Uma breve história da língua tupi, o idioma que unificou o Brasil

“Tupi or not Tupi:  that is the question”

Oswald de Andrade

Por Ozias Alves*

A palavra “Tupi” significa “o grande pai” ou “líder”. Ora, os “tupis” achavam-se os máximos tanto que chamavam a si mesmos de “tupis”. Já “Guarani” significa “guerreiro”. Os tupis, os primeiros contactados pelos portugueses quando iniciaram sua colonização no Brasil, dividiam-se em várias tribos cujos nomes registrados pela história são como elas mesmos chamavam-se ou como seus inimigos apelidaram-nas. Algumas delas.

Os Potiguares (Papa-Camarão) viviam no Rio Grande do Norte. Mais ao sul, os Caetés (gente da floresta) (aqueles que devoraram o primeiro bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha quando o azarado naufragou na costa do nordeste, em 16 de julho de 1556) vagavam por Alagoas. Os Tupinambás (Tupis Machos) eram os “caras” da Bahia que também davam o “ar de sua graça” em São Paulo. Já a partir da altura de Porto Seguro, sul da Bahia, e descendo para o sul, já se encontravam os Tupiniquins, inimigos mortais dos Tupinambás.

Descendo o mapa do litoral brasileiro, encontravam-se as seguintes tribos: goitacases (os corredores) (Campos, no Rio de Janeiro- estes não são tupis), tamoios (Os anciãos) (de Cabo Frio até Angra dos Reis, RJ), guaianases (Os irmãos) (São Vicente, SP), guaranis (guerreiros) (de Itanhaém até Cananéia, SP), carijós (Os brancos), que se espalhavam por Cananéia, Santa Catarina até a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul.

Fora esses índios (hoje 99% extintos) que falavam dialetos aparentados do Tupi-Guarani, havia outras dezenas tribos da mesma família mais para o interior do Brasil, muitas da quais ainda existentes. Quando os jesuítas chegaram ao Brasil, mais precisamente em São Paulo, iniciaram seu trabalho de catequização com os índios de fala Tupi-Guarani, principalmente os tupiniquins e outras tribos amigas aos primeiros.

José de Anchieta, que viveu 44 anos no Brasil, aprendeu o tupi-guarani com os índios guaianases, de São Paulo. Essa região, que os portugueses deram o nome do famoso missionário cristão, Paulo, depois convertido em santo (São Paulo), era chamada pelos tupi-guaranis de “Piratininga”, que significa “Peixe Seco” no idioma deles. Foi na região de Piratininga que os padres jesuítas fundaram em 1554 um colégio em redor do qual indígenas das redondezas passaram a morar e muitas crianças nativas freqüentavam as aulas dos padres. Era o nascimento da cidade de São Paulo, situado em “Pindorama”, nome que os índios chamavam o país que, mais tarde, por influência dos portugueses, passou a ser denominado “Brasil”.
(…)

Quando se fala “brasileiro” há quem utilize o termo “tupiniquim” para expressar algo “brasileiro legítimo”. Existe um livro famoso chamado “Crítica da Razão Tupiniquim” (Editora Mercado Aberto- Porto Alegre (RS), 1984), de Roberto Gomes. “Tupiniquim” era o nome de uma das tribos do Brasil, falante do tupi-guarani. Aliados dos portugueses, estes índios, amigos dos guaianases, eram arqui-rivais dos tupinambás. Estes últimos uniram-se aos franceses e tamoios na guerra contra os lusitanos.
(…)

Até o final do século XVII, a língua “oficial” do Brasil era o Tupi-guarani misturado com português. De cada três brasileiros, dois só falavam Tupi-Guarani. Mas em 1759, sobre influência do Marquês de Pombal, o governo português baixou um decreto proibindo o uso do idioma “híbrido” ao qual imbutia a acusação de que estava prejudicando as comunicações na colônia brasileira e impondo punições para quem não usasse o idioma português. Foi assim que, à força, o tupi-guarani foi tirado de circulação ao longo do tempo.
(…)

O tupi-guarani influenciou profundamente o português do Brasil. Não foi apenas na incorporação de vocabulário indígena, mas até mesmo influenciou na sintaxe no idioma lusitano no Brasil. Aliás, vale lembrar que os cablocos do estado de São Paulo, em sua grande maioria, só falava tupi até a primeira metade do século XIX. “A ligação do elemento colonizador com o aborígene deu-se tão íntima e intensa que, por muito tempo, o uso do idioma guarani foi corrente no seio da população civilizada de São Paulo, notando-se, ainda hoje, sua poderosa influência no falar paulista: a circunstância dos atuais caipiras dos arredores de Conceição dos Guarulhos preferirem dormir em esteiras, no chão, desprezando o uso de cama, é uma clara reminiscência das velhas usanças dos murumimis, os quais, como é sabido, não faziam uso de redes”, salientou Afonso Freitas.
(…)

Vamos ver alguns exemplos da influência do tupi-guarani no português brasileiro. Temos a expressão “Tá”. É uma contração do verbo “Estar” na 3ª pessoa do singular? Muita gente pensa que sim, mas não é. É uma expressão do tupi incorporada na fala brasileira. Vejamos o que explica Afonso Frietas.

“O tupi-guarani não sabia modular a voz em interrogativa: suprindo tal deficiência, sempre que perguntava incluía na frase as partículas tahá, tá, pá, projeções de uma mesma raiz, e será, todas supletivas da inflexão de voz imodulável pelo órgão vocal do aborígene.

Dessas partículas- será- fixou-se no vernáculo, por modismo, mas também substituindo a expressão portuguesa- será-, razão talvez da sua rápida incorporação, total em São Paulo e noutros estados do sul, ainda incompleta nos do Norte.

Em nheengatu a partícula- será- aparece, de ordinário, encerrando a frase, posição essa ainda mantida no português falado entre a gente do povo do Norte do Brasil: – chove será, isto é, será que chove?” (página 26).

Raros são os brasileiros que pronunciam o “r” de final de palavras. Por exemplo, “pagar” é falado como “pagá”, “amor” soa a “amô” e assim vai. Pois esse vício de linguagem vem do tupi-guarani. As pessoas menos escolarizadas têm o costume de trocar o “l” pelo “i”. Não pronunciam “mulher”, mas “muié”, “pólvora” soa a “pórvora”, “filho” é “fio”, etc. Também é influência do antigo tupi, como lembra Afonso Freitas que acrescenta: “Da pecularidade do tupi-guarani empregar na frase, de preferência o particípio verbal ao infinito e de, invariavelmente, antepor as partículas pronominais aos verbos e aos nomes e pospor aos verbos os pronomes retos, é que os paulistas dizem- está chovendo, me deixe, me faça o favor, etc., enquanto os portugueses locucionam- está a chover, construção tão malsoante aos nossos ouvidos, quanto aos ouvidos lusos devem ser os- me deixe, me faça o favor, do nhengatu aclimado ao vernáculo.

A inexistência da partícula pronominal- lhe- no nheengatu, decorrente da ausência da consoante- l-, no alfabeto daquele idioma, deu azo à formação do modismo tão desagradável- disse pr’á ele (que muitos refinam desastradamente em disse p’r’ele), dá nele, etc., por disse-lhe, dá-lhe, etc” (página 25).

Há tantas palavras tupi incorporadas ao português que nem percebemos, inclusive até na gíria de jovens. Por exemplo, há jovens que dizem: “O fulano chegou no serviço e BABAU. Perdeu o emprego”. O “Babau”, que muitos acham ser uma gíria de surfista, é uma expressão secular do tupi-guarani, que significa “acabou-se”.

Outra expressão tupi é “nhenhenhén”. “Aquele cidadão é muito cheio de nhenhenhén”, ou seja, que fala e reclama incensantemente. A fala vem de “nheen nheen”, que significa em tupi “fala fala”. Vejamos a seguinte frase: “Este cara é meu xará”. Esta palavra, também tida como gíria, significa “amigo” no antigo idioma indígena.

Os gaúchos usam e abusam do seu típico “tchê” no final de suas frases.

“Tchê” é outro sinônimo tupi-guarani que significa “amigo”. Também significa “eu” e “meu”. Mas esta palavra tão usada pelos gaúchos incorporou-se tanto no português do Rio Grande do Sul como no espanhol dos argentinos e uruguaios dos pampas fronteiriços ao Brasil por influência também do guarani do Paraguai. Aliás, o famoso guerrilheiro argentino que participou da revolução cubana, Ernesto Guevara, que morreu na Bolívia em 1967, era chamado de “Che” (como é escrito “Tchê” no espanhol). Portanto, Che Guevara significa “Amigo Guevara”, que a história imortalizou como símbolo da rebeldia e da luta revolucionária esquerdista.

Aliás, “gaúcho” era o nome dado aos índios guaranis que viviam nas missões.

Com a dispersão desses nativos pelos bandeirantes paulistas, os índios que escaparam da escravidão passaram a viver da pecuária. Nas missões, criava-se gado. Quando foram destruídas, parte da manada escapou e se multiplicou nos campos dos pampas, que cobrem a maior parte do Rio Grande do Sul. Outrora, os pampas eram imensidões de pasto nativo onde ninguém morava. Com o tempo, principalmente no século XVIII, a ocupação dos pampas intensificou-se principalmente com a formação de fazendas. O gado criado ao ar livre passou a ser aprisionado e cuidado por peões.

Em Minas Gerais, Foram descobertos ouro e pedras preciosas. Milhares de pessoas, principalmente do Rio de Janeiro, São Paulo e nordeste brasileiro foram para Minas Gerais em busca do enriquecimento. Como não plantavam já que passavam o dia inteiro escavando (ou fiscalizando as minas- daí o lugar ficar conhecido por “Minas Gerais”), esse contigente de mineiradores tinham que importar a comida que necessitava. Surgiu o mercado que os fazendeiros do Rio Grande do Sul passaram a atuar. A carne seca (charque) do RS era vendida em Minas Gerais. Daí a influência no desenvolvimento econômico dos pampas. E quem eram os peões que trabalhavam nas fazendas do RS? Eram descendentes dos índios guaranis, que tanta experiência tiveram na criação de gado quando trabalhavam nas missões. Os índios eram chamados pejorativamente de “gaúchos”. Não é a toa que os atuais “gaúchos” (agora nome de orgulho) gostam de se chamar de “Índios Velhos”.

A influência do tupi está no vocabulário da fauna. Nome de animais e plantas como jaguar, jacaré, macaco, sagui (pêlo), tapera (casa abandonada), cangueiro (de “Acanga”-cabeça, instrumento de tração para os bois), ipê, piracema, etc, etc, etc. Ao todo, como lembra Raquel F. A. Teixeira, em artigo no livro “A Temática Indígena na escola (MEC, Mari/ Unesco, Brasília, 1995), 70% do vocabulário do português brasileiro sobre animais plantas provém do tupi-guarani que tem vasta influência no nome de cidades e acidentes geográficos no país. Vejamos alguns exemplos.

O nome do estado de “Maranhão” vem de “Mar’Anhan”, que significa “O mar que corre”. Já “Paraná” significa “rio” no idioma indígena. “Pará” é “oceano”, “Niterói” “Baía do mar morto” e assim vai. O Brasil está repleto de cidades com nomes indígenas, todos, sem exceção, provenientes do tupi-guarani.

A contribuição do tupi-guarani deu-se também na incorporação de ditados populares no folclore brasileiro. Um deles, muito conhecido, é “Cada macaco no seu galho”. Esse ditado vem da expressão “Macaca tuiué inti hu mundéo i pú cuimbisca o pé” ( Macaco velho não mete mão em cumbuca).

Quando os tupi-guaranis citavam a expressão contavam a seguinte história.

Era uma vez um macaquinho guloso soube que havias frutas numa certa cumbuca feita de uma árvore chamada sapucaia. Introduziu a mão no recipiente. Ao tentar tirá-la, a mão ficou presa. Assustado, o bichinho disparou-se aos pulos pela floresta arrastando a sapucaia e gritando desesperadamente: Ai! Ai! Ai! Cuimbisca hu pscá se pú! Ai! Ai! Ai! Cuimbusca hu pscá se pú! (Ai! Ai! Ai! Cumbuca pegou minha mão).

Os macacos assustaram-se e foram ajudar o macaquinho em apuros. Seguraram o filhote e chamaram o macaco mais velho para aconselhar como retirar a mão do macaquinho da cumbuca. O velho examinou a cumbuca, pegou uma pedra e, em repetidos golpes, quebrou a cumbuca, libertando a mão do macaquinho travesso.

Recuperado do susto, o filhote perguntou ao macaco velho: “Macaca tamuia taá inti ana cuimbisca hu pscá ana i pú? (Vovô, cumbuca já pegou sua mão?) Respondeu o macacão: Macaca tuiué inti hu mundéo i pú cuimbisca o pé (Macaco velho não mete mão em cumbuca).

A idéia de ensinar Tupi-guarani como língua optativa nas escolas, como se cogitou para o Rio de Janeiro, é boa idéia pois trata-se de um resgate da cultura brasileira. Registro aqui uma sugestão aos intelectuais envolvidos nesse projeto: por que não elaboram um curso por correspondência do idioma índio e editam uma revista com textos em Tupi-guarani com traduções em português? Trata-se de um excelente incentivo que certamente contará com grande receptividade. [Artigo resumido e adaptado]
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*e-mail ozias@matrix.com.br

Leia o artigo na íntegra
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3 Respostas

  1. Uma língua que foi oficial no país até o final do séc XVIII com toda certeza unificou o país. Chega daquele blá blá blá de que coube ao português esta tarefa! Uma língua que nos foi imposta por decreto em 1759 (pouco antes da vinda da família real), apesar de alguns falantes, o grosso da população a aprendeu às pressas, e aprendeu o nosso português, o português clássico que nos foi passado pelos jesuítas, um português conservador e tupiniquim, ‘o idioma brasileiro’. Não aprendemos o português moderno de Portugal que não é o idioma brasileiro. Então porque continuamos a usar a gramática do idioma moderno português, que seguiu outro caminho, bem diferente do brasileiro? Até quando vamos considerar o Brasileiro pior por não corresponder ao que está escrito na gramática Portuguesa? Até quando vamos ser obrigados a ouvir que Portugal é o verdadeiro dono da língua, se o que eles falam não é a língua brasileira, e esta nova/nossa/velha língua só pertence a nós e a mais ninguém? O português é um idioma bem diferente do brasileiro, assim como o espanhol e o italiano. Até quando?

  2. Este argumentou de que o português uniu territorialmente o Brasil é uma grande falácia, se assim fosse, a América Espanhola, onde todos falam espanhol, não tinha se fragmentado em vários países. A índia, onde existe mais de 200 idiomas diferentes, é bem unida.

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