O Preconceito Lingüístico no Brasil

José Orestes Merola* e Tiago Gebrim**

No livro “Preconceito Lingüístico” o autor Marcos Bagno, defende com vigor a língua viva e verdadeiramente falada no Brasil. O preconceito lingüístico, vem sendo alimentado diariamente pelos meios de comunicação, que pretendem ensinar o que é “certo” e o que é “errado”, sem falar, é claro nos instrumentos tradicionais de ensino da língua, ou seja a gramática normativa e os livros didáticos. Para superar os preconceitos lingüísticos, o autor começa por lembrar, catalogar e dissecar alguns mitos consagrados:

Mito nº 1 – “A língua portuguesa apresenta uma unidade surpreendente”

– o maior e mais sério dentre os outros mitos, por ser prejudicial à educação e não reconhecer que o português falado no Brasil é bem diversificado, mesmo a escola tentando impor a norma lingüística como se ela fosse de fato comum a todos os brasileiros. As diferenças de status social em nosso país, explicam a existência do verdadeiro abismo lingüístico entre os falantes das variedades não-padrão do português brasileiro que compõe a maior parte da população e os falantes da suposta variedade culta, em geral não muito bem definida, que é a língua ensinada na escola.

– Este mito pressupõe a existência de uma única forma do português falado no Brasil, reforçada maciçamente pela gramática normativa ensinada nas escolas. É um absurdo pensar que, em um país tão grande, com inúmeras diferenças regionais e sócio-econômicas, a língua falada não apresenta variações. Acreditar nesse mito é acreditar que há apenas uma língua portuguesa correta, a expressa na gramática normativa, e tratar as variações da mesma como inexistentes.

Mito nº 2 “Brasileiro não sabe português/Só em Portugal se fala bem português”

– de acordo com o autor, essas duas opiniões refletem o complexo de inferioridade advindo do Brasil colônia. O brasileiro sabe português sim. O que acontece é que o nosso português é diferente do português falado em Portugal. A língua falada no Brasil , do ponto de vista lingüístico já tem regras de funcionamento, que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal. Na língua falada, as diferenças entre o português de Portugal e o português falado Brasil são tão grandes que muitas vezes surgem dificuldades de compreensão. O único nível que ainda é possível uma compreensão quase total entre brasileiros e portugueses é o da língua escrita formal, porque a ortografia é praticamente a mesma, com poucas diferenças. Concluí-se que nenhum dos dois é mais certo ou mais errado, mais bonito ou mais feio: são apenas diferentes um do outro e atendem às necessidades lingüísticas das comunidades que os usam, necessidades lingüísticas que também são diferentes.

– É comum ouvirmos que o português está sendo “assassinado” ou corrompido pela população que não domina a norma expressa pela gramática normativa. Isso é o mesmo que dizer que os brasileiros somente têm o direito de usar o português falado em Portugal, sem nenhuma variação que expresse sua cultura ou status social. Também se escuta que a língua será destruída pela invasão de termos estrangeiros, duramente condenados pelos gramáticos conservadores. Esta previsão é feita há mais de um século e até hoje não se tornou verdade. A incorporação de termos estrangeiros é inevitável, pois nosso país se encontra sob uma inegável dominação econômica e cultural, e de nada adiantaria tentar se resolver o “estrangeirismo” sem primeiro pensarmos na fonte do “problema”.

Para resolver os mitos aqui mostrados, é preciso que nos conscientizemos da diferença entre o português falado aqui e em Portugal, que é grande a ponto de os lingüistas preferirem chamar nossa língua de “português brasileiro”. Bagno a exemplifica com a questão dos pronomes “o/ a”: em Portugal, é comum falar-se “Eu o vi” ou “Eu a conheço”; aqui, entretanto, é raro escutarmos esta construção em uma conversa comum; mesmo quando o falante domina a norma culta, prefere dizer “Eu vi ele” ou “Eu conheço ela”, que é forma usual em nosso país. Trata-se de uma mudança na língua falada brasileira, que cada dia é mais diferente da falada em Portugal. A gramática normativa, entretanto, desconhece ou finge desconhecer essa mudança, essa transformação pela qual nossa língua passa à medida que vai se tornando “mais brasileira”, e não se atualiza, continua se baseando na gramática de Portugal, ajudando assim a se manter essa crença de que o certo é falar-se como os portugueses o fazem.

Mito nº 3“Português é muito difícil”

– O que acontece, é que a nossa gramática, como já foi falado, se baseia na gramática vigente em Portugal, que apresenta uma língua falada muito diferente da nossa. Assim, o português tal qual estamos acostumados a aprender, o da gramática, pouco uso tem em nossa vida cotidiana. Como diz o autor, nossa concepção de aprender português é “decorar conceitos e fixar regras que não significam nada para nós”.

Fala-se que o português é difícil porque esta disciplina estuda uma língua que não corresponde à língua viva que falamos, cujas regras não são mais utilizadas por quase ninguém e ainda por cima só são totalmente dominadas por alguns, o que contribui para a visão de que “saber português” é algo distante e para poucos. Um bom exemplo citado por Bagno é o caso da regência verbal no verbo assistir. O aluno pode ser forçado a escrever inúmeras vezes a frase “Assisti ao filme” dentro da sala de aula, mas na primeira oportunidade fora dela, usará a forma “Assisti o filme”. Isso porque a gramática usada por nós, uma gramática “intuitiva”, própria do nosso português, não encontra mais a necessidade da forma regencial com a preposição a. A gramática escolar, entretanto, não leva em conta – como bem diz Bagno – o uso brasileiro do português.

– Essa afirmação consiste na obrigação de termos de decorar conceitos e fixar regras que não significam nada para nós. No dia em que nossa língua se concentrar no uso real, vivo e verdadeiro da língua portuguesa do Brasil, é bem provável que ninguém continue a repetir essa bobagens. Todo falante nativo de um língua sabe essa língua, pois saber a língua, no sentido científico do verbo saber, significa conhecer intuitivamente e empregar com naturalidade as regras básicas de funcionamento dela. A regência verbal é caso típico de como o ensino tradicional da língua no Brasil não leva em conta o uso brasileiro do português. Por mais que o aluno escreva o verbo assistir de forma transitiva indireta, na hora de se expressar passará para a forma transitiva direta: “ainda não assisti o filme do Zorro!”

Tudo isso por causa da cobrança indevida, por parte do ensino tradicional, de uma norma gramatical que não corresponde à realidade da língua falada no Brasil.

Mito nº 4 “As pessoas sem instrução falam tudo errado”

-Este mito encontra sua base no primeiro mito apresentado, ou seja, a existência de uma única forma de português falado no Brasil (necessariamente, nem se precisava lembrar, a forma culta). Dessa forma, qualquer variação do português normativo é considerada errônea e sofre imenso preconceito, sendo até ridicularizada e motivo de chacotas. Bagno explica que, muitas vezes, o preconceito não existe contra as variações da língua usadas pelas pessoas marginalizadas da sociedade (carentes, pobres, “sem instrução”) por si só, mas sim contra as próprias pessoas e, por extensão, contra a “língua” por elas utilizadas.

– Isso se deve simplesmente a um questão que não é linguística, mas social e política – as pessoas que dizem Cráudia, Praca, Pranta pertencem a uma classe social desprestigiada, marginalizada, que não tem acesso à educação forma e aos bens culturais da elite, e por isso a lingua que elas falam sobre o mesmo preconceito que pesa sobre elas mesmas, ou seja, sua língua é considerada “feia”, “pobre”, “carente”, quando na verdade é apenas diferente da língua ensinada na escola. Assim, o problema não está naquilo que se fala, mas em quem fala o quê. Neste caso, o preconceito lingüístico é decorrência de um preconceito social.

Mito nº 5 “O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão”

– Esta falsa afirmação tem por fundamento o fato de no Maranhão se usar ainda com grande popularidade o pronome tu e suas respectivas formas verbais, ao contrário da maioria do Brasil, onde, devido à “reorganização do sistema pronominal”, este pronome foi substituído pelo você. Acredita-se, portanto, que o português do Maranhão é “mais correto” simplesmente porque ele ainda possui o que Bagno chama de “arcaísmo”, ou seja, o uso do pronome tu, que reflete os mitificado “português correto” das antigas obras literárias e da fala comum em Portugal, mas que se encontra em vias de extinção no falar brasileiro.

– O que acontece com o português do Maranhão em relação ao português do resto do país é o mesmo que acontece com o português de Portugal em relação ao português do Brasil: não existe nenhuma variedade nacional, regional ou local que seja intrinsecamente “melhor”, “mais pura”, “mais bonita”, “mais correta” que outra. Toda variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam. Quando deixar de atender, a ela inevitavelmente sofrerá transformações para se adequar à novas necessidades.

Mito nº 6 “O certo é falar assim porque se escreve assim”

– o que acontece é que em toda língua mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico. A ortografia oficial é necessária, mas não se pode ensiná-la tentando criar uma língua falada “artificial” e reprovando como “erradas” as pronúncias que são resultado natural das forças internas que governam o idiomas.

– Seguindo o mesmo fio da falsa crença de que apenas a gramática normativa é o português correto, existe uma tendência a ensinar que se deve falar como se escreve. A aprendizagem correta da ortografia oficial é muito importante, pois a escrita é uniforme para toda a língua (todos precisam ler e entender o que está escrito), mas há uma supervalorização da escrita em lugar da fala. Os diferentes sotaques são expressões culturais próprias de cada indivíduo, e é impensável tentar suprimir esta identidade a fim de se criar uma língua falada que Bagno descreve como artificial. A escrita é uma tentativa de se expressar a fala, visto que a forma escrita por si só (ou seja, desacompanhada de pontuações e termos acessórios) não consegue demonstrar a quantidade de emoções que a fala o faria. Como argumento da importância da fala em relação à escrita, o autor nos mostra a importância de uma língua na sua forma falada para o estudo científico, pois esta é a sua representação mais atualizada, é nesta forma que ocorrem mudanças que estão a todo o momento transformando a língua. Além disso, “o aprendizado da língua falada sempre precede o da língua escrita, quando ele acontece. Basta citar os bilhões de pessoas que nascem, crescem, vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever! E no entanto ninguém pode negar que são falantes competentes de suas línguas maternas”.

Mito nº 7“É preciso saber gramática para falar e escrever bem”

– Segundo Mário Perini em Sofrendo a gramática (p.50), “não existe um grão de evidência em favor disso; toda a evidência disponível é em contrário”. Afinal, se fosse assim, todos os gramáticos seriam grandes escritores, e os bons escritores seriam especialistas em gramática.

A gramática normativa é decorrência da língua, é subordinada a ela, dependente dela. Como a gramática, porém, passou a ser um instrumento de poder e de controle. A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática.

Mito nº 8 “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”

– esse mito como o primeiro são aparentados porque ambos tocam em sérias questões sociais. A transformação da sociedade como um todo está em jogo, pois enquanto vivermos numa estrutura social cuja existência mesma exige desigualdades sociais profundas, toda tentativa de promover a “ascensão” social dos marginalizados é, senão hipócrita e cínica pelo menos de uma boa intenção paternalista e ingênua.

(resumo)
BAGNO, M. Preconceito lingüístico: o que é e como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.
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