O Idioma Brasileiro deriva de um crioulo?

Ataliba T. de Castilho

A direção aqui examinada se fundamenta numa percepção social da língua: a língua é o que nós somos. Ora, a nação brasileira é bastante mestiça, e isso talvez explicasse nossas diferenças em relação a Portugal.

Para entender bem as coisas, os lingüistas que acreditam nesta direção estudaram os processos de contatos lingüísticos dos portugueses com os índios e com os negros. Eles descobriram que há duas fases desses contatos: a fase pidgin* e a fase do crioulo*. Quando falantes de línguas diferentes se encontram, movidos por interesses apenas comerciais, eles desenvolvem espontaneamente uma língua de emergência, bastante rudimentar, denominada pidgin. A própria palavra pidgin já resulta desse interesse econômico, pois é uma alteração do Inglês business, “negócio”.

Caso os contatos comerciais se consolidem, o pidgnin muda de figura, torna-se mais complexo, mais apto a melhorar a comunicação, e aí evolui para um crioulo. São chamados crioulos as adaptações de uma língua européia por falantes de outras línguas, em geral africanas e asiáticas, com as quais os europeus entraram em contato por interesse mercantil.

Uma das diferenças entre crioulo e pidgin, é que uma pessoa pode aprender o crioulo na infância, por ter nascido numa comunidade de fala crioula. Quer dizer que o crioulo é uma língua “natural”, no sentido de que uma pessoa ao nascer aprende essa língua, como qualquer outra. O crioulo é portanto uma língua nativa, o pidgin, não.

Finalmente, é preciso saber que um crioulo pode “descrioulizar-se”, identificando-se progressivamente com a língua européia que lhe deu origem. Isso parece estar acontecendo em Cabo Verde.

Adolfo Coelho (1880: 43), num texto pioneiro sobre a crioulística de base portuguesa, afirma que “diversas particularidades características dos dialetos crioulos repetem-se no Brasil” lançando pela primeira vez a teoria da base crioula do PB. João Ribeiro, num texto de 1889, reforçou a hipótese crioulista. Segundo esse autor, há uma sorte de “bilingüismo interno” na comunidade brasileira, que pratica a língua portuguesa quando escreve, e uma variedade dialetal, a que chamou “crioulo”, quando fala: apud Pinto (Org. 1978).

Também Serafim da Silva Neto (1951) acreditava que uma base crioula explicaria as diferenças entre o PB e o PE, que começaram a acentuar-se a partir do séc. XVII. Segundo ele, essa base introduziu inovações no PB ao passo que, num movimento inverso, os falares rurais manifestaram uma tendência conservadora. Se essa hipótese estiver certa, a incontrastável importância dos falares urbanos no Brasil contemporâneo neutralizará a tendência conservadora, acelerando seu afastamento em relação ao PE.

À hipótese crioulista, Chaves de Melo (1946) tinha agregado uma explicação ainda não comprovada: a de que a notável uniformidade do PB se deve à difusão dos falares crioulos gerados na costa, e levados ao interior pelas bandeiras paulistas. Já Révah (1963) acha muito difícil que crioulos constituídos a partir de contatos distintos (portugueses – indígenas, portugueses – africanos) pudessem ter-se amalgamado, dando surgimento a uma variedade
lingüística uniforme como o PB.

Finalmente, Tarallo (1986) argumenta que a hipótese crioula não deveria “permanecer em nossa agenda”, pois o PB em seu processo de mudança não se aproxima do PE. Se tivéssemos tido um crioulo no Brasil, a europeização do país ocorrida no sec. XIX teria desencadeado um processo de descrioulização, e hoje estaríamos falando como os portugueses – o que vem acontecendo em algumas ex-colônias africanas.

Gregory Guy voltou a defender a base crioula do PB, a partir de 1981, sustentando que nossa língua tem uma base africana. Em seu trabalho, ele exclui a possibilidade de um crioulo indígena, visto que os nativos brasileiros não desenvolveram com os portugueses o tipo de relacionamento social e de situações que costumam levar à crioulização. Ele estabelece um plano cuidadoso para examinar a hipótese crioulística, o qual se desdobra em duas ordens de discussão: a busca de evidências lingüísticas, e a história social da crioulização do Português.

Sendo o crioulo uma língua de contato, ela vai guardar as marcas típicas de aquisição de uma segunda língua: regularização da flexão, a predominância dos morfemas-raízes, a redução da complexidade derivacional. Ele alerta que é necessário descartar aqui as mudanças espontâneas, de caráter universal, fixando-se naquelas específicas do processo de crioulização. Assim, traços fonológicos como a perda do –S e a desnasalação de vogais e ditongos finais, são comuns à história do Português e à de outras línguas românicas, e portanto não são atribuíveis a uma base crioula. Já o mesmo não ocorre com traços morfológicos e sintáticos como a concordância nominal e verbal, particularmente a marcação do plural no primeiro termo da expressão (como em as criança) e a preservação da concordância verbal unicamente nos casos de saliência morfológica (como em os menino são alto, em comparação com os menino fala, em que a ausência de concordância se deve à proximidade entre as formas fala e falam) não tem precedentes na história do Português, nem na das línguas românicas.

Segundo Guy, esse fenômeno fornece evidências indiretas à hipótese crioulista, pois num primeiro momento as regras de concordância foram apagadas (perda da concordância nominal e verbal, quando o sujeito é posposto) e num segundo momento, de descrioulização, recuperou-se a regra, sob certas circunstâncias (pluralização do SN dependente da ordem de seus constituintes, concordância verbo-sujeito dependente da saliência morfológica do verbo). Ora, as soluções encontradas pelo PB são documentadas em outras variedades crioulas tanto do Português quanto do Espanhol. Além disso, nas línguas Bantu, Ioruba e Ibo a marcação do plural se faz mediante prefixos ou clíticos, sempre localizados no começo da expressão. Finalmente, ele agrega outras evidências lingüísticas, merecedoras de uma análise mais acurada: a contribuição lexical dos africanos, o desuso em que caíram largas partes do paradigma verbal, o uso de se como partícula reflexiva não declinada (em nós se conhecemo aqui, por exemplo).

Do ponto de vista da organização social brasileira, a questão crucial é, segundo Guy, “como o Português poderia ter evitado a crioulização”? Até 1850, o país recebeu 3.600.000 escravos, 38% de todo o tráfico negreiro, nove vezes mais que os africanos levados para os Estados Unidos. Os brasileiros brancos constituíam um grupo minoritário. Portanto, todas as condições se reuniram aqui para a formação de crioulos.

Então por que teria ocorrido uma rápida descrioulização do PB? Por causa da maciça europeização do país, que ocorreria sobretudo após o séc. XIX, fato não ocorrido no Haiti e na Jamaica, em que a população negra ainda é de 90% hoje em dia. Tivemos, assim, um quadro de crioulização atípica, que conduziu o PB a uma situação complexa em seu desenvolvimento lingüístico, nem tipicamente crioulo, nem tipicamente não-crioulo.

Admitindo-sse uma origem quase-crioula do português popular brasileiro, pode-se chegar a uma explicação unificada para as descrições dos dialetos rurais crioulizados, que testemunham ainda hoje um estágio altamente crioulizado da variedade popular, anteriormente bastante espalhada pelo território. Em suma, o Português Popular Brasileiro seria um vestígio da fase crioula.

Nem todo mundo concorda com Gregory Guy. Fernando Tarallo, por exemplo, argumenta que a descrioulização suposta por Guy nos teria levado de volta ao PE, o que estudos recentes não comprovam. Para isso,
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“o PB teria literalmente que se virar pelo avesso e de ponta-cabeça. Sujeitos teriam que começar a ser nulos outra vez (…), enquanto objetos teriam que começar a receber pronomes clíticos outra vez. No caso dos sujeitos, a gramática do PB teria que deixar sua configuração sintática e começar a ser mais orientada para o discurso; com respeito aos objetos, a variável discursiva teria que ser substituída por uma orientação mais sintática na sua derivação”.

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Se é verdade que a língua escrita nos aproxima de Portugal, a língua falada aponta para outros rumos.

Mas os estudos crioulistas retomaram sua força na década dos 90. Hildo Honório do Couto funda a revista Papia, considerando que “os crioulos de base ibérica (…) permanecem quase inexplorados”. Alan Baxter e Dante Lucchesi redifiniram o crioulo do ponto de vista da história social como “uma língua que nasce em circunstâncias sócio-lingüísticas especiais que conduzem à aquisição de uma primeira língua, com base em um modelo defectivo de segunda língua” (p. Page 40 69). Do ponto de vista de sua estrutura, eles mostraram que “a partir da década de 60, os lingüistas começaram a insistir no fato de as línguas crioulas apresentarem fortes semelhanças estruturais, a despeito de quê línguas estivessem envolvidas em sua formação”(p. 70). Eles mencionam a definição atual de crioulo:
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“um processo de transmissão irregular de L2 para L1 em que a L2 foi alterada devido a problemas de acesso à língua alvo (isto é, a língua do grupo dominante) e, possivelmente, à influência das línguas maternas dos falantes desta L2. Nessas circunstâncias, no desenvolvimento, na aquisição / criação da nova L1 (a língua crioula em potencial), acontecem inovações orientadas por universais e pelas outras línguas maternas presentes. As inovações preenchem as lacunas ou opacidades causadas pela diluição do modelo para aquisição. Tal processo é variável.

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Esses autores aplicam tal quadro teórico ao estudo do crioulo de Helvécia, Bahia.

Como você pôde ver, a interpretação crioula do Português Brasileiro é uma forte tentação, uma idéia que vai e que vem, mas que aparentemente não nos larga.

Mas então, quando o Português Brasileiro começou a se afastar do Português Europeu?

Pesquisas feitas a partir dos anos 80, e reunidas no livro de Roberts-Kato (Orgs. 1993), localizam no século XIX o momento crucial desse afastamento, comprovado pelas alterações no quadro dos pronomes pessoais, a perda da inversão do sujeito, o preenchimento mais sistemático da função de sujeito, isto é, o desaparecimento do famoso “sujeito oculto”, não preenchimento do objeto direto, isto é, o surgimento do “objeto direto oculto”, entre outras características do PB.

O séc. XIX, com seu forte branqueamento da população brasileira, ainda vai dar muito o que falar. Teria a europeização brusca do país e suas novas circunstâncias econômicas afetado nossa língua? Essa interpretação é parcialmente negada pelos que acham que debaixo de nossos coqueiros continuamos mesmo é a falar o Português Arcaico, que desembarcou das caravelas no séc. XVI, juntamente com Pero Vaz Caminha e sua carta, a mania da saudade, e uma vontade louca de sair catando pepitas de ouro por aí.
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O Idioma Brasileiro é uma continuação do Português Arcaico?

Os lingüistas que aceitam esta explicação acreditam que as línguas naturais mudam continuadamente com o tempo, obedecendo porém a linhas de força desenhadas por sua própria estrutura. Descrever a estrutura é identificar essas linhas de força, tecnicamente conhecidas como derivas. Por outras palavras, descreva primeiro a sua língua, e aí você poderá entender como ela muda ao longo dos séculos.

Parece, então, que o Português Brasileiro (PB) resulta de uma mudança natural, explicada por tendências evolutivas que tinham começado já na Península Ibérica. Segundo essa hipótese, poderíamos dizer que o Português Brasileiro é uma continuação do Português Arcaico. Sobre essa base lingüística se aplicariam ajustes, dando continuidade a uma deriva própria ao Português Europeu (PE). Nesse sentido, a pergunta a fazer será não “por que o PB tomou rumos diversos em relação ao PE”, mas sim “por que a modalidade européia não mudou na mesma direção”, tendo optado por outros rumos.

Joaquim Mattoso Câmara Jr. (1957) foi o primeiro a defender a hipótese da deriva ou mudança natural, quando procurou uma razão estrutural, interna, para explicar o uso brasileiro do ele acusativo, na expressão “eu vi ele”. Ele argumenta que a próclise de o ao verbo cria um vocábulo fonético em que o pronome, aí tratado como uma vogal átona, cai, exigindo-se a escolha de outro pronome para o preenchimento da função de objeto direto. Quer dizer, se disséssemos “eu o vi”, as duas últimas palavras soariam como “uvi”, em que “u” será tratado como uma vogal átona qualquer, candidada a desaparecer. É o que fazemos com a primeira vogal de “imagina!”, que dizemos habitualamente “magina!” O problema é que, se em “magina” o “i” inicial não faz falta, em “uvi” a primeira vogal é o objeto direto de “ver”, e faz uma falta danada! Para ajeitar as coisas, passou-se a usar o pronome “ele”, e com isso temos hoje em dia “eu vi ele”. Ele retornaria ao tema, excluindo a possibilidade de um crioulo de base indígena, porque as línguas indígenas “foram substituídas no intercurso dos índios com os brancos por uma língua única – o chamado Tupi”, restringindo-se aos empréstimos léxicos sua contribuição ao PB. Quanto às línguas africanas,

“os escravos negros adaptaram-se ao português sob a forma de um falar crioulo. (…) É claro, entretanto, que não se dariam mudanças fonológicas e gramaticais profundas sem correspondência com as próprias tendências estruturais da língua portuguesa”: Câmara Jr. (1963: 75, 77).

Como se vê, Câmara Jr. gradua o impacto das línguas indígenas e africanas sobre o PB e, embora admita a existência de um crioulo africano, em nenhum momento afasta a hipótese da mudança natural, ou hipótese da deriva.

Joseph Naro (1981, 1991) sustenta que há dois caminhos para a mudança sintática: ou ela parte de uma inovação surgida nos contextos menos salientes, no sentido de menos perceptíveis, e se irradia para os mais salientes – e aqui teríamos a mudança natural – ou, ao contrário, ela tem início em contextos mais salientes, atingindo os menos salientes – caso da mudança “consciente”, ou mudança “por imitação” -. A saliência, portanto, governaria a difusão da mudança. Sendo ela um dado da estrutura lingüística, fica excluída a influência de fatores externos. A perda da concordância no Português popular Brasileiro é um caso de mudança natural, tendo surgido em formas do tipo come – comem, irradiando-se para casos como é – são. A recuperação da concordância nestes casos de saliência maior explica-se pela descrioulização, limitando-se às classes escolarizadas. Contra a hipótese crioulista, Naro agrega, também, que a pré-existência da Língua Geral inibiu o desenvolvimento do crioulo, que aliás nunca foi documentado suficientemente. Dentro dessa linha de raciocínio, comunidades negras como a do Cafundó são falantes do PPB, que elas teriam praticado juntamente com um crioulo africano, caso este tenha existido. Mas, como objeta Mussa (1991: 49), seria necessário provar que os escravos falavam a Língua Geral.

Com base em evidências sintáticas, Moraes de Castilho (2001) especifica a variedade quatrocentista como aquela que mais contribuições teria dado ao PB. Argumentando que a base do PB não pode ser o PE seiscentista – que ainda não existia, quando teve início o povoamento do território -, ela mostra que várias características sintáticas que apontariam para a emergência de uma gramática do PB são amplamente documentáveis no séc. XV. Construções de tópico (como em “O menino, ele acabou de chegar”), duplicação de clíticos de que resultariam alterações ndo quadro pronominal, (como em “eu não te falei pra você?”), possessivos duplicados (como em “leve o seu livro dele”, que explicam a utilização de dele como possessivo da terceira pessoa, especializando-se “seu” como possessivo da segunda pessoa) e outros fatos sintáticos demonstram uma vez mais que a pergunta não é por que o PB ficou como ficou, e sim por que o PE tomou um rumo inesperado, separando-se no PB.

Tem-se hipotetizado que o conservadorismo do PB tem seus baluartes fincados nos falares rurais. Se isso for verdadeiro, a rápida urbanização do Brasil contemporâneo poderá cortar o passo a essa tendência, desatando o vetor do inovadorismo.

[Trecho adaptado do artigo: A hora e a vez do português brasileiro]

*Ataliba de Castilho é graduado em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo (1959), doutorado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1966), livre-docência em Filologia e Linguística Portuguesa pela Universidade de São Paulo (1992). Coordenador do Projeto de Gramática do Português Faladso, desde 1988. Atualmente é professor titular aposentado da Universidade de São Paulo e professor colaborador voluntário da Universidade Estadual de Campinas.

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2 Respostas

  1. Eu não sabia disso:

    “o crioulo pode “descrioulizar-se”, identificando-se progressivamente com a língua européia que lhe deu origem.”

    “Tarallo argumenta que a hipótese crioula não deveria “permanecer em nossa agenda”, pois o PB em seu processo de mudança não se aproxima do PE. Se tivéssemos tido um crioulo no Brasil, a europeização do país ocorrida no sec. XIX teria desencadeado um processo de descrioulização, e hoje estaríamos falando como os portugueses – o que vem acontecendo em algumas ex-colônias africanas.”

    “Fernando Tarallo, por exemplo, argumenta que a descrioulização suposta por Guy nos teria levado de volta ao PE, o que estudos recentes não comprovam. Para isso,

    ‘o PB teria literalmente que se virar pelo avesso e de ponta-cabeça. Sujeitos teriam que começar a ser nulos outra vez (…), enquanto objetos teriam que começar a receber pronomes clíticos outra vez. No caso dos sujeitos, a gramática do PB teria que deixar sua configuração sintática e começar a ser mais orientada para o discurso; com respeito aos objetos, a variável discursiva teria que ser substituída por uma orientação mais sintática na sua derivação’.”

    Característica muito interessante esta do crioulo de que, quando se descriouliza, ela se aproxima da língua que lhe deu origem.

  2. O português brasileiro e de deriva da língua, pois é composto por origens indígenas, a de Portugal e também pelos nossos próprios dialetos, não pelo processo de crioulização, se não nos falaríamos iguaizinhos a aos portugueses de Portugal.

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