“Ter= Haver” Certo ou errado?

No Meio do Caminho

…………………………………….Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

.

ser, haver/ter + particípio passado

Verbos intransitivos arcaicos como nascer, morrer, falecer, passar, chegar, ir, correr combinavam o seu particípio passado com ser para expressão do aspecto perfectivo (o meu filho he morto, aquele meu amigo era passado deste mundo). É consensual que estas sejam construções com auxiliar, mas a questão põe-se quanto ao desaparecimento de ser e à sua substituição por haver e ter nessa função a partir do século XV. Parece que o fenômeno se foi instalando à medida que estes dois últimos verbos, quando combinados com particípios de verbos transitivos, deixaram de exprimir posse. Com efeito, eles eram ainda plenos semanticamente enquanto os particípios que precediam concordavam com o complemento direto; até ao século XVI eram possíveis construções como os serviços que avian feitos a seu padre, non ousaram d’entrar na camara por a defesa que el-rei tinha posta. A partir do momento (inícios do século XV) em que começou a haver variação entre concordância e não concordância do particípio do verbo transitivo com o seu complemento, haver e ter foram-se gramaticalizando enquanto suportes de flexão e puderam vir a substituir ser nas estruturas compostas com verbo intransitivo. Mas, conclui Rosa Virgínia, “a questão dos tempos compostos[…] precisa de que se analisem mais dados do período arcaico para que possam ser considerados ou reconsiderados aspectos desse problema ainda não resolvidos” (id., ibid.:65)
….
“A história semântica pregressa dessas formas sugere o curso dessa mudança: no latim o verbo básico para a expressão de posse é habe:re e, segundo Gaffiot […], a sua acepção primeira é ‘ter em sua posse’, ‘guardar’ e, subseqüentemente, considera, entre os ‘usos figurados – ‘ter na mão’, ‘obter’; enquanto ter […] tem como acepção básica ‘ter algo na mão’, ‘obter’. Já havia no latim, portanto, a intersecção semântica entre habe:re/tene:re na referência a algo concreto, ‘ter na mão’. Na história documentada do português, como esboçamos, os seus continuadores já aparecem em variação desde momento recuado na expressão desse tipo de posse, aqui designado por “bens materiais adquiríveis”. isto é, a posse alienável. Daí se difunde ter para os outros contextos, enquanto (h)aver se especializa como verbo existencial, descartando o etimológico ser. No correr da história, como já vimos, com (h)aver existencial entrará ter em concorrência, já até predominando em variantes faladas do português [refere-se ao Brasil], tendendo, mais uma vez, a descartar haver: no período arcaico, das possessivas e, no atual, das existenciais (id., ibid.:79).

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