As Duas Línguas do Brasil

Mário A. Perini

“As diferenças são muitas, como todos sabemos. Elas constituem uma das dificuldades principais que enfrentamos na escola, ao tentar produzir textos escritos. Aliás, por que temos tanta dificuldade em escrever textos em português? Não é a nossa língua materna?

A resposta é simples, mas pode surpreender alguns: não, o português (que aparece nos textos escritos) não é nossa língua materna. A língua que aprendemos com nossos pais, irmãos e avós é a mesma que falamos,mas não é a que escrevemos. As diferenças são bastante profundas, a ponto de, em certos casos, impedir comunicação (que criança de cinco anos entende empreste-lho?)

Em outras palavras, há duas línguas no Brasil: uma que se escreve (e que recebe o nome de “português”); e outra que se fala (e que é tão desprezada que nem tem nome). E é esta última que é a língua materna dos brasileiros; a outra (o “português”) tem de ser aprendida na escola, e a maior parte da população nunca chega a dominá-la adequadamente.

Vamos chamar a língua falada no Brasil de vernáculo brasileiro (ou, para abreviar, simplesmente vernáculo). Assim, diremos que no Brasil se escreve em português, uma língua que também funciona como língua de civilização em Portugal e em alguns países da África. Mas a língua que se fala no Brasil é o vernáculo brasileiro, que não se usa em Portugal nem na África.

O português e o vernáculo são, é claro, línguas muito parecidas, mas não são em absoluto idênticas. Ninguém nunca tentou fazer uma avaliação abrangente de suas diferenças; mas eu suspeito que são tão diferentes quanto o português e o espanhol, ou quanto o dinamarquês e o norueguês. Isto é, poderiam ser consideradas línguas distintas, se ambas fossem línguas de civilização e oficialmente reconhecidas.

Mas sendo as coisas como são, tendemos a pensar que vernáculo é simplesmente uma forma errada de falar português. Só que, para que o vernáculo fosse “errado”, teria de existir também uma forma “certa” de falar; mas no Brasil não se fala, nem se pode falar português. Imagine o seu companheiro de estádio de futebol dizendo: Empreste-lo um minuto. Ou então uma mocinha dizendo para a melhor amiga: Se eu vir amanhã, devolver-lhe-ei estas velhas fitas de vídeo.

É evidente que essas pessoas ficariam, no mínimo, com fama de pedantes.(…)

Assim, o “certo” (isto é, aceito pelas convenções sociais) é escrever português e falar vernáculo. Não pode haver troca: é “errado” escrever vernáculo e é também “errado” falar português. Não sei se gosto dessa situação; mas é um fato arraigado em nossa cultura e temos de conviver com ele.

Agora, uma observação: o vernáculo é a língua materna de mais de cento e cinqüenta milhões de pessoas, que o utilizam constantemente e não conhecem outra língua. Mas não se escreve a não ser em ocasiões particulares, não aparece na grande imprensa e não tem grande tradição literária: além disso, não é reconhecido como língua oficial. Isso faz do vernáculo uma língua ágrafa, como as que examinamos na primeira parte deste ensaio. Não só isso, mas com toda probabilidade a maior língua ágrafa do mundo.

Já houve tentativas, ou pelo menos sugestões, de que se passasse a escrever em vernáculo no Brasil. Mário de Andrade passou vários anos escrevendo uma gramatiquinha da fala brasileira, que nunca chegou a publicar, e que concebia como “parte de um projeto mais amplo, de redescoberta e definição do Brasil” (Edith Pimentel Pinto, em sua edição da gramatiquinha).

Como se sabe, Mário utilizava uma linguagem muito mais próxima do vernáculo do que o português escrito atual. Como disse ele: “Não pensem que vou defender Portugal e me tornar simpático pros portugas nacionalistas não.”

No entanto, isso não vingou, pelo menos até o momento. Continuamos a escrever o vernáculo uma maneira errada de falar. Pessoalmente, não tenho grandes objeções quanto a se escrever português; mas acho importante que se entenda que ele é (pelo menos no Brasil) apenas uma língua escrita. Nossa língua materna não é o português, é o vernáculo brasileiro — isso não é um slogan, nem posição política; é o simples reconhecimento de um fato.”

Texto resumido e adaptado.
Leia o texto completo

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