Inventário terá todos os idiomas falados no Brasil

Com levantamento inédito de diversidade lingüística, Iphan pretende preservar patrimônio imaterial

Por Eduardo Kattah, Belo Horizonte

ESTADÃO Mapear centenas de línguas faladas no Brasil, à exceção do português, e retirá-las de uma espécie de “clandestinidade simbólica” é o objetivo de um inventário que começará a ser feito ainda este ano no País. O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou, em Belo Horizonte no último dia 15, a realização do levantamento, com base nas conclusões de um grupo de trabalho que se reuniu durante um ano e oito meses para discutir o assunto. O inventário deverá contemplar línguas indígenas, afro-brasileiras e de imigrantes, além das variedades do próprio português. Para iniciar o trabalho, o Iphan dispõe de um orçamento, em 2008, de R$ 450 mil.

“Embora sejamos vistos pelo exterior e por nós próprios como um país de uma língua só, na realidade não é isso que ocorre”, destaca Márcia Sant’Anna, diretora do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan.

“O interessante é que dentro dessa nossa unidade lingüística – que existe em torno do português – temos ainda um patrimônio importante até em termos mundiais.” Parte desse patrimônio, porém, está sob ameaça de desaparecimento, pela falta de registro e de formas de transmissão. Não raro, observa Márcia, algumas línguas indígenas acabam restritas a grupos de poucas dezenas de pessoas. A estimativa é que existam cerca de 180 línguas indígenas que ainda são faladas no Brasil. “Em torno de 60 dessas línguas estão em risco de extinção”, afirma a diretora do Iphan.

O lingüista Denny Moore, do Museu Paraense Emílio Goeldi – instituição vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia -, porém, fez um levantamento mais recente e acredita que o número de línguas indígenas faladas no País não passa de 150. Do total, cerca de 25% estão ameaçados de desaparecimento “em curto prazo”, afirma o pesquisador americano, radicado em Belém (PA) há mais de duas décadas. “Faltam informações sobre o número exato de línguas, de falantes dessas línguas”, diz.

FALTA DE DADOS

No caso das línguas de origem afro-brasileira, a carência de informações e registros ainda é maior, explica a etnolingüista Yeda Pessoa de Castro, professora da Universidade do Estado da Bahia.

Sistemas lexicais de diferentes línguas africanas, segundo Yeda, foram preservados pelas religiões afro-brasileiras como marca litúrgica. Mas, de acordo com a pesquisadora, nenhuma língua original da África continua sendo falada no País, nem em comunidades de remanescentes de quilombos.

Nas comunidades quilombolas, as diversidades lingüísticas costumam ser chamadas de gira, como a da Tabatinga, em Bom Despacho, na região centro-oeste de Minas. Conforme pesquisadores, a Gira da Tabatinga é uma espécie de mistura do português rural do Brasil Colônia e línguas do chamado grupo Banto, entre elas algumas que seriam faladas até hoje em Angola.

Yeda observa que as cerca de 500 línguas faladas pelo grupo Banto na região central e sul da África foram as que mais influenciaram o português do Brasil. Ela estima que mais de 3 mil palavras acabaram incorporadas, entre elas samba, caçula, cachimbo, cochilar etc. Mas, para a pesquisadora, as línguas africanas no Brasil foram historicamente “desprezadas.” “Quais universidades se dedicam a pesquisas?”, questiona. “São vistas como línguas que nem faladas eram. Parece que os 4 milhões de africanos trazidos para cá eram mudos.”

IMIGRAÇÃO

Já as chamadas línguas de imigração, conforme a diretora do Iphan, promoveram uma situação inusitada – de falares derivados de outros países e que são considerados únicos. É o caso da língua Talian, originada de dialetos de imigrantes da região de Vêneto, no norte da Itália, que no final do século 19 se estabeleceram, sobretudo, na região das Serras Gaúchas, no Rio Grande do Sul. “Por aqui, esse dialeto sofreu alterações. Hoje é vista pelos estudiosos como uma língua unicamente falada no Brasil”, afirma Márcia.

Conforme a diretora do Iphan, os estudos preliminares indicam que há entre 25 e 30 línguas de imigração no Brasil.

Quanto às variações do próprio português, o inventário pretende avaliar com mais profundidade as diversidades da língua oficial conforme as diferentes regiões e classes sociais. “A idéia é que esse instrumento produza conhecimento sobre diversidade, mas também já seja uma forma de reconhecimento patrimonial”, diz Márcia.

CENSO LINGÜÍSTICO

Segundo a diretora do Iphan, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deve incluir no questionário do Censo 2010 uma pergunta para estimar com mais precisão o número de falantes de outras línguas no País. “Seria uma pergunta como: ‘Além do português que outra língua se fala em casa’”, explica Márcia.

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