Se fosse física…

Mas gramática não tem o estilo e o alcance de ciência exata, como mostra a análise tradicional de frases como “vendem-se casas”, que não equivale a “casas são vendidas”

Sírio Possenti* – Revista Língua

Uma coisa nunca vou entender: por que as gramáticas, os professores, os concursos dizem que uma oração como “Vendem-se flores” é passiva sintética e seu sujeito é “flores”? Há argumentos históricos que sustentariam que essa não é oração ativa típica, como “O gato perseguiu o rato”. Mas deveria ser mais ou menos óbvio que é uma ativa do tipo “Precisa-se de bons professores”.

Repete-se, como verdade, que tais orações são passivas, e o argumento (único!) é a possibilidade de sua conversão em passiva: “Vendem-se casas” = “casas são vendidas”, logo, também é passiva. Ninguém se dá conta de que “Leram o livro” é igual a “O livro foi lido” ou “O gato perseguiu o rato” é igual a “O rato foi perseguido pelo gato”? (“É igual” significa “é paráfrase”, forma diferente de dizer o mesmo.) “Substituir não é analisar”, grita Said Ali em O pronome “se” (in: Dificuldades da Língua Portuguesa. Livraria Acadêmica, 1950, 4ª edição, p. 162).

Se o estudo da gramática tivesse o estilo e o alcance dos da natureza (como os de física), a velha tese já teria sido abandonada. Ela tem a cara do sistema ptolomaico… Não resiste a um argumento empírico nem metateórico, o da elegância e simplicidade da solução. Para que não se diga “lá vem a lingüística confrontar a gramática”, vou só resumir o artigo de Said Ali. Que é de 1909! Ali defende a tese de que o pronome “se” das ditas passivas sintéticas é apenas sujeito indeterminado, como o de “Precisa-se de bons professores”.

Tipos de “se”
Primeiro, lista tipos de “se”: “Pedro matou-se” (reflexivo); “Eles odeiam-se” (reflexivo recíproco); “O homem foi-se” (mais enérgica do que “ele foi”), e “Anda-se”, “Compra-se”, “Vai-se” (fórmulas destinadas a calar o agente). Em seguida, anota que, às vezes, o “se” é objeto indireto: “ele arroga-se o direito…”; “deu-se pressa em responder…” e no exemplo camoniano “empresa onde o rosto e narizes se cortava”. Às vezes, diz Ali, o pronome reflexo apenas mostra que o sujeito participa intensamente da ação: “ele riu-se” é mais do que “ele riu”.

Metodologicamente, critica os que se afastam da forma gramatical para fazer análises. O que ocorre quando se diz que “vende-se” = “é vendido”. Diz que as duas formas não se substituem a bel-prazer e quem segue tal método se deixa “fascinar pela nebulosidade da especulação metafísica”, e ao estudo científico prefere “a estrada batida da indolência intelectual” (p. 146).

Numa análise psicológica (que, para ele, equivale à interpretação real dos enunciados, ou seja, é argumento empírico, não especulação), Ali diz que, em “Compra-se o palácio” e “Morre-se”, “o pronome se sugere, na consciência de todo mundo, a idéia de alguém que compra e de alguém que morre, mas que não conhecemos ou não queremos conhecer” (p. 147). Com isso, podia-se admitir “se” como sujeito, o que poria fim a longo debate.

Além dessas invectivas, que se poderia considerar menos sólidas, Ali traz argumentos definitivos. O primeiro consiste em construções clássicas com “se” e objetos diretos preposicionados. Ora, esses objetos são candidatos a sujeitos na análise que diz haver passivas sintéticas. Gramáticas aceitam objetos diretos preposicionados, mas não sujeitos preposicionados. Assim, tais orações são ativas (espera-se que ninguém diga que os elementos destacados a seguir são sujeitos de passivas):

Deus quer que só a ele se ame (Paiva, Sermões); Ninguém se deve amar, se não a um senhor tão poderoso (idem); Por tudo isso se admira a Vieira; a Bernardo, admira-se e ama-se (Castilho); Louva-se ao deus Termino (idem); Dest’arte se remonta ao Pólo e se conquista a luminosa esfera (idem); Um paço onde não se louva a Deus é um deserto edificado (Vieira); Olhos com que se vê a Deus (idem).

Seria de esperar que, com esse argumento, a tese da passiva sintética fosse abandonada (já que só subsiste à base de anúncios de feiras corrigidos). Mas Ali tem outro argumento irrefutável. Suponham-se as orações “Aluga-se esta casa” e “Esta casa é alugada”. Exprimem dois sentidos, diz Ali. O teste é simples: ponha-se placa com as duas frases em casas diferentes. Os pretendentes encaminham-se para a primeira, “convencidos de que a outra já está tomada”. O anúncio “esta casa é alugada” parecerá supérfluo.

Indeterminador
Há mais argumentos em favor da tese de que o “se” dito apassivador é só um pronome indeterminador:

a) verbo no plural é cada vez menos usado em português, o que significa que o “sentimento” dos falantes é considerar que se trata só de indeterminar o sujeito;

b) a construção é única em italiano e cada vez mais dominante em espanhol.

Finalmente, um argumento metateó­rico: se a análise mostrar que há menos tipos de “se” do que outra, e se as duas forem observacionalmente adequadas, dever-se-ia adotar a análise mais geral, mais elegante e econômica. Suponhamos que as duas dêem conta dos fatos (não é o que acho, nem Ali, para quem o “se” apassivador não dá conta dos casos de objeto direto preposicionado nem do sentido real de “aluga-se esta casa”). Mas suponhamos que aceitemos as duas análises. Deveríamos, então, escolher a teoria que diminua os tipos de “se”. Ora, Said Ali elimina o “se” apassivador. Restariam o “se” reflexivo (e o recíproco, seu subtipo) e o indeterminador do sujeito.

Ninguém diria que são diferentes, quanto ao “se”, as construções “Precisa-se de bons professores” e “Procuram-se bons professores”. Não é óbvio que o “mesmo agente” (não nomeado) procura e precisa? Que a diferença não está nos “se” (que é um só), mas na regência do verbo? Não é insano sustentar que um “se” é apassivador só por ocorrer com verbo que aceita passiva, o transitivo direto? E, se não há passiva de “Precisa-se de bons professores”, isso não se deve ao tipo de “se”, mas por nunca haver passivas com verbo transitivo indireto? A fragilidade da análise “apassivadora” fica clara ao se comparar:

1. Vendem-se flores / 1′. Eu vendo flores

2. Flores são vendidas / 2′. Flores são vendidas por mim

Deveria ser claro que 1-2 = 1′-2′. Que, se “flores” é objeto da ativa e sujeito da passiva em 1′-2′, é irracional dizer que é sujeito de ambas em 1-2. A diferença é que 1-2 têm sujeito expresso por “se” na ativa e ele é apagado quando vira agente da passiva (*flores são vendidas por se é oração estranha); mas, se aceitarmos que “flores são vendidas por alguém” (ignora-se quem) é boa paráfrase de 2, aceitaremos que “vendem-se flores” é oração ativa.

Resta um problema: a concordância do verbo com o objeto. “Acha-se em estranho atraso, comparada com a evolução do sentido, e em flagrante contradição com o que regularmente se usa quando o objeto é preposicionado: diz-se adora-se aos ídolos, mas adoram-se os ídolos” (p. 155). Mas está sumindo, exceto em prova escolar. Se gramática fosse (como a) física, não se ensinaria mais análise sem fundamento empírico, sem base nos fatos.

*Sírio Possenti é professor do Departamento de Lingüística da Unicamp
http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11560

Leia também:
PRATOS QUE SE LAVAM SOZINHOS? SÓ NA GRAMÁTICA NORMATIVA!
https://brasiliano.wordpress.com/2008/08/07/pratos-que-se-lavam-sozinhos-so-na-gramatica-normativa/

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Uma resposta

  1. Alguém ainda leva a sério essa gramática cretina?

    Quem no Brasil chega em uma padaria e diz: ‘Dê-me’ cinco pães. (considerada a única forma correta na gramática mas que nunca, em qualquer tempo, foi falada pelos brasileiros)

    Me dá dinheiro aí!
    Me vê dez pães!
    Me…
    Me…
    e Me…

    Quem diz ‘dê-me’ ou ‘passe-me o sal’ é tão cretino e colonizado quanto essa gramática que não corresponde de nenhuma forma à língua materna dos brasileiros.
    Fora lusismos de nosso idioma!!!!

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