Notícias: No Sul, T-Systems cria Alemanha particular

João Luiz Rosa

Valor Econômico
Fabiana Schuhardt sempre quis trabalhar com tecnologia, mas até 2006 não via muitas chances de deixar seu emprego numa confecção de Blumenau (SC), um dos principais pólos têxteis do país. O que Fabiana não sabia é que, apesar de não ter formação ou experiência na área, ela era uma candidata perfeita para a T-Systems, o braço de serviços de tecnologia da operadora Deutsche Telekom. O motivo? Fabiana sabe alemão desde criancinha. “Meus bisavós vieram da Alemanha e, até hoje, meus avós só falam alemão em casa. Além disso, estudei o idioma na escola, da quinta à oitava séries”, conta ela.

A caça por gente que fala alemão desde cedo começou entre 2004 e 2005, quando Massuo Uemura – um descendente de japoneses que comanda a subsidiária brasileira da T-Systems – percebeu que havia uma chance inexplorada para a companhia no país. Com o sucesso da Índia na exportação de serviços de TI para grandes clientes americanos, as companhias de serviços que atuam no Brasil partiram para explorar o mesmo veio, com uma disputa acirrada por profissionais fluentes em inglês.

Foi nesse ponto que Uemura teve um estalo: por que não fazer a mesma coisa – contratar mão-de-obra local, que custa muito menos que nos países desenvolvidos -, mas para prestar serviços aos clientes de sua matriz, que falavam alemão em vez de inglês? A idéia parecia boa, mas o desafio era encontrar profissionais que fossem fluentes no idioma, difícil e pouco disseminado no país, e que ao mesmo tempo recebessem salários compatíveis com a estrutura de custos.

A procura levou Uemura até Blumenau, onde há uma forte colônia alemã no país. “A cidade estava, então, tentando agregar a seu perfil econômico iniciativas nas áreas de serviços e turismo”, diz o executivo. Ele percebeu que estava no caminho certo ao conhecer o Entra 21, um programa de inclusão social financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela organização International Youth Foundation, com sede nos Estados Unidos.

O programa, voltado ao ensino de informática, entre outras áreas, estava restrito a candidatos com renda familiar de até três salários mínimos. Boa parte deles falava alemão ou tinha conhecimentos da língua. “Juntou a fome com a vontade de comer”, brinca Uemura. “Conseguimos as pessoas de que precisávamos, oferecendo um salário que em muitos casos dobrava a renda da família.” O custo é de 20% a 25% inferior ao de locais como São Paulo e a motivação dos profissionais, enorme, diz o executivo. “Dá para ir trabalhar de bicicleta.”

A T-Systems acabou abrindo sua fábrica de software em Blumenau em outubro de 2006. “Contratamos 20 alunos que haviam passado pelo Entra 21”, diz Jorge Holetz, gerente da unidade. O primeiro projeto para atender a clientes diretamente da Alemanha surgiu em fevereiro de 2007. O serviço começou com a Mercedez-Benz e estendeu-se a outras grandes companhias, incluindo a Volkswagen, o Banco da Áustria e a própria Deutsche Telekom, conta Frank Wegmann, responsável pelos serviços internacionais.

Hoje, as instalações em Blumenau reúnem 130 profissionais, sendo que 30 estão voltados integralmente ao atendimento de oito projetos no exterior. Quase toda a equipe fala alemão. “A previsão é de chegarmos a algo em torno de 200 a 220 pessoas até o fim do ano”, diz Holetz.

Nos corredores do escritório, as referências à Alemanha estão em todo lugar. Torcedores do Bayern de Munique grudaram a bandeira do time em uma parede e a regra entre os analistas que atendem clientes internacionais é falar exclusivamente alemão, mesmo que seja para pedir o grampeador ao vizinho.

Laisa Mendonça, que era balconista de uma padaria antes de entrar na T-Systems, precisou de um esforço extra para acostumar-se a esse mundo. “Minha avó falava alemão, mas não cresci com ela e não tive a oportunidade de aprender a língua”, diz. Exceção entre os contratados no requisito do idioma, ela trancou a matrícula na faculdade – onde estuda sistemas de informação -, por seis meses. Nesse período, gastou todo o tempo disponível para aprender alemão. “Não é fácil. Além do ‘o’ e do ‘a’, eles têm um terceiro artigo, que é neutro”, diz.

Mesmo quem já domina a língua procura aperfeiçoar-se no banco escolar. E se for direto na fonte, melhor. Fabiana Schuhardt passou por um treinamento de seis semanas em Essen, na Alemanha, depois de entrar na empresa.

Em São Paulo, a T-Systems iniciou outro projeto. Cerca de 15 jovens, com idades entre 18 e 20 anos, foram selecionados para participar de um curso no Colégio Humboldt, onde as aulas são ministradas em alemão. “Eles passam cinco ou seis semanas em São Paulo, aprendendo disciplinas como comércio exterior e administração. Depois, voltam para Blumenau, onde ficam três meses na empresa”, explica Holetz. O ciclo total previsto é de dois anos. A iniciativa não tem o caráter de inclusão digital do programa Entra 21: são as famílias dos alunos que financiam o curso.

Mesmo em Blumenau, a T-Systems está ampliando as parcerias para facilitar o fluxo de contratações, uma necessidade permanente em um setor baseado na mão-de-obra. A empresa fechou um acordo com a escola de informática ProWay para dar cursos específicos a quem já fala alemão. Da primeira turma saíram 40 pessoas. Todas foram absorvidos pela T-Systems. Agora, um novo grupo, de mais 40 alunos, está em treinamento.

Com o sucesso de sua Alemanha em miniatura, a T-System já se aventura em outras línguas: está no início um trabalho para criar software para um cliente da Espanha. Só o gerente do projeto terá contato direto com os espanhóis, mas os contratados – que a companhia espera recrutar no Entra 21 – terão de saber, ou aprender, inglês e espanhol.

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IBM cria núcleo brasileiro de segurança para monitorar operações via internet

André Borges para o Valor

A IBM inaugura, hoje, seu primeiro centro de operações de segurança (SOC, na sigla em inglês) no país. O novo grupo, que funciona como um núcleo de controle e monitoramento de operações feitas pela internet, ficará baseado em Hortolândia, no interior de São Paulo. A idéia é que essa central seja usada para prestar serviços para clientes brasileiros, além de contas globais.

A nova aposta da IBM é reflexo da integração de suas operações com a americana Internet Security Systems (ISS). Com a aquisição da empresa – ocorrida em agosto de 2006, por US$ 1,3 bilhão -, a IBM entrou de cabeça na prestação de serviços de segurança, ao herdar os sete centros que a ISS tinha espalhados pelo mundo – três deles nos Estados Unidos e os demais na Austrália, Bélgica, Canadá e Japão. Agora, com a abertura da central de segurança no Brasil, a IBM quer ampliar a oferta dos serviços na América Latina.

Não é tarefa simples. Embora a terceirização seja o assunto da moda em rodas de executivos de tecnologia, a realidade é que entregar a segurança de sistemas e dados nas mãos de terceiros ainda não é uma prática facilmente digerida por quem está à frente da área de tecnologia da informação (TI) das empresas. Essa postura, no entanto, começa a mudar, diz Rogério Morais, da área de sistemas de segurança da IBM. “Hoje as empresas já entendem que ninguém vai extrair ou expor seus dados”, comenta o executivo. “Podemos olhar um servidor e verificar se ele está vulnerável, mas ninguém acessa o banco de dados que roda ali.”

Mesmo sem um SOC implantado na América Latina, a IBM já soma cerca de 80 clientes na região que, até agora, usavam serviços prestados pelos centros de operações de outros países. Em todo o mundo, são aproximadamente 2 mil empresas.

A IBM não revela quanto investirá na operação. Nos últimos meses, a subsidiária passou um filtro em milhares de funcionários para destacar as sete pessoas que, inicialmente, cuidarão do centro brasileiro. Além de especialistas em práticas e ferramentas de segurança da informação, o time está pronto para prestar suporte em português, espanhol e inglês.

Diferentemente do que se vê em serviços mais tradicionais, como suporte técnico, os serviços de segurança prestados não estão atrelados a um grande volume de mão-de-obra. O trabalho depende de uma equipe de pessoas com forte especialização e que, no dia-a-dia, é apoiada por sistemas de inteligência. Hoje, a operação global de SOC da IBM reúne cerca de 400 pessoas, além dos 120 engenheiros do X-Force, um time de pesquisadores que fica 24 horas debruçado sobre novos problemas de segurança que surgem na rede.

Além do apoio de pessoal, ferramentas remotas para monitoramento também são acionadas. Se quiser, o próprio usuário pode acompanhar cada detalhe do que acontece em sua infra-estrutura de tecnologia. Também é possível iniciar, por meio de um simples navegador de internet, uma varredura para encontrar possíveis pontos de vulnerabilidade.

Outro argumento usado para atrair os clientes é a redução de custo. “A gestão terceirizada de segurança sai mais barato que o investimento na infra-estrutura”, diz Morais. No ano passado, o mercado latino-americano de segurança de tecnologia movimentou cerca de US$ 180 milhões.

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