Um Brasil além-mar com “feijoadá” e “jeitinho sociológico”

Por Maria da Paz Trefaut, de São Paulo

Que tipo de cultura produziram os ex-escravos que retornaram do Brasil para a África no século 19, assim que conquistaram a liberdade? Ao contrário daqui, onde viviam na senzala, essas populações se tornaram influentes e prósperas do outro lado do Atlântico. Radicadas em vários países, mas especialmente na Costa Ocidental, os descendentes dos antigos escravos mantiveram o apego a tradições brasileiras que cultivam até hoje: ainda cantam samba, comem “feijoadá” (pronuncia-se com o acento agudo), fazem desfiles de carnaval e torcem pelo Brasil na Copa do Mundo.
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O pesquisador Milton Guran: ” único exemplo de uma identidade calcada
na cultura brasileira longe de nossas fronteiras”

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O tema, que não chega a ser muito falado por aqui, desperta curiosidade crescente. Prova disso é o seminário “Back to África: Afro-Brazilian Returnee and their Communities” (De volta para a África: os afro-brasileiros retornados e suas comunidades), que aconteceu esta semana em Johanesburgo, na África do Sul. No encontro, promovido pelo Centre of Advanced Studies in African Society, estiveram reunidos antropólogos e historiadores de vários países e foram apresentados filmes e documentários produzidos no Brasil. Um dos conferencistas foi o antropólogo Milton Guran, pesquisador associado do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense, estudioso dessas populações desde a década de 1990. Guran, que viaja para o Benim quase todos os anos, escolheu o assunto como tema da tese de doutorado que defendeu na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris.

Na África, os ex-escravos que voltaram passaram a ser chamados de “agudás”, palavra do vocabulário iorubá. Autor do livro “Agudás, os brasileiros do Benim” – editora Nova Fronteira -, o antropólogo descobriu em suas pesquisas que atualmente há cerca de 400 sobrenomes luso-brasileiros no país. São as famílias Silva, Souza, Freitas ou Domingos, que ao retornarem ao seu continente foram responsáveis pelas primeiras construções de alvenaria e levaram na bagagem o catolicismo. Provenientes de diversas etnias, eles tinham em comum o passado vivido no Brasil, uma maneira de ser distinta e uma qualificação profissional. Reincorporados à sociedade como hábeis artesãos ou comerciantes instruídos, consideravam “selvagens” os nativos.

Em suas viagens, Guran também encontrou um livro de receitas deixado pelo agudá Cesário de Medeiros, e está traduzindo o texto para editá-lo aqui. Medeiros nasceu no Benim em 1933, e foi viver em Paris na juventude. Lá, casou-se com uma francesa da Bretanha, mas o casamento inter-racial nunca foi aceito pela família dela. Com o sentimento de ter sido um desenraizado durante toda a vida, sempre em busca de uma identidade social, Medeiros e a mulher promoviam encontros entre “a grande família dos agudás radicada na França” e o divertimento deles era preparar pratos tradicionais da cozinha afro-brasileira.
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Álbum de família: Cesário de Medeiros: casamento
inter-racial e pratos afro-brasileiros

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A “feijoadá”, o “cousidou” e outros aspectos da culinária foram pontos da conferência de Guran em Johanesburgo. Antes de embarcar, ele falou de seu interesse pela cultura brasileira que sobrevive no Benim e da curiosidade que ela desperta no mundo.

Valor: O que motivou seu interesse por essas comunidades?

Milton Guran: Quando cheguei para fazer meu doutorado na École des Hautes Études em Sciences Sociales, em 1992, em Paris, me vi em um laboratório africanista. Os estudos africanos, pelo menos na minha área, eram muito mais incipientes no Brasil do que são hoje. Para mim isso representava uma oportunidade de conhecer a África real e de fazer uma pesquisa que há muito deveria ter sido feita. Na verdade, fui o primeiro antropólogo brasileiro a fazer uma pesquisa de fôlego no Benim (com a ressalva de que Pierre Verger era francês, apesar de ser brasileiro de coração). Aliás, até hoje esse quadro continua inalterado, a despeito da importância cultural e política da região. A República do Benim, vale lembrar, é o antigo reino do Daomé, que se notabilizou como um dos maiores exportadores de escravos da África, e foi conquistado militarmente pelos franceses no final do século 19.

Valor: Que importância esse núcleo de pessoas tem lá? Em quantos países se concentram?

Guran: Os agudás representam – ao lado dos Tabon de Gana que, entretanto, não têm a mesma expressão social – o único exemplo de uma identidade social calcada na cultura brasileira longe das nossas fronteiras. Não se trata de uma “colônia” de brasileiros no exterior, mas de um grupo social que usa o pertencimento à cultura brasileira para se articular com o conjunto da sociedade em que está inserido. No Benim são talvez 10 % da população. Estão também solidamente inseridos na Nigéria (vide o livro “Negros Estrangeiros”, da Manuela Carneiro da Cunha) e no Togo, onde o primeiro presidente foi um agudá, Sylvanus Olympio, neto de um traficante de escravos.

Valor: Qual a definição exata de agudás?

Guran: São chamados de “brasileiros” ou “agudás” na região do golfo do Benim todos os descendentes dos escravos libertos que retornaram do Brasil para lá. Também são agudás os descendentes dos traficantes que lá se estabeleceram nos séculos 18 e 19, e seus respectivos escravos. Em suma, todos aqueles que se utilizam da matriz cultural brasileira para se constituírem como um grupo social diferenciado. Na Nigéria, o termo tem acepção mais ampla, chegando a abranger outros grupos, como os libaneses.

Valor: Eles ainda hoje se consideram de alguma forma brasileiros?

Guran: Consideram-se sim, alguns até reivindicam passaporte brasileiro, sem razão de ser. A identidade é uma construção simbólica e eles se consideram “brasileiros” (entre aspas) e assim são considerados pelo restante da população.

Valor: Que hábitos preservaram essencialmente?

Guran: A principal marca dos agudás é o que no Benim se chama “maneiras de branco”, ou seja, uma maneira de ser à Ocidental, que tem a matriz da cultura européia e que só chegou naquela região no final do século 19, depois do estabelecimento dos agudás. É o que chamo de cultura invisível no meu livro. Um conjunto de tradições, que apresenta todos os indicadores de identidade, como os festejos do Nosso Senhor do Bonfim, o folguedo da Burrinha (uma forma arcaica do bumba-meu-boi) e passa até por expressões em português.

Valor: Quais expressões ou palavras em português eles utilizam?

Guran: Atualmente, a principal é “Bom dia, como passou?” e a resposta “Bem, brigado”.

Valor: Essas “maneiras de branco” podem ser entendidas como uma crítica do resto da sociedade para com um grupo que também é negro?

Guran: As “maneiras de branco” são simplesmente as maneiras ocidentais (européias) que se impuseram no Brasil antes de se imporem na África. No século 19, os europeus implantaram sua proposta de colonização, o que tornou essas maneiras de branco um parâmetro para toda a sociedade. Os agudás levaram do Brasil para lá essa experiência cultural. Ao assinalar isso na conduta dos agudás, o resto da sociedade estava justamente corroborando a diferença entre eles e esse grupo de africanos ou de filhos de africanos que se reivindicava diferente, ou seja, agudá e não fon, iorubá, mahi, etc.

Valor: Quais são os pratos brasileiros mais importantes entre essas famílias? Com que freqüência são preparados?

Guran: Os principais são a “feijoadá”, o “cousidou” e a “tapiocá”, todos pronunciados com sotaque francês. Os dois primeiros são os pratos oficiais das reuniões agudás. A “tapiocá”, uma espécie de beiju mole, servido com leite condensado é até mesmo vendida na rua e tem grande aceitação. Há ainda a “concada” (assim, com um “n” no meio), que designa dois tipos de doce: a nossa cocada, feita com coco verde, e o pé-de-moleque que, por sinal, é o mais comum, conhecido como um doce agudá.

Valor: Além da comida vendida nas ruas há restaurantes com essa culinária?

Guran: Que eu saiba não. Esses pratos são tradicionais entre os agudás, não entre a população em geral. O que tem maior consumo e aceitação, reconhecido como uma contribuição agudá é a “concada” na sua versão pé-de-moleque. A “tapioca” também é muito consumida na rua, tendo extrapolado o meio agudá.

Valor: Qual a diferença entre a feijoada, o cozido e a tapioca daqui e de lá? São receitas adaptadas em função dos ingredientes locais?

Guran: O princípio é o mesmo, mas há sempre adaptações. Precisamos levar em conta, também, que a matriz cultural deles lá é proveniente do século 19, no mínimo. Ou seja, talvez a feijoada que eles têm em mente não seja essa que conhecemos hoje. A feijoada deles é com feijão mulatinho e em forma de purê. Há várias carnes, mas nem sempre tem porco, já que há muitos muçulmanos lá. Em contrapartida, o cozido é bem semelhante, e a tapioca é uma espécie de beiju, bem parecida com a que comemos no Nordeste.

Valor: As novas gerações se interessam por essa cultura?

Guran: É difícil generalizar, sobretudo nesta região da África. Há as novas gerações da cidade e do campo, por exemplo, e várias nuances entre a classe média, a elite e o grosso da população. O africano normalmente é muito ligado na cultura ancestral, mesmo quando se mostra mais ocidentalizado. Entre os agudás, os velhos reclamam dos novos, mas ainda assim vejo muita vitalidade nas festas, com forte presença de jovens, sobretudo nas camadas mais populares.

Valor: Como você vê a síntese dessas duas culturas?

Guran: A escravidão é um estigma indelével nas sociedades que produziram os escravos. Essa identidade agudá – construída a partir da memória do tempo vivido no Brasil, ou seja, da própria escravidão – permitiu que antigos escravos e traficantes negreiros se unissem em um único grupo social e assim deu condição a esses libertos de operarem na sociedade que os acolheu de volta como cidadãos de plenos direitos. Essa “engenharia social” – uma espécie de “jeitinho sociológico” – é um caso único, exemplar. Não há outro país além do Brasil que possa contar com um trunfo como esse nas relações bilaterais com os países africanos. A isso se soma o fato de que o Brasil é a segunda população negra do mundo, logo depois da Nigéria. Resumindo, tem tudo a ver conosco.

(Valor Econômico – Caderno: Eu&Fim de semana – 18/07/2008 )
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5 Respostas

  1. Que ma-ra-vi-lha! É tão surpreendente saber que pessoas, que no passado, sofreram tanto no Brasil guardaram e preservaram com carinho a ‘brasilidade’. É lindo saber que não apenas nós fazemos parte desse todo brasileiro mas há pessoas no mundo que compartilham conosco este sentimento.

    Mais curioso é o interesse estrangeiro que esse ‘parentesco’, tão distante e ao mesmo tempo tão perto, causou a ponto de fazerem um seminário sobre o assunto. Muito legal

  2. Eu acho que os Brasil deveria dar os vistos, por que não?

  3. Aí estão nossos verdadeiros irmãos africanos. Quanta generosidade desse povo em preservar a cultura brasileira sem esperar nada em troca, é apenas o sentimento de gostar e ser.

  4. Pela generosidade e carinho desse povo que sofreu tanto, onde se não tivessem um coração lindo, teriam a vontade de esquecer. Creio que além de um visto ou de um reconhecimento de um Presidente, crio qiue poderiamos ajudar a dar soluções para problemas atual por que estã passando, como a recuperação de predios históricos e o incentivo ao turismo de Brasileiros e outros.

  5. Que belo povo. Adorei o feijoadá e o tapiocá.

    É Antônio, com ações simples poderíamos retribuir um pouco dessa generosidade.

    Ju, concordo, são por estes e nestes povos que o Brasil mantém estreitos laços afetivos com a África.

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