Nos EUA, uma nova geração de brasilianistas

Democracia e economia emergente mudam a antiga imagem da terra exótica, berço da bossa nova e do futebol

Marília Martins para O Globo

NOVA YORK. Uma nova geração de estudantes americanos está vendo o Brasil com outros olhos. Para eles, o Brasil está deixando de ser aquele país exótico, terra da bossa nova, do futebol, da Floresta Amazônica e de longa tradição autoritária. Esta nova geração encara o Brasil como o país que elegeu um presidente operário, tornou-se referência em biocombustíveis e tem uma economia emergente com regras estáveis para atrair investidores internacionais.

Há hoje cerca de dez mil jovens aprendendo português nas universidades americanas, um aumento de quase 50% em relação a quatro anos atrás. No período, houve aumento de 20% no número de professores e pesquisadores sobre temas brasileiros nos EUA.

Na Universidade de Harvard, o interesse é tanto que a instituição criou um escritório em São Paulo para promover o intercâmbio de alunos e pesquisadores. Duas décadas de democracia brasileira estão atraindo uma nova geração de brasilianistas. São novos historiadores, economistas, cientistas políticos e até etnomusicólogos, interessados em aprender português e compreender as transformações da sociedade brasileira vivendo em regime democrático.

“O Brasil mudou”, diz historiador de Harvard

Segundo o historiador Kenneth Maxwell, do Centro de Estudos Brasileiros em Harvard, o crescente interesse pelo Brasil se deve à conjunção de dois fenômenos:

– De um lado, os alunos hoje têm uma visão muito mais multicultural. E de outro, o Brasil mudou. Há uma nova geração de pesquisadores que, por conta dos anos de democracia, aprendeu a observar a sociedade civil brasileira não mais a partir dos modos de resistência à ditadura, e sim observando as formas de articulação do poder na sociedade civil. As instituições democráticas brasileiras ganharam força e o país tem outra imagem no exterior em consequência disto – avalia Maxwell, autor de estudos clássicos como “A devassa da devassa” (sobre a Inconfidência Mineira), “Conflicts and conspiracies” (sobre as relações entre Brasil e Portugal no século XVIII) e “O império derrotado” (sobre revolução e democracia em Portugal na década de 1970).

Maxwell acha que a democracia transformou a sociedade brasileira num atrativo poderoso para os americanos e, somado ao processo de internacionalização pelo qual passa a universidade americana, gerou uma demanda maior por intercâmbio.

– O Brasil tem hoje uma sociedade democrática que oferece um caminho alternativo ao populismo na América Latina. Os EUA têm hoje um candidato multirracial a presidente, como Barack Obama, e uma sociedade mais atenta a temas multiculturais e a combinação das duas circunstâncias históricas produz este interesse pelo intercâmbio, que está levando turmas de 25 a 30 estudantes americanos para estudar no Brasil e vice-versa, só no programa de Harvard – diz.

“Pesquisas mais sofisticadas e menos românticas”

Maxwell, que rejeita o termo brasilianista, cita entre os exemplos desta nova geração de pesquisadores de temas brasileiros nomes como os historiadores Zephyr Frank, da Universidade de Stanford, Bryan McCann, de Georgetown, Brodwyn Michelle Fisher, da Northwestern University, James Green, da Brown University, além de Christopher Dunn, da Tulane University, organizador da última reunião da Brazilian Studies Association, que teve nada menos do que 700 pesquisadores.

– Os estudos hoje são mais atentos às formas de organização social no Brasil. As pesquisas estão mais sofisticadas e menos românticas. Antes havia ênfase enorme na dualidade entre favelas versus Zona Sul. Hoje, já se sabe que o país é bem maior do que isto. Passei dois anos em Mato Grosso, estudando organizações sociais e formas de produção rural no Brasil e percebi o quanto o país é diversificado e complexo – diz o historiador Zephyr Frank, de Stanford, autor de “From silver to cocaine: Latin American commodity chains and the building or world economy” e de estudos importantes sobre a evolução da cidade do Rio no século XIX.

Frank acha que os novos brasilianistas dão mais atenção às diferenças regionais, privilegiam temas como imigração interna no Brasil e interessam-se por temas inexplorados, como história ambiental:

– Tenho um aluno que se interessou em pesquisar as origens históricas da poluição da Baía da Guanabara e quais as formas socialmente encontradas para combater a poluição. Um tema como este, de história ambiental, é novidade numa universidade americana. Hoje há pesquisas sobre biocombustíveis brasileiros, outra novidade – diz Frank, que intensificou a parceria de Stanford com universidades brasileiras, sobretudo a Unicamp.

País não se destaca mais pela falta de mobilidade social’, diz historiador

Crescimento econômico faz Brasil deixar de ser terra de desigualdades

O Globo

NOVA YORK. O historiador Bryan McCann, da Universidade de Georgetown, em Washington, acha que a imagem do Brasil como país de enormes desigualdades está mudando com os resultados do crescimento econômico:

– Ninguém acha que os problemas brasileiros acabaram, mas o desenvolvimento econômico permitiu que, pela primeira vez, a relação entre democracia e distribuição de renda aparecesse em primeiro plano. O país não se destaca mais pela falta de mobilidade social – diz McCann, que tem acordos de parceria com pesquisadores da Universidade Federal Fluminense e é autor de “The political evolution of Rio de Janeiro’s favelas” e está terminando um livro sobre o Brasil dos últimos 30 anos.

Na Universidade de Columbia, em Nova York, faculdades que antes não tinham tradição de intercâmbio cultural com o Brasil começam a ter surpresas. Foi o caso da Faculdade de Direito, que criou um novo centro para estudo legal de parcerias internacionais e que recebeu da Vale US$1,5 milhão para bolsas de estudos em 2008.

“Parceria em Columbia é uma novidade maravilhosa”

O centro vai dar bolsas de estudos para advogados interessados em estudar as regras internacionais de comércio.

– Esta parceria em Columbia é uma novidade maravilhosa para nós. Vamos interconectar esforços pelo desenvolvimento sustentável e trabalhar para a criação de expertise na solução de problemas econômicos, sociais e legais dos projetos de investimentos internacionais – afirma o economista Jeffrey Sachs.

O historiador Marcio Siwi ressalta que aumentou não só o interesse pela língua portuguesa como por outros aspectos da cultura brasileira, que vão além da música popular:

– Há um interesse maior nas artes plásticas brasileiras, sobretudo pela tendência construtivista. Acervos importantes de artistas brasileiros foram comprados por instituições americanas, como aconteceu com uma coleção de peças de Helio Oiticica, comprada pelo Museum of Fine Arts, de Houston. Outra prova desta tendência são as mostras recentes organizadas pelo MoMa, em Nova York, que pela primeira vez privilegiaram a arte construtivista e concretista brasileira – diz Siwi.

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