Falamos a língua de Cabral?

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A língua do Brasil é definitivamente diferente da de Portugal. Os lingüistas brasileiros tentam agora traçar a origem dessas diferenças e descobrir para onde elas estão nos levando.
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Se é que Cabral gritou alguma coisa quando avistou os contornos do Monte Pascoal, certamente não foi “terra ã vishta”, assim com o “a” abafado e o “s” chiado que associamos ao sotaque português. No século XVI, nossos primos lusos não engoliam vogais nem chiavam nas consoantes – essas modas surgiram no século XVII. Cabral teria berrado um “a” bem pronunciado e dito “vista” com o “s” sibilante igual ao dos paulistas de hoje. Na verdade, nós, brasileiros, mantivemos os sons que viraram arcaísmos empoeirados para os portugueses.

Só que, ao mesmo tempo, acrescentamos à língua mãe nossas próprias inovações. Demos a ela um ritmo roubado dos índios, introduzimos subversões à gramática herdadas dos escravos negros e temperamos com os sotaques de milhões de imigrantes europeus e asiáticos. Deu algo esquisito: um arcaísmo moderno. O português brasileiro levou meio milênio se desenvolvendo longe de Portugal até ficar nitidamente diferente.

ESTUDIOSOS APRENDEM COM A POESIA

Luís de Camões (1524-1580) foi o maior poeta da língua. Mesmo assim, o escritor luso Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) achava seus versos péssimos. Há motivo para tal implicância. Um verso de Camões como “e se vires que pode merecer-te”, que para um poeta brasileiro é um decassílabo perfeito – frase de dez sílabas poéticas -, soa mal no ouvido de escritor luso moderno. “Os portugueses comem as vogais que precedem a sílaba tônica, a mais forte da palavra”, explica o gramático Evanildo Bechara, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Assim, o verso vira “e se v’res que pode m’recer-te”. Fica com só oito sílabas, estragando a métrica.

Poemas são o principal recurso de estudo da prosódia histórica, a área da Lingüística que estuda a evolução dos modos de falar. “Não é uma fonte perfeita, mas é a única”, lamenta Gladys Massini Cagliari, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Infelizmente, naquele tempo não havia gravador. “Graças aos versos, os pesquisadores sabem que Cabral, morto quatro anos antes de Camões nascer, dividia as sílabas como nós, brasileiros. Ou seja, o hábito de engolir vogais surgiu na Península Ibérica depois do século XVI e consolidou-se na língua aos poucos, naturalmente.

CALDEIRÃO DE POVOS

Mas, se há semelhanças entre a língua do Brasil de hoje e o português arcaico, há também muito mais diferenças. Boa parte delas é devida ao tráfico de escravos, que trouxe ao Brasil um número imenso de negros, que não falavam português. “Já no século XVI, a maioria da população da Bahia era africana”, diz Rosa Virgínia Matos e Silva, lingüista da Universidade Federal da Bahia. “Toda essa gente aprendeu a língua de ouvido, sem escola”, conta. Na ausência de educação formal, a mistura de idiomas torna-se comum e traços de um impregnam o outro. “Assim, os negros deixaram marcas definitivas”, ressalta ela.

Também no século XVI, começaram a surgir diferenças regionais no português do Brasil. Num pólo estavam as áreas costeiras, onde os índios foram dizimados e os escravos africanos abundavam. No outro, o interior, onde havia sociedades indígenas. À mistura dessas influências vieram se somar as imigrações, que foram gerando diferentes sotaques. “Com certeza, o Brasil hoje comporta diversos dialetos, desde os regionais até os sociais, já que os ricos não falam como os pobres (veja o mapa ao lado)”, afirma Gilvan Müller de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina.

Mas o grande momento de constituição de uma língua “brasileira” foi o século XVIII, quando se explorou ouro em Minas Gerais. “Lá surgiu a primeira célula do português brasileiro”, diz Marlos de Barros Pessoa, da Universidade Federal de Pernambuco. “A riqueza atraiu gente de toda parte – portugueses, bandeirantes paulistas, escravos que saíam de moinhos de cana e nordestinos.” Ali, a língua começou a se uniformizar e a exportar traços comuns para o Brasil inteiro pelas rotas comerciais que a exploração do ouro criou.

FALAS BRASILEIRO?

A lei da evolução, de Darwin, estabelece que duas populações de uma espécie, se isoladas geograficamente, separam-se em duas espécies. A regra vale para a Lingüística. “Está em gestação uma nova língua: o brasileiro”, afirma Ataliba de Castilho.

Há quem seja ainda mais assertivo. “Não tenho dúvida de que falamos brasileiro, e não português”, diz Kanavillil Rajagopalan, especialista em Política Lingüística da Unicamp. “Digo mais: as diferenças entre o português e o brasileiro são maiores do que as existentes entre o hindi, um idioma indiano, e o hurdu, falado no Paquistão, duas línguas aceitas como distintas.” Kanavillil nasceu na Índia e domina os dois idiomas.

O gramático Evanildo Bechara discorda. “Não há nada no português brasileiro que não exista em Portugal”, argumenta. “Falamos a mesma língua.” Do que ninguém duvida é que nosso modo de usá-la é bem diferente do de Cabral. O português do Brasil é único, é só nosso. Finalmente os cientistas o estão decifrando.

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2 Respostas

  1. Nunca poderia imaginar que a o português mais bem preservado é o do Brasil e não o de Portugal. Desse modo, como nós brasileiros falamos a língua de Cabral e de Camões, então os portugueses falam o português de quem?

  2. Lan, pior é nos depararmos com esse tipo de comentário em blogs por aí :

    “nós somos angolanos, aprendemos o português de Portugal, trabalhámos as terras do Brasil (sim amigos brasileiros, não falem de histórias de escravatura, o meu povo também trabalhou nessas terras!) sob escravatura e voltámos às nossas origens com a capacidade de comunicar com outros povos (Cabo Verde, Guiné, etc.). Temos um vida e uma cultura diferente de Portugal mas nunca propusemos nenhuma mudança linguística porque isso não faria nenhum sentido. Tal como a pirataria, o “gravado” é barato mas não tem qualidade enquanto o original é valioso, estimado e comprado por quem realmente o ama. E a diferença está aí! Não é uma questão de evolução mas uma questão de manter a cultura e as nossas raízes. Se nós não cuidamos do que é nosso, quem cuidará? Os americanos e os australianos jamais propuseram tal acordo à coroa britânica, o mesmo se passa com o Canadá e a França e a América Latina e a Espanha. Brasil está no seu direito de mudar o que quiser. O mesmo para Portugal. Mas que uma coisa fique esclarecida, a língua portuguesa não é do Brasil; a língua portuguesa é de todos os seus falantes. O Brasil lembra-se da sua “bunda” mas esquece o “cu” dos portugueses e do “rabo” dos milhões dos africanos que, realmente, falam português! Portugal que não se esqueça simplesmente do que o povo e o governo angolano disse: ‘se Portugal mudar o “Português” então Angola deixa de falar essa língua! Há que “evoluir”, não é verdade?’.”

    http://encontrei.wordpress.com/2007/12/24/acordo-ortografico-relativamente-ao-acordo-do-desacordo/#comment-1879

    Recomendo também este artigo:
    https://brasiliano.wordpress.com/2008/04/20/lingua-brasileira/

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