“Eu vi ele” Certo ou errado?

Joaquim Mattoso Câmara Jr. (1957) foi o primeiro a defender a hipótese da deriva ou mudança natural, quando procurou uma razão estrutural, interna, para explicar o uso brasileiro do ele acusativo, na expressão “eu vi ele”. Ele argumenta que a próclise de o ao verbo cria um vocábulo fonético em que o pronome, aí tratado como uma vogal átona, cai, exigindo-se a escolha de outro pronome para o preenchimento da função de objeto direto. Quer dizer, se disséssemos “eu o vi”, as duas últimas palavras soariam como “uvi”, em que “u” será tratado como uma vogal átona qualquer, candidada a desaparecer. É o que fazemos com a primeira vogal de “imagina!”, que dizemos habitualmente “magina!” O problema é que, se em “magina” o “i” inicial não faz falta, em “uvi” a primeira vogal é o objeto direto de “ver”, e faz uma falta danada! Para ajeitar as coisas, passou-se a usar o pronome “ele”, e com isso temos hoje em dia “eu vi ele”.

Com base em evidências sintáticas, Moraes de Castilho (2001) especifica a variedade quatrocentista como aquela que mais contribuições teria dado ao PB. Argumentando que a base do PB não pode ser o PE seiscentista – que ainda não existia, quando teve início o povoamento do território -, ela mostra que várias características sintáticas que apontariam para a emergência de uma gramática do PB são amplamente documentáveis no séc. XV. Construções de tópico (como em “O menino, ele acabou de chegar”), duplicação de clíticos de que resultariam alterações ndo quadro pronominal, (como em “eu não te falei pra você?”), possessivos duplicados (como em “leve o seu livro dele”, que explicam a utilização de dele como possessivo da terceira pessoa, especializando-se “seu” como possessivo da segunda pessoa) e outros fatos sintáticos demonstram uma vez mais que a pergunta não é por que o PB ficou como ficou, e sim por que o PE tomou um rumo inesperado, separando-se no PB.

[A hora e a vez do português brasileiro – Ataliba T. de Castilho (USP, CNPq)]

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A distância entre a língua falada e a escrita sempre existirá, porque esta é mais conservadora, enquanto aquela é o motor das mudanças, mas não é mais possível tolerar essa distância quilométrica no português, dificultando sobremaneira o trabalho do professor em sala de aula no processo de alfabetização, fazendo que sejamos bilíngües, embora falemos e escrevamos uma só língua.

 

O lingüista Bagno anuncia a morte dos pronomes oblíquos de 3ª pessoa, pois eles só existem nas gramáticas. Eis os exemplos, para que se entenda melhor:

Conheço Pedro, mas tem muito tempo que não o vejo.(Como querem os gramáticos.)

Conheço Pedro, mas tem muito tempo que não vejo ele.(Como se fala no cotidiano.)

O próprio filólogo Silveira Bueno, em 1955, já dizia isso: “Proíbe-se no português clássico e moderno, que se empreguem as formas retas dos pronomes em função complementar, como objeto direto, mormente não preposicionado. Tal proibição que é dogma de gramática e do ensino oficial tanto em Portugal como no Brasil, encontra numerosas exceções no português arcaico e, em nossa pátria, é de todo transgredida na língua familiar e vida da sociedade”.

[Coesão Textual]
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Até o século XVI predominava na língua portuguesa escrita a próclise, que ficou no Brasil. Depois, com o fortalecimento da sílaba tônica, o português passou a optar pela ênclise, exatamente porque a átona, sendo muito final, sendo muito átona, o acento frásico teve de se apoiar na sílaba tônica da palavra, e as palavras átonas passaram a enclíticas. Estudos já feitos no Brasil e Portugal mostram que a tendência do pronome átono no português do século XVI em Portugal era a freqüência da colocação para a crítica, colocação essa que ficou no português do Brasil

[Evanildo Bechara]
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Dicionário Aurélio:

ELE
(ê) [Do lat. ille.]
Pronome pessoal. […]

“Na fase arcaica da língua, empregou-se como objeto direto, uso que persiste no Brasil, entre pessoas incultas e na fala de pessoas cultas descuidadas:
Vi ele.”

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Dicionário Houaiss:

ELE

1- pronome pessoal
aquilo ou aquele de que se fala ou escreve [Empr. normalmente nas funções sintáticas de sujeito, de complemento preposicionado e de predicativo.]
Ex.: “e. vai às compras” “entreguei a e.” “faz tudo por e.” “João é e.”

2- aparece esporadicamente, em textos arcaicos, mormente com valor enfático, na função de objeto direto; no port. do Brasil, tal uso é extremamente normal na variante informal do idioma, tanto de pessoas não escolarizadas como das escolarizadas, embora condenado pela gramática normativa

1. As formas tónicas do pronome pessoal (ele, ela, eles, elas) aparecem esporadicamente em posição de objecto directo. Mattoso Câmara Jr. julgou ver nessas estruturas um recurso enfático mas “nenhuma pesquisa sistemática sobre o tópico no período arcaico investigou esta questão” (Silva, 1994: 103). Veja-se o exemplo deste fenómeno que a autora encontra nos Diálogos de São Gregório: e o ermitan, pois vio ele e seus companheiros e falou com eles muitas cousas, perguntou-os.

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3 Respostas

  1. Eu estou apaixonada por este canal eletrônico… Muito bom!

  2. O correto é dizermos: – eu o vi ou vi-o ou ainda, eu a vi ou vi-a. Não se usa pronome reto na função de objeto. Os pronomes retos exercem sempre a função de sujeito ou predicativo do sujeito; para substituí-los, basta usar o,a,os,as para objetos diretos; e lhe e lhes para indiretos.

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