Brasil, mostra a tua língua! Afinal, existe ou não um Português brasileiro, diferente do idioma falado na antiga metrópole?

Maria Luiza Marques Abaurre*

Ao chegarem às costas brasileiras no´século XVI, as caravelas portuguesas encontraram pouco mais de um milhão de indígenas povoando as terras a serem colonizadas. Contabilizavam-se, então, cerca de 300 línguas indígenas diferentes. Como nos conta Pero de Magalhães Gandavo em seu Tratado de Terra do Brasil: Não se pode numerar nem compreender a multidão de bárbaro gentio que semeou a natureza por toda esta terra do Brasil […]. Havia muitos destes índios pela Costa junto das Capitanias, tudo enfim estava cheio delles quando começarão os portuguezes a povoar a terra […]

A língua deste gentio toda pela Costa he huma: carece de três letras – […] não se acha nella F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assi não tem Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente. O olhar simplista do conquistador estranha a inexistência de algumas consoantes na língua do colonizado e, com base em tal característica, emite um juízo de valor sobre sua organização social. Bárbaros, os gentios precisam ser resgatados pelos portugueses e isso significava, antes de mais nada, impor uma língua cristã, na qual a Fé, o Rei e a Lei governassem soberanos.

Como dominar tão extensa população indígena? Dizimando-os, escravizando os que fossem capturados e, principalmente,, aculturando-os pela imposição de uma nova língua. O processo de dominação lingüística ocorreu juntamente com a ocupação territorial e teve lances de grande genialidade, como o do padre José de Anchieta, o “apóstolo do Brasil”, que encontrou uma maneira bastante sugestiva de levar os índios à adoção do Português. Nas peças religiosas que encenava em suja missão. Anchieta fazia com que o português fosse a língua de expressão dos anjos: os demônios sempre falavam em tupinambá (ou tupi antigo).

O anseio pela identidade lingüística brota, como seria de esperar, em meio a todas as outras manifestações românticas de independência cultural. José de Alencar cumpre, então, importante função, procurando resgatar o papel do índio na construção do Português no Brasil, e povoa suas páginas com termos extraídos das línguas indígenas, conhecidas e descritas. Sua visão era idealizada – como de resto, tudo o mais no Romantismo – mas estabelecia de modo inequívoco a necessidade de proclamarmos a independência do Português do Brasil.

A nossa “liberdade lingüística”, porém, será conquistada cem anos mais tarde, em 1922, quando escritores modernistas, capitaneados por Mário de Andrade, pregarão o abandono da sintaxe lusitana e a adoção do que, no dizer de Manuel Bandeira, era a “Língua errada do povo/ Língua certa do povo/ Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”. Com a palavra, Mário de Andrade: Que importa que uns falem mole descansado/ Que os cariocas arranhem os erres na garganta/ Que os capixabas e paroaras escancarem as vogais? […]/ juntos formamos este assombro de misérias e grandezas/ Brasil, nome de vegetal!….

É hora de refletir mais uma vez sobre a polêmica existência de uma Língua Portuguesa do Brasil, distinta (portanto, independente) da falada em Portugal. Para tanto, porém, precisamos reconhecer a verdadeira questão que se esconde sob o que seria, aparentemente, apenas um problema lingüístico.

A língua de um povo talvez seja, dentre os vários aspectos culturais que o caracterizam, aquele que mais imediatamente lhe confere identidade. Defender a existência de um português brasileiro significa defender um traço cultural que marca nossa independência da metrópole colonizadora. Nossa maturidade lingüística traduz-se, assim, em elemento constitutivo de um caráter nacional, que nos fortalece como povo único, independente e livre. Que tenha longa vida, então, o Português do Brasil!

* Coordenadora de Língua Portuguesa do Sistema UNO de Ensino

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