Produção científica do Brasil ultrapassa a da Rússia, indica levantamento

BBC Brasil

A produção científica brasileira ultrapassou a da Rússia, antiga potência na área, caminha para superar também a da Índia e se consolidar como a 2ª maior entre os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), segundo levantamento feito pela Thomson Reuters.

O levantamento acompanhou a produção científica nos quatro países com base na análise das 10.500 principais revistas científicas do mundo.

Segundo a pesquisa, a produção brasileira avançou de 3.665 para 30.021 artigos científicos publicados entre 1990 e 2008. No mesmo período, a produção russa manteve-se estável – o número de 1990, de 27.603 artigos, é praticamente o mesmo que o de 2008 – 27.605 artigos.

A produção científica da Índia, que em 1990 contabilizava 13.984 artigos publicados, chegou a 38.366 artigos em 2008.

Se o índice de aumento da produção científica dos países se mantiver, o Brasil deverá ultrapassar a Índia nos próximos anos.

O levantamento indica ainda que a produção científica chinesa, que em 1990 ainda estava atrás da russa e da indiana, com 8.581 artigos, chegou a 2008 com 112.318 artigos, numa expansão que, se mantida, verá a China ultrapassar os Estados Unidos e se tornar líder mundial em produção científica até 2020.

Dados revisados

Segundo Jonathan Adams, diretor de avaliação de pesquisas da Thomson Reuters, os dados dos levantamentos foram revisados após 2007, para evitar que a base de revistas científicas analisadas refletisse um viés pró-países desenvolvidos.

“A revisão dos dados levou a uma considerável elevação do número de artigos científicos de China, Brasil e Índia. Porém essas elevações refletiram tendências já evidentes nos dados, em vez de mudar a trajetória geral”, explicou Adams à BBC Brasil.

Segundo ele, os dados dos últimos anos já indicavam que a produção brasileira superaria a russa, o que ficou expresso nos números de 2008, mas ele observa que, se a base de análise já tivesse sido revista antes, isso já teria acontecido há vários anos.

De acordo com os últimos dados compilados, de 2008, a produção científica brasileira naquele ano representou 2,6% do total de 1.136.676 artigos publicados em todas as 10.500 revistas analisadas. Em 1990, o Brasil tinha apenas 0,6% da produção mundial.

A produção científica americana – 332.916 artigos em 2008 – ainda representa 29% de todos os artigos publicados no mundo, enquanto a chinesa é de 9,9%. Em 1990, porém, os Estados Unidos tinham 38% de toda a produção científica mundial, enquanto a China respondia por apenas 1,4% do total.

No mesmo período, a produção russa, que já foi considerada uma das mais avançadas do mundo, passou de 4,7% do total em 1990 para apenas 2,4% em 2008.

A produção indiana, por sua vez, teve sua participação no total mundial elevada de 2,3% para 3,4% no período, numa elevação proporcionalmente menor que as da China e do Brasil.

Gastos

Em sua análise da produção científica do Brasil, a Thomson Reuters observa que os gastos com pesquisa e desenvolvimento no Brasil chegaram em 2007 a quase 1% do PIB, proporção inferior aos cerca de 2% gastos nos Estados Unidos e na média dos países de desenvolvidos, mas ainda bem acima de outros países latino-americanos.

Segundo o levantamento, o Brasil tem 0,92 pesquisador para cada mil trabalhadores – bem abaixo da média de 6 a 8 pesquisadores por mil trabalhadores dos países do G7, o grupo das nações mais industrializadas do planeta.

Apesar disso, o documento afirma que a proporção brasileira é semelhante à de outros países em desenvolvimento, como a própria China, e que a base de pesquisadores vem crescendo.

Segundo a Thomson Reuters, o Brasil formou cerca de 10 mil novos pesquisadores doutores no último ano analisado, num crescimento de dez vezes em 20 anos.

O levantamento indica ainda que a produção científica do país é mais forte em áreas como pesquisas agrícolas e ciências naturais.

BBC Brasil

Desemprego retorna ao menor nível desde 2002

Fabricia Peixoto -BBC Brasil | 2010-01-28, 12:46

O Brasil registrou uma taxa de desemprego de 6,8% no mês de dezembro – número que se iguala ao índice de dezembro de 2008 e representa o menor nível desde 2002.

O número de desocupados no país havia subido no início do ano, como consequência da crise financeira internacional, chegando a 9% em março. Desde então, o cenário veio melhorando mês a mês.

A parcela de trabalhadores com carteira assinada (9,8 milhões) cresceu 1,5% em relação novembro e manteve-se estável em relação a dezembro de 2008.

Ainda de acordo com o IBGE, o rendimento médio real do brasileiro (que não considera extras, como 13º salário e férias) ficou em R$ 1.344 em dezembro, número 0,9% menor do que o registrado em novembro. Em relação a dezembro de 2008, o valor cresceu 0,7%.

Jornal português decide não adotar novo acordo ortográfico

Redação CORREIO – 02.01.2010

O Jornal Público, de Portugal, decidiu que não irá adotar o acordo ortográfico que propõe unificar a língua portuguesa em todo mundo. No editorial do dia 30 de dezembro, o jornal disse que  ‘vamos continuar a escrever a nossa língua como a escrevemos hoje’.

Para o jornal, não há vantagens ou necessidade premente do acordo. ‘Excluindo a polémica sobre a “tradição” do português e o papel das consoantes mudas e as suas variações nos oito países da CPLP, há ainda uma última e fatal fragilidade neste acordo – as regras definidas são facultativas. Para que serve então um acordo global se, afinal, é indiferente escrevermos António ou Antônio?’, diz o texto.

O acordo está em vigor desde janeiro de 2009, mas a regra atual vale para vestibulares e concursos públicos até dezembro de 2012. A novidade chegará aos livros didáticos em 2010, quando os próximos exemplares deverão ser editados de acordo com a nova ortografia.

Fonte: Correio

LUSOFONIA OU ILUSOFONIA?

Marcos Bagno – Setembro de 2009

Na conferência de encerramento de um importante congresso de linguística realizado em Salvador em julho último, o linguista Carlos Alberto Faraco perguntava: “Lusofonia, utopia ou quimera?” Fazendo uma preciosa análise das diferentes “fonias” existentes (a francofonia, a anglofonia e a hispanofonia), Faraco concluiu que a tal “lusofonia” está anos-luz de distância de ser algo parecido com essas outras poderosas políticas linguísticas. Nós, brasileiros, pouco nos lixamos para ela, que é um tema muito mais debatido em Portugal do que nos demais países de língua oficial portuguesa. Ao contrário das demais “fonias”, a lusa não tem instituições fortes e atuantes, que de fato causem impacto nos lugares onde atuam. Tudo se resume a entidades inócuas e a um discurso de samba-exaltação sem consequências concretas. Ao contrário das outras também, que são sustentadas por nações importantes e ricas – França, Grã-Bretanha (a chamada Commonwealth não inclui os Estados Unidos, somente as ex-colônias britânicas tornadas independentes durante o século XX) e Espanha (quinta maior economia da Europa) -, a lusofonia tem como principal arauto um país em tudo periférico da União Europeia, desimportante na geopolítica mundial e nem de longe uma potência econômica. Não bastasse isso, os demais países “lusófonos”, excetuando-se o Brasil, encabeçam a lista das nações mais pobres e subdesenvolvidas do mundo: Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Timor. As três primeiras dependem exclusivamente da ajuda internacional para sobreviver. Com isso, dá para dizer que se trata, de fato, de uma “ilusofonia”, uma quimera que Portugal não tem a menor possibilidade de sustentar. Ainda assim, Portugal age com prepotência colonial: não reconhece os certificados de proficiência em português emitidos pelo Brasil e impede (por lei!) que professores brasileiros ocupem as cadeiras de ensino da língua em universidades estrangeiras. Na União Europeia, proíbe-se que os tradutores simultâneos para o português sejam brasileiros… Portugal parece se alimentar do mito bíblico de Davi contra Golias, mas a realidade sociopolítica e econômica do mundo atual é coisa muito mais séria do que qualquer mito sebastianista de Quinto Império. No entanto, isso não nos autoriza a jogar no lixo o projeto de uma comunidade de povos falantes do português. O fundamental é que ela seja conduzida, em conjunto, pelos dois únicos países em que o português é língua hegemônica em todo o território: Brasil e Portugal. E que o Brasil abandone sua secular posição de subserviência e mostre a Portugal que quem manda mesmo, hoje, na língua, somos nós e que cabe a Portugal, isso sim, seguir os passos das políticas linguísticas que nós propusermos. O caso recente do acordo ortográfico foi exemplar. Como me disse Gilvan Müller de Oliveira, especialista em política linguística, “Portugal saiu para pescar e quando voltou o Acordo Ortográfico já estava implantado e ele não podia fazer mais nada”. A chiadeira portuguesa contra a nova ortografia não pode alterar o fato consumado. O Acordo, que o Brasil já implementou com tremendo sucesso (apesar das críticas bobocas e desinformadas de muita gente), representa um passo gigantesco na promoção de uma verdadeira política lusófona, na qual ou Portugal se conforma com a posição que lhe cabe ou vai ficar numa obscuridade periférica ainda mais profunda do que aquela em que já está mergulhado, com saudades do que não foi.

Revista Caros Amigos

O Brasil dos viajantes

Um país exótico, simples e analfabeto emerge dos relatos dos estrangeiros que visitaram os trópicos no século 19

por Laurentino Gomes

No começo do século 19, o Brasil era o último grande pedaço habitado do planeta ainda inexplorado pelos europeus que não fossem portugueses. A África, a China e a Índia já eram bem conhecidas pelos ingleses, holandeses e espanhóis, devido às intensas relações comerciais estabelecidas desde o século 16. O mesmo acontecia com o restante do continente americano, incluindo Estados Unidos, Canadá e as colônias espanholas, que não impunham grandes restrições à entrada de estrangeiros. Havia, é claro, pontos de difícil acesso, como o Japão e a Oceania. Mas nada se comparava ao Brasil.

A proibição de entrada imposta pelos portugueses fazia da colônia um lugar misterioso aos olhos dos estrangeiros, graças aos rumores sobre as imensas riquezas minerais escondidas no subsolo e as infindáveis florestas tropicais repletas de plantas e animais exóticos e índios que ainda viviam na Idade da Pedra. Tudo isso mudaria rapidamente com a chegada da corte e a abertura dos portos. O resultado foi uma invasão estrangeira sem precedentes.

Em 1949, o pesquisador Rubens Borba de Moraes catalogou um total de 266 viajantes que haviam escrito sobre o povo, a geografia e as riquezas brasileiras. Desses, a grande maioria visitou o país nas décadas seguintes à abertura dos portos. Todos registraram suas impressões em livros, cartas e relatórios oficiais, o que tornou esse um dos períodos mais bem documentados da história brasileira. Essas obras incluem descrição de cidades, paisagens, tipos humanos, hábitos e costumes, inúmeras observações e muitas descobertas científicas. São relatos deslumbrados, de pessoas surpreendidas pela beleza de uma terra idílica, intocada e repleta de novidades. [...]

Terra de abundância

Rose Marie de Freycinet viveu uma história de romance e aventura, dessas que só aparecem no cinema. Em 1817, tinha 25 anos e era casada com o oficial da Marinha francesa Louis Claude Desoulces de Freycinet (1779-1842). Foi quando soube que o marido acabara de receber o comando de uma missão que o levaria a ficar dois anos fora de casa. Inconformada com a notícia, Rose Marie tomou uma atitude surpreendente: cortou os cabelos, enfaixou os seios e, disfarçada de homem, embarcou clandestinamente no navio na véspera da partida. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em dezembro do mesmo ano, achou tudo muito bonito, o clima agradável, apesar do verão escaldante, mas registrou no seu diário comentários devastadores para os portugueses e brasileiros. “Pena que um país tão lindo não seja colonizado por uma nação ativa e inteligente”, escreveu, referindo-se a Portugal. “Os brasileiros se destacam pela abundância, mais que pela elegância do serviço.”

Existem algumas imagens recorrentes nos relatos dos estrangeiros. A primeira é a de uma colônia preguiçosa e descuidada, sem vocação para o trabalho, viciada por mais de três séculos de produção extrativista. O inglês Thomas Lindley, que percorreu o litoral próximo a Porto Seguro, na Bahia, ficou surpreso ao constatar que a abundância de recursos naturais do Brasil não resultava em riqueza, desenvolvimento ou conforto material para os brasileiros. “Num país que, com o cultivo e a indústria, chegaria à fartura com as bênçãos excessivas da natureza, a maior parte do povo sobrevive em necessidade e pobreza, enquanto mesmo a minoria restante não conhece os desfrutes que fazem a vida desejável”, escreveu.

Outra imagem frequente é a do analfabetismo e da falta de cultura. “O Brasil não é lugar de literatura”, afirmou James Henderson. “Na verdade, sua total ausência é marcada pela proibição geral de livros e a falta dos mais elementares meios pelos quais seus habitantes possam tomar conhecimento do mundo e do que se passa nele. Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância.”

Texto resumido da Revista Aventuras da História

O bom gerúndio

É preciso cuidado para que o combate ao gerundismo não torne marginais os usos legítimos de locuções com gerúndio
Luiz Costa Pereira Junior

O uso indiscriminado do gerúndio – a endorreia, o emprego viciado de formas como “vou estar passando o recado” – pode estar longe de ser erradicado, mas já tem uma vítima involuntária: o próprio gerúndio.

Uma década depois de o fenômeno se propagar feito gripe pelo país, especialistas começam a perceber que o combate ao uso repetitivo do gerúndio nas perífrases (dois ou três verbos numa locução verbal) criou em muita gente uma aversão a qualquer tipo de gerúndio, mesmo quando este é a forma mais adequada para apresentar uma ideia.

Para a professora de português da USP Elis Cardoso de Almeida, vive-se hoje o efeito colateral das campanhas de combate ao vício, com risco de confusão entre as construções sintáticas condenadas e as de uso corrente.

- Pode acontecer com o gerundismo o que ocorreu com construções como “a nível de”, que sofreu retração de uso ao ser discutida intensamente em público. Mas não se pode esquecer que há um uso adequado quando está em jogo a ideia de futuro durativo ou contínuo, como em “Não vou poder entregar o texto pois na ocasião vou estar viajando”.

Há quem evite o trenzinho verbal (“vou estar + gerúndio”) para não dar ao ouvinte a impressão de que houve má aplicação. O comum, no entanto, é reprimir as perífrases por hipercorreção – corrigir o que se considera erro até quando não há, numa falsa analogia que se imagina correta e requintada, por equivaler a outra.

Fora da escrita
O exagero do combate, no entanto, pode levar a distorções comunicativas. O gerundismo é considerado, por exemplo, pouco econômico. Afinal, é mais longa a construção “vou estar conversando” do que o futuro simples “conversarei” ou o composto “vou conversar”. Tornada atitude crônica, a concisão pode ser não raro imprecisa, lembra o linguista da Unicamp, John Robert Schmitz. Segundo ele, nem sempre as formas mais econômicas do que o trenzinho verbal evitam problemas. Imaginemos um recente folheto de orientação de trânsito do governo municipal de São Paulo:

“Cuidado: mesmo que os automóveis estejam parados, os ônibus, motos e táxis podem estar andando na faixa exclusiva”. O “podem estar andando” daria lugar a outro sentido se fosse substituído por “podem andar”. No primeiro caso, há alerta. No outro, uma liberação. O problema, dizem os especialistas, é quando se condena o uso do gerúndio em qualquer perífrase, com comandos como: “O gerúndio nunca vem depois de um verbo no infinitivo”.

- Não dá para condenar o uso da locução sem examinar seu contexto. Faz sentido dizer “vou estar providenciando” se de fato vou ficar muito tempo fazendo isso – declarou à Língua a professora Maria Helena de Moura Neves, da Unesp.

É preciso pôr os pontos nos ii, portanto. O gerúndio (amando), o infinitivo (amar) e o particípio (amado) são formas nominais do verbo porque, embora com valor verbal, desempenham a função de substantivos e adjetivos. O particípio “amado” apresenta ação concluída. O infinitivo “amar” é pontual: traz o processo verbal em potência; exprime a ideia da ação ou do evento.

O infinitivo pode ter função de substantivo (amar é sofrer = o amor é sofrimento). O particípio pode funcionar como adjetivo (mulher amada). Já o gerúndio pode ter função adverbial ou adjetiva (chovendo, não jogarei = se chover, não jogarei; água fervendo = água fervente). Ele flagra o processo verbal em andamento.

É diferente dizer “caiu do cavalo e esfaqueou o oponente” e “caindo do cavalo e espetando o oponente”. A segunda oração dá ideia de movimento que a outra não tem. “Caindo” e “espetando” descrevem ação contínua, mas que não acabou ou evolui sem hora para ser concluída.

Endorreia
A estrutura com três verbos (“ir” + “estar” + gerúndio), por sua vez, traz os auxiliares “ir” no presente do indicativo (vou, vai, vamos), que remete a ação para o futuro, e “estar”, que emite a sensação de continuidade da ação.

Um primeiro problema é quando se usa esse trem verbal para indicar uma duração que a ação não pede.

“Não ligue amanhã pois vou estar viajando” significa que a viagem não se resume a um dado número de horas, mas a pessoa terá todo o dia afetado por ela. Quando a informação não supõe essa duração, há curto–circuito comunicativo.

Assim, ao ouvir “vou fazer”, o interlocutor entende que assumimos um compromisso com ele, mas “vou estar fazendo” pode lançá-lo à expectativa – se esta não é a intenção de quem fala, o gerundismo se instala. Se usado para comunicar uma ação que durará no tempo ou se repetirá no espaço, o trem do gerúndio se ajusta à função desejada (ver quadro da página anterior). Caso contrário, é como usar uma chave de fenda para bater pregos.

Pouco interessa a origem do vício. O gerundismo bem pode ter nascido de contextos de formalidade, em que um intermediário é encarregado de mediar o contato de seus superiores com estranhos. Onde há expectativa de uma pessoa em torno da ação de outra, o gerundismo pode proliferar.

Brasilidade
Há quem desconfie que o gerúndio seja uma preferência nacional. Idiomas como alemão, holandês e francês não desenvolveram formas verbais com ele. Outros não os têm com a abundância do sistema verbal brasileiro. Embora povos de língua inglesa e espanhola tenham gerúndio, nós o usamos com uma frequência e variedade que impressiona. A ponto de não ser incomum a tentação determinista de ver no gerúndio um traço cultural do país inteiro. A escritora Nélida Piñon, por exemplo, declarou à Língua que considera o gerúndio “um tempo verbal deslumbrante”.

- O europeu é atado ao espartilho do infinitivo (“estar a fazer”). Nós, não. Nós temos a noção de que estamos agora aqui, mas daqui a pouco estaremos ali; há uma velocidade interna no nosso sentimento da língua, um nervosismo de estar em outro lugar que não aquele em que estivéramos até então. Temos necessidade de abranger um país amplo, de abarcar tantas experiências humanas, e o gerúndio corresponde a essa velocidade interior – defendeu Nélida.

Sob tal ponto de vista, o gerundismo marcaria uma oposição bem brasileira entre promessa e esperança, forma categórica e relativização. Tal ideia pode ser só um mito, mas a proliferação do trem verbal é considerada pelos pesquisadores de linguagem um exemplo, não o único, da produtividade do brasileiro em encontrar aplicações ao gerúndio.

Usos e abusos
Para o linguista José da Silva Simões, professor de alemão da USP, é alta a versatilidade brasileira no uso do gerúndio. Simões, que em 2007 defendeu tese de doutorado sobre o assunto, acredita que há contextos sintáticos em que o gerúndio pode ser usado para encobrir o sujeito que enuncia ou para evidenciá-lo.

Em sua forma não composta, em construções adverbiais, pode encobrir a autoria de uma ação. O sujeito apaga a sua pessoa e não se compromete, por exemplo, ao começar uma frase com condicionais, como “Pensando sob esse ponto de vista…”. Aqui, o enunciador não quer deixar evidente sua condição de autoria, manifesta no equivalente “Penso que”.

É o que pensa, também, o professor de letras da Uerj José Carlos Azeredo, para quem, na perspectiva enunciativa, o gerúndio pode servir a uma estratégia de dissimulação de autoria.

- O Brasil criou expressões em que o gerúndio se gramaticalizou como preposição ou advérbio. Em “Considerando que você é meu amigo, faça isso para mim”, não é o falante quem considera. Há uma atribuição de autoria a um ser indeterminado. Uma vez que não traz marca do sujeito, e não tem flexão, recorre-se ao gerúndio para esconder a autoria da declaração.

Defesa
Como o trem verbal com gerúndio, esse tipo de construção é uma “defesa da face” do enunciador.
- O enunciador constrói o enunciado de tal maneira que o preserva de ser responsabilizado pelo insucesso de algo – diz Azeredo.

Para Simões, o gerúndio é historicamente uma opção ao uso da conjunção causal (porque, pois, uma vez que), concessiva (embora, conquanto, ainda que, mesmo que, posto que, apesar de que) ou condicional (caso, quando, salvo se, sem que, dado que, desde que, a menos que), mais impositivas.

- Dizer “Não prestando atenção, o problema ocorreu” é uma maneira de atenuar o sentido dado pela conjunção causal em “Porque você não prestou atenção, o problema ocorreu” – esclarece Simões.

Trata-se de estratégia pragmática, que se fia na suposição retórica de que a recepção de uma formulação como “Se eu não achar a caixa preta do avião…” é diferente da de “Não se achando a caixa preta do avião…”.

- Em construções adverbiais, como “Pensando nos órfãos”, “Partindo do pressuposto da linguística” ou “Voltando ao assunto…”, a pessoa delimita o campo de discussão ou redireciona o assunto que vem em seguida e evita formulações que o comprometam.

Segundo Simões, o gerúndio adverbial, por natureza uma construção formal, também serve para simular consistência. “Geograficamente falando” (em lugar de “Se você observar o aspecto geográfico da questão”) estabelece um domínio de conhecimento, o suporte técnico em que se escuda a declaração.

Identificação
O gerúndio brasileiro é rico o suficiente para ter casos em que intensifica a identidade, em vez de atenuá-la. Sem o sujeito, a oração adverbial pode delimitar domínio de conhecimento, direcionar o foco da conversa. Com sujeito, ela presentifica a ação e serve como digressão, num processo que, para Simões, lembra a nominalização.

É o traço comum de sentenças como “O que é isso, todos falando junto?”, “Essa gente toda dependendo do pai” ou “As crianças, tudo precisando da família”. O verbo aqui promove a presentificação de um evento, independentemente de ele ser passível de ser conjugado no presente, no passado ou no futuro. Traz consigo a ideia de continuidade, de atividade que se repete, mas essa repetição está cristalizada naquele momento. Assim é com “Todo mundo querendo dormir e você fazendo barulho”, em que “querer dormir” é algo habitual, e o barulho interrompe o hábito. Ou: “Nós sempre aguentando os problemas com cara alegre” (sempre aguentamos).

O gerúndio veio do contexto formal. Era usado em textos litúrgicos e jurídicos. Do latim para línguas românicas, chegou à fala. No português de Camões eram comuns estruturas como “Estou cantando”. Mas o português europeu se modernizou. O Brasil manteve a estrutura e a desenvolveu como Portugal não o fez.

- Nosso gerúndio saiu da formalidade e se reorganizou. Por isso temos tantos – diz Simões.

Verbo “estar”

A intensidade de uso das construções com gerúndio e particípio parece, de quebra, ter mudado a caracterização de verbos auxiliares que ladeiam o gerúndio no trem verbal.

Para Ataliba de Castilho, da USP, o auxiliar “estar”, ligado a gerúndio ou particípio, mudou seu caráter morfológico e semântico.
- Ele tem virado morfema prefixal que assinala ação acabada em “tá falado” – diz o professor.

Ali, com o particípio passado, diz Ataliba, “estar” assinala ação contínua que se aproxima do aspecto perfectivo (no sentido de “foi combinado”, “concluído”), similar à do presente do indicativo.

- Talvez esteja sendo criada uma forma composta do presente do indicativo, sem diferença, por exemplo, entre “eu falo” e “estou falando”. O presente é o único tempo que não tem forma composta, e o verbo “estar” parece garantir cada vez mais a existência de uma espécie de presente do indicativo composto.

Evolução
Nesse sentido, as construções com gerúndio precedido de “ir” + “estar” são reflexos de um desenvolvimento natural no idioma.

- A repetição é que incomoda. Uma frase seguida da outra, sempre iniciada com gerúndio, torna qualquer texto pesado – diz Simões.

Para Elis Cardoso de Almeida, o problema mais grave com o gerundismo nem é a construção em si, mas sua frenética repetição.

- É o problema do uso indiscriminado, sem caráter de duração.
O lexicógrafo Francisco Borba diz que, com o movimento contrário à aceitação da endorreia, ela talvez não penetre na língua escrita.

- No jornalismo, esse tipo de construção chama atenção mais como gozação do que por deslize.
Mesmo em vestibulares e concursos, no entanto, há construções reduzidas de gerúndio. Como quem escreve redações intui que deve adotar um registro culto, tende a adotar estratégia sintática que supõe culta. Não é incomum ver, por exemplo, um “Observando as ações do governo” sem a conjunção (Se nós observarmos).

É cedo para garantir que não haverá neutralização da distinção semântica que define o gerundismo como inadequado. Mas há domínios em que até ele é legítimo. O desafio, então, é familiarizar as pessoas com o registro adequado ao grau de formalidade exigido em cada situação. Pois, no fundo, o gerúndio talvez seja mesmo um retrato, não do brasileiro, mas de sua versatilidade comunicativa.

.

O gerundismo do bem
A adoção do gerúndio em perífrases (como “vou estar lendo”) é válida quando:

- Se quer mostrar um futuro em relação a outro futuro: “Amanhã não posso viajar porque vou estar carimbando documentos” significa que vou passar o dia a carimbar.

Em “Hoje à noite, vou estar vendo a novela enquanto você vê o futebol”, a frase mostra situações diferentes feitas simultaneamente e admitem locução com gerúndio. Em “quando você chegar, eu vou estar dormindo”, a ação de “dormir” é contínua e simultânea. O uso está inserido no sistema da língua. É legítimo.

- O verbo implicar duração ou admitir repetição: “Vou estar fechando o balanço da empresa” está no vernáculo, mas “vou estar enviando seu documento” é estranho. É um documento só e a ação é relativamente rápida ou instantânea. Mas em “amanhã, vou estar apertando parafusos o dia todo”, a sentença descreve ação contínua.

.

Usos do gerúndio
Em sua forma simples, o gerúndio expressa uma ação em curso, que pode ser simultânea à do verbo da oração principal ou anterior/posterior a ela.

“Estou desistindo” diz que está em curso um processo de desistência. Anuncia um evento que durará algum tempo para ser concretizado.

Em formas compostas, com dois verbos, o gerúndio pontua uma ação duradoura quando acompanhado do infinitivo de verbos auxiliares (estar, andar, ir e vir) e indica ação concluída antes da expressa pelo verbo da oração principal.

“Tendo concluído a prova, ele a entregou ao professor”. A ação concluída antecipa a entrega da prova.

“Ele está falando alto demais”. A forma dada ao verbo “falar” indica a ação como presente e com tendência continuativa.

“Ele anda acordando sem ânimo”. A ênfase da ação duradoura é na intensidade ou na insistência de um acontecimento.

“A cada dia, mais fiéis vão rezando pela saúde do papa”. O verbo “ir” assinala uma ação progressiva em direção a um aqui e agora.

Revista Língua

Leia também:
Gerundismo? Nonada!