Línguas do Brasil

“Todos se queixam de que português é difícil. O brasileiro é chorão? Não me parece que possa ser definida como chorona uma nacionalidade marcada pelo carnaval, o humor e o riso catártico, com os quais suporta males seculares.

A queixa pode ser assim resumida: a língua falada é uma, mas a escrita é outra. Em todas as línguas dá-se algo semelhante, mas no Brasil plasmaram-se variedades lingüísticas impressionantes que tornam a língua portuguesa, na fala como na escrita, repleta de sutis complexidades, entretanto ausentes em Portugal e em outras nações lusófonas.

A habilidade verbal do brasileiro é coisa que admira e consterna. Nos bares, nas ruas, em prosas à beira de copos ou pratos, no rádio e na televisão, a língua do Brasil floresce em todo o seu esplendor com suas diferenças, seus ritmos, os modos muito próprios de tratamento, que misturam tu e você, por exemplo, quando a gramática trata o primeiro como segunda pessoa, e o segundo, como terceira.

Quando o brasileiro precisa escrever, entretanto, começa a tropeçar logo nas primeiras linhas. Aliás, se é documento dirigido a alguma autoridade, as vacilações surgem ainda antes de que seja escrita a primeira letra. […]

Precisamos de uma Constituição para a língua do Brasil. A escritora Lygia Fagundes Telles relembra a forte impressão que lhe causaram os célebres versos de Olavo Bilac sobre a língua portuguesa: ‘Última Flor do Lácio, inculta e bela,/ És a um tempo esplendor e sepultura.’ Menina ainda, perguntou ao pai, homem do Direito, o que ia ser de sua vida. Tinha seus dez ou 12 anos, já queria ser escritora, mas estava preocupada: escrever numa língua que seria sepultura? ‘Minha filha, se você chegar a escrever bem um dia, e eu espero que sim, não precisa ser francês, alemão, espanhol. Você escreverá em português.’

Todos poderíamos escrever em português, mas na língua do Brasil, desvencilhando-nos dessas dificuldades que gramáticos sabidos impuseram a um patrimônio que é do povo brasileiro. Não se trata de estudar menos, mas de aprender a língua do Brasil à luz de novos conceitos e com outros fins, dentre os quais emerge soberano o do exercício da cidadania. Esse privilegia os atos de ouvir, falar, ler e escrever. É para isso que aprendemos português!”

[Texto resumido e adaptado]

Escrito por Deonísio da Silva para o Jornal do Brasil em 27/04/03

Leia o texto completo:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp0705200393.htm

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