PORTUGUÊS BRASILEIRO: PLURALIDADE SINGULAR

Paulo Vítor Mattos Silva (UERJ)

Estudar o brasileiro é dar voz à língua falada e escrita aqui, neste país, chamado Brasil, noventa e duas vezes maior que Portugal, habitado por uma população quase dezessete vezes mais numerosa.
(Bagno: 2005, p. 10)

Atualmente, muitos estudos são feitos em defesa da autonomia da Língua Brasileira, visto que desde tempos idos esta já expressa certa tendência evolutiva distinta da apresentada por nossos colonizadores. Ao misturar-se aos diversos falares locais pelos quais exerceu sua influência, o português falado no Brasil recebe a contribuição de elementos de outra natureza, os quais são de exponencial relevância para a sua melhor compreensão.

Três fatores são essenciais para justificar a evolução deste processo: o indígena, o negro e o de falares americanos, sendo este último de menor relevância. O elemento indígena foi definitivo para a história da língua atualmente falada em nosso país e, se não fosse pela migração da corte lusitana e a intervenção pombalina, poderíamos ter sido o maior país a desenvolver, de forma homogênea, uma língua indígena. Isto se deve ao fato de que a língua indígena aqui falada não foi esquecida em detrimento de uma língua de maior prestígio;antes o contrário: houve uma grande preocupação, sobretudo por parte dos jesuítas, de se aprofundar no estudo deste falar.

Aliado ao profundo interesse dos jesuítas pela língua indígena, há ainda a questão dos cruzamentos entre europeus e índias, as quais acabaram incumbidas de transmitir à prole o ensino da língua. O ensino da língua portuguesa, portanto, restringia-se às escolas – muitas das quais, sobretudo as jesuíticas, também ensinavam a língua tupi, principalmente,aos filhos dos colonos.

O movimento de Entradas e Bandeiras, cujo propósito era a exploração do território ainda desconhecido, contribui em larga escala para esta manutenção da língua tupi e ainda assiste em sua propagação, uma vez que os bandeirantes sempre levavam consigo nativos para auxiliá-los em sua empresa rumo ao sertão brasileiro.

Com a obrigatoriedade do ensino da língua portuguesa aos índios e também com o crescente fluxo migratório do século XIX, grande maças indígenas deslocaram-se para regiões mais afastadas do ainda insipiente progresso litorâneo, onde remanescem até a atualidade. Diante disso, o ensino da língua portuguesa torna-se uma realidade inexorável; embora não tenha conseguido aniquilar algumas inserções vernáculas oriundas da língua tupi que, de tão perfeitas, geram ainda formas derivadas e fusões com outros vocábulos lusitanos.

O elemento negro, reitera-se, estabelece-se a partir da instituição do sistema escravocrata. Apresentava, dentre os falantes, dois grupos que mereciam destaque: o ioruba, o qual se irradiou, principalmente, na Bahia; e o banto, ao qual se atribui maior relevância, no que concerne à influência na língua, em razão do maior número de falantes. Ressalta-se, todavia, que o elemento negro não se mostrou presente em vários âmbitos do período colonial e nem em todas as regiões. Já os indícios trazidos por outros falares americanos, bem menores em importância, são oriundos de trocas, sobretudo comercias, entre navegadores estrangeiros e os colonos e fazem-se perceptíveis, meramente, no campo lexical.

Com contrastes tão latentes, provenientes de fontes tão diversas, o português falado no Brasil começa a trilhar certa independência em relação à modalidade praticada pelos falantes do além-mar. Não seria pertinente, pois, pensar no mesmo como outra língua? A indagação é válida, à proporção em que é polêmica, e já suscitou uma série de estudos fecundos que tentam dar conta desta questão. Os lingüistas condenam a idéia de se tratar a língua falada aqui no Brasil um dialeto, sobretudo, em virtude da abrangência da língua e de sua vasta tradição literária. Estes se dividem, então, entre aqueles que defendem a autonomia da língua e aqueles que ainda a vêem como língua Portuguesa, porém acrescida de algumas variações.

Dentre aqueles que defendem a autonomia da língua, evidencia-se a profícua atuação de Rosa Virgínia Mattos e Silva, em O Português são dois (2004), que nega a dependência lingüística em relação à metrópole colonizadora, mostrando a dualidade da língua, e critica o ferrenho (e talvez
anacrônico) ensino de uma língua que, há muito, já não representa a identidade de seus falantes.

De forma mais radical, Marcos Bagno (2005) vai além, supondo não só a existência de uma língua Brasileira independente, mas sim de vários Brasileiros distintos e aplicáveis à medida que se julga necessário pelo falante. Bagno argumenta ainda que ensinar o Português, em
detrimento do Brasileiro, “é querer provar que a língua boa, certa e bonita vive do outro lado do Atlântico, falada por habitantes de um paraíso lingüístico chamado Portugal”, ou seja, é se esquecer de que somos um povo de tradições difusas, mas hegemônico no que concerne à identidade nacional e que a riqueza que nos excede culturalmente reflete-se na língua, singularizando-a, tornando-a particular de um povo que historicamente a lapidou.

Portanto, subjugar nosso falar à forma lusitana é aceitar, ingenuamente, que o “português é muito difícil” ou ainda que “brasileiro não sabe falar português corretamente”, perpetuando, pois, um conjunto de mitos infundados inerentes a “uma língua emprestada a qual não respeitamos e abastardamos o tempo todo” (Bagno, 2005, p. 10) [Texto resumido]
.
Texto: DO LATIM AO BRASILEIRO: PANORAMA EVOLUTIVO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Paulo Vítor Mattos Silva (UERJ) (pvyctor@hotmail.com)

Leia aqui o texto original e completo:
http://www.filologia.org.br/revista/40/DO%20LATIM%20AO%20BRASILEIRO.pdf

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: