Pronomes oblíquos de terceira pessoa

Hélio Consolaro*

Com o objetivo de lutar para que o ensino do português escrito fique mais fácil, esta coluna vem publicando alguns artificialismos da gramática tradicional que continuam sendo ensinados nas escolas, numa dissociação gritante entre escola e realidade lingüística.

A distância entre a língua falada e a escrita sempre existirá, porque esta é mais conservadora, enquanto aquela é o motor das mudanças, mas não é mais possível tolerar essa distância quilométrica no português, dificultando sobremaneira o trabalho do professor em sala de aula no processo de alfabetização, fazendo que sejamos bilíngües, embora falemos e escrevamos uma só língua.

Reli recentemente o conto O Colocador de Pronomes, de Monteiro Lobato, e a questão no livro Português ou Brasileiro? – Um Convite à Pesquisa, de Marcos Bagno, para abordar o assunto nesta coluna.

O conto foi escrito em 1916, quando Lobato satirizou os gramáticos. Quase um século depois, o problema continua o mesmo.

O lingüista Bagno anuncia a morte dos pronomes oblíquos de 3ª pessoa, pois eles só existem nas gramáticas. Eis os exemplos, para que se entenda melhor:

Conheço Pedro, mas tem muito tempo que não o vejo.(Como querem os gramáticos.)

Conheço Pedro, mas tem muito tempo que não vejo ele.(Como se fala no cotidiano.)

O próprio filólogo Silveira Bueno, em 1955, já dizia isso: “Proíbe-se no português clássico e moderno, que se empreguem as formas retas dos pronomes em função complementar, como objeto direto, mormente não preposicionado. Tal proibição que é dogma de gramática e do ensino oficial tanto em Portugal como no Brasil, encontra numerosas exceções no português arcaico e, em nossa pátria, é de todo transgredida na língua familiar e vida da sociedade”.

No livro A Hora da Estrela, Clarice Lispector escreve:

Se sei quase tudo de Macabéa é que já peguei uma vez de relance o olhar de uma nordestina amarelada. Esse relance me deu ela de corpo inteiro.

Tão artificial ficaria se Clarice tivesse escrito:

Esse relance ma deu de corpo inteiro. Jornalistas e escritores avançam o sinal vermelho dos gramáticos, acelerando as mudanças. Isso traz algum alento.

*Hélio Consolaro é cronista da Folha da Região, Araçatuba, coordenador deste site, professor de Português do Ensino Médio, autor de três livros e membro da Academia Araçatubense de Letras.

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