Pérolas: Mais ataques – Agora vindos de Moçambique

“O acordo pronográfico”

Por Afonso dos Santos
(Jornal SAVANA – Lide Lidima)

Este título tem um erro: não é “pronográfico” que se escreve, mas sim “pornográfico”. Mas isso pouco importa, porque, nesta fase de auto-estima acelerada e de passagens automáticas no ensino, parece haver um acordo para que cada um escreva como lhe apeteça. Entretanto, só por causa do seu título, este texto é capaz de ter mais leitores do que os leitores habituais desta coluna. Mas eu estou só a seguir a linha de alguns jornais que põem títulos espectaculosos na primeira página, e depois o texto da notícia não acrescenta nada ao que está no título. Mas para que esses eventuais leitores adicionais não abandonem já a leitura deste texto, adianto, desde já, que, na mesma onda desse tipo de jornalismo, sempre aparecem, lá para o fim do texto, uma ou duas linhas relacionadas com o título.

Há uns dias atrás, um canal de televisão apresentou uma simulação de debate sobre o famigerado acordo ortográfico de inspiração brasileira. Chamo-lhe simulação de debate, porque os três convidados tinham opinião unâmime. Ficámos assim a conhecer um novo conceito de “debate aberto”, que consiste em juntar três pessoas para defenderem todas a mesma posição e os mesmos interesses, no melhor estilo frélio. Um dos participantes nesse debate unânime é director do Centro de Estudos Brasileiros, pelo que nem precisava de abrir a boca, para que se soubesse de antemão qual seria a sua posição, visto que o tal acordo ortográfico não é mais do que um negócio brasileiro. Aliás, esse director deixou isso bem claro, quando afirmou que isto é uma questão do mercado da língua. Na verdade, isto consiste precisamente em substituir aquilo que é uma língua cultural por uma língua mercantil ou comercial. E assim sendo, os argumentos do director desnecessitam de mais comentários.

Outro participante no debate unânime foi um escritor chamado “Bakakoss”, pelo menos segundo a ortografia apresentada inicialmente na legenda da pantalha do televisor. Acontece que o venerando “Bakakoss”, sendo um funcionário governamental com funções de direcção, não poderia tomar outra posição que não fosse a de defender o seu pão. Isso de ter posições próprias foram apenas traquinices juvenis duma outra era, ora ajuizadamente sepultadas. E não é de admirar que quem se dedica a congeminar fábulas, venha apresentar uma fabulosa solução: muda-se umas letras na ortografia e imediatamente os livros chegarão em massa a todos os distritos e localidades. Por outras palavras: se hoje não há lá livros, é por causa da… ortografia! Esta solução é tão fabulosa que até dá para pensar que com a nova ortografia já nem será necessária a alfabetização. Finalmente, uma terceira participante no fictício debate apresentou um argumento bem mais delirante: o acordo é importante por causa dos crentes duma “igreja” brasileira, por causa das novelas brasileiras e por causa da maneira como “os nossos filhos, os nossos jovens [ai que ternura!] escrevem nos telemóveis”. Esta participante teve o mérito de nos colocar “in the year twenty five twenty five” [no ano dois mil e quinhentos e vinte e cinco], conforme o nome duma canção antiga. É que ela explicou que: “Todos os moçambicanos ou quase todos ou pelo menos a maioria assiste à novela”. Parece que a Electricidade de Moçambique se esqueceu de nos informar que a energia eléctrica já chega a todas as localidades e aldeias, e o Governo se esqueceu de propagar que o poder de compra dos moçambicanos já é suficiente para que todos tenham televisor. Também não é de admirar que quem anda com a mente embriagada pelas novelas brasileiras, e vive com a cabeça no Brasil, confunda Moçambique com a cidade de Maputo. Mas o mais destacado em tudo isto é que – provavelmente graças à sua política de passagens automáticas no ensino – o Governo terá conseguido levar a cabo uma autêntica Revolução Cultural, através da qual “todos os moçambicanos ou quase todos ou pelo menos a maioria” passaram a ser fanáticos de telenovelas!

Desde que ouvi aquela coisa sobre as telenovelas, ainda não consegui dormir, pois ando embrenhado em pesquisas, para tentar descobrir qual é a ortografia das telenovelas brasileiras, visto que elas são faladas e não escritas. E ainda não me apercebi de que elas tenham legendas… Argumentam também que as alterações impostas pelo “acordo brasileiro” são mínimas, e chutam umas percentagens. Então, se as alterações são tão insignificantes, porque é que o acordo é tão importante e se assanham tanto em sua defesa? De resto, lá pelo meio do programa, o Brasil chegou a ser designado como “a grande vanguarda”! Hoye! Primeiro andam a palrar que uma língua é um organismo vivo, que se transforma conforme a cultura de cada país, e depois vêm defender a uniformização! É por tudo isto que o pleno acordo demonstrado entre aqueles três paineleiros (membros do painel), sendo baseado em argumentos forjados com o intuito de fornicarem a nossa inteligência, não pode deixar de ser considerado um acordo pornográfico.

E, neste contexto, parece-me que a melhor maneira de terminar este texto é com a ortografia do secretário-geral da chamada associação dos escritores moçambicanos, esse kastiço representante duma folklórika klique que lá o kolokou, que num célebre texto da sua autoria – onde ele confessa que a sua competência de leitura é insuficiente para ler José Saramago –, termina a sua prosa da seguinte maneira: “Fuck off”. Eu bem vos prometi que no fim haveria pornografia…

Prestem atenção nestas passagens:

“(…) parece haver um acordo para que cada um escreva como lhe apeteça.(…)”

“(…)visto que o tal acordo ortográfico não é mais do que um negócio brasileiro.”

“(…)Na verdade, isto consiste precisamente em substituir aquilo que é uma língua cultural por uma língua mercantil ou comercial.”

“(…) que as alterações impostas pelo “acordo brasileiro”

“(…) um acordo pornográfico. (…)”

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3 Respostas

  1. Minha leitura:

    Nesta “magnífico” texto ficamos sabendo que não houve “acordo”, foi o Brasil (Sim! O Brasil!!! Menino mal!!!) que impôs sua língua. Língua sem regras e “incorreta” (“(…) parece haver um acordo para que cada um escreva como lhe apeteça.(…)” ). Tudo para satisfazer o apetite dos capitalistas brasileiros sedentos pelo fabuloso mercado lusófono. (“(…)visto que o tal acordo ortográfico não é mais do que um negócio brasileiro.) Os brasileiros querem substituir a Língua Portuguesa – culta e majestosa- pela sua inculta e comercial Língua Brasileira. ((…) Na verdade, isto consiste precisamente em substituir aquilo que é uma língua cultural por uma língua mercantil ou comercial.”). O Brasil quer impor sua língua Pornográfica. (“(…) um acordo pornográfico. (…)”)

  2. Minha resposta sobre os interesses econômicos no Yahoo:

    E que interesses seriam esses?
    O cobiçadíssimo mercado português de 3 milhões de leitores??? Ou seria o vasto mercado africano como Moçambique onde apenas 6% da população fala português? Se na África houver 2 milhões de leitores é muito.

    E o Brasil com nossos parcos + de 50 milhões de leitores estamos muito interessados no atraente mercado lusófono. Os executivos das editoras brasileiras não devem nem ter dormido à noite preocupadíssimos em aprovar este acordo.

    Além de sermos obrigados a aceitar que falamos a mesma língua (que são totalmente díspares), e sermos obrigados a estudar em uma gramática estrangeira (que não respeita a língua brasileira) ainda temos que ouvir essas besteiras?

    -Notícia da semana passada: G1-

    ==>Brasileiro lê mais livros por ano

    A pesquisa ouviu pessoas a partir dos cinco anos de idade e mostra que, além desses 50 milhões de apaixonados, o número de leitores vem crescendo: 55% da população entrevistada afirmou ter lido ao menos um livro nos últimos três meses.
    http://g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL582237-5604,00.html

    É impressionante a pequenez dessa gente, pelo que me consta esta “reforma” foi feita de comum acordo e não imposta pelo Brasil. Por mim eles podem comer a língua cultural deles, pois prefiro mil vezes o idioma Brasileira, “inculto e belo” – [pornográfico, incorreto e mercantil, como eles dizem]do que nosso idioma ser colocado no mesmo barco do português(língua com uma sonoridade horrível e ininteligível para o brasileiro).

    O idioma do Brasil é o Brasiliano!

  3. Vejam que povo mais simpático, modesto e acolhedor. [-Nunca mais falo um A sobre os argentinos-]

    moçambicana responde brasileiro –

    Sabe de uma coisa Oliver , não desfazendo da sua terra, não conheço e acredite do fundo do meu coração que não tenho muita curiosidade, talvez pelo índice de criminalidade e de fome que ai exista, não sei, mas também não é importante, mas o que lhe queria falar é que nos aqui em Moçambique somos consumidores natos do produto brasileiro, infelizmente!!
    Desde o produto na mercearia, pauzinho de queijo, bambo, farofa, feijão preto bla bla bla… ate a musica, as novelas enfim acho que um brasileiro que aqui chegue de parqueadas se sentira em casa de certeza absoluta!
    Então eu acho que quando o senhor diz que não conhecemos não é bem a palavra certa, nos conhecemos sim, qualquer moçambicano hoje vai ao brasil comprar roupa e vende na esquina meu amigo!! Bolas!! Cd de musica brasileira??? tem ate no dumbanengue a venda!! E o amigo vem dizer-me que não conhecemos?
    Como diz o nosso amigo Carlos Daniel e bem, o senhor não conhece a nossa musica os nossos artistas certamente.
    Mas nos conhecemos os vossos, desde o farro, ao samba, musica sertaneja e por ai fora!! Quantos moçambicanos já foram ao brasil cantar??? o senhor sabe que aqui já ca estiveram uma data de brasileiros a cantar??? ate o vosso Ministro da cultura já ca esteve ok?
    Então vamos colocar os pontos nos (i) e vamos lá a ver quem não conhece quem!!
    Quanto a língua, a CE tem razão, português é português, o que vem depois são as diversas formas de falar, mas não deixa de ser português, mal dito mas escrito, mas é português!!
    Não existe a língua brasileira assim como não existe a língua moçambicana, existe PORTUGUES!!!
    Não tenha uma idéia errada de Moçambique e de nos moçambicanos porque aquilo que o senhor vê na telinha de TV não é sempre real, nos vemos coisa bem pior do vosso pais e nem por isso colocamos em duvida a vossa falta de cultura.
    Sou Moçambicana e tenho o maior orgulho nisso, com todos os nossos defeitos, ainda nos falta crescer muito, mas um dia a gente chega lá!!!

    http://www.maputo.co.mz/por/foruns/musica/musica/(offset)/5

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