“Me passa o sal?” Certo ou errado?

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Acontece que o português europeu, ao contrário do brasileiro, passara nos séculos anteriores (particularmente no século XVIII) por um processo de mudança fonológica, com inúmeras conseqüências para a sintaxe.

Uma dessas mudanças se refere ao fato de que a fala portuguesa passou a privilegiar a ênclise, isto é, seus pronomes átonos começaram a se cliticizar da direita para a esquerda, e o português do Brasil teve que se ajustar a um padrão que não era absolutamente o seu. Em outras palavras, nós brasileiros, que não tínhamos sido protagonistas desse processo (uma vez que quem mudou foram eles, não nós!) passamos a ter que obedecer à norma de não começar frase com pronome. Vem daí a clássica história da colocação dos pronomes átonos, a principal bandeira da norma culta no Brasil. E o discurso que se desenvolveu ao longo de toda a primeira metade deste século foi aquele discurso da condescendência, segundo o qual na fala informal, “tudo bem usar a próclise sem atrator”, mas na escrita, “é de rigor”, “impõe-se” a ênclise. Algumas gramáticas chegam a afirmar até que a ênclise é a posição natural dos pronomes em português. Alguns chegam a dizer que o hábito de usar a próclise faz parte da índole dócil do brasileiro em oposição à rispidez do europeu (como se o ladrão que diz ‘me passa o dinheiro’, iniciando a frase com pronome mostrasse alguma docilidade).

Em conseqüência disso, há um abismo entre língua oral e escrita, o que favorece a existência de uma indústria lucrativa do certo e do errado, do “pode” e “não pode”, contribuindo para aumentar um preconceito lingüístico absolutamente irracional.

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[Mª Eugênia Lamoglia – UFRJ (Leia mais:

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É fato sabido que a colocação dos pronomes átonos no Brasil difere apreciavelmente da atual colocação portuguesa e encontra, em alguns casos, similar na língua medieval e clássica.

Em Portugal, esses pronomes se tornaram extremamente átonos, em virtude do relaxamento e ensurdecimento de sua vogal. Já no Brasil, embora os chamemos átonos, são eles, em verdade, semitônicos. E essa maior nitidez de pronúncia, aliada a particularidades de entoações e a outros fatores (de ordem lógica, psicológica, estética, histórica, etc.), possibilita-lhes uma grande mobilidade de posição na frase, que contrasta com a colocação mais rígida que têm no português europeu.

Infelizmente, certos gramáticos nossos e grande parte dos professores da língua, esquecidos de que esta variabilidade posicional, por ser em tudo legítima, representa uma inestimável riqueza idiomática, preconizam, no particular, a obediência cega às atuais normas portuguesas, sendo mesmo inflexíveis no exigirem o cumprimento de algumas delas, que violentam duramente a realidade lingüística brasileira e que só podem ser seguidas na língua escrita, ou numa elocução altamente formalizada.

Esta é, a nosso ver, a primeira distinção que as duas variantes nacionais da língua portuguesa apresentam em sua forma culta: a vigência de uma só norma em Portugal; no Brasil, a ocorrência de dualidade ou de assimetria de normas, com predominância absoluta da norma portuguesa no campo da sintaxe, o que dá a aparência de maior coesão do que a real entre as duas modalidades idiomáticas, principalmente na língua escrita.

É a história que vai explicar-nos esta relativa unidade da língua culta de Portugal e do Brasil e as sensíveis, por vezes profundas, diferenças da língua popular em áreas dos dois países.

[Celso Cunha, Política e cultura do idioma, Língua, nação e alienação, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981, 15-18]

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A autora, para explicar um fenômeno sintáctico que teve modificações importantes na história do português entre a época medieval e a atualidade (e que é constantemente referido quando se compara o português europeu com o português do Brasil), adoptou uma metodologia comparativa observando simultaneamente o comportamento atual de diferentes línguas românicas (português, galego, espanhol, catalão, francês e italiano). O fenômeno em causa é a posição na frase dos pronomes pessoais átonos (me, te, lhe, o, a, nos, vos, lhes, os, as), também chamados pronomes clíticos ou apenas clíticos. Estes pronomes são hoje pós-verbais (ou enclíticos) em português europeu e galego, ao contrário do que se passa nas outras línguas românicas, em que são pré-verbais (ou proclíticos), desde que se pense apenas em determinadas orações. É preciso que essas orações não sejam subordinadas, não sejam coordenadas disjuntivas, nem contenham aquelas partículas que fazem com que o pronome átono se anteponha ao verbo, como é o caso da forma adverbial de negação não. Demonstrando estas posições enclíticas e proclíticas em português
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[Ana Maria Martins: Clíticos na História do Português (leia mais:

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A colocação dos pronomes átonos no Brasil

A colocação dos pronomes átonos no Brasil, principalmente no colóquio normal, difere da atual colocação portuguesa e encontra, em alguns casos, similar na língua medieval e clássica.
Podem-se considerar como características do português do Brasil:

a) a possibilidade de se iniciarem frases com tais pronomes, especialmente com a forma me:
– Me desculpe se falei demais.

b) a preferência pela próclise nas orações absolutas, principais e coordenadas não iniciadas por palavra que exija ou aconselhe tal colocação:
– Se Vossa Reverendíssima me permite, eu me sento na rede.
– A sua prima Júlia, do Golungo, lhe mandou um cacho de bananas.

c) a próclise ao verbo principal nas locuções verbais:
– Não, não sabes e não posso te dizer mais, já não me ouves.
– Tudo ia se escurecendo.

[ciberduvidas]

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