Guia traduz os nomes tupis de São Paulo

Lançado nesta semana, livro de guia de turismo compila os significados de nomes de bairros e ruas da capital, derivados do idioma nativo

Moacir Assunção

ESTADÃO Vera Lúcia Dias, de 56 anos, especializada em turismo cultural em São Paulo, conhece bem a cidade. Mas eis que, há cinco anos, uma turista portuguesa lançava uma pergunta, que viraria desafio: “O que significa Maracanã?” Ela não sabia. Como também não sabia a origem de outras palavras que despertavam a curiosidade dos turistas. Eles queriam saber o que significava pacaembu (rio das pacas), tucuruvi (gafanhoto verde), anhangabaú (bebedouro do demônio), jaçanã (galinha d?água), tatuapé (caminho do tatu), anhangüera (diabo velho), itaquera (pedra a dormir), guaianazes (parente), ipiranga (riacho vermelho), jabaquara (esconderijo de negros fugidos), morumbi (mosca verde) e ibirapuera (madeira podre).

Para não silenciar novamente, ela pesquisou. Do estudo, surgiu o livro O Tupi em São Paulo, Vocabulário de Nomes Tupis nos Bairros Paulistanos (Editora Plêiades), lançado nesta semana.

Descendente de clássicos como Vocabulário Tupi-Guarani Português, de Silveira Bueno, e Gramática da Língua Tupi, de Teodoro Sampaio, a obra, de apenas 50 páginas, tem como objetivo introduzir turistas e paulistanos na língua dos nativos. Até meados do século 18, só se falava em tupi ou em sua variação, a língua geral nheengatu, na cidade, então pobre povoação perdida no planalto de Piratininga (peixe seco). A autora, que nasceu na Mooca (fazer casa, em tupi), também freqüentou o curso de tupi antigo oferecido pelo professor Eduardo de Almeida Navarro, da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP).

Descobriu que os nomes de boa parte dos 2 mil microbairros paulistanos têm origem em dois troncos: no tupi, casos de alguns dos mais antigos, e no português, ligado à religião, como Santo Amaro, Penha, Freguesia do Ó e Santana. Com relação às ruas, há enorme quantidade delas com nomes indígenas. “As pessoas, de maneira geral, não sabem o que significa o nome de seus bairros. Tenho percebido, para meu espanto, jovens que nem sabem onde nasceram”, diz ela. Nesse desconhecimento pode estar a chave, para a guia, de um certo desamor do paulistano pela cidade.

Até ela se surpreendeu: pensava que palavras como Sacomã e Nhocuné eram de origem indígena. São o sobrenome de uma família francesa, os Saccoman, que povoaram o bairro da zona sul, e uma contração da expressão “sinhô coroné”, usada pelos escravos para se referir ao coronel Christalino Luiz da Silva, dono das terras que geraram a área, na zona leste.

“O que mais me dá prazer é quando alguém, depois de conhecer o significado do nome do seu bairro, se interessa em pesquisar mais sobre a cidade”, comenta Vera, de pouco mais de 1,50 metro e cabelos curtos, que há dez anos leva turistas a lugares inusitados, como o Cemitério da Consolação. “Quando viajam para o exterior, os turistas brasileiros visitam o cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, e o Père-Lachaise, de Paris. Por que não passear pelas alamedas de um lugar que conta a história de São Paulo, como o Consolação?”

Vera faz questão de dedicar seu trabalho aos índios guaranis, língua do tronco tupi, das três aldeias que sobrevivem na cidade – duas em Parelheiros, a Crucutu e a Morro da Saudade, e a terceira no Pico do Jaraguá. Sua tristeza é constatar que São Paulo, que deve sua toponímia e geografia, além da língua e de vários hábitos, aos índios, não reservou nenhum espaço para eles no centro. “Os turistas se espantam quando a gente fala que ainda há índios em São Paulo, mas vê-los sentados na Praça da Sé, vendendo artesanato, me dói no coração.”

Para entrar no clima, ela saúda os turistas com a tradicional “dereco-porã?” (tudo bem?, em guarani). A propósito, Maracanã é um tipo de arara, um papagaio amarelo antigamente comum nas matas brasileiras, assim como a variedade canindé, que dá nome a um bairro e a um estádio paulistanos.

VOCABULÁRIO TUPI

Butantã – terra dura

Cangaíba – dor de cabeça

Carandiru – cesto de flores

Congonhas – erva mate

Cupecê – língua partida

Grajaú – macaco preto

Guarapiranga – garça vermelha

Imirim – rio pequeno

Iguatemi – verde escuro

Itaim – pedra pequena

Jaguaré – lugar onde havia onças

Jaraguá – o senhor do vale

Mauá – coisa elevada

Moema – doce

Tamanduateí – rio de muitas voltas

Tamoio – bisavô

Tutóia – Oh, lindo

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