A Língua do Brasil

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Mari Noeli Kiehl Iapechino (UNIGRAN-MS/PUC-SP) Datam do século XIX os registros das primeiras manifestações sobre a necessidade de se afirmar a brasilidade de nossa linguagem. A princípio, com abordagens muito mais literárias ou políticas do que lingüísticas, um significativo número de textos de romancistas, poetas, críticos, políticos e outros afloraram, referindo-se ao idioma, dialeto ou língua brasileira, em detrimento de escassos textos de valor científico.

Exemplos desses registros encontram-se em José de Alencar e José Bonifácio. Alencar, primeiro escritor brasileiro a inscrever como dialeto o português falado no Brasil, deixou muitos artigos defendendo a língua que usava e justificando suas criações literárias: “o dialeto brasileiro já se distingue do dialeto português” (apud Pinto, 1978:148) ou Se a língua portuguesa não pode progredir, há de transformar-se para formar a língua brasileira (apud Pinto, 1978:144). José Bonifácio, relacionando língua e política, reivindica o uso de neologismos pelos brasileiros em função da recente independência do país: Ousem pois os futuros engenhos brasileiros, agora que se abre nova época no vasto e nascente império do Brasil à língua portuguesa. (apud Pinto,1978:10).

Muitas polêmicas e discussões sobre a brasilidade de nossa linguagem envolveram Alencar /Nabuco, Carlos de Laet / Camilo Castelo Branco, Araripe Jr. / Carlos de Laet, apesar disso, estudos sistemáticos sobre as diferenças entre o português usado no Brasil e o português usado em Portugal são raros, normalmente encontram-se trabalhos específicos sobre uma das variedades. Exemplos disso podem ser observados em A Língua do Brasil, de Gladstone Chaves de Melo; O Problema da Língua Portuguesa, de Sílvio Elia; Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa do Brasil, de Serafim da Silva Neto, e em outras obras que tratam ora de brasileirismos, ora de lusitanismos.

João Ribeiro (1897, apud Pinto, 1978: 333- 42) definiu brasileirismo como a expressão que damos a toda casta de divergências notadas entre a linguagem portuguesa vernácula e a falada geralmente no Brasil e coloca como prematura a opinião de quem associa tais divergências ao conceito de dialeto.

Sílvio Romero (1888, apud Pinto, 1978:291-3) justificou o uso do vocábulo dialeto, para a variedade brasileira, partindo do pressuposto de que se os brasileiros constituem uma subdivisão, bem distinta, na família lusitana; são uma nacionalidade nova, (…) e vão formando um povo que se não pode mais confundir com o povo português, (…) nossa língua caminha para tornar-se um dialeto. Romero informou, mediante uma lista de palavras, sobre as modificações lexicológicas que a língua portuguesa tem sofrido na América, passando, em seguida, ao estudo das alterações fonéticas e das alterações sintáticas que a língua portuguesa sofrera, até então, no Brasil – como o uso da preposição a precedendo os infinitivos em Portugal (para exprimir o estado atual ou efeito progressivo e contínuo da ação), quando no Brasil utiliza-se o gerúndio.

Com o movimento literário Modernista, a defesa da língua brasileira passou a ser assumida claramente: Mário de Andrade (1922) afirmando, no seu “Prefácio Interessantíssimo”: escrevo brasileiro; Menotti Del Picchia (1928), na “República dos Estados Unidos do Brasil”: É assim nascente/ ágil, acrobática, sonora, rica e fidalga,/ó minha língua brasileira; Roquete Pinto, nos Ensaios de Antropologia Brasiliana, tratando do seu brasiliano; Monteiro Lobato (1934) defendendo a brasilina, em “Emília no país da gramática”, entre outros.

Em O Problema da Língua Brasileira (1940), Elia teceu argumentos críticos sobre os estudos lingüísticos desenvolvidos até então e sobre alguns estudiosos do problema da língua nacional; tratou, ainda, dos conceitos de linguagem, língua, dialeto, falares, cultura e civilização, dedicando um capítulo aos “fatos lingüísticos” e outros capítulos à Lingüística como ciência, suas vertentes e seus grandes mestres. Dessas explanações é que o autor foi lançando elementos que configuraram a questão central da obra: existe ou não uma língua brasileira?

Segundo Tarallo (Op. cit.: 68), a discussão sobre a essência da língua portuguesa em oposição à modalidade brasileira ainda se faz atual, como no editorial do jornal Folha de São Paulo de 18 de novembro de 1982, em que Helena da Silveira escreve sobre o uso do português d’além -mar. Tal fato pode ser uma indicação da força das novelas na estandardização das duas modalidades, mas em direção oposta, entretanto, da ex-colônia para o ex-império.

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Trecho do artigo ASPECTOS DA GRAMATIZAÇÃO NO BRASIL.
Leia aqui o texto completo:
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