O Idioma Brasileiro é uma continuação do Português Arcaico?

Ataliba T. de Castilho

Parece, então, que o Português Brasileiro (PB) resulta de uma mudança natural, explicada por tendências evolutivas que tinham começado já na Península Ibérica. Segundo essa hipótese, poderíamos dizer que o Português Brasileiro é uma continuação do Português Arcaico. Sobre essa base lingüística se aplicariam ajustes, dando continuidade a uma deriva própria ao Português Europeu (PE). Nesse sentido, a pergunta a fazer será não “por que o PB tomou rumos diversos em relação ao PE”, mas sim “por que a modalidade européia não mudou na mesma direção”, tendo optado por outros rumos.

Joaquim Mattoso Câmara Jr. (1957) foi o primeiro a defender a hipótese da deriva ou mudança natural, quando procurou uma razão estrutural, interna, para explicar o uso brasileiro do ele acusativo, na expressão “eu vi ele”. Ele argumenta que a próclise de o ao verbo cria um vocábulo fonético em que o pronome, aí tratado como uma vogal átona, cai, exigindo-se a escolha de outro pronome para o preenchimento da função de objeto direto. Quer dizer, se disséssemos “eu o vi”, as duas últimas palavras soariam como “uvi”, em que “u” será tratado como uma vogal átona qualquer, candidada a desaparecer. É o que fazemos com a primeira vogal de “imagina!”, que dizemos habitualamente “magina!” O problema é que, se em “magina” o “i” inicial não faz falta, em “uvi” a primeira vogal é o objeto direto de “ver”, e faz uma falta danada! Para ajeitar as coisas, passou-se a usar o pronome “ele”, e com isso temos hoje em dia “eu vi ele”. Ele retornaria ao tema, excluindo a possibilidade de um crioulo de base indígena, porque as línguas indígenas “foram substituídas no intercurso dos índios com os brancos por uma língua única – o chamado Tupi”, restringindo-se aos empréstimos léxicos sua contribuição ao PB. Quanto às línguas africanas,
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“os escravos negros adaptaram-se ao português sob a forma de um falar crioulo. (…) É claro, entretanto, que não se dariam mudanças fonológicas e gramaticais profundas sem correspondência com as próprias tendências estruturais da língua portuguesa”: Câmara Jr. (1963: 75, 77).

Como se vê, Câmara Jr. gradua o impacto das línguas indígenas e africanas sobre o PB e, embora admita a existência de um crioulo africano, em nenhum momento afasta a hipótese da mudança natural, ou hipótese da deriva.

Joseph Naro (1981, 1991) sustenta que há dois caminhos para a mudança sintática: ou ela parte de uma inovação surgida nos contextos menos salientes, no sentido de menos perceptíveis, e se irradia para os mais salientes – e aqui teríamos a mudança natural – ou, ao contrário, ela tem início em contextos mais salientes, atingindo os menos salientes – caso da mudança “consciente”, ou mudança “por imitação” -. A saliência, portanto, governaria a difusão da mudança. Sendo ela um dado da estrutura lingüística, fica excluída a influência de fatores externos. A perda da concordância no Português popular Brasileiro é um caso de mudança natural, tendo surgido em formas do tipo come – comem, irradiando-se para casos como é – são. A recuperação da concordância nestes casos de saliência maior explica-se pela descrioulização, limitando-se às classes escolarizadas. Contra a hipótese crioulista, Naro agrega, também, que a pré-existência da Língua Geral inibiu o desenvolvimento do crioulo, que aliás nunca foi documentado suficientemente. Dentro dessa linha de raciocínio, comunidades negras como a do Cafundó são falantes do PPB, que elas teriam praticado juntamente com um crioulo africano, caso este tenha existido. Mas, como objeta Mussa (1991: 49), seria necessário provar que os escravos falavam a Língua Geral.

Com base em evidências sintáticas, Moraes de Castilho (2001) especifica a variedade quatrocentista como aquela que mais contribuições teria dado ao PB. Argumentando que a base do PB não pode ser o PE seiscentista – que ainda não existia, quando teve início o povoamento do território -, ela mostra que várias características sintáticas que apontariam para a emergência de uma gramática do PB são amplamente documentáveis no séc. XV. Construções de tópico (como em “O menino, ele acabou de chegar”), duplicação de clíticos de que resultariam alterações ndo quadro pronominal, (como em “eu não te falei pra você?”), possessivos duplicados (como em “leve o seu livro dele”, que explicam a utilização de dele como possessivo da terceira pessoa, especializando-se “seu” como possessivo da segunda pessoa) e outros fatos sintáticos demonstram uma vez mais que a pergunta não é por que o PB ficou como ficou, e sim por que o PE tomou um rumo inesperado, separando-se no PB.

Tem-se hipotetizado que o conservadorismo do PB tem seus baluartes fincados nos falares rurais. Se isso for verdadeiro, a rápida urbanização do Brasil contemporâneo poderá cortar o passo a essa tendência, desatando o vetor do inovadorismo.

[Trecho adaptado do artigo: A hora e a vez do português brasileiro]

*Ataliba de Castilho é graduado em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo (1959), doutorado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1966), livre-docência em Filologia e Linguística Portuguesa pela Universidade de São Paulo (1992). Coordenador do Projeto de Gramática do Português Faladso, desde 1988. Atualmente é professor titular aposentado da Universidade de São Paulo e professor colaborador voluntário da Universidade Estadual de Campinas.

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Leia também:

O Idioma Brasileiro deriva de um crioulo?


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Uma resposta

  1. O texto explica e esclarece muitas coisas sobre o idioma brasileiro. Parabéns pelo blog e que continue a informar e a divulgar como é linda e independente a língua do Brasil.

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