Cultura, Identidade e Língua Nacional no Brasil: Uma Utopia?

Por Jean Baptiste Nardi

Tornou-se lugar-comum dizer que o português do Brasil é diferente do de Portugal. É uma questão polêmica que exaltam as paixões há mais de um século (Pinto, 1978). Nos debates para as Constituições de 1824, 1890 e 1946, apareceu como possibilidade a denominação de “língua nacional”, “língua brasileira” e até de “brasileiro” mas nenhuma chegou a ser concretizada. Entretanto é uma idéia que está caminhando (Dias, 1996; Pinto, 1978). Assim a língua brasileira passou a ser ordinariamente chamado de “português brasileiro” (Roberts/Kato, 1993; Couto, 1986) e muitas vezes de “brasileiro”. No entanto, é um real problema que, a qualquer momento de sua história, o Brasil terá que enfrentar e resolver, friamente, porque não é somente um problema de terminologia. Não se definirá a língua brasileira sem que se determine, simultaneamente, a identidade nacional; ambas são estreitamente ligadas e a questão da língua é tanto um problema de lingüística quanto de cultura e de sociedade.

PROBLEMÁTICA DA LÍNGUA BRASILEIRA

A problemática da língua brasileira é, antes, relativa à lingüística descritiva, aspectos que fogem de nosso propósito. Tecnicamente, o português brasileiro é um dialeto do português de Portugal – ou português europeu. Mas a palavra dialeto se refere a um espaço inferior à língua-geral ou língua-padrão, o que não é o caso do Brasil que representa mais de 80% dos lusófonos. O português brasileiro, portanto, não é um dialeto mas é, sim, uma variante de português. Historicamente, as variantes brasileira e portuguesa tiveram uma evolução separada a partir do século XVI, por múltiplas razões, e apresentam hoje diferenças estruturais importantes, de ordem lexical, sintático, morfológico e fonético. Até se considera que são dois idiomas distintos (Couto, 1986; Bagno, 2001).

O segundo problema, que se refere essencialmente à língua falada, é a ausência de norma – ou língua-padrão – nacional, o que já não é mais um problema exclusivamente lingüístico. A primeira causa é a falta de centro de referência nacional. Portugal conhece vários dialetos regionais mas tem Lisboa como pólo político, econômico e cultural; a norma lisboeta, portanto, prevalece. No Brasil não há centro por razões históricas, geográficas e demográficas. As cidades de Rio de Janeiro e São Paulo possuem uma inegável primazia cultural mas constituem duas referências lingüísticas originais que se diferenciam ainda dos outros centros que são as capitais dos Estados. A segunda causa é de ordem social: conforme a classe e o nível escolar, altos, médios ou baixos, a língua falada apresenta numerosas variantes. Existe então no Brasil, horizontal e verticalmente, uma importante variedade de dialetos e falas, regionais e locais, desiguais no teor e na representação populacional (Couto, 1986; Ferreira/Cardoso, 1994; Hauy, 1987; Perini, 1986; Silva, 1997; Bagno, 2001).

Estabelecer uma norma falada – e ensinada – no Brasil, portanto, não é um problema simples. Existem duas linhas de pensamento opostas, uma que defende a integridade da língua portuguesa, outra que preconiza uma reforma radical em função das especificidades brasileiras. Todavia, não há nenhum motivo para que predomine a língua falada por uma cidade, uma região ou uma classe social e também não se pode imaginar uma solução regressiva que consistiria em decalcar a norma sobre a língua falada. Existe realmente um termo médio? A resposta está nas pesquisas que estão sendo realizadas desde alguns anos no campo da lingüística (Callou/Lopez, 1994; Castilho, 1988;1989, 1990-1996; Mota, 1994; Roberts/Kato, 1993). Mas qualquer que seja a solução, não poderá haver reforma sem escolhas arbitrárias e eliminações que surtiram sofrimentos e frustrações nos que, com total dedicação, envolvem-se na questão da língua (Cunha, 1972; Guimarães/Orlandi, 1996; Signorini, 1998).

Entretanto, por falta de padrão no Brasil prevalece a norma portuguesa no ensino, criando o terceiro problema da língua brasileira. Com efeito, mantendo-se a norma portuguesa, embora com algumas adaptações (Ilari, 1985) – o que se chama português brasileiro -, afastou-se a língua ensinada da língua realmente utilizada pelos nativos, não somente na fala como também na escrita (Couto, 1986; Pinto, 1990). Marcos Bagno fala logicamente – já que considera que português e brasileiro são duas línguas – de diglossia ou bilingüismo (Bagno, 2001). Como o brasileiro pode se situar, culturalmente, nesse labirinto? A falta de norma brasileira acarreta problemas que ultrapassam as questões de lingüísticas ou de ensino.

A LÍNGUA COMO EXPRESSÃO DO POVO

A discussão sobre a questão da norma e do ensino da língua não pode ser resolvida sem levar em consideração este aspecto fundamental: a língua é expressão de um povo. É unânime a comunidade científica quando diz que o grupo social manifesta seu pensamento e sua visão do mundo por meio da sua língua, ou seja, como disse Martinet, o pensamento não pode existir sem a língua (Martinet, 1970:9).

Em todas as circunstâncias, e independentemente de seu nível escolar, o homem pensa primeiro na língua que fala e é através desta que ele transmite seu pensamento. Negada a possibilidade de expressão pela língua falada na sociedade – porque não corresponde à língua de comunicação oficial – limita-se o pensamento. O discurso do homem permanece a nível do solilóquio, das relações familiares ou da vizinhança. A sociedade perde assim a oportunidade de, talvez, aprender dele um pouco de sua mundividência, um pouco dela mesma. Se a língua de comunicação, oficial e ensinada, é muito diferente da língua falada, ela introduz confusões na expressão e, simultaneamente, no pensamento: o homem não pode pensar de maneira clara e lógica. Em conseqüência, a sociedade perde outra oportunidade que é aumentar suas capacidades de conviver em harmonia com o mundo, físico e humano, e desenvolver-se. Em outras palavras, a língua que não permite a completa expressão do pensamento do homem não é representativa da sociedade a que ele pertence; ela cria uma situação contrária aos interesses da mesma sociedade.

É sem dúvida o que acontece no Brasil e é provavelmente por essas razões que não existe, como lamentou, entre outros autores, Regis de Morais, “uma produção filosófica brasileira” (Morais, 1989:30). Também podemos ver nisso causas parciais à impossibilidade que tiveram Carlos Guilherme Mota e Dante Moreira Leite, após minuciosos estudos, de definir a cultura brasileira e o “caráter nacional brasileiro” (Mota, 1994; Leite, 1992). E, de maneira mais ampla, podemos aplicar ao Brasil o que disse um dirigente africano a respeito das relações entre língua francesa e línguas nacionais: “Negar [estas] línguas e o papel que podem e devem jogar, reduzi-las ao nível de sublínguas, veículo de subcultura para subclasse, lugar de uma dupla alienação e de uma dupla marginalização, é negar à África toda possibilidade de desenvolvimento específico, é retirar-lhe o direito à palavra” (Bal, 1979:247).

Em suma, a inadequação formal entre a língua oficial e ensinada e a língua falada, dificulta a criação, o desenvolvimento, a expressão e a divulgação do pensamento brasileiro e, de maneira mais ampla, de toda a cultura brasileira. Como, nessas condições, não acreditar na necessidade de reformas na língua oficial do Brasil?

Leia aqui o artigo completo:
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: