De “Que país? Que povo? Que língua?”

Marcos Bagno

“De fato, brasileiro não sabe português, nem tem por que saber. O brasileiro sabe a sua língua, a língua do Brasil, que foi transmitida a cada um de nós dentro do útero de nossas mães brasileiras, que foi absorvida por cada um de nós junto com o leite materno, que foi apreendida por cada um de nós nos primeiríssimos anos de nossas vidas para nunca mais sair de nossa memória, de nossa mente, de nosso corpo, de nosso ser.”

O Brasil é um país gigantesco, 92 vezes maior que Portugal e com uma população 15 vezes mais numerosa; não cabe na imaginação tudo o que pode acontecer num território tão amplo, no meio de tanta gente. Portugal, por sua vez, é uma nação muito antiga, com uma história milenar, que remonta a muitos séculos antes de Cristo; tão antiga que suas origens só se conservam na bruma dos relatos míticos. Como querer dar o mesmo nome à língua falada aqui e lá, sobretudo depois de transcorrido meio milênio do primeiro contato?

Hoje, no entanto, no limiar do século XXI, a luta pelo reconhecimento da existência de uma língua caracteristicamente brasileira se apóia em outras bases, que são bases científicas consistentes, derivadas de pesquisas que recolhem e analisam a língua viva, a língua realmente usada pelos brasileiros; de descrições criteriosas dessa língua, com toda a sua rica heterogeneidade; de análises de suas múltiplas variedades regionais, sociais, etárias etc. Hoje existe uma ciência da linguagem, perfeitamente constituída como disciplina autônoma, com métodos próprios, com seus modelos de análise, com suas teorias, seus procedimentos de coleta de dados etc. Podemos citar como exemplos da investigação científica da gramática brasileira, entre muitos outros, os trabalhos de Tarallo (1991), Mattos e Silva (1997) e Galves (1998).

Durante trezentos anos ou mais, nossas amas-de-leite foram negras, elas nos embalavam com cantigas extraídas de sua ancestralidade africana, nos contavam histórias recolhidas de um tesouro narrativo não-europeu, nos falavam de entes sobrenaturais que nada tinham a ver com a mitologia ocidental nem com as concepções religiosas do cristianismo. Ora, que língua elas falavam? Que língua nós absorvemos junto com o leite dessas babás negras? Que língua terá ficado gravada também naqueles que tiveram mãe índia? Afinal, língua materna é ou não a língua que aprendemos com a mãe, com o leite da mãe, com a mãe-de-leite? Será honesto negar toda essa nossa herança, fingir que não houve nenhum influxo dessa ancestralidade negra e índia sobre a nossa língua e querer continuar alimentando a ilusão de que falamos a mesma língua dos donatários das capitanias, dos vice-reis e dos demais representantes do poder colonial?

No meu modo de ver as coisas, já é possível considerar o português do Brasil como uma língua românica de status igual ao do francês, do italiano, do espanhol etc. E de onde vamos puxar o braço do rio chamado português brasileiro? Evidentemente, esse braço nasce no ano de 1500, quando os portugueses chegaram por aqui. Como toda língua não pára de se transformar, no exato momento em que Cabral e seus marinheiros puseram o pé em nossas terras, a língua aqui começou seu processo de variação e mudança, que continuou ao longo de 400 anos até chegar no estágio em que se encontra hoje.

[…] Nenhuma língua, enquanto tiver gente falando ela, pode resistir às mudanças que ocorrem em suas estruturas com o tempo. Assim, passados 500 anos, tanto a língua de cá quanto a língua de lá se modificaram, cada uma delas numa direção, exibindo diferenças nessas mudanças, fazendo opções diferentes, escolhas diferentes. E a tendência, como indica o desenho, é à diferenciação sempre maior com o decorrer do tempo.

De “Que país? Que povo? Que língua?”
em http://www.marcosbagno.com.br

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