O êxodo das cordas

Ana Paula Sousa

CARTA CAPITAL A primeira palavra que Luka Milanovíc aprendeu a falar no idioma Brasileiro foi “chuva”. Só depois veio o “bom-dia”. Há um mês no Brasil, o violinista sérvio está encantado com o novo emprego. Mas um tanto desapontado com os trópicos. “Qual será o índice pluviométrico daqui? Quando conto para minha família que o tempo está nublado, que não faz sol, eles não acreditam”, diz, em tom grave que faz sua fala parecer mais velha que seu rosto.

Aos 24 anos, Milanovíc partiu para uma aventura que, de meados dos anos 1990 para cá, tem mudado o cenário da música clássica no Brasil. “Eu tinha planos de ir para a Alemanha ou Áustria. Mas, é estranho, estou aqui. E o que é mais estranho: não faz sol”, insiste, sorriso no canto da boca, olhar irônico. Após uma concorrida audição em Belgrado, ele foi selecionado para compor a Orquestra Sinfônica do Estado de Minas Gerais (Osemg). Divide o palco do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, com outros dez conterrâneos.

Milanovíc ainda não sabe disso, mas faz parte de um discreto fenômeno. Enquanto brasileiros dão com o nariz nas portas de países como Espanha e Inglaterra, uma rota migratória invertida, de lá para cá, importa violinistas, violistas, violoncelistas e contrabaixistas – naipes de cordas, em resumo – numa quantidade espantosa.

Ao fim de um concerto com casa lotada e solo do pianista Arnaldo Cohen, o que se ouvia, nos fundos do teatro do Palácio das Artes, eram ecos desse fenômeno: uma babel lingüística em que, por vezes, o “s” ressaltado fazia lembrar o português de Portugal. Além do sérvio, havia polonês, russo, búlgaro, esloveno e, claro, inglês com vários sotaques.

Estavam todos entusiasmados com a apresentação. Milena Dukjic, também sérvia, também violinista, que faria 21 anos “em uma hora”, dizia, com a expressão sorridente e cheia de curiosidade, que “o público brasileiro adora aplaudir, como num jogo de futebol”. Em BH, a convenção de manter o silêncio entre os diferentes movimentos de uma peça é um mistério que o público ainda não entendeu. A cada parada, ecoava uma salva de palmas. “Alguns colegas se desconcentram. Eu acho lindo”, diz a sérvia, erguendo os ombros. “As pessoas aqui são realmente calorosas. Pena que não entendo nem uma palavra.”

A falta de sol e a insistência no aplauso são dois dos detalhes que chamam a atenção dos músicos que acabaram de chegar. Mas as surpresas começaram antes da viagem. “Fiz questão de descrever bem o projeto. Falei que Belo Horizonte era uma cidade de 4 milhões de habitantes, para não pensarem que era um vilarejo, mandei foto do Palácio das Artes, descrevi a temperatura e falei do salário”, enumera Fabio Mechetti, diretor da Osemg, que retorna ao País depois de 20 anos regendo nos Estados Unidos. O salário-base, de 5 mil reais, no Brasil inferior apenas ao da Sinfônica de São Paulo (Osesp), era apetitoso para quem, em Belgrado, ganhava 900 dólares por mês.

Mechetti, que começou as audições para a nova orquestra no Brasil, vislumbrou problemas se ficasse só por aqui. Sobretudo, nas cordas. “Podemos competir com qualquer país em termos de pianistas. Também temos excelentes sopros e percussionistas. Mas nas cordas, principalmente violino e violas, é complicado”, detalha Mechetti, roçando os mistérios da harmonia.

O maestro decidiu então organizar audições em Belgrado, Varsóvia, Miami e Filadélfia. “Graças à ajuda de um luthier (fabricante de instrumentos) iugoslavo, a audição em Belgrado foi incrível, teve até cobertura da tevê local”, relata. De lá, vieram 11 músicos, inclusive o spalla, Roman Simovic, noivo da violinista Milena Dukjic. “É notório que a Europa Oriental produz muitos músicos de cordas de grande qualidade e não consegue absorvê-los.”

Mesmo nas audições norte-americanas, foram eles que se destacaram. O casal Victoria Tsvetkova e Slava Znatcheni morava em Nova York e resolveu tentar uma vaga para “mudar de estilo de vida”. Ela tem 28 anos e é búlgara. Ele tem 34 e nasceu na Moldávia. Terminado o segundo grau, ambos, cada um em seu país, tiveram o talento premiado com bolsas de estudo nos Estados Unidos.
“Nós aprendemos a ser músicos desde pequenos. E viajar pela música é normal”, diz a búlgara. “Fomos para Nova York atrás de oportunidades. Mas lá estão os melhores músicos do mundo e não é simples ter um trabalho fixo, em tempo integral”, emenda o marido. “E não é incrível mudar para o outro lado do mundo?”, perguntam, quase juntos.

Mas se, de Nova York para Belo Horizonte, a mudança não é desprezível, o que dizer de uma moça que, aos 26 anos, deixou a Bielo-Rússia natal e partiu, sozinha, para Manaus? Vitálya Mastsinkévich, violista, que acaba de trocar Manaus por BH, ainda abre os olhos de espanto quando rememora a chegada ao Brasil, em 2001. “Minsk (província da Bielo-Rússia) é tão diferente que nem dá para explicar. Ao sair do aeroporto de Manaus, eu, no táxi, apavorada, pensava: ‘Isso é interior, é um vilarejo, daqui a pouco chega a cidade’. E o calor? Durante meses, me senti numa sauna.”

Foi sob o úmido calor manauara que se escreveram os primeiros capítulos desta saga à qual Minas Gerais agora se junta. O êxodo das cordas deslanchou quando o maestro Julio Medaglia foi incumbido de montar uma orquestra em Manaus. Antes disso, outros vários músicos da Europa Oriental tinham vindo para o Brasil, mas de modo disperso. A Manaus, em 1997, chegaram 48 de uma só vez. Alguns anos antes, 12 búlgaros haviam desembarcado no interior de São Paulo para compor a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto.

“Aqueles países da Europa Oriental estavam em processo de transformação econômica. Se você chega com a oportunidade de um emprego fixo, com bom salário, o interesse é imediato”, relata Medaglia. “Eu tive a felicidade de, nas audições, ter uma quantidade absurda de opções. Em Manaus, apesar de muitos candidatos, só encontrei um músico e meio adequado ao nível que pretendíamos ter. Havia um bom e outro que tinha muito talento, mas não estava pronto.”

Medaglia realizou audições em Sofia, Minsk e Moscou. Vitálya, a musicista que agora está em Minas, não participou das audições. Mas viu colegas partirem. Desde então, ficou com a idéia do Brasil grudada na cabeça. “Mandei uma gravação muito antes de vir. De vez em quando me ligavam, mas depois desapareciam, e eu sempre pensando nessa possibilidade.”

Parte do sonho se explicava pelo salário, de 2,5 mil dólares, uma fortuna para quem estava acostumado a uma média de 100 dólares. “Não me interessava a riqueza para poder comprar um carro. Mas era triste, numa turnê, ver um CD com uma gravação incrível, que custava o que ganhávamos por mês”, diz Vitálya.

Tornar simplesmente monetária e social essa imigração seria tirar dela o ingrediente de aventura e sonho capaz de fazer alguém trocar 40 graus negativos por 40 graus de calor e mergulhar num lugar de língua indecifrável. “Se você vê uma palavra em russo, você não tem de olhar dez vezes para ela e, ainda assim, não consegue memorizá-la? Com a gente é assim com o português”, compara Vitálya.

Por que vir? “De dez em dez anos, temos de mudar alguma coisa na vida. Por que passar a vida toda num só lugar?”, pergunta Elina Suris, nascida na Moldávia, violinista da Osesp, que chegou ao Brasil para tocar em Ribeirão Preto, a convite do maestro Roberto Minczuk.

“Aconteceram tantas coisas nos nossos países que, no fundo, acho que a gente ficou um pouco sem país”, reflete Olga Kopylova, rara pianista “importada”, também da Osesp, vinda do Uzbequistão. “Quando cheguei a Cumbica, senti que era quente…”, lembra, abraçando o próprio peito. “Aquele calor fez com que eu me sentisse em casa. Toda vez que chego a Cumbica eu me sinto assim, em casa. O brasileiro é tão engraçado, festeja qualquer coisa, faz até chá-de-bebê.”

Nicolay Sapundgiev, vindo da Bulgária para a primeira leva da orquestra de Manaus, resume a sensação de liberdade que invade um jovem quando ele decide, sozinho com seu instrumento, atravessar o mundo. “Imagine você, em Ploctiz (sua cidade natal), descobrir que vai conhecer a Amazônia, que vai ficar a 24 horas de viagem da sua casa… Eu tinha acabado de fazer 20 anos, quando vim para cá. Achava tudo incrível, era uma conquista do mundo mesmo.”

Sapundgiev conheceu, em Manaus, a musicista búlgara com quem se casou. Vivem no Amazonas. Como consideram seus sobrenomes complicados o bastante, resolveram dar à filha, de pouco mais de 1 ano, o nome de Gabriela. “Nicolayeva Sapundgieva é suficiente”, brinca, abrasileirado. “Adoro viver aqui. Sempre vou sentir um pouco de saudades da Bulgária, mas, quando estou lá, sinto saudades daqui.”

Os sinais de estrangeirismo na própria terra, comum aos imigrantes com o passar do tempo, também começaram a surgir. Os músicos de Manaus pediram para que as férias mudassem de janeiro para junho. “Eu chegava à Bulgária, em janeiro, e ficava o dia todo trancado em casa por causa do frio”, conta Sapundgiev. Ao mesmo tempo, todos procuram reconstituir aqui pedacinhos do país que ficou distante. Todo 6 de maio, os cerca de 20 búlgaros que vivem em Manaus comemoram o Dia de São Jorge. “É uma festa bonita. Comemos carneiro e ouvimos as músicas de lá.”

Mais ou menos, metade do grupo que chegou em 1997 continua no Amazonas. Uns poucos voltaram para os próprios países e outros tantos se espalharam pelo Brasil. É o caso do cellista Kirill Bogatyrev e da violista Svetlana Bogatyreva, hoje na Osesp.

Kirill nasceu na Sibéria, mas com 1 ano foi para São Petersburgo (Leningrado, nos tempos do comunismo), onde fez os estudos de música. Era cellista da prestigiada orquestra do Teatro de Kirov quando soube dos convites para Manaus. Decidiu arriscar. “Passávamos o ano todo viajando com a orquestra. Para você ter uma idéia, abrimos uma temporada no Carnegie Hall. Mas eu queria uma vida mais tranqüila.”

Falar da trajetória musical de Bogatyrev, semelhante à de sua mulher, é uma boa maneira de entender como se formam esses instrumentistas de reconhecida excelência. “Na União Soviética, todas as capitais têm uma escola especial de música. Estudamos, de graça, em semi-internato. O teste para entrar é difícil e o curso, que dura 11 anos, inclui todas as disciplinas, não só musicais, mas tudo aquilo que forma uma pessoa”, explica. Enquanto detalha a carga horária e as disciplinas do curso, Bogatyrev crava os olhos no vazio e nele surge uma fresta de saudade.

Como muitos instrumentistas, ele não sabe muito bem como tudo começou, como a música entrou em sua vida para nunca mais sair. “Meus pais tinham um piano e, desde muito pequeno, eu brincava. Quando fiz 4 anos, chamaram um professor em casa. Aos 5 anos, comecei a estudar cello.” Não há músico citado nesta reportagem que tenha começado a tocar depois dos 5 anos. Alguns por desejo dos pais. Outros tantos, por uma estranha vontade.

“Eu estava tão apaixonada por violino que, quando fiz o teste, com 7 anos, e não passei, comecei a chorar. Chorava tanto que me deixaram ficar”, relembra Vitálya. “É difícil, para uma criança, ficar lá cortando madeira, sem nenhuma melodia. Mas aí isso vira a nossa vida. Às vezes, se corto o dedo, por exemplo, fico pensando no quanto é frágil tudo isso.”

O búlgaro Sapundgiev diz lembrar do quanto, aos 6 anos, ficou encantado com um filme sobre Paganini: “Minha mãe conta que eu brincava colocando qualquer coisa debaixo do queixo e imitava uma pessoa tocando violino”.

Bogatyrev, que dá aulas no Teatro Municipal e na Universidade Livre de Música, em São Paulo, imagina que a distância dos instrumentos na infância seja uma das razões para a carência de bons músicos de cordas no Brasil. “Um garoto que comece com 15 anos terá muitos problemas. Em geral, os alunos não posicionam as mãos e os braços direito. Se tocar assim, ao final da temporada estará com tendinite.”

Outra dificuldade seria a disciplina. “É muito difícil fazer com que um aluno brasileiro estude três horas por dia. E isso é o tempo mínimo necessário”, garante o cellista. “As cordas exigem um pouco mais de disciplina e persistência que outros instrumentos”, pondera o maestro Mechetti. “Tocar bem qualquer instrumento é igualmente difícil. Mas, para tocar mais ou menos um violino, leva anos e anos. No Brasil, para cada dez pianistas, você tem meio violinista.”

Mas, se há essa diferença cultural, que passa pelo modelo de educação das crianças – lá submetidas a uma rígida disciplina –, há também uma diferença histórica. Existiram alguns líderes, em meados do século XIX, como Leopold Auer, Karl Flesh e Joseph Joachim, que criaram uma escola russa que ecoa até hoje pelo mundo. “São judeus húngaros que foram para São Petersburgo e espraiaram por toda a região essa habilidade”, conta Medaglia. “Daí nasceu toda uma geração de músicos. Os americanos também levaram essas pessoas para seu país, mas no fim do século XIX.”

Estaria o Brasil entrando agora nesse processo? “A partir das aulas dadas pelos músicos da orquestra, criamos uma orquestra experimental que fará o primeiro concerto em maio”, diz o maestro Luiz Fernando Malheiro, titular da Amazonas Filarmônica e diretor do Festival de Ópera de Manaus. “Continuo trazendo músicos de lá para cá. E um garoto formado aqui está estudando agora em Sofia.”

Bogatyrev conta que, nos últimos exames, havia 81 candidatos para duas vagas de violoncelo na ULM e 320 para as dez vagas do Municipal. “Em compensação, no Nordeste, não há nenhum cellista dando aula”, pondera. E vale lembrar que, no cello, diferentemente do violino e da viola, o Brasil tem, por exemplo, a excelência de Antonio Menezes.

Mas, como se vê, a tradição, de uma vez por todas, aqui desembarcou. E não há quem duvide de que, em alguns anos, a aventura sonora e harmônica da Europa Oriental terá mudado as cordas brasileiras. É que os sons musicais se entendem, como sempre se entendem os que falam a mesma língua. Neste caso, a língua de staccato, dolce e allegro.

[Texto adaptado]
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