Uma nova língua

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Diferente do que a maioria imagina, o grito de Cabral não veio com aquele típico sotaque português – que soaria algo como “terra ã vishta” -. Abafar as vogais e chiar as consoantes ainda não era comum na Portugal do século XVI, e o sotaque de nossos parentes lusos daquela época seria algo como o sotaque dos paulistas no dia de hoje. Os brasileiros mantiveram esses sons até hoje, mas são tratados como um sotaque arcaico na terra do bacalhau.

No início da colonização portuguesa no Brasil, o tupi era a língua mais falada na colônia, seguido de longe pelo português importado de terras estrangeiras. Essa situação só mudou devido aos esforços dos padres jesuítas em ensinar os índios e difundir o “novo” idioma, isso até que, em 1757, falar o tupi fosse proibido por lei. Mesmo assim, ele se adaptou à língua lusa, sobrevivendo com algumas palavras em nosso vocabulário – assim como abacaxi, mandioca e alguns nomes próprios e geográficos.

Dessa forma, supostamente, nasceu a língua brasileira. “Não tenho dúvida de que falamos brasileiro, e não português”, defendeu o especialista em lingüística política da Unicamp, Kanavillil Rajagopalan, em entrevista à revista SuperInteressante.

Cuma que iscrevinho?

Depois de meio milênio se desenvolvendo longe de Portugal, a língua portuguesa, em solo tupiniquim, começou a ficar nitidamente diferente de sua raiz lusitana. A mistura das palavras de vários idiomas nativos e o tempero de dialetos provenientes de milhões de imigrantes europeus e asiáticos deu origem a um novo português, mais abrangente e em constante mudança. A grande maioria dos estudiosos elogia essa diversidade lingüística. “Eu acredito que a língua evolui através das gerações e as mudanças são sempre algo que enriquecem o vocabulário”, afirmou a estudante de Letras Bruna Pigatto.

Porém, alguns filólogos conservadores acreditam que o povo é que precisa se adaptar à língua e não vice-versa. Napoleão Mendes de Almeida causou polêmica ao afirmar em seu livro Dicionário de Questões Vernáculas que “os delinqüentes da língua portuguesa fazem do princípio histórico ‘quem faz a língua é o povo’ verdadeiro mote para justificar o desprezo de seu estudo e de sua gramática – esquecidos de que a falta de escola é que ocasiona a transformação, a deterioração e o apodrecimento de uma língua”.

Na defesa da língua, Almeida chega a ser preconceituoso, ao afirmar que o português formal precisa ser defendido para que, “cozinheiras, babás, vagabundos, assassinos e criminosos”, não sejam considerados mestres da sintaxe e legítimos defensores do vocabulário. Exageros à parte, sempre foi muito discutido se essa diversidade é apenas um fator natural e evolutivo ou se é prejudicial para a própria cultura brasileira.

Novas regras da Língua Portuguesa
Reprodução: Folha de S. Paulo (Texto resumido e adaptado)
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