O problema do Idioma Brasileiro padrão

Ataliba T. de Castilho*

Você já notou que há um grande interesse em se saber qual é o melhor ‘Português’ Brasileiro falado e escrito no Brasil. Muitas perguntas são feitas. Algumas respostas têm sido estas:
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(1) “O melhor ‘Português’ Brasileiro é o de São Luís do Maranhão, por causa da influência francesa”. Esquisito, não? É o Francês que especifica que ‘Português’ Brasileiro é o melhor? Já se comprovou que as classes cultas brasileiras falam como em São Luís?
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(2) “O melhor ‘Português’ Brasileiro é o dos escritores clássicos, como o de Camões, Pe. Vieira, o Pe. Bernardes, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, e aqui no Brasil, Machado de Assis, Euclides da Cunha. Para ser bamba em Português Brasileiro você tem que ler todo dia esses autores”.

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Esta é outra esquisitice: lendo o ‘Português’ Brasileiro dos jornais e das revistas, ou mesmo dos autores contemporâneos, o que se vê aí é parecido com o modo de escrever dos clássicos? Por outro lado, se para escrever bem é preciso imitar os clássicos, e portanto a língua não muda, devendo ficar parada entre os séculos XVI e XIX? É claro que qualquer pessoa deve ler extensivamente os textos literários. Mas isso para a formação de um repertório cultural, e pelo prazer da leitura. Não para aprender gramática.

Por outro lado, é impossível comprovar que o padrão culto é aquele documentado na língua literária. Há um padrão da língua falada, que corresponde aos usos lingüísticos das pessoas cultas. Há um padrão da língua escrita, que corresponde aos usos lingüísticos dos jornais e revistas de grande circulação, os únicos textos que garantidamente estão ao alcance da população. Ambos os padrões apresentam as variações linguísticas comuns às sociedades complexas. Já a língua literária é outra coisa, pois assenta num projeto estético que impulsiona os autores a, justamente, distanciar-se da escrita do dia-a-dia, buscando um veio próprio, singular, diferenciado, não-padrão. É um desrespeito tratar os grandes escritores da língua como meros fornecedores de regras de bom Português Brasileiro, para uso das escolas. Como diríamos coloquialmente, os escritores estão em outra, para sorte de seus leitores.
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(3) “O melhor ‘Português’ Brasileiro é o do Rio de Janeiro, que foi capital da Colônia, do Reino Unido e do Império. Além do mais é um grande centro cultural, irradiador das novas modas e comportamentos”.
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Essa resposta valeu até os anos 50, num período em que o Rio de Janeiro era a maior cidade do Brasil, e todo mundo ouvia a Rádio Nacional. Em alguns congressos, sua variedade linguística foi considerada por essa época o Português padrão do Brasil, tendo sido utilizada na preparação de livros didáticos por professores do Rio de Janeiro, impressos por editoras localizadas em sua maioria na mesma cidade. Mas a verdade é que nunca se comprovou que as classes cultas brasileiras falavam como os cariocas, nem que passassem a falar como tal.
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(4) “O melhor ‘Português’ Brasileiro é o de São Paulo, por que é uma cidade rica, e a maior cidade de língua portuguesa no mundo”.

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Bom, aqui estaríamos trocando seis por meia dúzia, pois manteríamos o raciocínio de que o ‘Português’ Brasileiro padrão está localizado em alguma cidade, em algum lugar por aí. Também estaríamos aceitando que o dinheiro muda o comportamento linguístico das pessoas.

Por outro lado, a pesquisa lingüística levada a efeito por grandes projetos coletivos dos anos 70 confirmaram a hipótese de Nelson Rossi sobre o policentrismo da sociedade brasileira, nucleada – após a intensa urbanização do país – no Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul: Rossi (1968). Hoje se sabe que surgiram aí padrões marcados por escolhas fonéticas e léxicas que se não complicam a intercomunicação, pelo menos não escondem os diferentes modos de falar dos brasileiros cultos, objeto de consideração nas escolas.

Impossível, portanto, escolher uma variedade regional e considerá-la o padrão do ‘Português’ Brasileiro. Que cada região descreva sua variedade culta e a recomende para uso em suas escolas, sem preconceitos calcados na velha história de que “a galinha do vizinho é mais gorda que a minha”.

[Trecho adaptado do artigo: A hora e a vez do português brasileiro]

*Ataliba de Castilho é graduado em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo (1959), doutorado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1966), livre-docência em Filologia e Linguística Portuguesa pela Universidade de São Paulo (1992). Coordenador do Projeto de Gramática do Português Faladso, desde 1988. Atualmente é professor titular aposentado da Universidade de São Paulo e professor colaborador voluntário da Universidade Estadual de Campinas.

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2 Respostas

  1. Não há um “brasileiro” padrão no país e isso é ótimo.Talvez o que mais se aproxime disso seja a maneira como falam os jornalistas ‘nacionais’, que amenizam alguns pontos fortes dos sotaques e fazem com que a língua chegue aos ouvintes de todo o país de uma maneira “limpa” e uniforme, o que agrada a todos e não fere os ouvidos mais sensíveis.

  2. Eu já sabia que não havia uma variedade regional padrão no Brasil, alguns dizem que o ‘padrão globo’ seria uma mistura de paulistano com carioca mas isso não tem lógica porque as principais características destes dois sotaques são:

    carioca:

    ‘S’ chiado = maish
    ‘a’ no meio das palavras = alôa, cineama
    ‘o’com som de u = tumate, culégio

    Paulistano:

    ‘i’ no meio das palavras = choveindo, enteindo
    ‘ti’e ‘di’ sem o som tchi e dji= ‘ o padrão globo’ diz tchia, djia
    ‘r’ italiano = rato soa como caREca

    Ou seja, tirar estas características é descaracterizar totalmente estes sotaques o que joga por terra essa teoria da ‘mistura’.

    Acredito que o ‘padrão globo’ seja toda a língua brasileira sem as características regionais.

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