégia que não funciona. Isto será melhor do que chegar a uma classe e enumerar regras gramaticais logo de cara. Quando isso acontece, é dada ao aluno uma reposta a uma pergunta que ele não fez. Não vai funcionar.

JU – Houve no Brasil algumas tentativas de se adotar modelos alternativos, não?
Castilho
­– Em 1930/40 – pouco tempo atrás portanto para os padrões brasileiros –, muita gente achava que o português culto do Brasil era o português europeu. Nas universidades, pregava-se que, na escrita e na fala, todo mundo tinha que se comportar como os portugueses…

JU – Qual o peso da tradição oral nessa coleção?
Castilho
– Se se entender por tradição oral a transmissão de determinados gêneros literários, como na chamada literatura oral, o peso é nenhum. Se se entender por tradição oral o retrato do modo como conversamos, aí o peso é muito grande. A percepção da oralidade espontânea é muito interessante. Quando você transcreve uma frase dita por uma pessoa, tudo parece muito caótico e repetitivo. Tanto que, no começo do nosso trabalho, publicadas as primeiras amostras das entrevistas, as pessoas falavam: “vocês são aqueles que lidam como os gaguinhos, né?”. Porque não se tinha uma idéia precisa do que acontece quando a pessoa fala e que importância isso tem para se entender uma língua natural. Até então, todos os estudos eram feitos sobre a língua escrita. Ora, sabemos hoje que a língua escrita filtra muitas características interessantes de um língua natural qualquer, características essas que permitem que você entenda como funciona a língua.

Costumo usar a seguinte comparação para distinguir a língua escrita da falada. Quando você olha um prédio pronto, se você não é familiarizado com a nossa sociedade urbana, você fica se perguntando como foi possível construir aquilo. Mas se você olha o prédio em construção, com os seus andaimes armados à volta, você entende como surgiram as paredes e o telhado de um prédio de apartamentos, por exemplo.

A língua escrita é como um prédio pronto. Quando a gente escreve, tem todo o tempo para ir e vir, ajustar as idéias, corrigir, apagando as versões anteriores. Já a língua falada é o prédio com os andaimes, ou seja, tudo é on-line, você está pensando no que vai falar e já está falando, na sua fala aparecem restos do seu diálogo interior, e o rascunho convive com a versão final.

JU – Como assim?
Castilho
– Nós achamos que a língua é para a comunicação. Mas não é. O nosso uso da língua para a comunicação é muito pequeno. Eu diria que apenas 20% vão para a comunicação; o resto é para a sua organização interna, para sua reflexão. Nós organizamos a nossa vida e o nosso pensamento por meio de uma sorte de diálogo interno.

JU – Quais são os efeitos disso?
Castilho
– Acontece uma coisa interessante, porque é como se você dividisse sua cabeça em duas partes, estabelecendo um diálogo entre elas, desdobrando sua identidade entre uma personagem que fala com alguém, e outra personagem que escuta e depois argumenta. Bom, mas acontece que essas duas personagens confluem em você mesmo. Logo, a esquizofrenia é constitutiva do ser humano… Os casos mais avançados é que são capitulados como casos patológicos. No mais, todos nós somos esquizofrênicos, de algum modo, em alguma medida, sinto muito…

Veja o exemplo do sonho. Nele, você institui um fato, você intitui um interlocutor, que pode te revelar coisas das quais, aparentemente, você não sabia. Ou seja, uma parte de sua mente revela coisas à outra parte, mesmo sendo um só indivíduo o autor do sonho. Aí, quando você acorda, pensa: “espera aí, mas o sonho não era meu? Que pessoa é essa que apareceu e contou uma coisa que eu não sabia? Que parte da minha mente sabia uma coisa que a outra não sabia?” Estes acontecimentos de todos os dias são mais um produto da linguagem. A língua, portanto, não é só para a comunicação externa. Ela funciona também para os acordos internos, para o planejamento das atividades do dia, por exemplo. Nos sonhos, você utiliza sua língua não para a comunicação externa. Ainda não medimos direito a força do diálogo interno na organização das línguas. Mas os registros da língua falada oferecem materiais para esse tipo de indagação.

JU – Isso ocorre em todas as modalidades da língua falada?
Castilho
– Sim, em qualquer uma delas, seja na fala culta, seja na fala popular. As estratégias da oralidade igualam os falantes. Na oralidade, o comportamento lingüístico do sujeito mais sofisticado, praticante do padrão culto, é absolutamente igual ao comportamento do analfabeto. O certo é que nas primeiras descrições da língua falada era um tal de cair do cavalo! Pois as pesquisas lingüísticas sempre estiveram ancoradas na língua escrita. Encarar a língua falada exigiu uma refundação do modo de pesquisar, e daí resultou um novo conhecimento do que é uma língua natural. A língua falada não é apenas uma dada manifestação da língua. Ela é “a” língua. Além disso, é preciso lembrar que muitos povos sequer dominam a escrita. Nem por isso eles deixaram de ter uma língua.

JU – Seria o caso dos índios brasileiros?
Castilho
– Exatamente, eles não escrevem, assim como muitos povos da África. Mas suas execuções lingüísticas são altamente reveladoras de como o ser humano criou e desenvolveu esse atributo. A oralidade revela como se dá o processamento verbal. Já a língua escrita representa mais um conjunto de produtos, enquanto a língua falada enfeixa ao mesmo tempo a produção e o produto.

JU – Qual é o impacto disso na Lingüística?
Castilho
– As descobertas da oralidade revolucionaram a Lingüística, embora nem todo mundo tenha percebido isso. Hoje, o estudo do processamento na criação lingüística é mais forte do que o estudo do produto. Dicionários e gramáticas tratam de produtos cujo processo não são revelados. Uma gramática como essa que organizamos vira o jogo, trata do processo e do produto, e nisto reside seu grande diferencial, que já começa a ser notado em alguns ambientes. Mas essa gramática trará também uma intervenção direta no ensino. Por que as crianças reclamam que não aprendem gramática? Porque a gramática que se ensina na escola é uma gramática de produtos. Ou seja, você vai focalizar o resultado de uma coisa que não sabe exatamente o que é, nem convida o aluno a descobrir o que seja.

Sem contar aquele lance já mencionado da importação sistemática de modelos por parte de linguistas brasileiros, quando se propunham a escolher seu campo de atuação.

JU – Como o senhor analisa a penetração cada vez maior da internet? Qual o seu impacto nas coisas referentes à língua, ao surgimento de novas terminologias e à participação interativa de crianças e de jovens?
Castilho
– A internet – e conseqüentemente o blog – conseguiu uma coisa que, apesar de todos os esforços dos professores de português, ainda não tinha acontecido: fazer a criançada escrever. Isso é altamente positivo. Claro que a internet vai deixar uma marca, como ocorreu com todas as mídias que vieram antes. Quanto se inventou a imprensa, por exemplo, houve uma alteração das línguas, até pelo fato de explodir a difusão de textos escritos. Cada vez que um novo meio tecnológico é desenvolvido, a língua sofre uma alteração. Isso é sempre positivo, pois ela está saindo do seu lugar, está operando dinamicamente – não está parada no tempo.

Acho incrível o fato de as crianças estarem escrevendo tanto, agora. Espero que os professores de português aproveitem isso na sala de aula. Entretanto, acho também que esse inesperado fervor redatorial derive do fato de que os jovens não estão escrevendo para seu professor… Os leitores dos blogs não são seus tutores, não estão lá para te censurar. Fica a pergunta: por que a criança fala tanto e escreve tão pouco? A internet quebrou uma resistência à produção do texto por parte das crianças.

JU – Correntes de lingüistas e de gramáticos vêem a língua como instrumento de dominação e, não raro, de opressão. O senhor concorda com essa visão?
Castilho
– Não há dúvida de que a língua pode ser usada como instrumento de dominação. Todos os impérios, por exemplo, tratam logo de ensinar sua língua aos povos conquistados. Agora, a questão da opressão lingüística pode ser focalizada também de outro ângulo, que é quando a gente desperdiça uma oportunidade tão boa como a de levar os alunos a raciocinar através do ensino da língua portuguesa.

A língua é o resultado mais complexo do espírito humano. Basta pensar um pouco: as línguas têm um mínimo de 12 e um máximo de 24 sons. Como é que, com uma matéria tão pobre, se construíram milhares de línguas? São faladas hoje mais de seis mil línguas, e olha que não estou colocando na conta aquelas que morreram pelo caminho. É um milagre do espírito humano! Se, na escola, os alunos desenvolvessem um raciocínio sobre isso, seria eliminado completamente o lado opressivo do ensino.

JU – Do que se constitui esse lado?
Castilho
– Primeiro, porque são dadas respostas a perguntas que não foram feitas. Segundo, porque parece que as matérias escolares são uma coisa pronta que não pode ser mexida. Terceiro, porque a escola acha que o aluno não sabe. Isso é verdadeiro no caso das ciências, não no caso da língua portuguesa. Como ele não sabe se já chega à escola falando? Ele tem um conhecimento que ele desenvolveu quando era criança, quando começou a falar português. Sua cabeça deu mil voltas, não é fácil dominar uma língua, trata-se de uma fase crucial na vida das pessoas. Tanto assim é que uma criança com um pequeno problema neurológico não vai aprender como os outros. Ela tem que estar com o cérebro intacto para dar conta do volume de regras a ser depreendido, ouvindo a fala do pai e da mãe.

JU – Como o senhor vê a evolução do português falado no Brasil?
Castilho
– Há várias posições sobre isso. Uns dizem que a partir do século 19 começou a ser construída uma gramática do português brasileiro, que dizer, uma nova língua, distinta do português europeu. Mas se analisa o português medieval, como fez a minha mulher [Célia Maria Moraes de Castilho] em sua tese de doutorado, descobre-se que aquilo que se explicava como um abrasileiramento do português, na verdade já se encontrava lá, sobretudo nos documentos do século XV. Ou seja, esse português veio para o Brasil e foi preservado. Nós estamos fazendo mudanças gramaticais a partir dessa base. Já Portugal, a partir do século XVIII, imprimiu um novo rumo à língua, por isso que muito do que aqui sobreviveu, não existe mais lá. Eles é que estão diferentes, não nós.

JU – Que tipo de mudança ocorreu?
Castilho
– Muitas coisas acabaram mudando. Um exemplo foi o sistema fonológico, que teve canceladas as vogais átonas. Quando você ouve um português falar, quase que se ouvem apenas as consoantes… Da primeira vez que fui lá, em 1963, para cá, mudou muita coisa. Como eles têm esse negócio de jogar fora as vogais átonas, todo o esquema silábico muda. Se isso muda, a morfologia da palavra também muda.

JU – A língua fica pobre com isso?
Castilho
– Não se trata de empobrecimento, é apenas uma mudança. Nenhuma língua é pobre. Quando se imagina que as línguas são conjuntos de sons que transmitem uma idéia, enquanto esse mecanismo funcionar a língua continuará a ser um milagre de uma riqueza fantástica.

JU – Nosso repertório é mais variado?
Castilho
– Nosso repertório é apenas diferente. No caso de São Paulo, por exemplo, ainda não avaliamos direito o fato de que no comecinho da cidade conviviam espanhóis e portugueses, tanto em São Vicente quanto em São Paulo. De São Vicente, eles subiram pelo caminho dos índios e vieram para o planalto. A língua portuguesa popular que saiu das caravelas, saiu junto com o espanhol, mesmo que tivessem comprado seus bilhetes em companhias diferentes… Eles se cruzaram em São Vicente e depois em São Paulo. Pode ser, portanto, que o português de São Paulo tenha resultado de muito contato lingüístico ao castelhano. Sem pensar no peso dos mamelucos.
É preciso lembrar também que, de 1580 a 1640, a Coroa de Portugal se uniu à da Espanha. Não havia então mais império espanhol ou português. Era um império só, o que facilitou os contactos lingüísticos. É capaz que esses fatores tenham acelerado as mudanças do português popular europeu. Pode ser que essa seja uma das bases do falar caipira.

JU – Qual foi a influência do português de São Paulo sobre as outras regiões do país?
Castilho – O português paulista espalhou-se pelo Brasil. Se você olhar mapas que retratem os movimentos das bandeiras, das entradas e dos tropeiros, verá que os paulistas tomaram várias direções, para Minas e Goiás, para o Mato Grosso, para os estados do sul. Tudo isso integrava a Capitania de São Paulo. Na direção do Vale do Paraíba, eles levaram o português paulista até Macaé, no estado do Rio de Janeiro. Era paulista a língua que se falava no Rio de Janeiro. Isso mudou em 1806, quando a população do Rio era de 14 mil habitantes e dom João VI chegou com sua Corte, cerca de 16 mil portugueses. E não eram portugueses quaisquer. Eram portugueses da Corte. Seu prestígio fez que imediatamente a língua local fosse alterada. E os cariocas começaram a chiar, como os portugueses de então. O português paulista do século XVI precisa ser estudado, porque ele foi levado para quase todo o país, com exceção do Nordeste e do Norte.

JU – Como o senhor classificaria a literatura no contexto dessa dicotomia entre língua escrita e falada?
Castilho
– A língua escrita literária é a realização máxima dessa modalidade. A língua literária é muito densa, e nela se diz muito com poucas expressões. Propriedades linguísticas básicas são exploradas ali em grau máximo. Como disse Umberto Eco, a obra literária é uma obra aberta. Nela, os signos não são descodificáveis univocamente, e o leitor é convocado a fazer muitas leituras do mesmo texto. Deve ser por isso que Oswald de Andrade dizia que ele não era um, era 300… A literatura permite múltiplas interpretações, confluindo escritor e leitor numa mesma entidade. Então a fatura de um texto com tal grau de poder – de dizer muitas coisas para muitas pessoas, independentemente do escritor ter pensado ou não naquilo – mostra que esse registro da língua escrita representa o uso linguístico na potência máxima. [Entrevista resumida- Junho de 2006]

Quem é Ataliba Castilho
Ataliba Teixeira de Castilho foi professor titular da USP (1996-2005), da Faculdade de Filosofia de Ciências e Letras de Marília (1961-1975), atualmente unidade da Unesp, e do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp (1975-1991). Na Universidade, organizou o Sistema de Bibliotecas e o Sistema de Arquivos. Foi professor visitante da Universidade do Texas. Presidiu a Área de Letras e Lingüística da Capes (1987-1990), a Associação Brasileira de Lingüística (1983-1985), a Associação de Lingüística e Filologia da América Latina (1999-2005) e foi membro do Comitê de Assessores em Letras e Lingüística do CNPq (1991-1993. Participou de programas de pós-doutoramento em universidades da Itália, Portugal, EUA e França. Coordenou os seguintes projetos de pesquisa: Projeto de Estudo da Norma Urbana Lingüística Culta da Cidade de São Paulo [Projeto NURC, juntamente com Isaac Nicolau Salum (1969-1980) e Dino Preti (desde 1981)]; e o Projeto de Gramática do Português Falado [PGPF]. Atualmente coordena o Projeto de História do Português Brasileiro de São Paulo. É autor de 19 livros, entre os quais Subsídios à Proposta Curricular de Língua Portuguesa para o 2. Grau (org); A Linguagem Falada Culta na Cidade de São Paulo (org., com Dino Preti); A Linguagem Falada Culta na Cidade de São Paulo; Português Culto Falado no Brasil (org.); Gramática do Português Falado (org.); e Para a História do Português Brasileiro (org.).

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2 Respostas

  1. Destaco:

    JU – Como o senhor vê a evolução do português falado no Brasil?
    Castilho –
    Há várias posições sobre isso. Uns dizem que a partir do século 19 começou a ser construída uma gramática do português brasileiro, que dizer, uma nova língua, distinta do português europeu. Mas se analisa o português medieval, como fez a minha mulher [Célia Maria Moraes de Castilho] em sua tese de doutorado, descobre-se que aquilo que se explicava como um abrasileiramento do português, na verdade já se encontrava lá, sobretudo nos documentos do século XV. Ou seja, esse português veio para o Brasil e foi preservado. Nós estamos fazendo mudanças gramaticais a partir dessa base. Já Portugal, a partir do século XVIII, imprimiu um novo rumo à língua, por isso que muito do que aqui sobreviveu, não existe mais lá. Eles é que estão diferentes, não nós.

    JU – Que tipo de mudança ocorreu?
    Castilho –
    Muitas coisas acabaram mudando. Um exemplo foi o sistema fonológico, que teve canceladas as vogais átonas. Quando você ouve um português falar, quase que se ouvem apenas as consoantes… Da primeira vez que fui lá, em 1963, para cá, mudou muita coisa. Como eles têm esse negócio de jogar fora as vogais átonas, todo o esquema silábico muda. Se isso muda, a morfologia da palavra também muda

    JU – Qual foi a influência do português de São Paulo sobre as outras regiões do país?
    Castilho –
    O português paulista espalhou-se pelo Brasil. Se você olhar mapas que retratem os movimentos das bandeiras, das entradas e dos tropeiros, verá que os paulistas tomaram várias direções, para Minas e Goiás, para o Mato Grosso, para os estados do sul. Tudo isso integrava a Capitania de São Paulo. Na direção do Vale do Paraíba, eles levaram o português paulista até Macaé, no estado do Rio de Janeiro. Era paulista a língua que se falava no Rio de Janeiro. Isso mudou em 1806, quando a população do Rio era de 14 mil habitantes e dom João VI chegou com sua Corte, cerca de 16 mil portugueses. E não eram portugueses quaisquer. Eram portugueses da Corte. Seu prestígio fez que imediatamente a língua local fosse alterada. E os cariocas começaram a chiar, como os portugueses de então. O português paulista do século XVI precisa ser estudado, porque ele foi levado para quase todo o país, com exceção do Nordeste e do Norte.
    ele foi levado para quase todo o país, com exceção do Nordeste e do Norte.

  2. O falar do nordeste parece ser o mais conservador do Brasil, é o que guarda mais arcaísmos.

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