O Brasil flerta com a vizinhança

As possibilidades de adoção como segundo idioma oficial no Mercosul e de obrigatoriedade nas escolas da América do Sul dão fôlego à língua brasileira no continente

Adriana Natali para a Revista Língua

Aos poucos, na surdina, o português brasileiro seduz a vizinhança. Na América do Sul, é candidato a segundo idioma de países de língua hispânica e virou referência nas relações comerciais do Mercosul. Na rabeira da tendência, expande-se o ensino do idioma na região.

Entre parceiros do Mercosul, é concreta a possibilidade de virar segunda língua oficial. O dado mais recente vem da Venezuela. Este ano, o governo de Hugo Chávez decidiu incluir a língua portuguesa, em 2009, no currículo oficial escolar, como disciplina opcional. A idéia é garantir a adoção da língua portuguesa como primeiro idioma estrangeiro no país. Lá, o português será incorporado ao currículo do sistema educacional bolivariano, em escolas primárias e secundárias. Outros países já colocaram em prática iniciativas similares (ver gráfico na página 32).

Lilian Pinho, da Divisão de Promoção da Língua Portuguesa do Ministério das Relações Exteriores, explica que os ministros da Educação do Mercosul adotaram programa de integração que prevê o ensino obrigatório do português como língua segunda nos países hispanófonos e do espanhol como segunda no Brasil.

Uruguai

No Uruguai, o português brasileiro é ensinado nas redes secundária e primária, e está em processo de implantação a obrigatoriedade de ensino para os três últimos anos do ensino fundamental e os três primeiros anos do secundário. A variante brasileira do português já funciona, na prática, como a segunda língua da população uruguaia, por conta dos acordos do Mercosul. E, no norte do país, já é possível falar de uma sociedade bilíngüe espanhol-português.

De acordo com Ademar Seabra da Cruz Junior, chefe do Setor de Cooperação Acadêmica, Científica e Tecnológica da embaixada brasileira no Uruguai, o inglês pode nos próximos anos ser desbancado como a língua estrangeira mais difundida no país, embora hoje a relação quantitativa entre professores de português e de inglês no país seja favorável à língua de Bush.

– Há indícios de que essa correlação deve mudar no médio prazo, por causa da influência crescente do português no interior do país, sobretudo na faixa de fronteira, e o aumento exponencial dos investimentos brasileiros no Uruguai, que ultrapassaram inclusive os norte-americanos, no ano passado – explica Cruz Jr.

O português brasileiro está em mais de cem escolas do Uruguai, a maioria públicas, que contam com centros de línguas estrangeiras, mantidos pela Administración Nacional de Educación Pública (Anep). Embora o ensino do português seja optativo, trata-se do idioma estrangeiro que mais tem interessado aos jovens da rede pública (ao lado do inglês), ao terem de incluir uma outra língua obrigatória em seu currículo. Dos 9.419 alunos que se inscreveram para aprendizado optativo de línguas estrangeiras em 2007, mais de 4 mil escolheram o nosso idioma.

Há uma tendência da Anep de tornar o ensino do português efetivamente obrigatório para as últimas séries do ensino primário e as primeiras do secundário, embora esse projeto enfrente dificuldades, devido à escassez de professores.

Argentina

Já na Argentina, tramita no Congresso um projeto de lei que torna obrigatória a oferta de português nas escolas secundárias e, nas províncias limítrofes ao Brasil, também em escolas primárias, por um período de oito anos. Segundo Lilian Pinho, o projeto foi aprovado na Cámara de Diputados de la Nación Argentina em novembro e se insere no marco do Convênio de Cooperação Educativa bilateral, de 1997.

Apesar de ainda estar em discussão no Congresso, a Argentina já firmou acordo com o Brasil para tornar o português brasileiro um idioma oficial em seu país. Em novembro de 2005 foi assinado um protocolo entre os ministérios da Educação dos dois países para promoção do ensino do espanhol e do português como segundas línguas, o que prevê a formação de professores, por bolsas de estudo e educação a distância. O documento prevê convênios interinstitucionais (universidades e editoras) para produção de didáticos. O projeto, de abrangência nacional, por ora, está só no papel. Mas há regiões que já colocaram o ensino em prática. Em Buenos Aires, desde 2001, as escolas bilíngües são obrigadas a oferecer português, não só inglês. Na fronteira argentina, o português já é ensinado.

Argentina e Brasil lançaram em 2004 o projeto “Modelo de ensino comum em escolas de zona de fronteira”, depois incorporado à agenda do Mercosul.

Paraguai

A Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) e a Cooperação Andina de Fomento (CAF) estimulam a expansão das escolas de fronteira. E o Itamaraty e o Ministério da Educação paraguaio darão apoio (qual, não foi dito) à formação de professores de português que atendam às necessidades do ensino médio no país.

O português brasileiro é ensinado nas escolas paraguaias de educação média (de 15 a 17 anos), de adultos (2º grau de alunos com mais de 20 anos) e em universidades. O Ministério da Educação local oferece às instituições de ensino a possibilidade de optar entre cinco línguas estrangeiras: alemão, francês, inglês, italiano e português. Segundo o MEC paraguaio, 76 instituições oferecem o português como língua estrangeira na educação média.

– Tendo por base a população estudantil paraguaia, em alguns casos o português brasileiro é a terceira língua que o aluno adquire na sua formação – diz José Armando Zema de Resende, primeiro-secretário da Embaixada do Brasil em Assunção.

O Ministério da Educação paraguaio estuda a criação, com apoio brasileiro, de um curso de “profesorado en lengua portuguesa”, para educadores do ensino médio, além da licenciatura em português na Universidade Nacional de Assunção.

– A presença de uma grande comunidade brasileira no Paraguai, bem como a intensidade das relações comerciais entre o dois países, são importantes indicadores do interesse que desperta a língua portuguesa neste país – afirma Resende.

Em fevereiro foi inaugurado o Leitorado de Língua e Cultura Brasileira junto à Universidade Católica de Assunção, com o apoio da Capes e do MRE, mediante a seleção de um professor brasileiro incumbido de ensinar o português e divulgar a cultura brasileira no Paraguai.

Bolívia

Os bolivianos adotam o português brasileiro como segunda língua nos Departamentos de Santa Cruz de La Sierra e Pando, em razão da proximidade geográfica. Na região do altiplano, as línguas aymar e quéchua são os segundos idiomas. Nas escolas, o português não é ensinado.

O Brasil já assinou acordos com o governo boliviano para fomentar o ensino da língua portuguesa no país e a embaixada do Brasil apóia projetos nesse sentido. Segundo Patrícia Cortes, membro do setor cultural da Embaixada do Brasil na Bolívia, em La Paz, o Centro de Estudos Brasileiros de lá é muito ativo e recebe cerca de 200 alunos por ano.

Em fevereiro do ano passado foi assinado, entre os governos, memorando de entendimento sobre cooperação educacional entre os dois países, que prevê intercâmbio e aperfeiçoamento de professores, estudantes e gestores educacionais, visitas às escolas brasileiras e bolivianas, seminários, eventos, troca de informações sobre sistemas e políticas educacionais, elaboração de projetos de cooperação técnica e apoio de organismos internacionais.

Para Patrícia Cortes, a importância da língua portuguesa no país é grande, dependendo da região geográfica. Porém, na questão comercial, ela se torna relativamente pequena, já que o comércio bilateral é mínimo e basicamente restrito ao gás, explorado pela Petrobras.

Chile

No Chile, o português não está no ensino fundamental e médio. No entanto, ensina-se o idioma em cursos livres e cursos técnicos, principalmente nas escolas de turismo. De acordo com Elisa Lopes, do Centro de Estudos Brasileiros (CEB), órgão vinculado à embaixada brasileira em Santiago, a instituição conta com 180 alunos matriculados até abril deste ano.

– A rede de CEBs constitui um dos principais instrumentos de execução da política cultural brasileira no exterior. No âmbito acadêmico, a língua portuguesa se encontra na Universidade de Santiago do Chile, único curso existente no país. Foi igualmente inaugurado, no ano passado, um leitorado de língua portuguesa, literatura e cultura brasileira, em nível de graduação, na Pontifícia Universidade Católica do Chile – afirma Elisa Lopes.

No contexto das intensas relações econômicas, políticas e culturais entre o Chile e o Brasil, está implícita a necessidade de uma integração lingüística.

– Com o incremento dos acordos e contatos entre ambos os governos, aumenta a conscientização de que falar portunhol já não é mais suficiente – explica Elisa.

Considerando o incremento das relações comerciais, priorizar a promoção da língua portuguesa tem se tornado fundamental não somente para atender às necessidades de comunicação, mas também para alcançar melhores resultados nos negócios.

Colômbia

Na Colômbia, entrou em vigor, em 2005, um memorando de entendimento dirigido ao ensino de português e de espanhol nas escolas públicas da região fronteiriça de Letícia e Tabatinga.

– A partir do acordo, decidiu-se que o ensino de espanhol em Tabatinga começaria a partir do primário, uma vez que as aulas de espanhol já estavam sendo ministradas nessa cidade há alguns anos. Em relação ao ensino do português em Letícia, o Instituto Cultural Brasil-Colômbia [Ibraco] comprometeu-se a formar aproximadamente 15 professores para dar aulas na Escola Normal de Letícia. Esse projeto se iniciou a partir de 2006, com cerca de 200 alunos – explica Beatriz Miranda Cortes, subdiretora acadêmica da Colômbia.

A formação dos professores é de quatro anos. Segundo Beatriz, com o fortalecimento das relações comerciais entre os dois países nos últimos anos, os colombianos estão mais conscientes de que, para negociar com o Brasil, é fundamental falar português. Por outro lado, os estudantes colombianos estão cada vez mais interessados em estudar no Brasil. Nos últimos dois anos, aproximadamente 100 colombianos foram estudar no Brasil.

Comunicação continental
O bilingüismo no Cone Sul contribuiria para a eficiência de intercâmbios, não só comercial, mas científico e cultural.

– Com a globalização, os países monolíngües tendem a perder oportunidades de relações políticas e econômicas – afirma o professor de Lingüística e de Língua Portuguesa da Universidade São Judas Tadeu, Jairo Postal.

Para Fernanda Allegro, mestre em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e leitora (professora) do Ministério das Relações Exteriores em Buenos Aires, com a língua, transmitem-se a cultura, os costumes, a arte, as tradições, a literatura e a tecnologia do país.

– Há, na atualidade, um aumento no número de estudantes nos cursos de português como língua estrangeira em países como a Argentina e o Uruguai.

Como no mundo globalizado há tendência à supranacionalidade, o ensino de língua portuguesa constitui um instrumento de política externa. Com a ampliação do comércio exterior brasileiro, tendência crescente dos últimos anos, o potencial de influência da variante brasileira do idioma só tende a crescer. [texto com adaptações]

Leia a matéria original:
http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11539

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